Corrupção: Normalidade da Repressão

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

 

A “sociedade civil organizada” carioca é um bicho estranho e confuso, talvez parecido com um poodle de madame, já que demonstra agressividade inversamente proporcional à sua capacidade de luta para com os “cachorros grandes”, ou seja, para com as verdadeiras mazelas que atingem nossa sociedade. Dentro destes parâmetros, exige que todas as forças sejam direcionadas à segurança pública, ou seja, contra o tráfico de drogas. A droga ilícita (tanto quanto o Lexotan e a Xilocaína) avassala a vida desse bravo animal, que acredita que no seu uso está a razão de sua baixa potência de ataque (ô classe-médiazinha reacionária!) e que, por este motivo, seu consumo deve ser evitado. O Estado ergue seus tentáculos para atender a seus pedidos. A polícia, cão de guarda acionado, aparentemente não mede esforços contra os vorazes criminosos, comerciantes que levam uma vida de cão na tentativa de molestar os poodles.

O poodle finge não saber (confuso talvez pelo entorpecente consumido, pois não consegue segurar o seu focinho) que parte de seus cães de guarda participa ativamente do comércio e mantém a situação de caos, que apesar do sangue, é bastante lucrativa. O assunto a ser abordado neste texto é como já foi dito acima, “briga de cachorro grande”, mas é de interesse libertário, pois devemos estar atentos para essas questões.

As chacinas de Acari (1990), com dez jovens seqüestrados e mortos; Vigário Geral (1993), com 21 vítimas; Candelária (1993), com o assassinato de oito moradores de rua na situação (e, de quebra, o assassinato de Sandro, sobrevivente desta chacina, no caso do ônibus 174 em 2002) e mais 39 casos subseqüentes; favela da Coréia e Rebu em Bangu (2003), primeira ação policial do governo de Rosinha Garotinho com secretaria de segurança pública chefiada pelo coronel Josias Quintal, que objetivava a captura de quatro traficantes, mas findou com 10 mortes; Baixada Fluminense (março, 2005), ocorrida nos municípios de Queimados e Nova Iguaçu, que teve 30 vítimas (neste caso, os policiais foram também acusados de fazerem parte de grupos de extermínio da região envolvidos com mais 25 casos de seqüestro e homicídio, sendo um dos policiais o responsável pelo assassinato de mais de sete jovens no bairro de Belford Roxo em 2001); incêndio do ônibus 350 (novembro, 2005), uma resposta à briga particular entre facções da polícia e traficantes do bairro de Braz de Pina (a polícia neste caso só não foi a executora, mas poderia ter sido); e Morro do Estado/Niterói (dezembro, 2005), que terminou com o assassinato de alguns jovens, são mostras desse canino treinado que fareja, ladra e dilacera.

Além disso, uma informação tirada da imprensa aponta que em 1997, foram 300 as vítimas fatais de ações policiais em “doses homeopáticas” (casos isolados, que não configuram chacinas), no Rio de Janeiro; em 1998 passou para 397; em 2001 foram 597 e em 2003, foi para 1.195 o número de casos. As áreas onde residem populações de baixa renda, subúrbios e favelas, concentram o maior número de vítimas das ações policiais criminosas.

Aí alguém poderia reclamar: – Mas os traficantes das favelas e subúrbios também matam muita gente!?!?

Sim, sem dúvida. Todavia, meu caro, aqui o páreo é duro. Neste quesito, a polícia é “puro sangue” (as alusões aqui são múltiplas, valendo até a lembrança do nome da facção policial que organizou as chacinas de Acari e Vigário Geral: os “Cavalos Corredores”).

“A minha culpa é a mesma que a das vítimas. Elas foram mortas porque eram pobres e faveladas. Se morassem em condomínio fechado não teriam sido chacinadas. Eu estou sendo acusado por ser policial. A Polícia Militar faz o trabalho sujo do Estado. A justiça que o povo pede nas ruas é diferente da justiça dos tribunais”. (palavras de um dos únicos condenados pela chacina de Vigário Geral – entrevista para o jornal O Dia, 25/04/1997)

Se estes massacres fossem somente uma questão de execução das ordens vindas de superiores da corporação ou do Estado, a situação seria menos complexa. Mas em todos os casos mostrados acima, foram comprovadas as ações de facções corruptas da polícia. Os massacres envolvem sempre disputas políticas e territoriais entre traficantes civis e militares (tal como interpretado pelo documentário Notícias de uma Guerra Particular). Ainda sim, como estão atrelados ao comércio de armas e drogas, configuram-se também como disputas por mercado. O capitalismo é onipresente e soberano!

Na parte da polícia que se coloca fora desta disputa, ou reina a falta de inteligência (sendo assim, a permissividade) ou se age de má-fé (talvez, por estarem envolvidos com o esquema). Exemplo concreto: quando recém ocorreu a chacina da Baixada Fluminense o secretário de segurança nacional, Marcelo Itagiba declarou que uma força, a Força Nacional de Segurança que havia sido formada especialmente para o Rio de Janeiro, não deveria atuar contra os grupos de extermínio da Baixada e sim se concentrar no combate ao tráfico de drogas e no contrabando de armas. Peraí!!! E a chacina não tinha a ver com isso???

Os que apontaram para outra direção, recusando participarem do esquema de extorsão e tráfico, tornaram-se estranhos no ninho. Hélio Luz, que foi chefe da Polícia Civil da cidade e tentou dirigir a DAS (Divisão Anti-Seqüestros) em 1995, durou apenas dois meses, abandonando o cargo sob inúmeras ameaças. Luiz Eduardo Soares, sociólogo ligado a movimentos de direitos humanos, nomeado Secretário de Segurança Pública do Estado do Rio em 1999, durou impressionantes 500 dias, mas ao final deste prazo já era acusado de “complacência no trato com marginais” e com o narcotráfico. Sim, sem dúvida que todos os que assumem o trabalho sujo da segurança pública, menos ou mais repressora, são complacentes com marginais: os pertencentes de sua própria corporação. Mas os dois equivocados indivíduos acima tiveram de viver isso na pele para constatar.

“A ‘boa sociedade’ é useira e vezeira em manipular a ‘polícia corrupta e delinqüente’ quando bem lhe interessa. Corrupção e delinqüência são vinhetas para o público externo. Para o público interno, escrúpulo é moralismo de subúrbio, prurido de elenco de segunda ou ‘coisas de além-túnel!’. Do lado de cá, a língua é outra. Vende-se e compra-se tudo, e a polícia deve estar lá para garantir a tranqüilidade dos negócios que vão da cocaína à distribuição de informações financeiras privilegiadas. (…) “Assim, bandidos, nababos e seus prepostos ideológicos procuram tomar de assalto a vida cultural, engolindo o espaço dos noticiários e transformando a cena pública num espetáculo de dois atores: os escroques no poder e os que disputam o butim da escroqueria.” (jornalista Jurandir Freire Costa – Jornal Folha de São Paulo, Caderno MAIS!, 16/07/2000)

Enfim, os oprimidos por essa violência, ficam num beco sem saída. Quando não são acuados pelo canil de sua própria comunidade, são os eqüinos fardados que os espremem para que se calem. E ainda por cima vêm à mídia (que prefere somente bater na tecla Tim Lopes) a criminalizá-los. Ah! Só se não estiverem ligados ao Viva Rio – filial das Organizações Globo criada para a pulverização social, ou melhor, para difundir a versão poodle da realidade. A mídia sempre afirma sumariamente que eles são cachorrinhos (mandados) dos traficantes do morro.

Apesar disso, algumas mães, pais e amigos das vítimas e militantes sinceros do movimento social conseguem saltar estas duas barreiras e vão protestar nas ruas. Ratificando que somente tem eficácia e longevidade o trabalho social desvinculado de partidos, de grandes políticos populistas (carismáticos ou de linha dura), de instituições de caridade hipócritas [conselho: confiram o filme Quanto vale ou é por quilo?] ou da autoridade de micro-lideranças que, na verdade, objetivam o auto-enriquecimento ou futuramente entrarem para a política.

 

 

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