Fundação e Organização

1. Constituição, Fundação e Princípios da FARJ

Em 2002, no âmbito da BSFL, iniciou-se um ciclo de debates, com objetivo de formar os militantes anarquistas cariocas e, a partir de uma reflexão sobre textos clássicos do anarquismo e dos modelos de organizações anarquistas, pensar a possibilidade de constituir uma federação anarquista. Esse ciclo aconteceu por um ano; discutiram-se textos clássicos de Bakunin, Malatesta, Fabbri, documentos como a Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários, e os modelos organizacionais especifista (a partir do modelo da Federação Anarquista Uruguaia – FAU) e sintetista (a partir do modelo da Federação Anarquista da França – FA). O grupo que permaneceu até o fim das discussões do ciclo de debates foi aquele que fundou a FARJ.

Nesse meio tempo, em 20 e 21 de agosto de 2003, realizou-se o 1º Simpósio de História do Anarquismo no Brasil, organizado pelo Grupo de Estudos do Anarquismo (GEA), que compunha o Núcleo de Estudos Contemporâneos (NEC) da Universidade Federal Fluminense (UFF). O Simpósio foi realizado com alguns temas apresentados e discutidos pelos participantes: “Anarquismo: utopismos, subjetividades e radicalidades”, “Anarquia é Ordem”, “Pensamento Anarquista Clássico e a Cultura Militante”, “Sindicalismo e Anarquismo” e “A Cartografia do Anarquismo no Brasil: Educação, Artes e Participação Política”.

Logo em seguida, fundamos a FARJ em 30 de agosto de 2003, logo após o Simpósio, publicando um Manifesto de Fundação no qual que enfatizávamos que estávamos levantando “a nossa já antiga, e sempre renovada, bandeira do anarquismo organizado”. Afirmando que “as coisas não precisam ser como são”, continuávamos: “nesta convicção, colocamos toda a nossa vontade de transformação, e dela vem nossa força que quer ver este mundo velho balançar, e desaparecer. Porque a noite escura passará, e nós trabalharemos para ver o amanhecer.” No Manifesto, reivindicamos nossa história a partir das grandes lutas que tiveram lugar no Rio de Janeiro no início do século XX: a organização dos primeiros sindicatos e federações operárias, as lutas pelas oito horas diárias de trabalho, as lutas contra a carestia, a Greve de 1917 e a Insurreição Anarquista de 1918, além dos congressos operários.

Publicamos também uma Carta de Princípios, que terminou por resumir, em linhas gerais, as conclusões do processo de fundação, marcando a forma de organização escolhida pelos militantes.

Em primeiro lugar, reivindicamos o princípio da liberdade, afirmando que “a luta pela liberdade antecede a anarquia”. Assim como pensava Bakunin, sustentamos que “a liberdade individual […] só pode encontrar sua expressão maior na liberdade coletiva”, rechaçando, portanto, as propostas do anarco-individualismo. A busca desta nova organização seria, como sustenta nossa Carta de Princípios, a incessante luta pela liberdade. Como herança de um passado que sempre valorizou a ética, ressaltamos nos pautar pelos princípios da ética anarquista, que para nós é um “compromisso militante inegociável”. Por meio da ética, apostamos na coerência entre meios e fins e no respeito mútuo.

O federalismo e a autogestão são reivindicados como princípios de organização não-hierárquica e descentralizada e são sustentados pelo apoio mútuo e pela livre associação, assumindo a premissa da Primeira Internacional, de que todos têm direitos e deveres. Além disso, esses princípios norteiam a gestão econômica e social da sociedade futura em todos os níveis; a gestão do trabalho realizada pelos próprios trabalhadores. Enfatizando a necessidade de as lutas serem autogeridas, afirmamos que “ainda que convivendo com o ultrapassado sistema atual, [a autogestão] potencializa as transformações que apontam para uma sociedade igualitária”.

Ao reivindicar o internacionalismo, enfatizamos o caráter internacional das lutas e que a associação deve se dar no âmbito da classe e não das nacionalidades. Um explorado de um país deve ver em um explorado de outro um companheiro de luta, e não um inimigo. O internacionalismo opõe-se ao nacionalismo e à exaltação do Estado, já que isso constitui na cabeça do povo um sentimento de superioridade sobre os demais países e povos, e reforça o etnocentrismo e o preconceito, sendo esse o primeiro passo para a xenofobia. “Todas as pessoas, independente de sua nacionalidade, são iguais e devem ser livres”.

A ação direta é colocada como um princípio pautado na horizontalidade e que estimula o protagonismo dos trabalhadores, opondo-se à democracia representativa, e tomando a frente em suas mobilizações. A ação direta coloca o povo à frente de suas próprias decisões e ações, “ligando trabalhadores e oprimidos ao centro da ação política”.

Além disso, escolhemos nos pautar como uma organização classista; uma organização de trabalhadores que defendem os explorados e que combatem para a extinção da sociedade de classes. Isso, com vistas a uma sociedade em que não mais existam senhores e escravos, e por isso nossa prioridade à luta de classes. Para nós, há uma necessidade central de se combater de frente os males do capitalismo, e a luta ao lado dos explorados, onde as conseqüências desse capitalismo tornam-se mais claras, é imprescindível. Afirmamos a necessidade da revolução social, que, feita de baixo para cima pelo povo, construirá as bases do “novo mundo”.

Os princípios de prática política e inserção social reforçam a idéia de que é no meio do povo explorado que o anarquismo tem condições de florescer. É assim que os militantes devem buscar relacionar-se com todas as manifestações das lutas populares, independente de onde elas estejam acontecendo. Afirmamos que qualquer manifestação, “nos campos social, cultural, do campesinato, sindical, estudantil, comunitário, ecológico, etc., desde que inserida no contexto das lutas pela liberdade”, contempla estes dois princípios.

Como último princípio colocado na carta, o apoio mútuo incentiva a solidariedade nas lutas, estimulando a manutenção de relações fraternas com todos os que trabalham verdadeiramente por um mundo justo e igualitário. Ele incentiva a solidariedade efetiva entre explorados e oprimidos.

Fizemos opção pela organização no modelo especifista, agregando referências teóricas que julgamos ser mais conseqüentes e aplicáveis no cotidiano, a partir das correntes mutualista, coletivista e anarco-comunista. Fizemos opção por ser uma organização de minoria ativa e decidimos buscar “sempre apoiar a formação e o desenvolvimento de outras organizações autogestionárias, participando combativamente no dia-a-dia de lutas dos movimentos populares em atividade”, isso localmente, ou mesmo internacionalmente. Enfim, nossa idéia é buscar desenvolver o anarquismo como ferramenta de luta:

“O Anarquismo é uma ideologia política de transformação social, que se expressa através de um modo antiautoritário de reflexão, de interpretação e de intervenção sobre a realidade. Constitui uma teoria revolucionária que luta contra todas as formas de exploração e opressão. Tem a sua origem histórica nas lutas da classe trabalhadora ao longo de quase dois séculos. Comprometida com estes princípios, que a fazem continuadora da corrente organicista do Anarquismo, a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) propõe-se a trabalhar – desde já e sem intermediações – no sentido de interferir nas diversas realidades que compõem o universo dos movimentos sociais.”

Assim fundamos a FARJ. Definimos, ainda, que, como uma organização especifista, ela seria organizada em frentes. Hoje, por exemplo, todo o trabalho da FARJ está organizado dentro de três frentes: a frente de movimentos sociais urbanos, a frente comunitária e a frente agroecológica (Anarquismo e Natureza).

2. Retomar o Vetor Social do Anarquismo

Para a FARJ, o anarquismo, desde seu surgimento até hoje, nunca deixou de ser importante em sua crítica ao capitalismo e ao Estado. No entanto, acreditamos ser importante discutir por que, a partir da década de 1930, o anarquismo deixou de ter a visibilidade social que vinha tendo até então. Ao que nos parece, o anarquismo não desaparece como proposta ideológica, contundente e consistente, mas perde o vetor social, que naquele momento era representado pelo sindicalismo. Segundo nosso companheiro Alexandre Samis, em “Pavilhão Negro sobre Pátria Oliva”:

“Foi, sem sombra de dúvidas, o sindicalismo revolucionário o responsável pelo primeiro vetor social conseguido pelos anarquistas nos grandes centros brasileiros. Como queria Malatesta, os anarquistas deveriam entrar em todos os campos que suscitassem as contradições do capitalismo, e lá fazer com que funcionassem da forma ‘mais libertária possível’. No meio sindical a orientação não era diferente.”

Alguns fatores, tais como o atrelamento dos sindicatos ao Estado, a repressão e a ofensiva bolchevique contribuiriam para essa perda do vetor social do anarquismo no Brasil, constituído nesta época principalmente pelo sindicalismo, ocasionando a tal perda de visibilidade do anarquismo. Com isso, os anarquistas acabaram se abrigando nas ligas anticlericais, nos centros de cultura, ateneus, escolas, coletivos editoriais e de dramaturgia etc. que eram, e são, propostas interessantes, quando ligadas a um movimento social real, mas que sozinhas não são iniciativas capazes de realizar a propaganda necessária, já que a maior e mais efetiva propaganda, acontece quando ela está respaldada por uma prática social concreta.

Samis continua sua reflexão sobre o assunto, argumentando que: “a crise do sindicalismo revolucionário tiraria dos anarquistas seu vetor social; sem espaços para inserção, […] os libertários passam a se organizar em grupos de cultura e preservação da memória.” E já havia sido constatado, dentro e fora do Brasil, que o vetor social – ou seja, uma presença dos anarquistas nos movimentos populares e na luta de classes – é fundamental para um anarquismo que pretenda apontar para a constituição de uma nova sociedade.

Um exemplo das reflexões em torno deste fenômeno é encontrado em José Oiticica que, ainda na década de 1920, alertava para esse problema, colocado e discutido amplamente pelos anarquistas no início do século, no Congresso Anarquista de Amsterdã, em 1907. Oiticica defende a posição propugnada por Malatesta no Congresso, em oposição à de Monatte; para Malatesta, o sindicalismo não “bastaria a si mesmo”, como defendia Monatte; o sindicalismo seria um ótimo campo para a difusão do anarquismo, um meio, um vetor social que, em bom funcionamento, conduziria ao fim necessário, o que, segundo ele, seria a anarquia.

Ainda em 1923, no Brasil, Oiticica alerta para a falta de trabalho ideológico e a formação de grupos anarquistas específicos, para trabalho dentro dos sindicatos, que seriam capazes de sustentar sua prática revolucionária. Muitos anarquistas haviam entendido que a única atividade do militante anarquista seria a atuação sindical e, se isso reforçava o trabalho imediato do dia-a-dia por um lado, por outro enfraquecia a doutrina e as práticas políticas ideológicas. Oiticica criticava os anarquistas que, naquele momento, davam muita atenção à ação sindical e pouca à atividade ideológica. Refletindo sobre a perda do vetor social do anarquismo e a posição de Oiticica, Samis em “Anarquismo, ‘bolchevismo’ e a crise do sindicalismo revolucionário” afirma: “uma vez perdido o vetor social, e sem organizações específicas capazes de sustentar um embate ideológico de maior duração, não foi possível aos anarquistas encontrarem, de imediato, outro espaço de inserção.” A dedicação praticamente exclusiva ao sindicalismo confundia o meio com o fim, o vetor social com a ideologia.

Em sua crítica, Oiticica tinha razão, pois, uma vez que perdem esse vetor, os anarquistas não mais terão a capacidade de escolher um novo, já que não estavam mais organizados ideologicamente.

Essa argumentação de Oiticica, que tem por base diferenciar os níveis de atuação social e político, havia sido desenvolvida no século XIX por Bakunin. Ele definiu que o ambiente de formação e de união em torno da ideologia, ou seja, o grupo anarquista específico, seria o nível político, representado na época pela Aliança da Democracia Socialista. O nível social, ou o movimento social, seria a movimentação e agitação operária de massa que aconteciam, representadas na época pela Primeira Internacional, ou AIT.

Em cima desta mesma análise, Oiticica, assim como Bakunin, buscou defender uma forma de atuação em que o vetor social não suprimisse a idéia do grupo político, ideologicamente anarquista. Foi, dentre outros fatores, a confusão entre os níveis de atuação que terminou por condenar o anarquismo à perda de seu único vetor social da época, e que nunca mais seria retomado nas mesmas proporções.

A FARJ defende um anarquismo que busque retomar este vetor social perdido, tendo esta busca se tornado uma de nossas principais bandeiras. Observando a história do anarquismo em nosso país, e os problemas descritos por Oiticica, pensamos em uma forma de organização que nos permitisse o retorno organizado à luta de classes e que não nos transformasse em simples militantes do movimento social. Foi desta forma que o modelo especifista foi escolhido, com grande ênfase na questão da ética e da responsabilidade militantes.

3. Anarquismo Especifista, Ética e Responsabilidade

O anarquismo especifista reivindicado por nós, ou simplesmente “especifismo”, é uma concepção de organização anarquista. Trazido do Uruguai, o termo “especifismo” refere-se a dois eixos fundamentais que marcam a atuação anarquista: a organização e a inserção social, baseados em dois conceitos clássicos do anarquismo, que são a atuação diferenciada nos níveis político e social (conceito de Bakunin) e a organização específica anarquista (conceito de Malatesta). Os primeiros a utilizar este termo foram os companheiros da Federação Anarquista Uruguaia (FAU), apesar de se referirem a uma forma de organização que começou a ser desenvolvida no século XIX e que foi aprimorada durante o século XX. Em sua Declaração de Princípios, a FAU relaciona o conceito de especifismo com o anarquismo organizado:

“Nossa crítica e nosso projeto não se esgotam no levante, no protesto e na rebelião, mas amadurecem em um modelo de sociedade libertária inconfundivelmente socialista, em uma estratégia de ruptura revolucionária e em um estilo militante combativo e de agitação permanente em direção às transformações sociais em grande escala. Este projeto canaliza-se por meio da organização revolucionária específica e é, portanto, luta organizada.”

A organização e a inserção social não são defendidas por todas as correntes anarquistas. Sabemos que o anarquismo é bastante amplo e, por isso, abarca diversas concepções, muitas delas contraditórias.

O especifismo defende uma posição clara na polêmica histórica sobre a questão da organização e da prática anarquista, e é por isso que tem como seu primeiro eixo a organização. Em primeiro lugar, defende que os anarquistas devem organizar-se especificamente, como anarquistas, para então trabalhar com os movimentos sociais. Neste modelo organizacional, vale a idéia que, para se atuar com eficiência na luta de classes, é preciso que os anarquistas estejam organizados, no nível político, como um grupo coeso, com discussão política e ideológica avançada, com uma estratégia bem definida, de forma que isso lhes dê força suficiente para atuar no âmbito das lutas, dos movimentos sociais.

Algo semelhante à posição defendida por Oiticica e Malatesta, no contexto citado anteriormente. O grupo específico anarquista, que trabalha no âmbito político, atua no seio da luta de classes, nos movimentos sociais e populares, que constituem o âmbito social. Neste trabalho, os anarquistas, organizados como minoria ativa, influenciam-lhes o quanto podem, fazendo-os funcionar da forma mais libertária possível.

Organizados como um grupo específico coeso, os anarquistas constituirão uma força social muito maior e poderão funcionar como um elemento sólido de influência e persuasão que terá menos chance de ser “atropelado” por um partido de esquerda, por autoritários de qualquer estirpe, pela igreja, polícia e outros indivíduos e grupos que tentam a toda hora usar o movimento social para seu próprio benefício.

O segundo eixo do anarquismo especifista é a inserção social. A idéia de inserção social está ligada àquela busca do vetor social perdido pelo anarquismo, quando este terminou por desligar-se da luta de classes e dos movimentos sociais. Conforme vimos anteriormente, com o episódio do afastamento dos anarquistas do movimento sindical no Brasil, há uma perda desse vetor social do anarquismo que termina por organizar-se em centros de cultura, ateneus, escolas etc.

A inserção social reforça a idéia de que os anarquistas devem buscar, além destes aspectos de reforço da memória e da promoção da cultura libertária, principalmente, ter um papel relevante na luta dos movimentos sociais e populares. Muitos têm um pouco de receio com o termo “inserção social” por associá-lo ao velho “entrismo” da esquerda autoritária em movimentos para tentar aparelhá-los ou fazê-los funcionar em seu próprio benefício. Na realidade isso não é verdade; este conceito de inserção social dos anarquistas está ligado tão-somente, à idéia de retorno organizado dos anarquistas à luta de classes e aos movimentos sociais. Não em um sentido vanguardista de lutar pelo movimento, mas defendendo a minoria ativa que luta com o movimento.

Há algumas outras idéias que caminham junto com os conceitos apresentados acima. Por exemplo, a crítica à falta de organização da maioria dos anarquistas, propondo, para tanto, essa forma de anarquismo organizado, norteado pela concepção de organização específica explicada anteriormente. Há também uma clara oposição ao anarquismo individualista e à exacerbação dos egos, propondo uma forma de anarquismo comunista ou coletivista, que faz da liberdade coletiva seu norte estratégico e que, sem ela, considera impossível a liberdade individual. Essa forma de organização opõe-se ao modelo sintetista, por acreditar que não funciona colocar uma série de indivíduos e organizações sob o “guarda-chuva” anarquismo, simplesmente realçando uma identidade em torno da crítica – pois geralmente só há acordo na crítica do Estado, do capitalismo, da democracia representativa – ou mesmo da sociedade futura; isso porque não há nenhuma unidade em termos organizacionais ou nas questões construtivas.

Ou seja, não há uma posição clara em torno da forma de organização adequada, em torno do “como” atuar. Muitos anarquistas nem mesmo consideram a organização tão necessária e outros a acham até autoritária. No modelo de organização especifista, defende-se a idéia de se trabalhar com unidade tática e teórica, o que facilitará enormemente o trabalho com projetos estratégicos bem definidos e com todos trabalhando no mesmo sentido. Nesta forma de organização, há também um papel preponderante para a questão da responsabilidade e do comprometimento, o que veremos com algum detalhe a seguir.

Juntos com a noção de organização defendida por nós, caminham dois outros princípios: a ética e responsabilidade.

A ética é entendida sempre como sinônimo do próprio anarquismo, constituindo-se como sua “espinha dorsal”. Não deve ser entendida como um sistema de idéias e valores teóricos, não aplicáveis, mas sim como um princípio aplicável, de valores, que leva em conta interesses coletivos e universais, e que define os princípios de conduta. A ética anarquista é justamente uma necessidade de coerência entre nossa conduta e os princípios que defendemos: liberdade, federalismo, autogestão, internacionalismo, ação direta, classismo, prática política, inserção social e apoio mútuo.

A ética diferencia-se radicalmente da moral. A moral é algo que se coloca de fora para dentro, um conteúdo não elaborado e que, por meio da coerção, se aceita, ou, simplesmente, submete-se a ela. Diferentemente, a ética é algo que vem de dentro para fora, ou seja, algo que é processado e refletido sem coerção, e que depois norteará a conduta. A moral pode ser considerada uma vitória sobre o indivíduo ao passo que a ética é o “vencer com” (ou convencer), sendo a conduta norteada pela ética, o resultado da elaboração e do processamento dos conceitos.

Muito se relacionou, durante a história do anarquismo, a ética com a coerência entre meios e fins. Para isso, defende-se uma forma de atuação que seja condizente com o fim que se deseja atingir; a chamada coerência entre meios e fins. Entende-se que se a luta tem por objetivo a liberdade, deve ser feita na liberdade. Isso se aplica em diversas formas diferentes, desde rechaçando um meio autoritário como o Estado para se chegar à liberdade – o conceito marxista de socialismo – até defendendo uma atuação honrada, íntegra e honesta politicamente – muito ao contrário das histórias de militância de Netchaiev, por exemplo, que achava que tudo valia a pena para se chegar à revolução, mesmo mentindo, enganando, chantageando, traindo companheiros etc.

Na própria história do anarquismo no Rio de Janeiro, relacionou-se bastante a ética com o respeito mútuo, entendendo-a como um princípio que exigiria a necessidade de se respeitar os companheiros de luta e fazer do ambiente político um lugar de solidariedade, seja com militantes antigos, seus companheiros, seja com novos interessados. Preconiza-se, assim, uma consideração à pluralidade de idéias e um direito à manifestação e voz, sempre tratando as pessoas com o devido respeito e repudiando condutas anti-sociais, desagregadoras e divisionistas.

Além disso, pode-se relacionar a ética com a responsabilidade, da forma que fez Ideal Peres, quando afirmou que “um sujeito que tem uma ética libertária sabe por que está lutando e consegue explicar os motivos ideológicos da luta, tem compromissos e autodisciplina para levar a cabo as tarefas assumidas”. Nesta relação, Ideal Peres, que sempre reforçou os valores de ética e responsabilidade, colocou a necessidade de os militantes anarquistas conhecerem os motivos da luta, ou seja, contra o que se luta e pelo que se luta, conseguindo justificar ideologicamente seus argumentos. O compromisso e a autodisciplina seriam fundamentais para colocar em prática essa ética libertária, sendo, portanto, antiéticos os anarquistas que defendem uma posição muito comum no universo libertário de descompromisso e irresponsabilidade.

Ao entenderem que a responsabilidade é contrária à liberdade, muitos anarquistas impossibilitam-se de realizar qualquer atividade séria, com objetivos mínimos. Os anarquistas que defendem a idéia de responsabilidade acreditam que sem ela é impossível fazer qualquer projeto de médio ou longo prazo, de colocar em prática um projeto de curto prazo ou mesmo de estabelecer uma forma de ação e cumpri-la. A partir dessa visão entende-se que, para a realização de quaisquer atividades em uma organização, deve haver uma discussão prévia, um planejamento estratégico que se desdobra em um planejamento tático, com as diversas ações que o grupo realizará. Para que isso aconteça, devem-se dividir as responsabilidades e cada um deve fazer o que assumiu.

Como recentemente escrevemos “a autodisciplina é o motor da organização autogestionária”, e deve funcionar sem disciplina servil, mas com coerência com as idéias aceitas, com a realização das tarefas assumidas e com uma obrigação severa para com o trabalho de militância e de luta.

4. Influências da FAU e Construção Anarquista Brasileira

Entre 1995 e 1996, os vínculos entre membros do anarquismo carioca e a Federação Anarquista Uruguaia (FAU) estreitaram-se. Alguns companheiros conheceram as atividades da FAU e um processo de difusão deste modelo de anarquismo uruguaio começou a ser difundido no Brasil, inclusive por meio de artigos e palestras.

Isso aconteceu também por meio da divulgação de documentos no Libera…, como um de 1997, “Anarquismo Organizado: resoluções do encontro Latino-Americano”, assinado pela FAU e outras organizações. Nele se defendia a criação de estruturas orgânicas com programa estratégico, unidade teórica, a inserção social, o anarquismo como meio – sendo a anarquia o fim –, a formação política, o que, combinados com um grupo de militantes comprometidos, poderia conduzir ao tipo de grupo anarquista nos moldes defendidos pela FAU. Sobre a inserção social, o documento sugere:

“Acreditamos que a inserção social da organização anarquista é um passo básico e fundamental para todo projeto político. Quando falamos de inserção, falamos de um trabalho regular e metódico, cujo objetivo é impulsionar as lutas populares dentro de um conceito concreto. Existem casos onde é necessário estabelecer alianças com militantes da base ou com outras organizações revolucionárias. Cabe a cada grupo ou organização definir sua(s) frente(s) de inserção, de acordo com suas possibilidades, características do país ou região onde atua e também a conjuntura.”

Discutia-se na época a necessidade de inserção social junto às lutas populares, organização específica dos anarquistas, atuação em níveis (político e social), classismo, poder popular e projeto estratégico.

Nesta tentativa de trazer o modelo de anarquismo uruguaio ao Brasil, o CELIP, além de abrir espaço para a divulgação destas idéias nas páginas do Libera…, foi responsável pelo contato com grupos interessados e pela distribuição no Brasil de um documento chamado Luta e Organização, que incentivaria a criação da Construção Anarquista Brasileira (CAB), processo este iniciado em 1996.

Luta e Organização foi concluído por companheiros de outros grupos e organizações neste mesmo ano e influenciou muito os membros do CELIP que, além de estudarem o documento com afinco, passam-no à frente para outras pessoas e grupos interessados na discussão daquilo que se chamaria anarquismo organizado ou anarquismo organicista. O objetivo da CAB era criar, em cinco anos, grupos orgânicos e organizações em nível local, regional ou estadual.

Luta e Organização buscava dar um reforço teórico para os grupos orgânicos, apresentando uma introdução sobre anarquismo e propostas dos seguintes princípios: participação, livre acordo, apoio mútuo, autogestão, federalismo, internacionalismo, ação direta, autodefesa e posição classista. Ele passa por parte da história do Brasil e depois apresenta a idéia da CAB, introduzindo o método do grupo orgânico com definições, divisões internas de tarefas, infra-estrutura básica, instâncias internas, orientações sobre inserção social, lutas, movimentos populares e processo revolucionário, discussões sobre teoria revolucionária e ideologia anarquista, discutindo a relação entre os grupos e movimentos sociais, as frentes de inserção e crescimento orgânico, as redes de apoio e o compromisso militante. Ele busca dar um apanhado geral da história brasileira e promover os valores daquilo que ficaria conhecido como o “anarquismo especifista” que tratamos anteriormente.

Nós nos consideramos um dos frutos do processo da CAB, que também foi responsável por incentivar grande parte daqueles que defenderam ou defendem o anarquismo especifista no Brasil, dentre eles, a Federação Anarquista Gaúcha (FAG) e outras iniciativas como a Resistência Popular (RP) e a Organização Socialista Libertária (OSL) – fundada em julho de 1997 e constituída por grupos federados que buscavam uma atuação social de maneira coordenada – entre outros.

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