Elementos da Organização Específica Anarquista – FAG

Elementos da Organização Específica Anarquista

FEDERAÇÃO ANARQUISTA GAÚCHA  (FAG)

A aliança é o necessário complemento da Internacional. Mas a Internacional e a Aliança, ainda quando têm a mesma finalidade, ao mesmo tempo perseguem objetivos diferentes. Uma tem a missão de agrupar as massas operárias, os milhões de trabalhadores, através dos diferentes países e nações, através das fronteiras de todos os estados; a outra, a Aliança, – tem a missão de dar a estas massas uma orientação realmente revolucionária. Os programas de uma e de outra, sem que de modo algum sejam opostos, são diferentes pelo grau de seu respectivo desenvolvimento. O da Internacional, se o tomamos com toda a serenidade que exige o caso, convém o germe, mas solo em germe, todo o programa da Aliança, O programa da Aliança é a explicação última do programa da Internacional.

Nunca se deve renunciar ao programa revolucionário claramente estabelecido, nem pelo que tange à forma, nem pelo que tange a sua substância. As reticências, as meias verdades os pensamentos castrados e as complacentes atenuações e concessões de uma diplomacia covarde não são os elementos com que se formam as grandes coisas; estas só se formam em corações com espírito justo e firme, com uma finalidade claramente determinada e com uma grande valentia.

Sabemos que em política não há prática sincera e útil possível sem uma teoria e uma finalidade claramente determinada. Não cabe dúvida de que o número de nossos aderentes será maior se evitarmos precisar nosso real caráter. Mas já disse o provérbio que quem muito abarca mal abraça: compraríamos todas estas preciosas adesões ao preço de nossa completa aniquilação.

Nós, bem ou mal, conseguimos formar um pequeno partido; pequeno em relação ao número de pessoas que aderiu a ele com conhecimento de causa, mas imenso com respeito a seus aderentes instintivos, a estas massas populares cujas necessidades representamos melhor que qualquer outro partido. Agora deveremos navegar todos juntos no oceano revolucionário, e daqui para frente devemos propagar nossos princípios, não com palavras, mas com fatos, porque afinal é a mais popular, poderosa e irresistível forma de todas propagandas.

O que devem fazer as autoridades revolucionárias (e procuremos que estas sejam as menos possíveis)? O que devem fazer para estender e organizar a revolução? Não devem fazer a revolução por decreto: não devem impô-la as massas. Não devem impor a elas uma organização, seja a que for, mas, promovendo sua organização autônoma de baixo pra cima, devem trabalhar por enlace, com ajuda da influência individual sobre os indivíduos mais inteligentes e influentes de cada localidade, afim de que essa organização seja adequada na maior medida possível a nossos princípios.

Não pensem que eu estou advogando em prol da anarquia absoluta nos movimentos populares. Uma anarquia como essa não seria nada mais que a completa ausência de pensamento, de finalidade e de conduta comum, e necessariamente haveria de desembocar em uma impotência geral.

Tudo o que existe, tudo é viável se produz dentro de certa ordem, que lhe é inerente e que demonstra o que há em si. Os revolucionários políticos, os partidários da ditadura ostensiva, recomendam, uma vez que a revolução tenha obtido sua primeira vitória, o apaziguamento das paixões, a ordem, a confiança e a submissão aos novos poderes estabelecidos. Desta maneira reconstituem o estado.

Para que se possa atuar é necessário que exista uma organização, e para isso é necessário prepará-la e organizá-la antecipadamente, pois não se fará por si só, nem por discussões, nem por exposições e debates de princípios, nem por assembléias populares. Por mais inimigo que seja do que na França se chama disciplina, reconheço que uma certa disciplina, não automática mas sim refletida, é e será sempre necessária cada vez que muitos indivíduos, livremente unidos, empreendam um trabalho ou uma ação coletiva; não importa qual.

Em tais casos a disciplina não é nada mais que a concordância voluntária e reflexiva de todos os esforços individuais rumo a um fim comum. No momento da ação, em meio à luta, os papéis se dividem naturalmente segundo as aptidões de cada um, apreciadas e julgadas por toda a coletividade: uns dirigem e mandam, e outros executam ordens. Mas nenhuma função se petrifica, se fixa, nem permanece irrevogavelmente aderida a pessoa. A ordem e a promoção hierárquicas não existem, de maneira que o comandante de ontem pode ser o subalterno de hoje. Nesse sistema já não há, a rigor, poder. O poder se funde na coletividade e se converte em sincera expressão da liberdade de cada um, na realização fiel e seria da vontade de todos. Todos obedecem somente porque o chefe de cada dia não ordena senão o que todos querem. Tal é a disciplina verdadeiramente humana, a disciplina necessária para a organização da liberdade. A unidade viva, verdadeiramente poderosa, e a que queremos todos, é a unidade que a liberdade cria nas entranhas das diversas e livres manifestações da vida, expressando-se pela luta.

 M. Bakunin. A Aliança e a Internacional.

O fato de que pode existir uma coletividade organizada sem autoridade, isto é, sem coerção, sendo admitido – e os anarquistas devem admiti-lo, senão teria sentido -, nos leva à organização do partido anarquista. Um matemático, um químico, um psicólogo, um sociólogo podem afirmar que não têm programa, ou que seu único programa é a procura da verdade; eles querem conhecer, e não agir. Entretanto o anarquismo e o socialismo não são ciências: são objetivos, projetos que os anarquistas e os socialistas querem pôr em prática e que têm necessidade de ser formulados em programas bem determinados.

Basta ver o que sempre se passou entre nós: quanto menos organizados nos encontramos, mais submissos estivemos à vontade de um indivíduo. É natural que assim seja. Logo, longe de criar a autoridade, a organização é a única solução contra a autoridade e a única maneira de fazer com que cada um de nós se habitue a tomar parte ativa e consciente no trabalho coletivo e deixe de ser um instrumento passivo nas mãos dos chefes. Entretanto, nos dirão, uma organização supõe a obrigação de coordenar sua própria ação com a dos outros, o que viola e impede a iniciativa. Parece-nos que o que realmente priva a liberdade e torna a iniciativa impossível, é o isolamento que reduz à impotência. A liberdade não é um direito abstrato, mas a possibilidade de fazer alguma coisa: é verdade para nós e também para a sociedade em geral. É na cooperação com os outros homens que o homem encontra a razão de ser de sua atividade e de seu poder de iniciativa.

“Ficaríamos muito contentes se pudéssemos estar todos de acordo e unir todas as forças do anarquismo em um movimento forte, etc. É preferível estarmos desunidos que mal unidos. Mas gostaríamos de esperar que cada um una-se a seus companheiros e que não haja forças isoladas, isto é, perdidas.”

 E. Malatesta. Anarquismo e Organização

São as massas as que fazem a revolução, mas as massas não podem prepará-la tecnicamente. Fazem falta os homens, os grupos, os partidos, ligados por livres pactos, comprometidos ao segredo, de posse dos meios necessários que podem criar essa rede de comunicações rápidas indispensáveis para o rápido conhecimento de todos os fatos suscetíveis de provocar um movimento popular e sua rápida propagação. E quando dizemos que a organização revolucionária deve ser uma organização específica construída fora dos partidos oficiais é porque estes tem outras tarefas que excluem o segredo necessário para as coisas ilegais, mas é também, sobretudo, porque não temos confiança na vontade revolucionária dos partidos afins a nós, tal como estão hoje constituídos.

“Toda idéia nova, toda instituição nova, todo progresso e toda revolução tem sido obras de minorias.”

E. Malatesta. El pensamiento de Malatesta. Capítulo IX La revolución

Eu creio que as revoluções não se fazem sem as massas, mas é preciso começar a tomar as massas tal como são. As multidões são móveis, mas se em certo momento nos abandonam as voltaremos a encontrar quando as circunstâncias nos sejam precisas. O importante é que haja uma vontade revolucionária nas minorias mais capazes de reagir e rebelar-se com o próprio esforço contra o ambiente. O importante é formar núcleos, o mais numerosos que se possa, de acordo, mas de gente consciente, segura e abnegada, que em sua hora saibam mover as multidões.

É preciso, portanto, em tempos normais atender ao trabalho longo e paciente de preparação e organização popular e não cair na ilusão da revolução a curto prazo, fatível só por iniciativa de poucos, sem suficiente preparação nas massas. A esta preparação, enquanto sejam possíveis em ambiente adverso, tendem entre outras coisas a propaganda, a agitação e a organização entre as massas, que não devem ser descuidadas nunca.

A um partido autoritário, que procura se apropriar do poder para impor as próprias idéias, interessa que o povo siga sendo uma massa amorfa, incapaz e portanto que siga sendo sempre fácil de dominar. Por conseqüência, não deve desejar mais que aquele pouco de organização, e do tipo que lhe interessa, para alcançar o poder: organização eleitoral, se espera alcançá-lo por meios legais; organização militar se conta, por sua vez, com uma ação violenta.

Temos nos dado o dever de lutar contra a presente organização social e de abater os obstáculos que se opõem ao advento de uma nova sociedade em que liberdade e bem estar estejam garantidos para todos. Para alcançar este objetivo, nos unimos em partido e procuramos ser o mais numerosos e mais forte possível. Mas se só estivesse organizado nosso partido; se os trabalhadores permanecessem isolados como tantas unidades indiferentes umas das outras e unidos só por uma cadeia em comum; se nós mesmos, além de estar organizados em partido enquanto anarquistas, não estivéssemos organizados com os trabalhadores enquanto trabalhadores, não poderíamos conseguir nada, ou no melhor dos casos não poderíamos nos impor…e então já não haveria triunfo do anarquismo mas um triunfo nosso. Por muito que nos chamássemos anarquistas, na realidade não seriamos mais que simples governantes e seriamos impotentes para o bem como são todos os governantes.

Como anarquistas devemos nos organizar, entre gente perfeitamente convencida e de acordo entre si, e entorno de nós devemos organizar, em associações amplas, abertas, a maior quantidade possível de trabalhadores, aceitos como são e nos esforçando para fazê-los progredir o máximo que podemos.

Não basta desejar uma coisa: se sequer obtê-la de verdade tem que se empregar os meios adequados para consegui-la. E estes meios não são arbitrários, senão que derivam necessariamente do fim que se aponta e das circunstâncias em que se luta, já que enganando-se a respeito da escolha dos meios não se chegaria ao fim proposto mas a outro, talvez oposto, que seria conseqüência natural e necessária dos meios empregados.

E. Malatesta. Ideologia Anarquista Editorial Recortes     

Por organização entendemos a união dos anarquistas em grupos e a união federal dos grupos em si, sobre a base de idéias comuns e de um trabalho prático comum a realizar.

Nem mesmo remotamente queremos nos solidarizar com idéias e métodos que não são os nossos e, consequentemente, desejamos evitar a confusão que nos une indiscriminadamente e que torna a nossa propaganda caótica, contraditória e sem resultado.

É preciso reconhecer que a organização é um meio de se diferenciar, de se precisar um programa de idéias e de métodos estabelecidos, um tipo de bandeira de reunião para se partir ao combate sabendo-se com quem se pode contar e tendo-se consciência da força que se pode dispor.

Assumimos o nome porque ele precisa a nossa idéia e as nossas proposições, porque ele possui o valor de um programa. Dizemos, por exemplo, partido anarquista, entendendo simplesmente por isso o conjunto de todos aqueles que combatem pela anarquia. Quando dizemos federação socialista-anarquista, pensamos na união pré-estabelecida dos indivíduos e grupos aderentes que, em determinada localidade, puseram-se de acordo em torno de um programa de idéias e métodos.

Todos aqueles que o aceitam formam a organização cujo programa foi assim auto-estabelecido, sejam eles grupos ou indivíduos; cada grupo e cada federação decide, através de sua correspondência, dos jornais, dos congressos, etc., a maneira pela qual concordam para desenvolver a ação comum, as formas de organização federal e os grupos e modalidades internas.

Entretanto, organizar-se e diferenciar-se daqueles que, em algum ponto essencial, não estão de acordo conosco na interpretação do termo e dos métodos da anarquia, não significa que pretendemos o monopólio do termo e do movimento anarquista ou que queiramos excluir quem quer que seja da grande família libertária. Mas sermos todos da mesma família, não significa que tenhamos todos as mesmas idéias e o mesmo temperamento, nem que queiramos fazer a mesma coisa e que estejamos de acordo sobre tudo. Na maioria da famílias é antes o contrário o que ocorre.

Os anarquistas que estão organizados sabendo já o que fazem pois as prórpias formas exteriores os lembram constantemente que estão associados , que discutem do seu ponto de vista toda a proposição, venha de onde venha, estão menos expostos as surpresas. Justamente porque a união faz a força, eles podem opor uma maior força de resistência as sugestões dos camaradas mais inteligentes, mais simpáticos ou mais ativos. Eles sabem se organizar e é reconhecidamente mais difícil manipular uma massa de pessoas conscientes de sua situação, do que uma numerosa quantidade de inconscientes.

A organização anarquista deve ser a continuação de nossos esforços e da nossa propaganda; ela deve ser a conselheira libertária que nos guia em nossa ação de combate cotidiano. Podemos nos basear em seu programa para difundir a nossa ação em outros campos, em todas as organizações especiais de lutas particulares nas quais possamos penetrar e levar nossa atividade, por exemplo nos sindicatos…Nossa organização especial pode servir igualmente como um terreno para a concentração anarquista (não de centralização!), como um campo de acordo, de entendimento e de solidariedade a mais completa possível entre nós.

Para que exista coerência entre teoria e prática, é preciso antes de mais nada que seja definido o programa teórico, nos limites do qual a prática se apóie para não contradize-lo.

A organização não é um órgão consciente em si, que guie os seus membros; são estes membros que a fazem segundo seus próprios critérios teóricos e práticos. A organização não pode transformar anarquistas em não-anarquistas, mas sim os anarquistas que mudando-se a si mesmos podem transformar uma organização anarquista em autoritária.

Muitos nos objetam que toda coletividade é suscetível de dividir-se em maioria e minoria, e que, em muitos casos a organização fará com que a minoria deva submeter-se a maioria. Nós, ao contrário, não admitimos dominações deste tipo, e por isso não damos nem a maioria nem a minoria o direito e os meios de poder se impor.

Certamente uma divisão de pontos de vista e de opiniões podem surgir. Se a discórdia brota das idéias e da tática fundamental, é preciso que as duas partes se separem, pois elas constituem, a partir de então, dois partidos distintos. Foi desta forma que nós, anarquistas, quando a diferença apareceu como irremediável e muito grande, separamo-nos dos socialistas autoritários no seio da Internacional.

Se for no próprio seio da organização que o desacordo surgir, que a divisão entre maioria e minoria aparecer por questões secundárias, sobre modalidades práticas ou sobre casos especiais, então não se pode acusar de incoerência nenhuma parte nem outra; então poderá ocorrer com maior ou menor facilidade que a minoria se incline a fazer conforme a maioria. Mas, como esta condescendência somente pode ser voluntária, todo o caráter de autoridade e coerção está ausente. É natural que sejam os menos numerosos que cedam pois mesmo estes serão de opinião de que é preferível, para a economia geral das forças, que seja uma minoria e não uma maioria quem suporte um dado inconveniente.

Em toda a convivência existe divisão de trabalho entre os associados; alguns deles devem se encarregar de funções sociais necessárias e úteis a todos. Tais funções possuem hoje em dia um caráter autoritário porque são exercidas em grande parte por organismos autoritários, mas não são em si a autoridade.

Creio que nenhum anarquista sustentará que em anarquia se deva abolir o serviço postal ou o ferroviário somente pelo fato de que hoje os correios e estradas de ferro são geridos de maneira infame pelo estado capitalista. O que vale para a sociedade futura vale para as organizações anarquistas, que delegam a alguns de seus membros responsabilidades para cumprir uma função determinada e não para exercer um poder. Delegação de função e não delegação de poder. Não se pode fazer mais do que delegação de função no momento em que em certo círculo não podem todos os camaradas ser ao mesmo tempo o tesoureiro e o secretário, da mesma forma de que não podem todos por-se a realizar uma função para qual basta o trabalho de um só.

A necessidade de tais mandatos amplia-se e torna-se mais forte quando a organização é maior e os seu campo de atividade mais amplo. Mas basta que os delegados não possam agir em nome da associação a não ser quando seus membros lhes tenham explicitamente autorizado; eles devem executar somente aquilo que os associados decidiram e não ditar aos associados o rumo a seguir.

Se algum gérmen de autoridade pode se personificar nestes representantes da associação este seria uma autoridade moral, sem perigo de que possa se transformar em autoridade coercitiva de fato. E um tal tipo de autoridade assim surgida nunca seria tão forte como aquela que um companheiro ativo e inteligente pode desenvolver em um meio desorganizado.

Luigi Fabbri. A organização anarquista

Há uma concepção que postula que a iniciativa espontânea das massas basta para fazer possível a revolução. Tal mito leva a uma demagogia populista, a apologia da rebelião sem princípios, eventualmente reacionária, a inação e a capitulação.

Em oposição a isto, encontramos uma concepção puramente voluntarista que atribui a iniciativa revolucionária unicamente a organização de vanguarda. Esta idéia contém, de fato, o germe da contra-revolução estatista e burocrática.

Próxima a idéia da espontaneidade, vemos uma teoria afim no qual a organização de massas, sindicatos por exemplo, não só são auto-suficientes, senão que suficientes para tudo.

Longe do espontaneísmo, do voluntarismo e do empirismo, destacamos a necessidade da organização anarquista revolucionária específica, concebida como a vanguarda consciente e ativa das massas populares.

A vanguarda revolucionária, certamente, exerce um rol de guia e liderança em relação ao movimento de massas. A organização revolucionária deve sua criação ao fato de que a maioria dos trabalhadores conscientes sentem sua necessidade, quando se confrontam com o processo desigual e coesão inadequada das massas. O que deve ficar claro é que a organização revolucionária não deve constituir um poder sobre as massas. Seu papel de guia deve ser concebido como a formulação, a expressão de uma orientação ideológica, organizativa e tática; orientação que deve ser precisada, elaborada e adaptada com base nas aspirações e experiências das massas.A função diretiva da organização revolucionária, sem nenhum meio coercitivo, só pode se manifestar em seu esforço por fazer triunfar sua ideologia, intentando que as massas populares se impregnem profundamente de seus princípios teóricos e de suas diretrizes táticas. É uma luta através das idéias e do exemplo. A vanguarda deve se dar por tarefa o desenvolvimento da responsabilidade política direta das massas, sua meta é o desenvolvimento da capacidade de auto-organização das massas. Esta concepção da “direção” é de uma só vez natural e educativo. Do mesmo modo, os militantes melhor preparados e mais maduros no interior da organização, tem o rol de guiar e de educar aos outros membros, para que todos fiquem bem informados e alertas, tanto no terreno teórico como prático, para que todos possam ser protagonistas em seu turno.

Se a minoria ativa se separa das massas, então não pode exercer sua função e se transforma em uma seita ou em uma classe.

Em última instância, a minoria revolucionária não pode ser mais que um servente dos oprimidos. Tem enormes responsabilidades, mas nenhum privilégio.

Sejam quais sejam as circunstâncias, a minoria nunca deve esquecer que seu objetivo final é desaparecer e se fundir nas massas quando estas alcancem seu maior grau de consciência, durante a realização revolucionária.

Na prática há duas formas em que a organização revolucionária pode influenciar as massas: está o trabalho em organizações de massas estabelecidas e está o trabalho na propaganda direta. Este segundo tipo de atividade toma lugar através de periódicos e revistas, campanhas reivindicativas e de agitação, debates culturais, ações solidárias, protestos, conferências e comícios públicos.Este trabalho direto é essencial para ganhar forças e para conquistar certa parcela de opinião pública, que seria de outro modo inacessível.

No interior das organizações de massas, sociais e econômicas, a influência deve ser exercida e fortalecida não através de um sistema de decisões externas, senão que através da presença ativa e coordenada dos militantes anarquistas nelas.

Este trabalho de inserção deve transformar a organização específica de minoritária a majoritária, ao menos desde o ponto de vista da influência.

Também deve ser evitada qualquer monopolização, seja concentrando todas as atividades da organização específica sobre a organização de massas, seja atribuindo inteiramente a direção da organização de massas a membros da organização específica, o que apartaria outras opiniões. Cabe ressaltar aqui que a organização específica deve promover e defender nos organismos de massas, não só um funcionamento e uma estrutura democráticas e federalistas, mas além do mais uma estrutura “aberta”, isto é, que facilite o acesso a estas organizações de todos os elementos que todavia não estão organizados, com o fim de que estas organizações adquiram novas forças sociais, estendam seu caráter representativo e permitam a organização específica ter o maior contato possível com as massas.

Mas no que respeita as questões de tática, o problema é diferente. Pode se buscar a unanimidade, mas só até certo limite, se, para conciliar as distintas posições, haja que renunciar a tomada de decisão: os acordos evasivos transformam a organização em uma casca vazia, sem substância nem utilidade, já que a organização tem por objetivo a coordenação das forças até uma meta comum. Então, quando todos os argumentos para as diferentes propostas tem sido feitos, quando a discussão não pode continuar sendo frutífera, quando as opiniões similares que concordavam em princípio tem se fusionado e ainda fica uma oposição irredutível entre as táticas propostas, então a organização deve encontrar uma saída. E para isso, só há quatro possibilidades:

a) Não decidir nada, rechaçar a ação, perdendo a organização, assim, toda razão para existir .

b) Aceitar as diferenças táticas e deixar cada um com sua própria postura. A organização pode aceitar isto em certos casos, em certos pontos que não sejam de crucial importância.

c) Consultar a organização por um voto que permita determinar uma maioria, a minoria aceitaria calar seu ponto de vista na ação pública, mas poderia seguir o debate no seio da organização, estimando que com o tempo, se sua posição é mais acertada com a realidade, acabará por triunfar. Tem se reprovado as vezes neste método sua falta de objetividade, ao considerar que os números não refletem sempre a verdade, e que as maiorias não tem sempre razão, mas é o único método possível. Além do mais, não apresenta tendências coercitivas, já que só pode ser aplicado ao ser aceito por todos os membros da organização, e ao ser aceito pela minoria como uma necessidade, permitindo assim experimentar as proposições táticas aceitadas.

d) Quando nenhum acordo entre a maioria e a minoria se mostre possível em algum assunto crucial, o qual demande que a organização tome posições, há, natural e inevitavelmente, um fracionamento.

Em todos os casos, a meta é a unidade tática, e se não se tente alcançar isto, então as discussões não são efetivas e as confrontações, infrutuosas. É por isso que a primeira solução possível, não dizer nada, tem de ser rechaçada em qualquer caso, e a segunda, admitir várias táticas distintas, só pode ser um fato excepcional.

Seguramente, é só nos encontros, onde toda a organização está representada (conferencias, congressos, etc…), nos quais podem se decidir a linha tática a seguir.

George Fontenis. Manifesto Comunista Libertário 1953.

A FAU pretende ser expressão política dos interesses das classes exploradas e os grupos dominados, e se põe a serviço dos mesmos, é um motor das lutas sociais.

Um motor que nem as substitui nem as representa. Que sim, pretende dinamizá-las e organizá-las, superar seu mero aspecto espontâneo, transcender os vaivens da conjuntura e assegurar continuidade as rebeldias, as lutas cotidianas, as expectativas e aspirações, etc.

Para nós, a Organização política é também o âmbito onde vai se acumulando a experiência da luta popular, tanto a nível nacional como internacional. Uma instância que impede que se dilua o saber que os explorados e oprimidos vão adquirindo atrvés do tempo.

A Organização Política atua também como o cenário de produção das análises conjunturais e das orientações fundamentais pertinentes. Por isso, é a Organização política a instância adequada para assumir os distintos e complexos níveis de atividade que pode exigir o trabalho revolucionário, a única instância capaz de assegurar o conjunto de recursos técnicos, materiais, políticos, teóricos, etc. que são condição indispensável para uma estratégia de ruptura.

 FAU. Declaración de Princípios 1993.

As atuações empurradas a força são difíceis de manter e podem nos levar a situações que não controlaremos e que não farão senão nos prejudicar. O convencimento e a participação não podem ser substituídos pela coerção, e a utilização desta, se não é em casos muito concretos e pontuais e respaldada por uma maioria forte, costuma ser sintoma de debilidade. Inclusive nestes casos, se temos ganhado essa maioria, o normal seria que seja ela a que exerça, e a coerção da maioria sempre sempre tem recursos para ser mais suave e adequada.

 Chema Berro y Jose Maria Olaizola. Sindicalismo y transformación social 1993.

Compreendo a disciplina revolucionária como uma autodisciplina do indivíduo, estabelecida num coletivo atuante, de modo igual para todos, e rigorosamente elaborada.

Ela deve ser a linha de conduta responsável dos membros desse coletivo, induzindo a um acordo estrito entre sua prática e sua teoria.

Sem disciplina na organização, é impossível empreender qualquer ação revolucionária séria. Sem disciplina, a vanguarda revolucionária não pode existir, porque então ela se encontrará em completa desunião prática e será incapaz de formular as tarefas do momento, de cumprir o papel de iniciador que dela esperam as massas.

Porque os anarquistas “de todo estilo e de todas as tendências” não representavam, mesmo em seus grupos específicos, um coletivo homog~eneo, com uma disciplina de ação bem definida, não puderam suportar o exame político e estratégico que lhes impuseram as circunstâncias revolucionárias.

 Nestor Makhno. Dielo Trouda 1926.

Como a febre amarela, esta doença de desorganização se introduziu no organismo do movimento anarquista e o tem abalado por dezenas de anos.

No entanto, sem sombras de dúvidas, esta desorganização se origina de alguns defeitos de teoria: notavelmente de uma falsa interpretação do princípio de individualidade no anarquismo, sendo esta teoria frequentemente confundida com a total falta de responsabilidade.

Dispersão e quebra de unidade são arruinantes: uma união bem formada é um sinal de vida e desenvolvimento.

Está na hora do anarquismo sair do pântano da desorganização, pôr um fim as infinitas vacilações das questões táticas e teóricas mais importantes, mover-se definitivamente em direção a um ideal claramente reconhecido, e operar uma prática coletiva e organizada.

Não é o bastante reconhecer a necessidade vital de tal organização: é também necessário estabelecer o método para sua criação.

Nós rejeitamos como teoricamente e praticamente inapta a idéia de criar uma organização baseada na receita da “síntese”, que está reunindo os representantes de diferentes tendências anarquistas. Tal organização, tendo incorporado elementos teóricos e práticos heterogêneos, seria apenas uma reunião mecânica de indivíduos, cada qual possuindo um conceito diferente das questões do movimento anarquista, uma reunião que eventualmente se desintegraria ao entrar em contato com a realidade.

O único método que leva à solução do problema de organização geral é, do nosso ponto de vista, reorganizar militantes anarquistas ativos baseando-se em posições precisas: teórica, tática e organizacional, a base mais ou menos perfeita de um programa homogêneo.

Os princípios fundamentais para a organização de uma União Geral de Anarquistas são os seguintes:

Unidade Teórica: a teoria representa a orça que orienta a atividade de pessoas e organizações por uma trilha definida e direcionada a um objetivo determinado. Naturalmente ela deve ser comum a todas as pessoas e organizações aderentes à União Geral.

Unidade Tática ou Método Coletivo de Ação: uma linha tática comum no movimento é de importância decisiva para a existência da organização e para o movimento todo: ela elimina o efeito desastroso de várias que se opõe entre si, concentra as forças do movimento, oferece à elas uma direção em comum levando, portanto, a um objetivo fixo.

Responsabilidade Coletiva: as áreas da vida revolucionária, sociais e políticas, são, acima de tudo, profundamente coletivas por natureza. A união toda será responsável pela atividade política e revolucionária de cada membro; da mesma forma, cada membro será responsável pela atividade política e revolucionária da União como um todo.

Federalismo: o tipo federalista de organização anarquista, ao mesmo tempo que reconhece os direitos de independência, opinião livre, liberdade individual e iniciativa de cada membro, requer deles que assumam deveres organizacionais fixos, e exige a execução de decisões compartilhadas.

Grupo Dielo Trouda. Plataforma de Organização 1926.

A pergunta para os anarquistas de todos os países é a seguinte: nosso movimento pode contentar-se em subsistir na base de velhas formas de organização, de grupos locais que não tem vínculo orgânico entre eles, cada um agindo do seu lado de acordo com sua ideologia particular e com sua prática particular? Ou nosso movimento deve ter recursos para novas formas de organização que irão ajudá-lo a se desenvolver e a arraigá-lo entre uma vasta massa de trabalhadores?

A organização anarquista não será possível se não existir um acordo teórico e organizacional, constituindo uma plataforma comum em que milhares de militantes possam reunir-se. À medida que aceitarem essa plataforma, ela deve ser obrigatória para todos. Aqueles que não reconhecem esses princípios básicos não podem se tornar, e ademais eles mesmos não iriam querer, tornar-se membros da organização.

Dessa forma, essa organização será a união daqueles que terão uma concepção comum de uma linha teórica, tática e política a ser realizada.

É isso o que caracteriza a responsabilidade coletiva: toda a União é responsável pela atividade de cada membro, sabendo que eles realizarão seu trabalho político e revolucionário no espírito da União. Ao mesmo tempo, cada membro é inteiramente responsável por toda a união, enxergando que sua atividade não será contrária aquela elaborada por todos os seus mebros. Isso não significa autoritarismo, como o companheiro Malatesta afirma com firmeza, mas é a expressão de um entendimento consciente e responsável do trabalho militante.

É por isso que ele só confere a assembléias e suas resoluções o papel de uma espécie de conversa entre amigos, na qual se pronunciam somente desejos platônicos.

Na verdade, qual seria o valor de uma assembléia se ela tivesse somente “opiniões”, e não trouxesse fatos que pudessem ser realizados na vida real? Nenhum. Em um movimento vasto, uma responsabilidade unicamente moral e não-organizacional.

Piotr Archinov. Dielo Trouda 1928.

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