[COMPA] Uma leitura Socialista Libertária sobre as lutas que eclodem no Brasil

Posted on 22/06/2013

1


“Carregamos um mundo novo em nossos corações, que cresce a cada momento. Ele está crescendo neste instante […].”

Buenaventura Durruti

As manifestações que se espalharam pelo Brasil em decorrência do preço abusivo das tarifas do transporte coletivo, em solidariedade à luta que começou em São Paulo e contra os megaeventos da FIFA (Copa das Confederações e Copa do Mundo), estão tendo Belo Horizonte como uma das cidades protagonistas. Entre os dias 13 e 17 de junho de 2013, houve na capital o II Seminário do COPAC (Comitê Popular dos Atingidos Pela Copa) e mais de 60 mil pessoas foram às ruas em duas grandes manifestações – no sábado e na segunda-feira -, mobilização que não era alcançada há mais de duas décadas. Os atos têm durado mais de 6 horas, fechando todas as faixas das avenidas mais movimentadas da cidade, tomando as ruas de forma categórica e enfrentando a violenta repressão policial, formando gigantes espaços ocupados por multidões de pessoas que não discutem nada além do atual estado das coisas na cidade e no país.

Em meio à grande revolta popular que paira sobre o país, alguns pontos reparados no contato direto com as mobilizações devem, em nossa avaliação, ser profundamente discutidos por tod@s nós. Acreditamos que se não houver grande esforço por parte dos movimentos populares, das organizações políticas de esquerda e das forças que compõe o povo, nossas mobilizações correm imenso risco de serem desnorteadas, freadas e cooptadas por elementos externos à luta popular que estão se infiltrando em seu seio.

VIOLÊNCIA: ESTADO + FIFA x O POVO

É importante medirmos e balancearmos o aparato físico, ideológico e econômico que as duas partes têm à sua disposição: O Estado tem o Exército; tem suas polícias, uma investigativa e outra militar; a militar com suas dezenas de batalhões (Choque, ações táticas/especiais, cavalaria, cachorros etc.); com suas viaturas, helicópteros, blindados; suas bombas (efeito moral, gás lacrimogêneo, spray de pimenta) e suas armas (letais, de borracha, de choque etc.). Esta estrutura do Estado é gerida pelas grandes elites brasileiras por financiarem as campanhas dos políticos, e as intenções de tais grandes elites são as disseminadas no complexo e muito bem estruturado poder da mídia. A Fifa, uma empresa privada, por ter em mãos o poder político e econômico internacional que o futebol pode proporcionar, submete qualquer Estado ao seu bel prazer em nome dos megaeventos que realiza, reduzindo a pó conquistas populares históricas e legitimando massacres e perseguições à pobreza.

O povo, de outro lado, possui sua consciência, sua solidariedade, seus sonhos e no máximo algumas pedras e coquetéis molotov. É drástica e até surreal a discrepância nessa balança. Um povo submetido à barbárie pelo Estado em função dos lucros exorbitantes e da aplicação de políticas antipopulares de alguns, quando se rebela, se encontra no mais natural estado de auto-defesa. Jamais se encontra no estado de violento. Vitrines de bancos – sanguessugas da riqueza nacional -, viaturas quebradas, pixações de protesto, algumas pedras lançadas ou mesmo algumas barricadas de fogo nas ruas não são comparadas à violência econômica, política e física que o povo sofre diariamente – e mais acentuadamente no contexto da Copa.

É percebida claramente uma reprodução por grande parte dos manifestantes do discurso de “anti-violência” e “manifestação pacífica”. Quando algum companheiro ousa atacar algum símbolo da Fifa ou mesmo das grandes empresas que financiam a Copa, logo vários manifestantes rechaçam e reprimem. Em nossa leitura, atitudes assim são equivocadas e adoradas por nossos inimigos.

O DESESPERO DA MÍDIA: AMIGÁVEIS COM OS PACÍFICOS, TRADICIONAL COM OS “VIOLENTOS”

É por medo que a grande mídia criou todo um arranjo manipulador que insiste em dar uma conotação positiva às “manifestações pacíficas” e continuar em sua linha tradicional de difamar os ditos “violentos”. As proporções que tomaram os protestos no país não eram esperadas e são extremamente preocupantes para os nossos inimigos. Mais de 500 mil pessoas nas ruas em todo o país, sendo 100 mil em uma única capital (São Paulo, a mais visada internacionalmente, por ser o centro econômico do país), é uma realidade que amedronta as elites. Mas toda essa mobilização rumando pacificamente – criminalizando os que são taxados de violentos – com pessoas gritando “abaixo a corrupção”, “o gigante acordou”, “fora Renan” e “fora Dilma”, enquanto se enrolam em bandeiras do Brasil, de fato não causaria tanto temor.

O grande medo dos inimigos é a situação de combatividade que se iniciou em São Paulo e nasceu nas demais capitais. A pauta de redução da tarifa, de repúdio à Fifa por suas catástrofes sociais e econômicas e repúdio à violência policial, acompanhada de manifestações combativas e com caráter de enfrentamento é muito mais perigosa que a da corrupção, do “fora Dilma” e “Fora Renan”, patriota e pacífica. É mais perigosa, primeiro, porque ataca diretamente uma das raízes dos problemas sociais – que aos ricos são suas soluções -, e, segundo, porque ousa desmantelar a disciplina e o controle dos rebeldes impostas pelo Estado e pelos nossos demais inimigos, fundamentais para manutenção do capital, da exploração e da opressão.

O DESESPERO DA POLÍCIA: A AMIGA QUE DÁ PAULADA

Nesse sentido nós vemos a Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) se alinhando estrategicamente para conquistar os manifestantes: alocando a Coronel da corporação para fazer papel de bondosa, dialogável e afável amiga dos rebeldes, comandando uma tropa de choque que atravessa cegos no meio da manifestação e tirando foto com manifestantes enrolados em suas bandeiras do Brasil. É uma estratégia descarada de pacificação da imagem (já tão queimada) da Polícia Militar, que, na prática, com 50 mil pessoas marchando rumo ao Mineirão, mostra sua verdadeira face descendo chumbo na população, não se preocupando se serão mulheres, idosos ou crianças os atingidos. Além disso, percebe-se um esquema articulado entre a PMMG e a mídia, quando vemos grupos isolados atacando a prefeitura e saqueando lojas sem nenhuma represália da polícia que assiste de longe, enquanto as as câmeras da imprensa registram o conteúdo com intuito claro de criminalizar o movimento.

INFILTRAÇÃO DE DISCURSOS E PRÁTICAS DA DIREITA

É também muito visível uma infiltração estratégica da direita organizada nas mobilizações. O próprio discurso de ataque fervoroso e exclusivo ao PT e à corrupção (que já se fundem) é uma delas: o motivo é desgastar o governo federal para as próximas eleições, ou mesmo para possíveis revoltas contra o “PT”, que no fim das contas se tornam contra a “esquerda” em geral, recuando ainda mais a população e seu discurso para o espectro da direita. Militantes descaracterizados de partidos historicamente de direita (PSDB, DEM etc) ou mesmo pessoas deliberadamente de direita mas que não são filiados aos partidos puxam palavras de ordem e incentivam práticas que devem ser rechaçadas pelos rebeldes num aspecto geral (como entregar pichadores para polícia, linchar manifestantes radicalizados etc.).

De outro lado, a utilização e reprodução de símbolos nacionais devem ser repudiadas. Um hino e uma bandeira nacional são símbolos que representam mais de 500 anos de drama e exploração do povo, perpetrados pelas elites. O lema que a bandeira nacional carrega, “Ordem e Progresso”, é muito claro quando se pensa numa necessidade das elites manterem a “Ordem” ao povo para que haja o vosso “Progresso”. É esse mesmo sentimento nacionalista e patriota que foi utilizado para ludibriar o nosso povo durante inúmeros contextos de conflito social, desde as ditaduras de Vargas e a Militar até os dias de hoje. O nosso povo possui diversas palavras de ordem, bandeiras e símbolos de resistência e de luta que são muito mais compatíveis com o momento do que os símbolos que representam uma história de manipulação e exploração. Detestam bandeiras que contenham conteúdo “socialista”, “comunista”, “anarquista” ou “revolucionário”, no entanto, entoam a bandeira da “Ordem e Progresso”. Desse modo, silenciosa e perigosa, a direita tenta avançar na disseminação de seu discurso e no esquecimento de nossas bandeiras de luta.

Existem ainda outras questões que são discutidas e apresentadas no próprio seio das manifestações de modo menos complicado, que não necessitem de discussões mais aprofundadas como estas apresentadas. É claro que a cada novo dia de mobilização, na atual situação, alguns panoramas mudam, resolvendo alguns equívocos políticos e nos apresentando outros. É nesse sentido que a militância do COMPA busca atuar no movimento de Belo Horizonte, seja nas reuniões, nas assembleias, nas manifestações, nos movimentos sociais ou em quaisquer espaços que existem ou que estejam surgindo laços de mobilização rebelde.

Construir o Poder Popular nos atos e nas Assembléias Populares e Horizontais para fazer nossos inimigos recuarem e conquistarmos nossas bandeiras!

Criar um povo forte para construir o Poder Popular!

Pela esquerda e por baixo, Avante à Luta!

Coletivo Mineiro Popular Anarquista
Belo Horizonte, 20 de Junho de 2013