Da Organização e da Força Social

PARTE 06 – Da Organização e da Força Social

Parte 6/16 de “Anarquismo Social e Organização”

Tratamos anteriormente daquilo que entendemos como a organização do capitalismo e do Estado, buscando mapear “onde estamos”, e a organização do socialismo libertário, tentando especificar “onde queremos chegar”. Para completar a discussão de organização, será necessário aprofundar um pouco sobre os movimentos sociais e a organização popular e também sobre a organização específica anarquista, dois níveis diferentes de atuação que buscarão responder “como pensamos sair de onde estamos e chegar onde queremos”, completando os elementos imprescindíveis para esta nossa estratégia permanente.

 

ANARQUISMO SOCIAL E ORGANIZAÇÃODA ORGANIZAÇÃO E DA FORÇA SOCIAL 

[…] dez, vinte ou trinta homens, entendendo-se bem,
estando bem organizados, e que saibam para
onde vão e o que querem, arrastarão facilmente
cem, duzentos ou até mais.

Mikhail Bakunin

Tratamos anteriormente daquilo que entendemos como a organização do capitalismo e do Estado, buscando mapear “onde estamos”, e a organização do socialismo libertário, tentando especificar “onde queremos chegar”. Para completar a discussão de organização, será necessário aprofundar um pouco sobre os movimentos sociais e a organização popular e também sobre a organização específica anarquista, dois níveis diferentes de atuação que buscarão responder “como pensamos sair de onde estamos e chegar onde queremos”, completando os elementos imprescindíveis para esta nossa estratégia permanente. Como bem resumiu Malatesta “[…] a organização em geral, como o princípio e condição da vida social, hoje, e na sociedade futura; a organização do partido anarquista e a organização das forças populares”[82].

Para nós, a transformação social que pretendemos passa, necessariamente, pela construção da organização popular, pelo aumento progressivo de sua força social, até o momento em que seja possível derrubar o capitalismo e o Estado com a revolução social e abrir caminho ao socialismo libertário. Além disso, defendemos que a organização popular deve possuir um desenvolvimento paralelo da organização específica anarquista, que deverá influenciá-la, dando a ela o caráter desejado. Mais à frente, aprofundaremos as discussões sobre cada uma delas e sobre a interação de uma com a outra. No momento, o que é essencial é assumirmos que não há como pensar nesta transformação necessária sem organização e crescimento progressivo de força social.

Entendemos a sociedade de hoje como resultado de uma relação de forças, ou mesmo, um conflito permanente – que toma forma na luta de classes – entre o capitalismo, o Estado e outras diversas forças políticas, sendo que os primeiros estão fortalecidos, ou seja, conseguem ter maior força social que as segundas e, logo, estabelecer o poder. Neste sentido, o capitalismo e o Estado exercem opressão sobre as outras forças políticas que constituem resistência a eles.

Esta resistência pode se dar de diferentes maneiras, umas constituindo forças políticas, maiores ou menores e outras não constituindo forças políticas. “A resistência pode ser passiva (quando o agente não tem qualquer ação contra o poder que o reprime) ou ativa (quando o poder sofre retaliações por parte dos subjugados), isolada (tem um caráter individual) ou articulada (força coletiva).”[83] A resistência passiva não constitui força política e a resistência isolada possui pouca força social. Portanto, para atingir nossos objetivos, defendemos a resistência ativa e articulada, que busca na organização o permanente aumento de força social. Para a construção desta resistência, é necessário se aliar com aqueles que estão de acordo com a nossa proposta de transformação social.

Se quisermos nos mexer, se quisermos fazer alguma coisa a mais do que aquilo que o isolamento permite a cada um de nós, deveremos saber com quais dos ditos camaradas podemos estar de acordo, e com quais estamos em desacordo. Isto é especialmente necessário quando falamos de ação, de movimento, de métodos com os quais é preciso trabalhar com muitas mãos para conseguirmos obter alguns resultados que caminhem em nossa direção.[84] O que podemos chamar hoje de “ordem”, ou status-quo, é a organização do capitalismo e do Estado, que pode ou não encarar outras forças políticas que lhe ofereçam ameaça. Estar desorganizados, mal organizados ou isolados, significa não constituir uma resistência adequada ao capitalismo e ao Estado e, por conseqüência, não conseguir aumentar significativamente a força social da organização que deve ter como objetivo substituí-los pelo socialismo libertário. Podemos dizer que “quem não se organiza, quem não procura a cooperação dos outros e não oferece a sua, em condições de reciprocidade e solidariedade, põe-se necessariamente em estado de inferioridade e permanece uma engrenagem inconsciente no mecanismo social que outros acionam a seu modo, e em sua vantagem”[85]. A desorganização, a má organização e o isolamento, na realidade, terminam por sustentar o capitalismo e o Estado, visto que não possibilitam a constituição da força social necessária. Ao não se tomar parte, de maneira adequada, na relação de forças ou conflito permanente da sociedade, acaba-se reproduzindo a “ordem”. Por isso “se não buscamos a associação e a organização bem articuladas, acabamos por não conseguir exercer qualquer influência nas lutas e conseqüentemente na sociedade de hoje”[86]. Assim, aqueles que não possuem ou meios ou a consciência bastante desenvolvidas para organizar-se livremente com aqueles que possuem interesses e sentimentos em comum, sofrem a organização construída por outros indivíduos, geralmente constituídos em classe ou grupo dirigente com o fim de explorar, para seu próprio benefício o trabalho dos demais. E a opressão milenar da massa por parte de um pequeno número de privilegiados tem sido sempre conseqüência da incapacidade da maior parte dos indivíduos para colocarem-se em acordo e organizar-se com os outros trabalhadores para a produção, o desfrute e a eventual defesa contra aqueles que querem explorá-los ou oprimi-los. […] Permanecer isolado, atuando ou querendo atuar cada um por sua conta, sem se entender com os outros, sem se preparar, sem unir em um feixe potente as débeis forças dos indivíduos, significa condenar-se à impotência, desperdiçar a própria energia em pequenos atos sem eficácia e rapidamente perder a fé no objetivo e cair na completa inação.[87] A desorganização e a má organização se reproduzem no nível social – dos movimentos sociais, em que se deveria constituir e desenvolver a organização popular – com a dificuldade de acúmulo de força social, fazendo com que o espontaneísmo natural deste nível não consiga levar a cabo o conjunto das transformações sociais desejadas. No nível político – do anarquismo, em que se deveria desenvolver a organização específica anarquista – com a dificuldade de influenciar o nível social a possuir formas e meios adequados. O isolamento e o individualismo fazem com que nem existam, da maneira desejável, os níveis político e social, não articulando nem organização popular, nem organização anarquista. Além disso, desorganização, má organização e isolamento são fatores impeditivos para a constituição do socialismo libertário, já que acreditamos que ele só poderá ser construído com muita organização.

Organização significa a coordenação de forças ou “a associação com um objetivo comum e com as formas e os meios necessários para atingir este objetivo”[88]. Assim, devemos pensar em formas e meios para a organização popular, de maneira que esta possa superar o capitalismo e o Estado, e, por meio da revolução social, construir o socialismo libertário – seu objetivo. Ao mesmo tempo, devemos pensar em formas e meios para a organização específica anarquista, de maneira que esta possa construir a organização popular e influenciá-la, dando a ela o caráter desejado, e chegar ao socialismo libertário por meio da revolução social – seu objetivo. Em seguida trataremos com mais detalhes destes dois níveis de organização. Primeiramente, trataremos do nível social, em que atuam os movimentos sociais e no qual devemos buscar a construção da organização popular. Depois, do nível político, de desenvolvimento da organização específica anarquista.

Ao falarmos de força social, é importante definirmos o que entendemos por este termo. Consideramos que todo indivíduo, como agente social que é, possui naturalmente uma força social que é a energia que pode ser aplicada para alcançar seus objetivos. Esta força varia de uma pessoa para outra e mesmo nas mesmas pessoas durante um período de tempo. Para atingir os objetivos, freqüentemente os indivíduos utilizam-se de instrumentos que podem ampliar sua força social. Muitas coisas podem ser utilizadas para se aumentar a força social tais como: armamentos, informações, treinamentos, técnicas adequadas, otimização de recursos, persuasão, máquinas etc. No entanto, o instrumento mais importante para isso é a organização, que pode se dar de maneira autoritária, por meio do domínio, ou de maneira libertária, por meio da livre associação.

Em uma organização autoritária, a força social de diversos agentes (por exemplo no Estado com um exército, ou em uma empresa com o trabalho assalariado) é alienada, colocando-os em situação de domínio perante a organização (nestes casos o Estado e o patrão) e fazendo com que contribuam para um objetivo alheio, diferente dos seus. É exatamente assim que se constitui hoje a força social do sistema vigente, ou seja, por meio da alienação de diversos agentes que contribuem com os objetivos do capitalismo, que não são os mesmos que os seus. Em uma organização libertária, é a livre-associação, ou a organização antiautoritária, que produz o aumento de força social – estando ela sempre associada com outros instrumentos.

A organização que se dá por meio da livre associação é imprescindível para nosso projeto de transformação social, pois quando indivíduos atuam em conjunto, sua força social não é a simples soma das forças individuais e sim muito mais do que isso. Vejamos o exemplo de Proudhon para explicar o assunto. “Duzentos trabalhadores puseram de pé, em algumas horas, sobre a base, o obelisco de Luxor; alguém supõe que um só homem, em duzentos dias, teria chegado a consegui-lo?.”[89] Certamente não, isso porque há uma “força imensa que resulta da união e da harmonia dos trabalhadores, da convergência e da simultaneidade dos seus esforços”[90]. No exemplo acima, a organização dos trabalhadores deu a eles uma força coletiva, possibilitando um resultado maior do que a simples soma dos resultados individuais. Assim, podemos concluir que para poder levar a cabo nosso projeto de transformação social, é fundamental a associação, pois é por meio dela, e somente por meio dela, que poderemos acumular a força social necessária para derrubar o capitalismo e o Estado.

No entanto, para o necessário ganho permanente de força social que deve ocorrer nesta forma antiautoritária de organização, tanto no nível da organização popular, quanto no nível da organização anarquista, reconhecemos ser fundamental

[…] certa disciplina, não automática, mas voluntária e refletida, estando perfeitamente em acordo com a liberdade dos indivíduos, foi e será necessária, sempre que muitos indivíduos, livremente unidos, empreendam um trabalho ou uma ação coletiva qualquer. Esta disciplina não é mais do que a concordância voluntária e refletida de todos os esforços individuais para um fim comum. No momento da ação, no meio da luta, os papéis dividem-se naturalmente, de acordo com as aptidões de cada um, apreciadas e julgadas por toda a coletividade: uns dirigem e ordenam, outros executam ordens. Mas nenhuma função se petrifica, nem se fixa e não fica irrevogavelmente ligada a qualquer pessoa. Os níveis e a promoção hierárquica não existem, de modo que o comandante de ontem pode ser o subalterno de hoje. Ninguém se eleva acima dos demais, ou se se eleva, é somente para cair no instante seguinte, como as ondas do mar, voltando sempre ao nível saudável da igualdade.[91] Obviamente que esta disciplina não deve “seguir o modelo autoritário, tanto de opressão dos membros […], quanto pela forma [das] cobranças, que […] também devem considerar o respeito e a ética. […] É uma grande preocupação diferenciarmos a autodisciplina que aqui pregamos da disciplina militar, exploratória e opressora em sua essência e que, de nosso ponto de vista, não segue rumos diferentes do que os outros autoritarismos que bem conhecemos.”[92] Para diferenciar a disciplina, muito pregada pelos autoritários desta disciplina que defendemos, escolhemos utilizar o termo autodisciplina, afirmando que “a autodisciplina é o motor da organização autogestionária”[93], sendo para nós, juntamente com o comprometimento e a responsabilidade, imprescindível para a construção de uma organização antiautoritária que tenha por objetivo aumentar sua força social. Esta autodisciplina, a nosso ver, é menor na organização popular e maior na organização específica anarquista, variando de acordo com o contexto. Em períodos de maior turbulência social, aumenta a necessidade desta autodisciplina. Em momentos de refluxo, ela pode ser menor.

Para nós, como enfatizamos, o objetivo da organização popular, enquanto forma de resistência ativa e articulada, é, aumentando progressivamente sua força social, “superar o capitalismo e o Estado, e, por meio da revolução social, construir o socialismo libertário”. Este aumento de força social pode ser conseguido com diversos instrumentos, mas principalmente a organização das classes exploradas com o maior número de pessoas possível e bom nível de organização – o que implica necessariamente autodisciplina, comprometimento e responsabilidade. Além disso, como também já definimos, o objetivo da organização específica anarquista é “construir a organização popular e influenciá-la, dando a ela o caráter desejado, e chegar ao socialismo libertário por meio da revolução social”. Para isso, a organização específica deve constituir-se como uma organização de minoria ativa anarquista, com alto grau de autodisciplina, comprometimento e responsabilidade. Pensada desta maneira, “a organização, longe de criar a autoridade, é o único remédio contra ela e o único meio para que cada um de nós habitue-se a tomar parte ativa e consciente no trabalho coletivo”[94].

Notas:

82. Errico Malatesta. “A Organização I”. In: Escritos Revolucionários. São Paulo, Imaginário, 2000, p. 49. Partido anarquista para Malatesta é a mesma coisa que organização específica anarquista.

83. Fabio López López. Poder e Domínio: uma visão anarquista, p. 75.

84. Luigi Fabbri. “A Organização Anarquista”. In: Anarco-Comunismo Italiano. São Paulo, Luta Libertária, s/d, p. 109.

85. Errico Malatesta. “A Organização das Massas Operárias Contra o Governo e os Patrões”. In: Escritos Revolucionários, p. 39.

86. FARJ. “A Propriedade é um Roubo”. In: Protesta! 4, p. 7.

87. Errico Malatesta. “La Organización”. Excerto de Pensiero e Volontà, 16 de maio de 1925. In: Vernon Richards. Op. Cit. pp. 83-85.

88. Idem. “A Organização I”. In: Escritos Revolucionários, p. 51.

89. Pierre-Joseph Proudhon. “1ere. Memoire sur la Proprieté”. In: A Nova Sociedade, p. 35.

90. Ibidem.

91. Mikhail Bakunin. “Táctica e Disciplina do Partido Revolucionário”. In: Conceito de Liberdade, pp. 198-199.

92. FARJ. “Reflexões Sobre o Comprometimento, a Responsabilidade e a Autodisciplina”.

93. Ibidem.

94. Errico Malatesta. “A Organização II”. In: Escritos Revolucionários, p. 59.

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