Viva o Coletivo! Viva! Construindo economias coletivas no campo e na cidade

Viva o Coletivo! Viva!

Construindo economias coletivas no campo e na cidade

Federação Anarquista do Rio de Janeiro

Eis a palavra de ordem que ecoou pela Quadra do Corações Unidos na tarde do domingo de 24 de novembro. A quadra, que fica no morro do Timbau, uma das favelas da Maré na Zona Norte do Rio de Janeiro, hospedou neste dia o encontro A Economia Que Queremos, Construindo Economias Coletivas no Campo e na Cidade. O encontro uniu coletivos e movimentos sociais para trocar experiências e fortalecer os laços entre iniciativas populares baseadas na autogestão, no respeito e no apoio mútuo. Trabalhos onde não há patrão e nem empreendedorismo individual e sim empenho e gestão coletivos. Vieram companheiras e companheiros de mais de dez municípios da região metropolitana e onze grupos para apresentaram os trabalhos e experiências que desenvolvem em seus coletivos.

O encontro foi fruto de um processo de um ano de preparação, uma ideia que surgiu a partir do Encontro Regional de Organizações Populares Autônomas (EROPA), este último ocorreu em novembro de 2012 no Centro de Cultura Social (CCS), Vila Isabel, zona norte da capital fluminense. Construíram juntos o encontro integrantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA), Movimento das Comunidades Populares (MCP), da Universidade Popular Autônoma do Centro (UPAC) e do Coletivo Roça!. Nos dias que antecederam o encontro, um mutirão foi realizado para preparar tudo. Assim foi possível, a partir do esforço coletivo, realizar este evento com poucos recursos financeiros, levantados através do apoio dos três Grupos de Investimento Coletivo (GIC) que existem no Rio de Janeiro, do Sindicato dos Servidores do Colégio Pedro II (SINDSCOPE) e da UPAC.

No encontro, o Movimento das Comunidades Populares (MCP) esteve representado por quatro grupos, o mercadinho coletivo, a creche comunitária e o grupo de produção de produtos de limpeza, todos atuantes com base na favela Chico Mendes (Pavuna), tais como os Grupos de Investimento Coletivo (GIC). Todos estes grupos trabalham nas bases de forma coletiva para resolver problemas imediatos do povo e construir sua autonomia, objetivo que atravessa os trabalhos do MCP que é baseado nas dez colunas do movimento. Entre educação, saúde, lazer e outros, a economia coletiva é uma destas colunas. Também aposta em formas de produção coletiva o Movimento de Organização de Base (MOB) que apresentou seus planos de produzir pães e bolos em autogestão com base no CCS. O Movimento dos Pequenos Agricultores esteve presente não somente com um ótimo café direto da roça, mas também com uma apresentação da visão e prática de luta do movimento pela emancipação do campesinato. Atuando em conjunto, desde a produção até a comercialização, o movimento cria formas coletivas e sem exploração para produzir alimentos e levá-los até os consumidores.

Também esteve presente a Cooperglícero de São Paulo, que luta não apenas pela necessidade de sustento econômico de seus trabalhadores, mas também contribui com a coletividade, num sentido amplo, com seu trabalho de reciclagem e reutilização de materiais que a sociedade de classes despeja nas ruas e nos lixões sem menor preocupação. Já Augusto, produtor de mel e cachaça artesanal envelhecida, trouxe toda uma gama de produtos do sul de Minas Gerais.

Enquanto que a Roça!, junto a moradores do Timbau, ofereceu diversos de seus produtos naturais, como também DVDs e livros. A Roça! apresentou seu trabalho, que vincula a busca por uma atuação autônoma na favela aliada ao trabalho coletivo de comercialização. Contou também sobre a conquista de seu pequeno espaço comunitário. Ressaltaram que não dependem de financiamento externo, como é o caso de Organizações Não Governamentais (ONGs) e Organizações de Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs), e que por isso não ficam reféns dos interesses privados. Seus componentes fazem uma avaliação que estes dois tipos de associação, ONGs e OSCIPs, hoje tão comuns, atuam nos territórios de favelas inseridas em relações de poder que muitas vezes dificultam a luta pela construção do poder popular. Na contramão das relações de poder, os integrantes da Roça! entendem que sem o nosso sustento econômico, sem recursos próprios, não teremos autonomia política nas favelas. Sem autonomia política não teremos força para lutar e construir um movimento comunitário de resistência, organizado pela base e protagonizado por seus moradores. Isso vai bem no sentido da chamada do encontro, que identifica na economia “um meio (não um fim por si só), através do qual movimentos sociais no campo e na cidade podem organizar e fortalecer suas lutas.”

Outro exemplos existem. Há mais de duas décadas nesta luta por emancipação da classe trabalhadora, a Associação dos Produtores Autônomos do Campo de da Cidade (APAC), situada em São João de Meriti/RJ, elabora e estimula tecnologias sociais que abrem possibilidades de apropriação de meios de produção pelos trabalhadores sem que haja a necessidade de investimentos de grandes quantidades de dinheiro. A técnica apresentada pela APAC de produzir vassouras com fios de plástico de garrafas PET impressionou a todos e o MCP entrou em diálogo para iniciar sua própria produção. Numa relação de apoio, a APAC vai repassar nos próximos meses o conhecimento e a tecnologia, além de fornecer as máquinas necessárias, que ela própria projeta e fabrica, para realizar a produção. Com isso mais um grupo coletivo ganhará forma e fortalecerá a luta popular nas bases.

Já o cervejeiro independente André (Associação dos Cervejeiros Artesanais Cariocas – ACervA) apresentou seu trabalho de produção de cerveja caseira, demonstrando a possibilidade de se iniciar uma produção independente com um investimento em torno de R$ 2.000,00. Foi simbólico porque, neste mesmo dia, foi publicada uma matéria no jornal O Globo sobre cerveja artesanal. Dizia que, para começar uma produção, precisa de um investimento mínimo de R$ 200.000,00!!! Então, os integrantes do Fórum Popular de Apoio Mútuo combinaram de realizar um curso de formação e repasse de conhecimento e material para se formar um primeiro núcleo de produção coletiva de cerveja artesanal em uma favela, contando com apoio de base do Movimento Favela Não Se Cala.

Uma outra forma de produção coletiva foi apresentada pelo grupo de pesquisa Outras Economias do LEMTO (Laboratório de estudos de Movimentos Sociais e Territorialidades): A produção de conhecimento das nossas formas de lutar, nos organizar e fazer economias coletivas. Nesse sentido, a própria programação do encontro apontou para o amplo conjunto de campos nos quais precisamos atuar e pensar juntos para construirmos economias coletivas, de baixo e com um horizonte de busca por autonomia: em três grupos de trabalho, os cerca de 60 participantes do encontro discutiram questões “do financiamento ao investimento coletivo”, “da comercialização à circulação” e “da exploração à produção coletiva”. É um longo caminho, que nem por isso devemos deixar de trilhar desde já, no dia-a-dia, no aqui e agora.

Durante o encontro e na posterior reunião de avaliação, foi combinado de continuarmos articulando os trabalhos dos grupos no âmbito da Rede Economias Coletivas – construindo a economia que queremos no campo e na cidade. Continuaremos em contato por uma lista de e-mail reunindo os mais de 50 participantes do encontro e divulgando informações no blog economiascoletivas.noblogs.org, onde estará disponível até meados de janeiro de 2014 o caderno com o acúmulo do encontro. Os 3 GTs (“investimento coletivo”, “circulação” e “produção coletiva”) serão mantidos para dar continuidade às tarefas de aprofundar os conhecimentos nas referidas áreas e fortalecer os laços entre os grupos. Pretende-se criar uma lista de links com produtos e serviços da própria rede e os grupos combinaram de realizar visitas para conhecer os trabalhos mutuamente. Também estará na pauta a possibilidade de se iniciar Grupos de Investimento Coletivo (GIC) nas favelas onde os grupos e movimentos da rede atuam.

O encontro também prestou homenagem à resistência negra, e crianças do Grupo de Capoeira Angola Mocambo de Aruanda, representado pelo capoeirista Paulista, apresentou seus ritmos e seu jogo durante o encontro. O rapper Mais Preto, do coletivo Us Neguin Que Não C Kala, encerrou o encontro, que contou também com o artista Paul, da Alemanha, grafitando uma grande faixa com os dizeres:

Nos Quilombos, nas favelas!

Viva a Resistência Negra e Popular!       

Viva Zumbi! Viva o Coletivo!

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