O FAO e a Construção do Anarquismo Militante e Revolucionário

Documento político-teórico do Fórum do Anarquismo Organizado – FAO, produzido em 2007.

Mais do que um desejo, construir a organização é uma necessidade. Fazer do anarquismo um instrumento para a luta da classe requer uma análise histórica quanto aos equívocos e degenerações que distanciaram o anarquismo da maior fonte política e teórica existente: a organização e luta dos trabalhadores…

O Fórum do Anarquismo Organizado formou-se em 2002 numa conjuntura na qual já existia acúmulo de discussão entre parte da militância libertária quanto à necessidade de construir uma Organização/Partido anarquista de abrangência nacional. O FAO é a seqüência da tentativa da segunda metade dos anos 90, chamado de Construção Anarquista Brasileira, que cumpriu uma etapa entre os anos de 1995 e 2000.


O FAO e a Construção do Anarquismo Militante e Revolucionário

O Fórum do Anarquismo Organizado formou-se em 2002 numa conjuntura na qual já existia acúmulo de discussão entre parte da militância libertária quanto à necessidade de construir uma Organização/Partido anarquista de abrangência nacional. O FAO é a seqüência da tentativa da segunda metade dos anos 90, chamado de Construção Anarquista Brasileira, que cumpriu uma etapa entre os anos de 1995 e 2000. Neste período chegamos a montar uma Coordenação Nacional para estruturar a Organização Socialista Libertária (OSL), intento de organização nacional.

O FAO se constituiu tendo como foco e razão de ser uma presença desta militância nos movimentos sociais de base, seja estudantil, seja sindical, seja popular-comunitário. Assim sendo, “organização e inserção social” foram pontos de partida, um marco divisório inicial para passar a régua, agregar e construir com aqueles que entendiam estas necessidades e a partir daí avançar para novos desafios, e portanto, jamais foi encarado como ponto de chegada.

De 2002 para cá, sucederam-se encontros, grupos entraram e saíram e outros mantiveram contato embora não tenham chegado a aderir na construção do FAO. A partir do encontro de Goiânia em 2005, passando pelo de São Paulo em 2006, pelo encontro da Frente Estudantil e de Juventude no início de 2007 em Feira de Santana (BA), o FAO vem ganhando uma nova dinâmica, fruto do maior contato e conhecimento das apreciações políticas dos que compõem organicamente o Fórum. Pode-se dizer que nos encontramos numa nova etapa na qual a aproximação e a afinidade em torno de questões mais básicas, como a necessidade de organização e atuação social, é um ponto superado internamente, embora saibamos que ainda causa muita discussão no meio libertário.

Formam hoje o Fórum do Anarquismo Organizado, que tem presença no movimento estudantil, sindical e popular-comunitário, organizações e grupos de seis estados brasileiros: Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares – CAZP (AL); Coletivo Pró-Organização Anarquista em Goiás – COPOAG (GO); Federação Anarquista Gaúcha – FAG (RS); Organização Socialista Libertária – OSL (SP); Rusga Libertária – RL (MT); Vermelho e Negro – VN (BA).

Agregando grupos e organizações com graus distintos de experiência acumulada no anarquismo e nos movimentos de base, o FAO entende que a busca do afinamento político entre os grupos, passa pelo afinamento de suas militâncias sociais e de sua construção teórica. A afirmação de que anarquismo é luta, passa pela necessidade de construir uma organização anarquista com base na unidade teórica e de ação, construídas a partir de uma organização interna com base no federalismo político e na responsabilidade coletiva. Esses pontos, que tocam mais o problema de organização e seu funcionamento, são basilares e já indicam um caminho bem delineado para uma construção mais ampla.

Este é o objetivo pelo qual o FAO se move, ou seja, o de construir uma organização revolucionária anarquista atuante nas lutas. Revolucionária não por auto-proclamação, e sim por se pautar pela construção da revolução social, colocando sua atuação militante nos movimentos sociais de base sob esta estratégia finalista, sem deixar de fazer, evidentemente, a análise necessária da realidade histórica e sua conjuntura.

A Paciência Também é Revolucionária – Entre Erros e Acertos

De 2002 para 2007 vão-se cinco anos. Alguns podem nos perguntar: por que o FAO ainda não se constituiu enquanto uma única organização nacional? Estariam os anarquistas agrupados no FAO se debatendo em divagações quanto à “necessidade da organização”, “para que se organizar como anarquista?” ou coisa semelhante? A resposta é um enfático não.

Primeiro porque a organização é um meio para nós e não um fim em si mesmo. Por isso, não nos perdemos debatendo eternamente questões organizacionais, cuja necessidade e formas concretas são resolvidas e entendidas facilmente para quem está colocado diante das exigências de atuar e dar resposta política.

Em segundo lugar, ainda que passando dificuldades para superar percalços internos agravados até mesmo por questões de ordem geográficas e de comunicação, temos dado nossos passos que modestamente nos fazem avançar. Temos diferentes níveis de acúmulo de discussão e militância, bem como diferentes trajetórias que nos levaram a um ponto em comum: o anarquismo especifista. Não temos nenhuma grande estrutura que permita uma discussão mais dinâmica dentro do FAO e uma conseqüente resolução mais rápida de suas lacunas. Isso logo nos impõe limitações que são parte integrante das dificuldades de se reconstruir o anarquismo militante neste país.

Mas não estamos aqui para lamentar problemas estruturais, que por mais que incidam, não são nem de longe os fundamentais. O central em nossa discussão é a costura da uma unidade em nossas militâncias que venha a representar efetivamente o afinamento teórico-político de nossas análises, sempre relacionando teoria e prática, pois elas não se separam e cada uma é fomentadora da outra.

Tal processo não se constrói de forma pura e linear, por isso requer paciência. Aqui a paciência é revolucionária, pois busca aliar uma análise da situação real da luta de classes, localizando inclusive o próprio anarquismo, com a magnitude de um projeto nacional em construção.

Nesse processo precisar a influência e a possibilidade de avanço da militância anarquista nas lutas sociais é importante e se relaciona intimamente com a própria maturidade político-ideológica do anarquismo. Levar em conta tais questões é imprescindível para dar passos concretos, passos em comum, que sejam conseqüentes e que de fato representem uma construção efetiva do objetivo traçado. Portanto, o próprio FAO precisou ultrapassar determinadas etapas até poder “se achar” e acreditamos estarmos hoje num processo mais avançado e delineado daquele que foi iniciado, vide a própria composição do primeiro encontro em Belém para o que temos e somos hoje.

Um processo como esse não pode se dar sem contradições internas e no FAO certamente as temos, até pelas próprias questões já observadas. Entendemos que para contribuir realmente com a luta revolucionária é preciso ter condições de intervir na realidade da maneira mais ampla e profunda possível e isso não se faz com pequenos grupos isolados, nem mesmo com organizações de âmbito estadual. Pensando desta forma resolvemos ser conseqüentes e levar a sério a necessidade de construir uma ferramenta anarquista nacional. O potencial do FAO, com a dimensão de sua militância e sua abrangência territorial, ainda que não sejamos de fato uma organização/partido nacional, pode nos permitir um salto qualitativo na construção classista do anarquismo brasileiro.

É com base na realidade de grupos e organizações atuantes nacionalmente, sem as precipitações que já puseram “tudo a perder” em outros momentos, que os anarquistas do FAO pretendem construir uma organização nacional. Não é a partir de um único grupo que lança ultimatos aos demais, despreza a construção coletiva, e pretende gerar adesão a partir disso que se poderá fazer do anarquismo uma ferramenta mais ampla para a luta dos trabalhadores.

O FAO Frente às Criticas de “Ecletismo”

O anarquismo sofreu e ainda sofre, com a parca sistematização teórica e, principalmente, pela raridade de uma nova produção teórica. Por isso mesmo, a construção teórica, frente aos desafios da luta revolucionária, toma posição de grande importância, como nos ensina o Huerta Grande da histórica Federação Anarquista Uruguaia (FAU).

Evidente que constatar tal questão, por si só não a resolve. Temos sido, enquanto FAO, acusados de “ecletismo” teórico e ideológico por parte da UNIPA (“Anarquismo e Ecletismo, em geral e particularmente no Brasil” – Comunicado n° 15), pelo fato de não nos basearmos unicamente em apenas um pensador, no caso deles Bakunin.

A intenção deste documento é justamente mostrar as diferenças entre os caminhos traçados pelo FAO e pela UNIPA. Este grupo é ex-membro fundador do FAO, cuja estadual antes pertenceu a mencionada Construção e depois a primeira OSL. Hoje, consideram-se imunes às críticas, pois julgam ter “resolvido” os problemas da construção teórica. Pontuaremos então, as críticas necessárias aos pretensos “bakuninistas” e sua empreitada.

A UNIPA trilhou um caminho que enxergou na falta de uma base teórica, coerentemente articulada, o “calcanhar de Aquiles” do anarquismo. Assim, as fragilidades do anarquismo classista e combativo estariam na falta de um referencial teórico claro para orientar a prática. Nós concordamos com isso, mas fazemos nossas ressalvas. Também entendemos que há uma carência teórica no anarquismo e temos trabalhado muito para avançar neste aspecto. Neste sentido, várias discussões do FAO e publicações de seus grupos atestam isso, trabalho que ocorre muito antes da UNIPA sequer existir. A construção de referenciais teóricos coerentes e o acúmulo de experiência prática é o que vai permitir uma análise da realidade em diferentes níveis que habilite o estabelecimento de um programa socialista libertário para os dias de hoje.

No entanto, por mais importância que uma base teórica tenha para a atuação anarquista ela não resolve nossos problemas automaticamente, o que não parece claro para a UNIPA que investe em caminho diferente. A lacuna teórica no anarquismo não se constrói de uma tacada só, sobretudo quando pretendemos levar adiante um processo mais amplo de construção nacional. Menos ainda com leituras estanques, trazidas para o presente mais de 150 anos depois, totalmente fora de contexto.

A construção de uma teoria requer trabalho, tempo e gente dedicada a isso. Também requer maturidade política, pois infelizmente não avançamos ao sabor dos nossos desejos, nem na luta, nem na construção teórica. Mas a UNIPA, obcecada pela promessa de que a partir da ideologia resolveria todo restante, trabalhou para “resolver a parada” rapidamente. O esforço não foi de todo em vão, algumas coisas boas vieram nos documentos da UNIPA e como não raciocinamos com “bem” e “mal”, não jogamos fora tudo que a UNIPA produziu nestes últimos tempos. Nossas divergências centrais relacionam-se a dois pontos: a confusão entre filosofia política, teoria e ideologia e a caracterização do bakuninismo feita pela UNIPA, intimamente relacionada ao primeiro ponto.

A Confusão Entre Teoria e Ideologia

Um dos pontos cruciais é a própria maneira que a UNIPA apreende e discute Teoria e Ideologia. Partindo do mencionado documento Huerta Grande da FAU (pode ser obtido na íntegra no site da FAU), e que também tomamos como referência em nosso debate, a UNIPA tirou conclusões totalmente equivocadas. Na verdade, opostas ao sentido do documento, que deveriam rejeitar se fossem coerentes com o que afirmam sobre o tema. Pedimos um pouco da paciência do leitor, porque sem nos remetermos a alguns trechos do texto ficaria impossível explicitar a natureza de algumas divergências. O Huerta Grande diz sobre teoria:

[…] um conjunto de conceitos coerentemente articulados entre si. Se exige um sistema de conceitos, uma teoria. […] Não iremos inventar esquemas teóricos a partir do zero. Não vamos criar uma nova teoria em todos os seus termos […] Teremos, então, que tomar a teoria conforme vamos elaborando, analisando-a criticamente. Não podemos aceitar qualquer teoria de olhos fechados, sem crítica, como se fosse um dogma. […] Então, entre os elementos que incluem as diferentes tendências da corrente socialista, tomaremos sempre os elementos que melhor nos sirvam para isso: para pensar e analisar de forma revolucionária o país, a região ou outras regiões e experiências. […] O trabalho teórico é sempre um trabalho que se sustenta e se baseia nos processos reais, no que acontece na realidade histórica.

E sobre ideologia:

A ideologia, em troca, é composta de elementos de natureza não científica, que contribuem para dinamizar a ação, motivando-a, baseada em circunstâncias que, ainda que tendo relação com as condições objetivas, não derivam dela, no sentido estrito. A ideologia está condicionada pelas condições objetivas, ainda que não seja determinada mecanicamente por elas. […]
A teoria torna precisa, circunstancializa, as condicionantes da ação política: a ideologia motiva-a e a impulsiona, configurando-a em suas metas “ideais” e seu estilo. Entre teoria e ideologia existe uma vinculação estreita, já que as propostas destas se confundem e se apóiam nas conclusões da análise teórica. Uma ideologia será tanto mais eficaz como motor da ação política, quanto mais firmemente se apóie nas aquisições da teoria. […]
Somente a partir de uma compreensão teórica adequada, ou seja, profunda e científica, podem desenvolver-se elementos ideológicos (aspirações, valores, ideais, etc.) que constituem os meios adequados para a transformação de tal realidade social com coerência de princípios e eficácia na prática política. […]
Pode existir, admitimos, uma prática política fundamentada somente em critérios ideológicos, ou seja, não fundamentada ou insuficientemente fundamentada em adequadas análises teóricas. Isso é o habitual em nosso meio.

Qualquer leitor poderá tirar suas próprias conclusões e se não tiver dificuldades na leitura do texto concluirá que é a partir da teoria que uma organização anarquista desenvolve análises, estratégias e táticas. A ideologia nos fornece motivação, elementos de propaganda e doutrina. Mas o modo como a UNIPA caracterizou ideologia e teoria (vide documento A Revolução Social no Brasil) não foi uma simplificação, mas um desacordo total com o Huerta Grande, uma inversão das coisas, fazendo da ideologia o elemento central. Eis o grande erro.

Não se trata de dizer que a teoria se constrói destituída de elementos ideológicos, nisso crêem os positivistas. A teoria revolucionária para se constituir parte necessariamente de um ponto de vista da classe trabalhadora e incorpora os valores e as experiências de luta desta. Mas se estamos a falar de ideologia anarquista e teoria anarquista (seja a formulada por Proudhon, Bakunin ou Kropotkin), não podemos considerar que a ideologia anarquista nos leva a uma teoria anarquista. Para fins didáticos, diríamos que a relação é inversa.

A destruição do capitalismo associado à do Estado enquanto elemento ideológico no anarquismo é e foi teorizada de diferentes maneiras por aqueles que se propuseram fundamentá-las. Mas, evidentemente, estes elementos ideológicos, que são necessariamente genéricos, se formaram historicamente a partir de uma elaboração teórica iniciada com Proudhon e Bakunin mesmo que entre estes existam diferenças.

Portanto, o anti-estatismo no anarquismo, enquanto um elemento ideológico constitutivo do mesmo foi incorporado a partir de uma análise teórica que identificava o Estado como incapaz de promover a igualdade e a liberdade, Mas, se isso é um guia geral, não leva necessariamente a uma teoria capaz de responder à altura os desafios e situações históricas concretas.

Tomando como exemplo a atitude dos anarquistas diante do Estado na Revolução Espanhola 1936-39, podemos dizer que as análises, ou a falta delas, pois quase tudo era baseado apenas em ideologia e em sua derivação direta de filosofia política, derrotaram qualquer possibilidade de dar respostas mais corretas aos problemas do poder enfrentados pelos anarquistas. A ideologia anti-estatista dos anarquistas espanhóis, que apesar de purista parecia uma forte salvaguarda ideológica, transformou-se em negligência para se pensar efetivamente a questão do Estado e do poder. E no fim das contas observamos os mais puristas, justamente os mais apegados à “ideologia”, defenderem e assumirem pastas ministeriais no Governo Republicano.

A Importância de Bakunin e a “Colagem Bakuninista” da UNIPA

Pois bem, para a UNIPA, toda a “teoria” e “análises” seriam baseadas numa interpretação a partir da ideologia, o “núcleo duro” da filosofia política que eles auto-intitularam de bakuninismo, algo permanente e imutável, que serve muito bem para militantes inseguros e sem paciência para as agruras de um trabalho teórico real. Veremos mais adiante a que tipo de erro esta postura conduziu.

A UNIPA partiu na jornada em busca da ideologia perdida. Assim, de referência teórica, Bakunin passou a ser parâmetro de doutrina, motivo para discernir “eleitos” e “malditos”. A ânsia de resolver logo a questão teórica motivou a UNIPA a batizar a sua própria leitura e recortes de Bakunin de “bakuninismo”, fazendo-o como “ideologia pura”, imune a criticas, assumindo até mesmo os equívocos do anarquista russo.

Nós do FAO concordamos e assumimos muito da obra, trajetória, análise e prática política de Bakunin. O seu legado teórico-prático é nossa principal referência e sua obra nos serve de base. Mas, também temos discordâncias com determinadas proposições de Bakunin e não assumimos a totalidade de suas propostas, seja por discordâncias pontuais, seja por considerarmos certas passagens ultrapassadas para a realidade atual, seja porque outras contribuições superaram certos pontos da proposta de Bakunin. Até porque entendemos que nem Bakunin, nem qualquer outro autor-militante clássico deve ser sacralizado por nós, pois não temos a preocupação em manter uma fidelidade absoluta a este ou aquele pensador, a esta ou aquela corrente. Nossa fidelidade é com a busca da leitura mais rigorosa possível da realidade para contribuir na luta revolucionária.

Bakunin pode ser entendido como fundador do anarquismo enquanto prática política, contudo não deve ser parâmetro único e exclusivo para definir o anarquismo. Devemos reivindicar dentro do anarquismo (como vertente do pensamento socialista) todos os referenciais históricos e todas as práticas políticas, de corte classista e revolucionário. Isso não significa ausência de referenciais claros e precisos, pelo contrário. Nossa preocupação tem sido integrar coerente e teoricamente tudo aquilo que foi produzido e praticado num sentido revolucionário pelo anarquismo. Por outro lado temos feito a critica e descartado tudo aquilo que avaliamos como ultrapassado ou inútil num sentido revolucionário.

A interpretação da UNIPA do que seria Teoria e Ideologia, está na base do “engessamento” de Bakunin feito pela mesma. O primeiro passo neste erro é a incapacidade da UNIPA em distinguir teoria e ideologia corretamente, considerando a ideologia, na verdade filosofia política, como o “núcleo duro” do anarquismo. O segundo passo consistiu em considerar praticamente toda a obra de Bakunin como a ideologia pura e imutável. O fato da elaboração teórica feita por Bakunin (ou de qualquer outro autor clássico) também estar condicionada a uma realidade, um momento histórico particular, é totalmente desprezado.

É uma leitura que se presta a artifícios discursivos e históricos para afirmar um Bakunin que na verdade é construído pela UNIPA. Pelas palavras destes auto-proclamados “bakuninistas”, Bakunin ganha autoridade de censor, posição esta que nenhum anarquista jamais poderia aceitar e Bakunin muito menos. Mas, segundo a auto-intitulada organização bakuninista, a sua leitura particular das obras completas do companheiro de origem russa, ganha um status de “ciência” do anarquismo que impugna os desvios e falsificações pela leitura de um grupo auto-proclamado que tem mais de 140 anos separado das suas obras e do seu contexto.

O bakuninismo, uma falsificação histórica, tal como é inventado na “pureza” rigorosamente não tem história, é uma criação “idealista” e filosófica como repetem eles, que não se encaixa nas referências do comunismo libertário de Makhno ou no especifismo da FAU. Basta lembrar que esta última reivindicava a tradição organizativa de Bakunin, a teoria de partido de Malatesta, as ações dos expropriadores e o classismo anarco-sindicalista. Grosso modo, o tal do “bakuninismo”, é uma narrativa de tipo colagem. Definitivamente não é desta forma que recebemos a herança do bakuninismo enquanto elementos de construção teórica e política.

Apenas para ilustrar a distância que as palavras guardam em relação às ações vale lembrar que a diferença entre organização política e social, entre o programa da organização anarquista revolucionária e o programa levado adiante pelos movimentos sociais, uma das idéias de Bakunin que consideramos mais perenes e válidas para a atualidade, é totalmente desprezada pela UNIPA. O tipo de bandeira e discurso que a UNIPA leva ao âmbito dos movimentos sociais, carregados de um radicalismo verbal e de um conteúdo ultra-revolucionário, está em flagrante desacordo com o tipo de reivindicação preconizado por Bakunin para os movimentos de massa. Neste ponto, que não é um mero detalhe na elaboração bakuninista, a UNIPA simplesmente faz tábula rasa da distinção entre o nível social e o nível político.

Enfim, a bandeira do pseudo-bakuninismo, tal como é pintada pela UNIPA, é uma leitura duvidosa, que cumpre a função subjetiva de dar uma segurança teórica definitiva e absurda para militantes que tem necessidade vital de afirmar a diferença dentro do quadro de isolamento que experimentam em relação à construção político-específica que vamos empreendendo.

Nossas Diferenças com o Voluntarismo Revolucionário e Auto-Proclamatório da UNIPA

Entendemos que a construção de uma Organização política se faz fundamentalmente em compasso com o desenrolar da luta de classes. A Organização política não pretende “representar” os trabalhadores e oprimidos, que tem sua voz e seus organismos próprios de organização e luta. No entanto, pode e necessariamente deve fornecer elementos ideológicos e teóricos para sua ação.

No entanto, todos esses elementos são formados em diálogo com os vários setores da classe e em consonância com a conjuntura histórica vivenciada. Ou seja, nossas bandeiras devem expressar uma demanda posta, a partir da qual trabalhamos para dar um sentido mais amplo na luta, e que evidencia a disputa existente de projetos antagônicos de sociedade. Pensamos que a radicalidade se expressa nas lutas, fazendo avançá-las. O radicalismo verbal, de propostas obtusas, serve apenas para manter limpa a “consciência revolucionária” daqueles que as defendem, certos de que não estariam “rebaixando programa”, mantendo a “pureza revolucionária”. É uma radicalidade que existe somente no idealismo de alguns militantes e encontra-se totalmente desvinculada das lutas reais.

Evidentemente não se trata de abrir mão de um programa revolucionário para poder ser aceito entre as massas, mas sim de que este programa se constrói não em monólogo, mas em diálogo com a classe, com o povo. Fazemos política e militância não só para a classe, mas com a classe. É nesse sentido que se constitui um anarquismo revolucionário, não porque propõe a imediata destruição do Estado para o próximo congresso dos trabalhadores, mas porque entende o processo onde teoria, prática política, condições materiais, de organização e luta popular se relacionam e se determinam.

Mas para o voluntarismo revolucionário e auto-proclamatório, as questões se resolvem de maneira simples. Os problemas se resumiriam na incompreensão teórica ou aos traidores que, na cabeça deles, saberiam que eles estão certos, mas só por birra não dariam o braço a torcer. Por isso são traidores. Na prática, no espaço que ocupam nos debates da UNIPA, os maiores inimigos não são os capitalistas, nem o Estado, mas justamente os mais próximos deles, pois, talvez na imaginação da UNIPA, “eles nos roubam ingressos”, então vamos disputar “a base do FAO”.

A UNIPA certamente não é trotskista como acusam muitos daqueles que se reivindicam libertários (da mesma forma que também podem nos acusar). No entanto, o discurso, as bandeiras de luta, a tábula rasa dos níveis político e social e forma de disputa política da UNIPA se assemelham muito a várias agrupações trotskistas para os quais o maior inimigo é a fração rival mais próxima. Será que restamos nós para a UNIPA disputar?

Nos sonhos dos militantes da UNIPA toda a militância anarquista, depois de um belo “convencimento racional”, faria fila para ingressar. Mas a realidade é outra e estará diante da fuça de cada um de nós, gostemos ou não.

O pior é que o voluntarismo revolucionário não conduz a uma análise mais criteriosa da realidade, contentando-se com fraseologias e uma suposta segurança analítica, que não ultrapassa o campo da ideologia. Inevitavelmente a UNIPA cai num objetivismo tosco, chegando a fazer análises quantitativas que estabelecem até as porcentagens populacionais para se deduzir um levante popular (ver Reformas do Governo Lula e as Tarefas do Proletariado, Mar/05). Na mesma linha não conseguem diferenciar os efeitos das práticas sociais desempenhada por diferentes sujeitos sociais como desempregados, professores e petroleiros, por exemplo, ignorando a posição de cada um destes setores da classe dentro do capitalismo. Para a UNIPA “organização e luta” são suficientes e produzem os mesmo efeitos, sejam elas feitas por qualquer setor da classe, bastando para isso que sejam orientados pela “ideologia bakuninista”. Daí para se auto-proclamar como “A” Organização revolucionária é um passo, que talvez já tenham dado. Certamente as coisas seriam mais fáceis se assim fossem, mas para nós do FAO não é possível se balizar apenas por desejo ou ideologia.

No fim das contas, ao tomar um confuso conceito de “ideologia anarquista” como ponto de partida e colocar em segundo plano a construção da teoria, a UNIPA não apenas distorce Bakunin, mas fica paralisada diante da questão que realmente importa, jurando ter resolvido o tema. Assim, os problemas da teoria são eliminados e não resolvidos. O mais grave é que sem teoria, não se faz análise e não se adota a estratégia adequada. A estúpida realidade de isolamento está ali, diante da UNIPA, dia após dia, pedindo para ser reconhecida. Mas na sua arrogância fanática e na incapacidade de sair do limbo onde se meteu, a UNIPA foge de si mesma e de seus erros encontrando inimigos externos para dar unidade interna ao grupo.

Construir a Organização Política Anarquista de Intenção Revolucionária

Prosseguimos nossa empreitada, superando percalços e aprendendo a cada dia. Somos cientes de que o anarquismo atualmente é pouco incidente no conjunto da luta de classes e nossa militância ainda é mal coordenada nacionalmente. Construir uma Organização Política tem seu tempo e seu processo, a menos que se queira apenas uma sigla sem presença na luta e sem coerência teórica.

Mais do que um desejo, construir a organização é uma necessidade. Fazer do anarquismo um instrumento para a luta da classe requer uma análise histórica quanto aos equívocos e degenerações que distanciaram o anarquismo da maior fonte política e teórica existente: a organização e luta dos trabalhadores. E não poderíamos imaginar que isso pudesse ser feito do dia para noite, depois de décadas de ausência nas lutas. Mas aqui estamos e daqui construímos porque entendemos que o socialismo e liberdade seguem sendo as únicas aspirações pelas quais vale à pena lutar.

FÓRUM DO ANRQUISMO ORGANIZADO – BRASIL
http://www.vermelhoenegro.org
Secretaria Nacional do FAO
secretariafao@riseup.net

Federação Anarquista Gaúcha (RS)
http://www.vermelhoenegro.org/fag
secretariafag@vermelhoenegro.org
Cx. Postal 5036 Cep: 90041-970 Porto Alegre, RS

Organização Socialista Libertária de São Paulo (SP)
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Coletivo Anarquista Zumbi dos Palmares (AL)
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Coletivo Pró Organização Anarquista em Goiás (GO)
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Rusga Libertária (MT)
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Vermelho e Negro (BA)
http://vermelhoenegro.blogspot.com/
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Cx. Postal 280 Cep.: 44001-970 Feira de Santana, BA

ANARQUISMO É LUTA!
Construindo a Organização Revolucionária Anarquista no Brasil.

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