Um Relato da Visita do MTD-RJ às Comunas da Terra do MST-SP

Um Relato da Visita do MTD-RJ às Comunas da Terra do MST-SP

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

A chuva constante e as seis horas que separam São Paulo do Rio de Janeiro não foram suficientes para separar homens e mulheres do sentimento de classe que lhes uniam. Aguerridos lutadores, construtores do mundo; operários da mudança e da revolução…

A viagem realizada pelo Movimento dos Trabalhadores Desempregados do Rio de Janeiro, visava conhecer e trocar experiências de luta com as chamadas Comunas da Terra, espaços rururbanos organizados pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST). Dentro do nosso ônibus, núcleos de desempregados da Vila Cruzeiro, Costa Barros, moradores do complexo da Maré, assentados da ocupação Carlos Lamarca, membros da Federação Anarquista do Rio de Janeiro, integrantes do Grupo de Agroecologia da Universidade Federal Rural, do grupo Germinal e participantes do Núcleo Socialista de Campo Grande confraternizavam-se.

A chegada em São Paulo foi sob uma chuva insistente e fina; a primeira parada foi a Comuna da Terra José Balduíno onde nos juntamos a outros militantes e agricultores do MST. Iríamos todos no mesmo ônibus para um ato contra o desalojo criminoso de algumas famílias que vivem numa área rural do município de Franco da Rocha há 40 anos.

Esta área é alvo da construção de uma academia militar de bombeiros. Parece lógico ao poder instituído destruir a vida de algumas famílias para construir uma academia que prepare homens para salvarem outras. E a obstinação com que tentam realizar esta manobra absurda, nos dá a certeza de que a lógica sinistra de um mundo de valores tão invertidos obedece apenas ao poder do capital e de seus fiéis defensores.

Aguardando nosso ônibus no meio do percurso que nos levaria ao ato, estava presente a Polícia Militar do Estado de São Paulo, que na matéria de massacrar e humilhar pobres e trabalhadores não fica atrás de outras forças policiais de outros estados.

Enquanto nosso ônibus era parado à revelia de qualquer irregularidade explícita, outro que levava mais manifestantes em outro ponto da estrada também sofria o mesmo processo de intimidação. O procedimento policial obrigou todos os homens do nosso ônibus a enfileirarem-se na estrada com as mãos na cabeça, enquanto os policiais individualmente intimidavam por meio de ofensas e palavrões os integrantes do movimento: “Baiano besta”, “Cala a boca! Todo mundo calado!”

Nosso crime era um crime de classe, lutar pela liberdade sempre agride os donos do poder e seus mais fíeis protetores, companheiros jamais! A polícia nunca esteve ao lado da classe trabalhadora! Quando esteve foi sempre do outro lado nos exterminando! Os que se aliam à ela em quaisquer hipóteses falam de revolução com um cadáver na boca!

Depois de uma revista desnecessária, não mais violenta porque FILMÁVAMOS toda a ação policial, nossos documentos foram apreendidos para “averiguação”. Não constatando nenhum “crime” ou processo jurídico, a polícia tentou apreender o ônibus por uma suposta irregularidade em nosso extintor que poderia comprometer nossa “segurança”.

O ônibus foi multado, mas conseguimos chegar ao local do ato que já contava com forte presença policial e com a chegada crescente de novas viaturas. Para conter ou exterminar trabalhadores os poderes instituídos não poupam esforços.

Por meio de uma barreira policial montada na estrada de terra que levava às casas dos moradores, a polícia militar impedia que fizéssemos o café da manhã planejado com as famílias do local. Após muitas negociações e chuva, balançamos nossas bandeiras, cantamos nossos gritos de luta, puxamos nosso coro de classe, forçando os policiais a deixarem o caminho livre para o ato transcorrer. Apesar de numerosos e bem armados, era possível perceber o cheiro do medo, pois sim, eles nos temem mesmo de posse do poder armado que esbanjam. Nos temem quando nos ORGANIZAMOS e deixamos de ser uma turba passiva apertadora de botões.

O ato prosseguiu e a barreira policial se manteve, revezando os carniceiros em suas fileiras, pois quem não tem solidariedade de classe não tem força de espírito que obrigue os músculos a suportar a chuva, o cansaço, o barro e a dor.

As negociações não deram o resultado previsto e a correlação de forças nos obrigou a realizar todo o ato perto da beira da estrada. A derrota nunca fez parte de nosso vocabulário, o comandante da polícia militar foi expressamente avisado pelo microfone do carro de som: caso despeje aquelas famílias, voltaremos com um contigente de forças muito superior!

O ônibus partiu rumo à Comuna da terra Dom Pedro Casaldáliga, onde estávamos instalados, não com gosto de derrota, mas com o sentimento que a luta não acaba quando o sol se põe. Durante a noite, uma animada confraternização regada a uma boa conversa, poesia, fogueira e violão tornam o humano da luta um cotidiano e o cotidiano da luta mais humano.

Acordamos sob uma chuva forte, que não nos impediu de nos confraternizamos num café da manhã numa das casas do assentamento onde estávamos instalados; de lá partimos para a Comuna Urbana de Jandira, onde fomos recebidos com um delicioso almoço e uma boa troca de experiências.

Ao final do dia, voltamos ao Rio de Janeiro com a certeza de que ainda há muito a se construir e que o caminho das Comunas da Terra de São Paulo, apesar das especificidades, é feito do mesmo solo que a luta impõe também para o Movimento dos Trabalhadores Desempregados aqui no Rio de Janeiro.

Todo o esforço de organização da viagem foi amplamente recompensado, com a certeza de que o sentimento de classe e a luta social avança!

Viva a organização autônoma dos trabalhadores do campo e da cidade!
Viva a solidariedade de classe!!

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