Precariedade, Anarquismo e o Movimento de Ocupações Urbanas no Rio de Janeiro, Brasil

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)


GLOBALIZAÇÃO DA POBREZA E PRECARIEDADE NO BRASIL

A queda do Muro de Berlim e o desmantelamento da URSS – decretando formalmente o fim do mundo socialista –, juntamente com o estímulo anterior das políticas neoliberais propagadas pelos governos Tatcher e Regan, fizeram emergir uma nova ordem mundial, conhecida como “globalização econômica”: um processo de liberalização e desregulamentação de mercados com o interesse de produzir livre fluxo de produtos, capitais e serviços em âmbito global. É essa globalização que tem sido endossada e encorajada pelas instituições internacionais multilaterais, junto com grandes empresas – geralmente multinacionais –, com os governos dos países mais ricos do mundo e grande parte da imprensa mundial.

Neste processo, uma prática comum das grandes empresas é buscarem instalar-se em países de terceiro mundo, com o intuito de baixar os custos de produção – já que a mão de obra é muito mais abundante e recebe salários muito menores – e poupar-se de problemas oriundos da organização dos trabalhadores e dos direitos trabalhistas. O jogo de ameaças de mudança por parte das empresas, somado ao medo do desemprego e ao grande número de desempregados ávidos por uma oportunidade, faz com que o nível de salários e benefícios seja cada vez menor entre os trabalhadores. Há uma piora generalizada nas condições. Da mesma forma, os governos são pressionados a abrirem mão de direitos trabalhistas, conquistados depois de muita luta pelo povo, como foi o caso do Brasil, quando Getúlio deu conta das demandas que vinham sendo feitas pelo movimento operário – com grande influência anarquista – ainda no início do século XX.

Para entendermos o papel da globalização no Brasil, podemos observar o exemplo do NAFTA e dos resultados posteriores nos países que outrora fizeram parte deste acordo. Nos três países – México, EUA e Canadá – houve perda para os pobres: queda nos salários, demissão de trabalhadores organizados, aumento do número de pobres nos países, aumento do número médio de horas trabalhadas, aumento de empregos precários sem registro e sem qualquer controle de condições de trabalho, das férias e das horas trabalhadas. Ao mesmo tempo, o resultado para as grandes empresas foi maravilhoso: puderam economizar com mão-de-obra, gozar das vantagens comparativas dos países envolvidos, desprender-se da legislação trabalhista, conter custos, aumentar a produtividade e consequentemente maximizar os lucros.

A forma que o Brasil busca integrar-se ao comércio mundial é simples e muito semelhante à estratégia do México ao ingressar no NAFTA com a diferença de que, na América do Sul, o Brasil exerce um papel de micro-império. Da mesma maneira que serve como alternativa para baixar os custos das empresas que estão em países mais “desenvolvidos”, por ser um país “em desenvolvimento” (leia: pobre, com mão-de-obra barata, isenções de impostos por parte do governo, que não tem fiscalização suficiente com relação aos abusos trabalhistas e com fraca organização sindical) aproveita-se de países que estão em piores condições. Faz isso por meio das mesmas ameaças a seus trabalhadores pela mudança destas empresas para esses países ainda mais pobres e impõe contratos sem qualquer contrapartida a eles, tratando-os com completo descaso.

Preocupante o fato de, no Brasil, o discurso para saída desta crise, adotado pelo governo FHC e mais recentemente pelo governo Lula, seja a defesa desta nova globalização com suas práticas de defesa do livre comércio, do crescimento do país, das metas de superávit primário, do controle inflacionário, da crítica aos direitos trabalhistas, etc. Assim, atualmente, o Capital é reproduzido.

O velho e conhecido capitalismo está sendo modificado, mas suas raízes continuam exatamente as mesmas, estimulando o individualismo predador, a competição e a busca do lucro a qualquer custo. Esse mesmo capitalismo que escraviza o povo e que cria um abismo entre aqueles que tudo possuem – e que gozam dos frutos do trabalho alheio – e os que nada possuem – aqueles que não têm minimamente o que comer, que estão desempregados e à margem da sociedade. Uma sociedade em que poucos têm muito e muitos não têm absolutamente nada. Uma sociedade que cria a cada dia mais escravos. Como reiterou o russo Mikhail Bakunin “A pobreza é a escravidão”. Dizia ele que “um homem que morre de inanição, que se encontra esmagado pela miséria, que se acaba, a cada dia, de frio e de fome, e que, vendo sofrer todos aqueles a quem ama, não pode socorrê-los, não é um homem livre, é um escravo.”

Vale destacar que essa escravidão – entendida como a exploração e a opressão – não tem pátria. Ela está em toda parte: África, América, Europa, Ásia… Os escravos são todos aqueles desempregados, aqueles que morrem de fome, que passam frio, que não conseguem atendimento nas filas de hospitais públicos, aqueles que não possuem acesso à educação, que morrem pela precariedade dos trabalhos que realizam, que não se mantêm minimamente em termos materiais e que, consequentemente, estão mortos intelectualmente. São todas as vítimas do capitalismo globalizado contemporâneo.

Alguns dados estatísticos do Brasil:

  • Mais de 25% das famílias vivendo abaixo da linha de pobreza. (IBGE, 1996).
  • Mais de 15% das crianças são desnutridas. (PSN, 1989).
  • Mais de 13% de analfabetos e 26% de analfabetos funcionais. (IBGE, 2000-2002).
  • 14 milhões passaram fome em 2004. (IBGE, 2006).
  • 8º país em desigualdade social no mundo. (Gini, 2003).
  • 47% da renda do país estão na mão dos 10% mais ricos. Os 10% mais pobres detêm apenas 0,7% da renda brasileira. (Gini, 2003).
  • 33% da população não têm acesso regular a serviços de saúde. (IBGE, 1998).

ANARQUISMO NO RIO DE JANEIRO E CONSTITUIÇÃO DA FARJ

As raízes da Federação Anarquista do Rio de Janeiro lançam-se profundamente no solo das lutas do nosso povo, neste canto da América Latina. Muitas vezes, em esforços aparentemente infrutíferos e regando a terra seca com suor e sangue que pareceram perdidos, para colhermos hoje o que trabalharemos para transformar em pão. Outras vezes, pequenas e grandes vitórias que lembraremos sempre e com alegria, dando-nos força para prosseguir a luta atual.

A nossa história remonta às grandes lutas das primeiras décadas do século passado: a organização dos primeiros sindicatos e federações; as lutas pelas 8 horas e contra a carestia; a greve de 1917; a Insurreição Anarquista de 1918 e os congressos operários.

Lembramos ainda, que há exatas 8 décadas, em agosto de 1923, o operariado organizado do Rio de Janeiro refundava sua Federação local. O país estava em estado de sítio, a perseguição policial acirrada, as deportações freqüentes e, para completar o cenário desfavorável, os bolchevistas locais unidos aos pelegos cooperativistas agindo contra os principais militantes e sindicatos libertários. Mas nada disso impediu o crescimento da Federação Operária do Rio de Janeiro (FORJ) nos meses seguintes. A dedicação, o afinco e o compromisso com a luta destes companheiros e companheiras superou os obstáculos e calou aqueles que diziam que o anarquismo estava superado como forma de luta. Apenas a repressão feroz que se seguiu a revolta militar de 5 de julho de 1924, quando todos os sindicatos foram fechados e os principais militantes presos ou deportados, interrompeu esse afã organizativo. A fundação da FARJ homenageou esses companheiros e companheiras, e buscou em seus passos inspiração e forças para construir a nossa organização.

 

Relembramos também a luta dos anarquistas contra o fascismo dos “galinhas verdes” nos anos 30. Perdidos os sindicatos após o Estado Novo, a resistência mantida nas páginas do jornal Ação Direta e no Centro de Estudos Prof. José Oiticica (CEPJO), fundado em março de 1958. Mesmo após o golpe militar de 64, o CEPJO permaneceu aberto até ser assaltado pela Aeronáutica em outubro de 1969. Muitos de seus membros foram presos e alguns jovens companheiros e companheiras do Movimento Estudantil Libertário (MEL) sofreram torturas nos porões da ditadura.

Nos anos 70, auge da ditadura, contra todas as expectativas, negando o cinismo que afirma a inexistência do anarquismo no Brasil de então, o “nosso velho” Ideal Peres, junto com sua companheira Esther Redes, criaram um grupo de estudos do anarquismo em sua própria casa, recebendo jovens e velhos militantes. Em 1985, surgiu o Círculo de Estudos Libertários (CEL), berço de vários grupos, como o Grupo Anarquista José Oiticica (GAJO) e o Grupo Anarquista Ação Direta (GAAD), cujas experiências e militância geraram o acúmulo necessário para várias realizações, tanto publicações como a revista Utopia, o informativo Libera…Amore Mio e o jornal O Mutirão, quanto as primeiras experiências de inserção social, nos movimentos de ocupação e sindical, e em manifestações e enfrentamentos de rua.

Na virada de 92 para 93, os anarquistas estavam na linha de frente, na organização e no apoio à ocupação do Edifício Sede da Petrobrás por companheiros e companheiras petroleiros demitidos, luta esta que continua até hoje.

Em 1995, iniciam-se as primeiras experiências de organização da luta dos trabalhadores rurais e urbanos pelo direito à terra e ao trabalho digno. A partir deste ano, várias ocupações aconteceram, na cidade e no campo. Algumas permanecem até hoje, como verdadeiros bairros, com mais de 5.000 moradores, que ainda lembram suas origens, ou como assentamentos rurais que são exemplo e referência pelo trabalho dos próprios assentados, no movimento de luta pela terra no Rio de Janeiro. Desta experiência de inserção, chegamos a ter companheiros anarquistas na direção nacional de entidades como o Movimento Nacional de Luta por Moradia (MNLM), e a Central de Movimentos Populares (CMP), e o mais importante, com apoio e delegação das comunidades de base.

Logo no início destas experiências, surgiu a necessidade de uma organização específica de anarquistas, trazendo e atualizando a ideologia para as novas realidades da luta. O Grupo Mutirão participa da criação da “Construção Anarquista Brasileira”, que visava coordenar os trabalhos de inserção desenvolvidos por grupos anarquistas em diversas partes do país.

Fomos pioneiros, também, nos contatos com a Federação Anarquista Uruguaia (FAU), na introdução da proposta de organização específica/anarquista no Brasil, que culminou da fundação da Organização Socialista Libertária (OSL), experiência que, entre acertos e erros, tornou-se um marco na história do anarquismo organizado no país, demonstrando que é possível a coordenação de esforços para alcançarmos uma Confederação Anarquista Brasileira.

A Federação Anarquista do Rio de Janeiro é fruto de toda essa luta, e seu futuro, já presente.


TRABALHO SOCIAL E MOVIMENTO DE OCUPAÇÕES

Reconhecemos que os momentos de reflexão, produção intelectual e de sociabilidade com as pessoas que têm alguma afinidade ideológica conosco são importantíssimos para o desenvolvimento do anarquismo. Consideramos também que isso é fundamental para a formação política que acontece entre os membros de nossa organização ou mesmo de fora dela, para compreendermos o contexto em que estamos inseridos e termos clareza de onde queremos chegar e por que meios pretendemos caminhar. Como conseqüências positivas desses momentos, acrescentamos, além disso, o estabelecimento de laços de fraternidade com companheiros e companheiras, que acabam por propagar os ideais pelos quais lutamos e aproximar pessoas às lutas que estão sendo desenvolvidas no seio de nossa organização.

No entanto, os pequenos círculos e os infindáveis debates sem desdobramentos práticos não nos bastam, pois acreditamos ser necessário partir para a prática real de transformação social. Acreditamos que há mais de um século, grande parte das respostas para a problemática social que hoje assola o mundo foi dada. Muito se discutiu em torno das conseqüências nefastas da economia capitalista, hoje ainda agravadas por sua concepção neoliberal: miséria, desigualdade social, níveis baixíssimos de educação e saúde. Muito também se discutiu em torno do papel alienador e opressor do Estado e de todas as suas instituições. Nossa posição é que a bandeira negra do anarquismo tem muitas respostas teóricas e experiências práticas que podem auxiliar o trabalho social e fazer com que ele constitua-se como uma ferramenta concreta e contemporânea nas lutas contra a exploração e a alienação.

Para isso, é necessário extrapolar as questões teóricas e concretizar as nossas demandas de transformação social, buscando inspiração e saber nas lutas passadas. Se a teoria não ganha corpo na luta social, a chance de exercermos alguma influência política, econômica ou social não existe. Se não buscamos a associação e a organização bem articuladas, acabamos por não conseguir exercer qualquer influência nas lutas e consequentemente na sociedade de hoje.

Acreditamos que é dentre as maiores vítimas do capitalismo – pessoas que têm necessidades reais e que sofrem de maneira mais dura suas conseqüências – que o anarquismo tem campo para florescer e para prosperar. Por isso afirmamos a necessidade do trabalho social, desenvolvido pelos anarquistas de maneira organizada, criando uma alternativa real de combate à ordem estabelecida, oferecendo possibilidades concretas de melhoria nas condições de vida de trabalhadores (empregados e desempregados), potencializando o ideal revolucionário e pavimentando o caminho rumo aos nossos objetivos de longo prazo.

Para nós, se o anarquismo pretende constituir minimamente uma força social considerável, que possua espaço na sociedade, ele deve sair dos guetos, ampliar seus horizontes, interagir ativamente em meio à sociedade, atuar dentro dos movimentos sociais e das lutas mais diversas, em busca de seu devido espaço.

É dessa maneira que, com muita humildade, temos tentado desenvolver os nossos trabalhos, dentro daquilo que entendemos como anarquismo social:


“O anarquismo social, muito diferente deste anarquismo de comportamento ou de estilo de vida que estamos acostumados a ver, preconiza um retorno organizado às lutas populares, estimulando a presença anarquista junto aos oprimidos, na busca pela emancipação econômica e pela liberdade. O anarquismo social, neste sentido, não deve ser entendido como algo novo, inovador. Apesar de o anarquismo ter perdido, com o tempo, este viés social, este anarquismo busca o retorno dos anarquistas a uma atuação social mais profunda e comprometida junto aos trabalhadores e, principalmente, aos marginalizados da sociedade, como os sem-teto, os sem-terra, os indígenas, etc. É na atuação social que as contradições do capitalismo são mais explícitas.”

 

FIST E OCUPAÇÕES URBANAS

A FARJ tem como braços de atuação fundamentais duas frentes: a frente comunitária e a frente de ocupações. A frente de ocupações está organizada em torno da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST). Demos início aos nossos trabalhos com as ocupações há três anos atrás, a partir de uma demanda palpável da população carioca, por razão de toda a falta de espaço que é ocasionada pelo livre trânsito do capital, que “limpa o centro” e que joga os pobres cada vez mais para a periferia. Pobres que são então obrigados a amontoar-se nos morros, nos subúrbios ou a quilômetros de distância de seus locais de trabalho (quando existe algum trabalho para eles). Dessa forma, identificamos que este poderia ser um terreno fértil para as idéias do anarquismo.

Sabemos, no entanto, que políticos aproveitadores, partidos corruptos, aparelhistas de toda sorte, ONGs assistencialistas, instituições religiosas e o próprio tráfico de drogas constituem obstáculos para a radicalização do movimento social e da semeação das idéias libertárias. Foi nadando contra toda essa lógica, que corrompe muitas vezes o movimento social, que iniciamos nosso trabalho e acreditamos, após um significativo período de luta, que os resultados são bastante positivos.

A constituição da FIST deu-se a partir do trabalho que já era realizado por nós em quatro ocupações: Olga Benário, Vila da Conquista, Poeta Xynayba (recentemente desocupada) e Nelson Faria Marinho. A FARJ teve importante participação na constituição da FIST, estabelecendo juntamente com seus outros membros, princípios éticos e morais mínimos para a convivência, articulação política e organização das lutas do movimento de ocupações do Rio de Janeiro. Além disso, o respaldo jurídico às ocupações também acabou constituindo um de seus fortes pilares.

Dentro da FIST, a FARJ trabalha para organizar-se com outras pessoas de ideologias diferentes (basicamente comunistas apartidários) e representantes de cada uma das ocupações. Há militantes da FARJ residentes em ocupações. Tanto esses militantes, quando os outros da frente de ocupações, revezam-se entre a participação nas assembléias de cada uma das ocupações e da FIST.

O trabalho que desenvolvemos na FIST e nas ocupações gira em torno da formação política, da organização de atividades pedagógicas e educativas, e também do auxílio freqüente nas questões que surgem no dia-a-dia. Além disso, estimulamos permanentemente a participação de todas as ocupações no fórum geral de articulação, que é a FIST. Também nesta instância se dá o nosso trabalho de propaganda do modelo de organização libertário, estimulando as práticas de autogestão, federalismo, apoio mútuo e ação direta, com o objetivo de que elas aconteçam na prática o máximo possível.

Muitas vezes há um trabalho de aparar arestas de autoritarismo que surgem nos grupos ou nos representantes que atuam na FIST, que encaram a representação como um posto de autoridade, ou que assumem valores do sistema vigente. Como uma prática comum do federalismo em que cremos, estimulamos que cada uma dessas ocupações tenha representantes na FIST. Estes representantes – delegados de cada uma das ocupações – discutem com os outros delegados a articulação das lutas e assim, não é necessária a participação neste fórum de todos os membros de todas as ocupações, o que seria um completo descabimento. Além disso, a FARJ faz questão de estimular a tomada de decisões coletiva, mostrando na prática como funcionam os conceitos de horizontalidade e democracia direta. Acreditamos ser essa uma forma de tirar o autoritarismo da cabeça e da vida das pessoas; dando o exemplo da solidariedade de classe, trazendo conceitos libertários para o trabalho prático do dia-a-dia, incentivando e encorajando os outros militantes.

Princípios da autogestão e da ação direta são também utilizados na solução dos problemas particulares, que frequentemente acontecem. Neste processo de solução dos problemas, incentivamos o gerenciamento dos conflitos sem que ocorra a dominação de uma pessoa ou grupo por outros, o poder de voz igualitário, as discussões em meio às assembléias e as tomadas de decisões coletivas, comprovando-se assim que este é um método de organização e de solução de conflitos muito mais efetivo, solidário e democrático do que aqueles que buscam a confiança em terceiros, como em governantes, policiais ou mesmo na Justiça.

O crescimento da FIST acontece como resultado de um processo bastante fundamentado que busca, desde um primeiro momento, conversar diretamente com os representantes da comissão de moradores das ocupações e, estreitando os laços, mostrar os exemplos das conquistas e das vantagens da articulação política em torno desta frente. O objetivo é tentar trazer essas pessoas para as reuniões, fazendo com que as ocupações saiam da política estritamente local e da comunidade, e passem a trabalhar articuladas com as outras ocupações, com práticas de solidariedade e apoio mútuo, potencializando os resultados da mobilização e da luta.

Muito importante também é o estreitamento de laços que estimulamos das ocupações com outros militantes ou pessoas simpáticas aos projetos que estão sendo desenvolvidos. Acreditamos que essas outras pessoas, que têm afinidade com as idéias libertárias, quando em contato com as ocupações, têm espaço para desenvolver atividades com as quais mantém algum tipo de afinidade (trabalhos culturais, projetos de alfabetização e hortas comunitárias, por exemplo) e dessa forma engajar-se de maneira mais séria nas lutas.

Há um importante esforço de se acabar com o conceito de invasão e de se trabalhar o conceito de ocupação, que traz em seu bojo a concepção de posse. A posse estimula a não comercialização e a não obtenção de lucro sobre a propriedade, estimula a propriedade coletiva que é utilizada por quem tem necessidade. É importante que não se transforme a moradia em um local comercial, e que se discuta de maneira clara, o que é de uso privado (de cada um) e o que é público (de todos). Aquilo que está interno às residências como, por exemplo, os bens e a mobília, é inicialmente privado. O espaço externo e os centros comunitários, por exemplo, são espaços públicos.

Similar ao que acontece no campo, quando os movimentos de sem-terra ocupam propriedades improdutivas, realçamos na área urbana a idéia de reapropriação dos espaços abandonados. É assim que buscamos dar uma função social para os espaços vazios, transformando-os em moradia para os sem-teto cariocas.


NOSSA CONCEPÇÃO DE SINDICALISMO

É ilusório acreditar que o sindicalismo, por si só, possa nos conduzir a mudanças sociais profundas.

A atual sociedade é constituída de uma maneira perversa que, muitas vezes, faz com que os interesses imediatos de cada categoria trabalhadora sejam opostos. Isso faz com que, em geral, os sindicatos se tornem corporativistas e até mesmo mantenedores do modo de produção capitalista. Afinal, eles se estruturam segundo a organização do trabalho na sociedade atual, organização esta ditada pelo capitalismo. Portanto a nova sociedade não pode ser sedimentada a partir dos sindicatos, mas sim a pela dissolução do modo de produção capitalista e pela criação de novas organizações que correspondam a uma outra realidade, libertária e igualitária.

No Brasil, a ação sindical se tornou mais problemática a partir do governo de Getúlio Vargas. Este ditador fechou sindicatos livres e impôs uma organização trabalhista autoritária, copiada da legislação fascista de Benito Mussolini. Determinou para os sindicatos uma filiação compulsória aos órgãos do Estado, roubando-lhes dessa forma certa independência e muito do caráter revolucionário que haviam adquirido durante os primeiros anos do século XX, quando ainda da vigência do “sindicalismo revolucionário” de orientação marcadamente anarquista.

Mas o fato é que os sindicatos têm valor e importância para nós. Na atuação sindical podemos obter melhorias mais imediatas que também são necessárias. Além disso, através dos sindicatos travamos contato com outros trabalhadores e trabalhadoras que, longe de aceitar passivamente o que lhes é “dado” pelos patrões ou o Estado, exigem, aqui e agora, melhores condições de vida e aprendem o valor da organização. Não deixa de ser ainda, em quem pese o grau avançado de burocratização, o sindicato uma escola de formação de indivíduos dispostos a reconhecer na classe uma alternativa de aglutinação para a luta. E mesmo é dentro dele que, de posse da perspectiva de suas limitações, o militante pode mobilizar recursos e estrutura para o apoio necessário aos movimentos sociais que, uma vez assumindo o caráter insurgente, não dispõem dos mínimos recursos materiais para a manutenção da ação contra o sistema.

Assim, a partir da premissa de que o anarquismo deve estar onde estão os trabalhadores; este não pode encapsular-se em elucubrações teóricas e dedicar-se a projetos de sociedade futura que nunca saem do papel. Temos que estar junto a nossa classe, levando nossa mensagem, prática e ética libertária. Situação que, por mais limitada que possa parecer, é imensamente mais avançada para o acúmulo de experiências dos militantes que o isolamento em grupos de discussão pretensamente superiores à realidade que os cerca.

É fato que, hoje, como tática, devemos dar maior ênfase ao estabelecimento de novas formas de organização (não-hierárquica) em trabalhos comunitários e – sobretudo – em ocupações urbanas e rurais, combatendo o latifúndio e a especulação imobiliária. Pois estes movimentos questionam a propriedade, um dos pilares do capitalismo, passando assim, para nós anarquistas, a representarem também um elemento estratégico. Uma vez que no apoio dado às ocupações encontramos a possibilidade de uma ação concreta nos meios sociais, o que nos auxilia na construção de uma alternativa mais clara de inserção, vemos também dentro dessa articulação a clara possibilidade da definição dos objetivos a serem alcançados, não apenas devolvendo ao anarquismo seu caráter constitutivo de classe, mas também orientando a nossa prática para uma direção mais conseqüente e amparada pelos tradicionais princípios revolucionários.

Dessa forma torna-se importante mantermos uma proximidade com sindicatos, inclusive levando até eles informes de nossa atuação e reivindicando apoio para a manutenção e ampliação de projetos como estes. A Biblioteca Social Fábio Luz, o Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro como um todo, as ocupações urbanas e as diversas outras iniciativas impulsionadas por anarquistas não devem prescindir da ajuda de órgãos que congregam trabalhadores e estão organizados, assim como quaisquer demais ações que apontem para o estabelecimento, desde já, de uma sociedade livre e solidária. Se por um lado, as associações de classe foram submetidas a um processo histórico de burocratização e perderam muito de seu conteúdo revolucionário; por outro, percebendo nos demais movimentos sociais algum vigor para a luta, torna-se fundamental que contribuam com o que for possível para os ganhos coletivos proporcionados pela sociedade socialista que se faz necessário construir.


PERSPECTIVAS

A legitimidade que tem sido conquistada pela atuação da FARJ, mais o comprometimento e a ética adotados na prática, têm constituído elementos facilitadores para os trabalho desenvolvidos por nossa organização.

É assim que julgamos estar dando continuidade ao processo de inserção do anarquismo nos processos de luta contemporâneos, processo iniciado pelas lutas que falamos anteriormente. É assim que buscamos sair dos pequenos círculos e ampliar o escopo do anarquismo social, utilizando-o com uma ferramenta fundamental de suporte às lutas cotidianas. Por sinal, é na luta que vemos muitas das diferenças desaparecerem. É na luta que aprendemos, junto com outros explorados, as lições de solidariedade e da autogestão. É exatamente quando as pessoas são estimuladas a desenvolver completamente seu potencial e sentem-se envolvidas na luta – e não são meramente utilizadas como uma massa de manobra – que vemos aflorarem os princípios libertários.

Neste processo de lutas existe uma série de contratempos que a própria organização busca superar para, com isso, prosseguir caminhando. Como qualquer trabalho com os movimentos sociais, as dificuldades são muitas: no caso específico das ocupações, com o tráfico de drogas, a violência, as instituições religiosas, a polícia, a ideologia capitalista que está dentro do imaginário popular, dentre outras. Temos convicção de que a militância que pretende obter ganhos sociais terá de lidar com esses e outros problemas. Por isso, buscamos entender esses problemas como momentos de aprendizado e de acúmulo para a organização, estando certos que isso só se resolverá com muita persistência e acúmulo desse aprendizado.

A horizontalidade é um norte que direciona nossas ações e que se estabelece como nosso objetivo último, mas, como todos que estão na luta sabem, essa busca da autogestão é incessante e quanto maior o trabalho desenvolvido, maior a necessidade de trabalho. É uma busca interminável que só se consegue superar com grande comprometimento e dedicação, elementos que com muita humildade, temos tentado trazer à militância anarquista. “Porque a noite escura passará, e nós trabalharemos para ver o amanhecer.”


Ética! Compromisso! Liberdade!

 
 *     *     *

* Artigo preparado para a palestra a ser realizada por Rafael Viana em encontro na França, abril de 2007. Discussão sobre “precariedade”.

 

 

Be the first to start a conversation

Deixar um Comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: