Trabalhadoras e trabalhadores terceirizados dos Correios na luta! – Entrevista

Na manhã de uma segunda feira, dia 21 de novembro, cerca de 600 trabalhadoras e trabalhadores terceirizados dos Correios realizaram um ato no Centro do Rio ocupando a rua Visconde de Inhaúma. A ação foi uma resposta à exploração e a violação dos direitos que vêm sofrendo da empresa
terceirizada EMPZ e dos Correios. Estão há dois meses sem receberem seus salários, além de outros ataques cotidianos que sofrem da gerência da empresa.

Mais uma vez a luta, a mobilização e a pressão nas ruas mostram que são importantes meios de defesa dos direitos contra os ataques dos patrões e poderosos. O Libera realizou uma entrevista com um dos trabalhadores terceirizados, para conhecermos a situação e suas propostas. Toda solidariedade aos terceirizados e terceirizadas dos Correios!

Libera: O que motivou a mobilização e quais as pautas deste movimento? Quantas pessoas estão nessa mesma situação? Qual é o tamanho do quadro dos trabalhadores dos correios, entre estatutários, CLTistas e terceirizados? O que motivou a mobilização foram os atrasos em nossos salários e benefícios como vale transporte e ticket refeição.

Somos aproximadamente 600 funcionários nesta situação. Nos organizamos porque temos uma pauta em comum. Entre seus pontos destacamos:

– Pagamento dos salários em todo quinto dia útil do mês;
– Benefícios (vale-transporte e ticket refeição) em dia de todos os funcioná-
rios;
– Depósitos do FGTS em dia;
– Pagamento de rescisão;
– Pagamento décimo terceiro salário;
– Abonar os dias parados;
– Transparência nos contratos com os correios;
– Transparência da real situação financeira da empresa;
– Pagamento de juros dos dias em atraso do salário;
– Pagamento de 100% do domingo e feriado trabalhado;
– Pagamento de 50% do dia trabalhado no sábado;
– Fim do assédio moral por parte dos gestores do Comitê Olímpico, da empresa de eventos RGS; Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos no qual
seus gestores da unidade e supervisores, e empresa ao grupo EMPZ no qual somos funcionários direto;
-Fim de ameaça e transferência por parte dos gestores dos Correios;

Libera: Como foi a mobilização? Como vocês avaliam o ato que realizaram? Houve a participação que esperavam? Acham que alcançou os objetivos? Como o sindicato tem agido em relação aos terceirizados? E como este poderia apoiá-los? Em relação a privatização dos Correios via venda de franchising, o que pensam desse processo?

A mobilização começou pelas redes sociais, e no dia 16 de novembro paralisamos as unidades MDC (Duque de Caxias), BDC ( Jacarepaguá), OPV (Vila dos Atletas, Barra da Tijuca). A organização ficou bem forte até o grande dia, 21, segunda. O ponto de encontro marcado foi no relógio da Central do Brasil, às 8 horas. Com todos reunidos decidimos em comum acordo ir para a sede da empresa; caminhamos até o ato na porta da empresa, que fica na rua Visconde de Inhaúma 134, sétimo andar, sala 718. Ficamos reunidos na rua que dá acesso à porta do edifício da empresa e movimentamos de chamar a atenção da opinião pública. A mobilização foi muito positiva e conseguimos que a empresa, na pessoa da gerente regional, convocar uma reunião com uma comissão do nosso movimento, entre 6 a 10 pessoas, para negociar e solucionar o que estamos buscando desde o começo da nossa luta; conseguindo parar o trânsito veio a mídia, a Rádio Globo no programa do Antônio Carlos ao vivo, e o portal G1. Logo houve uma divulga ção que ganhou apoio nas redes sociais. Esperávamos mais funcionários, mas os que foram, em número considerável, foram firmes, objetivos e conscientes. Alcançamos nossos objetivos dentro daquilo planejado nos dias anteriores. O sindicato tem tido um posicionamento distante em relação aos,  terceirizados. Em nenhum momento se pronunciou e colocou as nossas pautas. Lembrando que estamos registrados no sindicado de limpeza que não tem nada a ver com a função a qual estamos atu ando que é a de logística, não nos sentimos representados por este sindicato. Este poderia nos apoiar perante nossos direitos trabalhistas, que não têm sido vistos. Já que é descontado em folha salarial a contribuição para este.

Libera: Atualmente a proposta da terceirização das funções fim de empresas (as funções principais) está em pauta no governo. A defesa desta medida diz que dessa maneira se evitará mais demissões e os empresários se sentirão mais estimulados a contratar. Como vocês avaliam as condições de trabalho de vocês enquanto terceirizados? Como vocês encaram o fato de serem cobrados enquanto servidores, por responderem pelos correios, e serem remunerados de forma precária e desigual? Vocês se entendem como servidores dos correios?

A privatização dos Correios é um desejo bem antigo, desde o governo FHC, e agora com o governo golpista do PMDB fica bem evidente esta privatização e esta operação nas lojas de bairros, parte da lógica do lucro – capital, na imagem da empresa em todos lugares. A rentabilidade para a empresa em terceirizar trabalhadores está bem exposta, que visando a diminuição de custos e gastos aos trabalhadores concursados em seus direitos trabalhistas. O trabalhador terceirizado ganha 20% a menos que um contratado direto. Nisto entra a lei da terceirização a qual o governo atual junto da Fiesp e Firjan e com apoio de outras forças, visando o lucro acima de tudo, o capitalismo e seus meios. A terceirização é uma escravidão moderna. A nossa condição aqui de trabalho não é nada salubre, pois o galpão está cheio de poeira no qual alguns companheiros estão tendo problema de saúde graves, e a gestão ainda menospreza com deboches, dizendo que é normal. Aliás, os Correios repassam um valor x ao pagamento da nossa mão-de-obra, e a empresa EMPZ repassa para as trabalhadoras e trabalhadores um valor bem abaixo disto, cerca de 40%. Então fica claro que justificativa de contratar mais é apenas uma forma do explorador lucrar mais. Vemos esta realidade aplicada na venda da nossa mão-de-obra, dentro de um evento que movimenta bilhões e sequer tivemos desconto ou prêmios e participação destes lucros. Fizemos o trabalho de base que é a logística nos bastidores, essencial para o processo visto nos jogos Olímpicos de 2016 na cidade do Rio de Janeiro. O legado não fica para gente.

Libera: Em que pé está a situação agora, depois da mobilização? E quais os próximos passos?

No momento a situação é de demissões e com avisos prévios estranhos em suas datas de prazo para com gente. Transferências para cumprir avisos prévios, por exemplo: um funcionário que trabalha e mora em Duque de Caxias é transferido para a Barra da Tijuca, sem sequer receber o transporte e ter que tirar do bolso. Por sua vez, a empresa oficializou cumprir um cronograma, assinado perante a categoria de trabalhadores terceirizados dos Correios. Os próximos passos são a vigilância e a observação dos acordos e das promessas a serem, de fato, cumpridas pois a luta continua seja ela na ação nas ruas ou no campo jurídico.

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