História da Federação Anarquista Uruguaia – FAU

 História da Federação Anarquista Uruguaia – FAU

Este é um breve histórico da Federação Anarquista Uruguaia, organização política anarquista com mais de 45 anos de atuação em nosso continente. Anarquismo é luta e intransigência classista e revolucionária.

FAU, Com um Pé no Ano 2000

PRECEDIDA DE UMA HISTÓRIA FECUNDA

Filha da corrente socialista libertária, que iniciou sua história na metade do século anterior, tem atravessado já quase meio século. Em seu longo trajeto militante tem visto e vivido distintos momentos, uns lhe proporcionaram vigorosas e esforçadas lutas, em outros dor por males sofridos pelo povo e pela perda de queridos companheiros que foram ficando no caminho. Um mesmo ideal esteve sempre incentivando anseios e sonhos: uma mudança social que assegurasse justiça e liberdade para toda a gente.

Muitas são as mudanças operadas no correr deste século, mas a estrutura de dominação segue, no fundamental, a mesma. A brutal insensibilidade do sistema continua jogando na miséria e opressão aos povos. Em conseqüência, no fundamental, o desafio e a luta seguem sendo os mesmos. Ali estaremos, caminhando pelo ano 2000, com nossas posições de peleia, com nossa identificação plena com as causas populares, com fé na capacidade de resistência e esperanças da gente, dos de baixo, com ganas de contribuir com nossa modesto acréscimo a que tanta infâmia se termine. Tratando-se que, uma vez mais, não se estrague o destino da gente que nada tem e tanto merece. Para lá vamos, sem pedir outra coisa que um posto de luta, tratando de que não morram belos e profundamente justos sonhos.

Dois mil, aqui estamos, um lugar para esta apaixonada, velha e sempre renovada, corrente anarquista. Te acrescentamos uma carta de apresentação. Nos vemos.

FUNDAÇÃO DA FAU E CONTEXTO HISTÓRICO EM QUE SE DESENVOLVE

A FAU é fundada em outubro de 1956 e nela confluem militantes sindicais, de bairro, assim como setores juvenis e estadantis agrupados nas Juventudes Libertárias, também alguns militantes espanhóis refugiados aqui (no Uruguai).

A nova organização, como intenção de organizar politicamente aos anarquistas uruguaios deverá atuar em um país e em um continente que começa a ver-se sacudido pela crise e pelo aprofundamento da luta popular, e onde a ingerência imperialista, especialmente a dos EUA, se faz cada vez maior e enfrenta crescentes resistências. São também os anos da “guerra fria”, da invasão a Hungria pelas tropas russas (que arrasa qualquer expectativa sobre eventuais transformações do sistema após a morte de Stalin), da intervenção franco-anglo-israelí como resposta a nacionalização do Canal de Suez e das triunfantes guerras de libertação contra o colonialismo na África e Ásia.

INFLUÊNCIAS QUE PESAM

A FAU se desenvolverá, fundamentalmente, ancorada na tradição revolucionária bakuninista, nas posições organicistas que teve Malatesta um de seus portadores mais reconhecidos, de certa influência classista do anarco-sindicalismo e tomando a tradição dos métodos de ação direta. Ao mesmo tempo, a Organização e seus militantes são conscientes de que sua atividade se deve desenvolver em um continente e em um país com as características específicas do que se começa a ser chamado de Terceiro Mundo. No final de 1958, a América Latina se verá sacudida pelo triunfo da Revolução Cubana, a que a FAU brindará com seu apoio crítico como expressão – precisamente – de nosso apoio e participação na luta antimperialista latino-americana e resgatando dela a ação revolucionária como método de ruptura do sistema capitalista.

FRATURA DA ORGANIZAÇÃO

No início de 1964, a FAU sofre uma divisão. Mais do que sobre temas teóricos (também eles sem dúvida muito presentes), a discussão se centra em questões concretas relativas a ação política:
– Apoio aos movimentos armados de libertação que já tinham começado a atuar na América Latina;
– Centralidade da classe trabalhadora nas atividades da Organização e consequentemente, participação nas tarefas de fundação e integração dos militantes sindicais da FAU nos distintos organismos da Central Sindical CNT (Convenção Nacional de Trabalhadores);
– A adoção de formas organizativas que permitam a FAU levar adiante as atividades públicas e, eventualmente, também as clandestinas que a nova situação política nacional e internacional vão impondo as organizações de intenção revolucionária;
– Uma estratégia militante de acordo com as urgências populares, que contemple reivindicações imediatas no marco de um projeto de mudança. Reivindicação da ação direta em todos níveis em relação com a tarefa militante cotidiana.

Um grupo de militantes (quase em sua totalidade de caráter estudantil) abandona a FAU, enquanto que a maioria dos setores operários (muitos inseridos em atividades sociais de bairros), velhos militantes e boa parte do estudantil permanecem nela.

A Organização manteve uma atividade regular e foi aumentando sua incidência político-social desde 1956 até os primeiros anos da década de 70. Desde 1964 em adiante sua coerência e eficácia resultou muito maior. Foi criadora e dinamizadora de frentes de trabalho que ganharam presença e peso a nível nacional, fundamentalmente a nível de sua capital, Montevidéu.

PARTICIPAÇÃO NA FORMAÇÃO DA CNT, AÇÃO CONJUNTA COM OUTRAS FORÇAS SOCIAIS E POLÍTICAS

Nossa organização esteve ativa e tomou a iniciativa, através de companheiros que estavam na direção de grêmios grandes, de peso, na formação da Convenção Nacional dos Trabalhadores (CNT). Considerou-se que os tempos que corriam e as lutas que estavam no horizonte faziam necessária uma organização única dos trabalhadores. Uma organização sindical não burocrática, de adequada democracia interna onde se respeitassem as tendências, e que tivesse clara definição e atitude classista. Também se tomou a iniciativa na construção a nível gremial do que se denominou a Tendência combativa. Nela se propunha uma ação direta de massas contra o inimigo de classe, promover a participação das pessoas na vida do grêmio e na luta.
Também através dos grêmios onde tinha forte militância e instituições sociais como o Ateneu Livre do Cerro participou ativamente nesse evento que é toda uma referência a ter-se presente: o Congresso do Povo.

Em diferentes momentos se receberam golpes da repressão. participou, junto a outras forças políticas, em um diário de certa relevância: “Época”, que expressava a esquerda de tom combativo. Cumpriu FAU parte ativa na elaboração de um documento que permitiu uma ação conjunta em importantes zonas estratégicas a estas forças que integravam o diário. Um documento de consenso que tentava ampliar e aprofundar coordenações que se vinham realizando no marco do movimento popular. Este documento publicado no diário “Época” foi o pretexto para declarar ilegal à FAU e as outras forças políticas que assinavam embaixo. Isto ocorreu no ano de 1967.

De fato o conjunto da esquerda com a única exceção do Partido Comunista é declarada ilegal, fechadas suas sedes e sua imprensa e detidos muitos de seus principais dirigentes.

A FAU FUNCIONA CLANDESTINAMENTE NOS FINS DE 1967 ATÉ 1971

Desde o momento referido e até 1971 a FAU realizou sua atividade na clandestinidade. Neste período alguns de seus locais clandestinos caíram e alguns de seus militantes tiveram que atuar totalmente na clandestinidade, pois apareciam publicamente como procurados. Por momentos teve a mais da metade dos companheiros com responsabilidades gerais detidos em quartéis.
A FAU que já havia conseguido desenvolver formas organizativas e de atividade clandestinas e semi-clandestinas, consegue manter seu funcionamento, já seja nos distintos sindicatos onde nossos militantes atuam, nos organismos de direção da CNT, no movimento estudantil, em tarefas políticas, na luta ideológica contra a reação e contra o reformismo e o colaboracionismo operário, fundamentalmente expressado pelo PC. Consegue fazer sair e distribuir sua imprensa durante todo o tempo de clandestinidade: “Cartas de FAU”.

Também em condições de clandestinidade realiza eventos internos consultivos e resolutivos, inclusive de mudança de sua direção geral.

De não menos importância é a discussão e acordos pontuais com outras forças revolucionárias; mantendo nossa independência ideológica e política.

É de destacar que neste período, a Organização tem um importante crescimento.

FORMAÇÃO DA ROE

Em 1968, já na clandestinidade, depois de uma decisão orgânica que previamente realiza avaliações estratégicas, a iniciativa de nossos militantes, distintos grupos operários e estudantis darão vida a ROE (Resistencia Obrero-Estudantil) que atuará como frente externa e de “massas” da proscrita FAU.
Na ROE atuam militantes da FAU com distinto grau de responsabilidade na direção dos sindicatos tais como indústria da borracha, gráficos, bancários, gás, porto, indústria metalúrgica, têxteis, indústria química, refinarias de petróleo, transporte, sanidade, indústria alimentícia, ferrovias, etc.

Os estudantes são fortes fundamentalmente no Instituto de Magistério, entre os estudantes de Ensino Secundário, mas fracos na Universidade onde só estão presentes em poucas faculdades (Humanas e Medicina).

O peso da Organização no movimento operário e popular ganha importância. Marca uma linha de trabalho combativo e questionador do sistema. Todo este tempo foi feito o trabalho de Tendência que nucleara aos partidários de formas de trabalho não burocráticas, participativa e mobilizadora. Não descuidou a polêmica com o reformismo, fundamentando permanentemente o porquê de seu acionar político distinto.

A ROE foi dinamizadora efetiva da Tendência e teve uma participação intensa em conflitos como os de Divino, TEM, CICSA, Seral, etc. O Sindicato de FUNSA atuou nos fatos como centro da atividade de ROE. Muitas foram as manifestações combativas que operários e estudantes agrupados na ROE levaram adiante em relação a diversos conflitos operários e outras lutas populares.

Seus atos contaram com muita concorrência e sofreram de repressão como por exemplo o realizado no Teatro Artigas.

Seu Boletim, mais tarde periódico, “Companheiro” eram de importante circulação e influência.

SE ORGANIZA A OPR 33

Paralelamente à atividade de massas, a determinada altura, atuará a OPR (Organização Popular Revolucionária), aparato armado da FAU que levará adiante com relativo êxito uma série de ações (sabotagens, expropriações econômicas, seqüestros de dirigentes políticos e patronais particularmente odiados pelo povo, apoio armado à greves e ocupações de gráficas, etc.). A FAU insere sua ação armada em uma ótica política e ideológica muito distinta da maioria dos movimentos de libertação latino-americanos, em grande medida influenciados pelo castrismo cubano e os teóricos do “foco guerrilheiro”.

O acionar da FAU através da OPR tem antes algum parentesco com o dos companheiros dos grupos armados espanhóis vinculados a FAI (Federação Anarquista Ibérica) da década de 20-30.

Se estabelece para o aparato armado só autonomia tática, todos os operativos político-sociais são resolvidos pela instância política global. Seu desenvolvimento e o tipo de violência devem guardar relação com o desenvolvimento da luta global do movimento operário-popular no país.

Se procura evitar níveis de violência que fiquem fora do contexto e isolados. Ao mesmo tempo se tomam uma série de medidas de funcionamento para prever e evitar deformações “militaristas”.

A OPR se estrutura como “Unidades Operativas” compostas de 3 equipes de 5 companheiros e um Encarregado geral. Há 3 Unidades Operativas e uma Unidade, estruturada de igual maneira mas dedicada somente a face informativa da ação armada.

O desenvolvimento da OPR se realiza de acordo com a avaliação que se tem do andamento do processo, igualmente o volume de suas Unidades Operativas. Se estima que para o grau de violência revolucionária do momento não é necessário Unidades de maior volume nem levar a quantidades de Unidades a dimensões hipertrofiantes.

O aparato armado é composto por uma maioria de companheiros provenientes do meio operário.

A OPR tem sua especifidade de funcionamento em relação com a tarefa que cumpre, a segurança é um aspecto que se tenta cobrir ao máximo.

Se ganha com o tempo um grau muito interessante de experiência de luta armada. Este trabalho, integrado ao conjunto do acionar político-social, enriquece as noções de toda a organização, da mesma forma que a ROE em seu acionar a nível de “massas”.

Os meios econômicos para o desenvolvimento do conjunto de FAU são proporcionados em 90% pela OPR através de diversas expropriações e alguns seqüestros.

DITADURA CONSTITUCIONAL, PRÉ-GOLPE DE ESTADO

O país sofre uma profunda crise econômica e política, a “classe política” não dá resposta aos problemas urgentes que a manutenção do sistema coloca. Há no país já instalada uma ditadura constitucional. O movimento operário-popular responde ante a perda de liberdades e direitos. Organizações de combate marcam certa presença.

Em dois ou três anos a repressão praticamente desmantela o MLN(Tupamaros).
Nos anos que precedem a ditadura FAU recebe alguns golpes: companheiros mortos, presos e torturados. Apesar disso sua estrutura fundamental não é afetada de forma considerável. O entorno social se complica. O temor que causa a constante caída de companheiros do MLN fecha portas e espaços. Em alguns setores sociais começa a se espalhar o pânico. O reformismo aproveita a oportunidade para aprofundar seus ataques a linha revolucionária.

No marco inseguro e de descenso das lutas, com eminente ameaça de ditadura, a Organização considera necessário recuar parte de sua força. Há nesse momento cerca de trinta companheiros em condição de clandestinidade. Os companheiros de OPR estão entre os primeiros que a Organização evacua. Eles se encarregarão no imediato, na Argentina, de obter os meios econômicos para uma luta contra a ditadura que se prevê longa. Se estima que a Organização deve tomar as medidas pertinentes que lhe permitam durar no tempo. “Durar fazendo” será uma espécie de lema.

CHEGADA DA DITADURA, NOSSA PARTICIPAÇÃO NA GREVE GERAL

Em junho de 1973 com a implantação da ditadura militar, se completa o processo de tiranização do país em um continente marcada pela presença de ditaduras militares no Brasil, Chile, Bolívia, Paraguai, etc. Já nesse momento centenas de presos políticos povoam as cárceres do Uruguai, a maioria das organizações revolucionárias tem sido dizimadas. A FAU gira todos seus esforços para a greve geral que durante quinze dias paralisará o país. Deve redobrar esforços já que a força majoritária, o PC, recua grande parte de sua força militante e procura determinado diálogo com os militares. A greve geral sobrevive na memória dos trabalhadores uruguaios como exemplo de decisão de luta.

Nestas condições, a FAU ordena agora a evacuação da maioria de seus militantes para Buenos Aires, onde já se encontram os “mais queimados” (parte da direção e os companheiros da OPR) com a intenção de manter desde aí, em coordenação com o que se faz no país, as tarefas políticas que impõe a resistência contra a ditadura.

Em parte do ano 73 e durante 74 e 75 a Organização desenvolve uma importante trabalho desde a Argentina. Apoiando o trabalho no Uruguai, obtendo os meios materiais necessários para sustentar uma longa resistência.

GOLPES REPRESSIVOS E MUDANÇA DE ORIENTAÇÃO

Militantes no Uruguai e militantes no exílio vêm a Organização como uma expectativa real. Começa nela neste anos um processo interno para uma abertura política que dá lugar à muita militância que não procede do anarquismo. Um Congresso definirá uma posição que aponta a tal objetivo. De qualquer maneira em dito Congresso se mantêm uma estratégia de intenção revolucionária, anti-eleitoralista e de matriz libertária. Prova disso são a reivindicação de elementos estratégicos anteriores e os episódios de ação direta realizados em Punta del Este na queima de iates.
Mas a situação argentina se deteriora rapidamente. Em setembro de 1976 os militares tomam o poder e instauram ali sua ditadura. Encurralados pela repressão dos serviços especiais do exército argentino e do uruguaio, cerca de cinqüenta companheiros caem assassinados e “desaparecidos” depois de suportar indescritíveis torturas, outros tantos são condenados a longas penas de prisão. Dentro dos assassinados se encontram velhos companheiros de decisiva gravitação para o acionar do conjunto da organização. Companheiros de formação intelectual e emotiva anarquista. O grande golpe sofrido gera dispersão, confusão e sensação de derrota.

A partir daí, como expressão política a organização deixa de existir. Um grupo de militantes abandonará suas linhas gerais, realizam um Congresso em Paris ao que concorrem duas dezenas de ativistas. Aqui se tomarão definições que diferem substancialmente com as históricas e se incorporará mais tarde a coalização eleitoral de esquerda (Frente Ampla). É o início de uma orientação que em seu desenvolvimento, com contradições em uma primeira etapa, adotar finalmente uma decidida posição reformista: o PVP (Partido da Vitória Popular) que hoje conhecemos.

RESSURGE A VELHA FAU

Ao mesmo tempo existem companheiros militando no seio da ditadura que tem como referente primordial a FAU; na cárcere há militantes de indubitável gravitação que mantêm sua definição anarquista de sempre e sua identificação com a história da FAU; no exterior há também companheiros que participaram na trajetória anterior e que seguem sustentando sua definição anarquista e sua identificação com o passado de FAU.

Em 1985, com a caída da ditadura, começam os esforços de reconstituição da FAU. Tem regressado companheiros do exterior e tem saído companheiros da prisão na anistia de presos políticos decretada pelo novo governo. Os velhos companheiros tomam contanto com a nova militância principalmente gerada no período da ditadura. Companheiros fundadores da FAU de 56 promovem reuniões com toda a militância libertária: vindos do exílio, jovens militantes e saídos da prisão.

Na primeira reunião se estabelece a busca de uma organização política libertária que compreenda toda a militância que se inscreve nesse marco referencial. Uma organização que seja a continuidade histórica da velha FAU.

O ano de 85 é de encontro, debate e de primeiros passos organizativos. Se realiza um ato público, na data do assassinato de Sacco e Vanzzeti, para fazer um primeiro contato geral com o externo. Este ato não se convoca em nome de FAU já que está ainda em sua fase inicial de reorganização.

Pouco depois já mais situada a militância, mais avançadas as discussões e a primeira etapa de reorganização se decide expressamente em forma orgânica seguir o nome de FAU e ser a continuidade histórica daquela fundada em 1956 e de adquirira sua máxima expressão nos anos prévios à ditadura.

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