Uma Etapa de Resistência – Contra o Imperialismo e a dependência

Publicado no Libera #171

Há 195 anos, no dia 7 de setembro de 1822, o Brasil teria conquistado supostamente sua independência política. Mas o “grito da independência” foi um “conto pra boi dormir”, pois a independência política nunca superou a exploração colonial. No fim das contas a coroa portuguesa, sem condições de sustentar sua hegemonia, preferiu sair por cima.

A independência política do Brasil foi feita pelo andar de cima, enquanto no restante da América Latina processos de luta foram tocados com participação popular. Seguimos como um país dependente, antes de Portugal, depois pelo imperialismo inglês e agora quintal do governo dos Estados Unidos, fornecendo matérias-primas (minério de ferro, soja etc) ao faminto capitalismo europeu, chinês e norte-americano.

O imperialismo é uma dominação de uma classe dominante de outro país sobre todas as classes de um país, que tem como objetivo transferir recursos do país dominado para o dominante. Para isso, se expressa na imposição de políticas que mantém a dominação e a exploração.

A independência da América Latina nunca passou de promessa. Neste sentido, quando olhamos para o século XX, percebemos que a região se desenvolveu sempre de maneira dependente e subordinada. Grandes parques industriais se formaram nas principais economias latino-americanas, como Brasil, México e Argentina, mas se expandiram como meros apêndices das economias centrais.

Mesmo nos governos petistas que se vangloriavam de promover o “desenvolvimento”, o Estado brasileiro seguiu como um país capitalista, dependente e exportador de produtos primários. A diferença é que o governo do PT distribuiu algumas migalhas aos de baixo, enquanto o preço alto das commoditties permitiu sobreviver a crise econômica iniciada em 2008.

O imperialismo apesar de ter virado algo “fora de moda” no vocabulário de alguns setores da esquerda nun-ca saiu de cena e tem seus agentes nas políticas financeiras dos EUA e dos organismos econômicos (FMI, Banco Mundial), na ação militar (OTAN, DEA e bases na América Latina), nos organismos políticos de partidos nacionais alinhados e satélites.

Isso não quer dizer que estamos condenados a uma eterna subordinação. É fundamental partir de uma perspectiva de libertação nacional que tenha como foco os direitos e a luta da classe trabalhadora, sem qualquer ilusão com os exploradores nacionais (empresários e políticos).

Jamais podemos esquecer que a dominação histórica do imperialismo não teria acontecido sem a participação dos ricos e poderosos que assumem o papel de “empregados” das potências econômicas. A nossa burguesia é nacional, mas nunca foi e nunca será nacionalista.

Historicamente, os empresários nacionais sempre encontraram mais aliados do que adversários nos centros econômicos e financeiros internacionais. Antes parceiros do que inimigos, como prova a migração dos frigoríficos da JBS para os Estados Unidos. Engordada com dinheiro do BNDES (que é dinheiro de trabalhadores/as) durante o governo Lula e Dilma, hoje a JBS transfere suas transações totalmente para o território norte-americano.

Parte do empresariado nacional também apoia a abertura da economia ao capital externo, o que significa ainda mais dependência do sistema financeiro e exploração.

Por isso não podemos só pensar o que está se passando na política nacional. Grande parte do que está ocorrendo no Brasil está amarrado a essa intromissão imperialista de séculos, que abertamente mostra suas garras na região latino-americana de maneira mais visível. Aliás, Trump disse abertamente que estavam trabalhando para “desestabilizar” a Venezuela.

Sem termos em mente que nós, junto com o restante da periferia global, somos uma peça essencial do sistema econômico vigente, é muito difícil desvendar o que está por trás da atual crise política e econômica que assola a região.

A chave para entender o dilema latino-americano e superar a dependência é compreender essa dominação construída após os processos de independência política da região.

Os agiotas da “dívida”

Uma das formas de manter a dominação imperial e a política dependente se dá pelo sistema financeiro internacional. Hoje em dia a “dívida” externa ainda bloqueia qualquer possibilidade de “desenvolvimento” econômico e social. Metade do orçamento brasileiro está comprometido com o pagamento da agiotagem do sistema financeiro: bancos, organismos internacionais e milionários e cabe dizer que nenhum governo (do PT ao PSDB) ousou enfrentar esse mecanismo. Ou seja, de cada 10 reais, quase 5 estão comprometidos com uma “dívida” com o sistema financeiro. Colocamos entre aspas pois até hoje, os valores e a origem dessa dívida são questionáveis.

Isso compromete totalmente o acesso aos direitos e serviços essenciais, como saúde, educação e previdência social. Falta dinheiro para a saúde, para educação, para a infra-estrutura nas cidades, mas sobra pra pagar banqueiros. Os ataques aos nossos direitos (trabalhistas, previdência etc) são apoiados abertamente pelos organismos de crédito internacional a serviço do imperialismo e por seus agentes locais (partidos políticos e ultra-liberais).

Abre-se então uma nova fase de dominação continental imperialista, com participação da burguesia nacional e de seus políticos com a intenção de estabelecer um novo marco na exploração sobre a classe trabalhadora brasileira. Se isso era feito de maneira homeopática pelo PT, depois do golpe de 2013 é aprofundada. A participação dos EUA nos investimentos diretos no Brasil cresceu de 14% (2013-2016) para 31% (2017) [1].

Junto a outros países, esses investimentos chegam a 75 bilhões e se concentram na extração de petróleo e de gás, comércio, telecomunicações, na indústria automobilística e energia. Ou seja, toda a infra-estrutura e setores básicos da economia brasileira passam a ser controlados por empresários de outros países.

Com isso vem o discurso da privatização, defendido principalmente pelos grandes meios de comunicação (Rede Globo, Record etc) que historicamente estão associados ao sistema financeiro, que tenta convencer o povo que entregar a infra-estrutura, terras e recursos naturais e energéticos ao capital estrangeiro “será positivo para os trabalhadores”.

Portanto, está claro que a atual conjuntura de ataques aos direitos do povo no Brasil, e no estado do Rio de Janeiro, está relacionada com esta lógica imperialista, que trabalha junto com os poderosos do país, na manutenção de relações de dominação e exploração que tem avançado ainda mais.

Também são resultados disso os sistemáticos massacres e extermínio da população negra de periferias e favelas, quilombolas, indígenas, sem terras e camponeses, através de políticas de controle e violência militar e policial brutais sobre o povo.

O corte criminoso de recursos da saúde e educação, gerando atraso nos salários de servidores e o sucateamento de hospitais, escolas e universidades, o que só favorece o capital que busca investir e lucrar com estes setores básicos e importantes para a população. As políticas de privatização da água, e de exploração recursos energéticos e naturais, interesse de mega-empresas norte americanas, chinesas e europeias. O que levará a mais massacres e conflitos no campo. Assim como mais precarização do trabalho e dos nossos direitos.

A independência só virá com organização e pressão popular

As saídas não estão em uma outra conciliação de classes com a burguesia (como apontada pelo PT), o que também é outro “conto pra boi dormir”. Não é com a luta subordinada às pautas partidárias e eleitoreiras que se mobilizará o povo. Mas com o trabalho de base e com movimentos sociais independentes onde as bases têm participação e decisão direta nos rumos da luta.

Com mobilização e espaços de democracia direta nos locais de trabalho e de moradia e de estudo, para superar o espontaneísmo de apenas ir ao ato e continuar desorganizado/a. É preciso avançar para além do radicalismo que promete a revolução para a semana e do reformismo que sempre amortece as lutas e pacifica a rebeldia pelo andar de cima.

Apostar modestamente no fortalecimento de um polo combativo e independente. Por isso, nesse Grito dos Excluídos, mais do que nunca as ruas devem ser ocupadas pelo povo apontando nossos inimigos (burgueses nacionais/internacionais, imperialismo e políticos), em unidade contras os ajustes dos de cima, para gritar, resistir e exigir seus direitos, pois as conquistas só virão com organização e pressão popular.

Não é tempo de “amaciar” a luta com burocracias, propor acordos com nossos inimigos de classe ou ir à reboque das eleições. Se o lulismo (esperança dos reformistas) vencer, virá ainda mais recuado do que dos anos anteriores e tudo indica, aliado (como sempre) ao que há de pior na política nacional. É fundamental afirmar um programa popular de defesa dos nossos direitos que não passa pelas eleições de 2018 e pelos conchavos eleitorais que rifam os direitos do povo em nome da “governabilidade”.

A etapa exige um acúmulo de forças populares que só pode se construída à partir de um trabalho de base e de luta nas ruas, sem tréguas, com movimentos populares e sindicatos organizados, contra os ajustes políticos e econômicos!

Democracia direta já!
Barrar as reformas nas ruas e construir o poder popular!

[1] Fonte: Banco Central.

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