Relato de um Desejo e a Glória dos Poderosos

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

 

Sete horas da noite, terça-feira; às pressas somos avisados sobre uma ordem de despejo já emitida pela justiça, de um prédio ocupado no bairro da Glória, Rio de Janeiro. Partimos para o local pela primeira vez e fomos apresentados aos moradores e a ocupação, tentando passar nossa solidariedade ao difícil momento que estes enfrentavam.

Na assembléia é fácil perceber que o clima é tenso e a quantidade de apoios serve, no mínimo, para injetar ânimo nos presentes para a difícil batalha que se seguiria.

A palavra de ordem é RESISTIR. E não poderia ser diferente, são as casas e as vidas de seres humanos que estão em jogo, não há neste momento como esperar um suposto “fortalecimento da democracia”; esta, para nós, já se mostrou frágil há muito tempo. A ocupação não tem um nome específico, foi feita “espontaneamente” pelos seus ocupantes, o que comprova que mesmo sem a presença do Estado ou de líderes iluminados, os oprimidos conseguem tomar para si o que assim lhes diz respeito. Nos apresentamos rapidamente e tentamos compreender da melhor forma possível o contexto da ação de despejo, para organizar uma ação de apoio. O prédio, como muitos outros espalhados pelo mar da especulação imobiliária, permaneceu abandonado por vários anos, sem cumprir nenhum tipo de função social. A estória é confusa, mas pelo que sabemos a suposta proprietária era na verdade uma grileira profissional, que alugava os apartamentos para os moradores e reivindicava sua propriedade. Os moradores tentaram até realizar uma compra do imóvel, mas sem sucesso. Segundo documentos dos próprios, o verdadeiro dono é o já extinto INPS, conforme o registro imobiliário confirma sem maiores dúvidas. Os moradores (a esmagadora maioria composta de trabalhadores e donas de casa), no entanto, reformaram o prédio, fizeram diversas melhorias, alheios às obscenidades do poder público.

Não há tempo para maiores conversas políticas, a situação urge uma saída prática. Na assembléia tentamos passar nossa experiência com a ação direta, dando exemplos práticos de como os moradores podem reagir. Estes já estão convencidos de que não há mais saída jurídica, e devido às circunstâncias críticas só há uma saída: a luta.

Alguns conselhos e sugestões são dados, mas só a realidade objetivamente poderia ensinar-lhes os caminhos dificultosos da luta de classes em sua versão mais transparente, como confirmariam os próximos acontecimentos.

Às seis e meia da manhã, a polícia militar chegava com seus dois micro-ônibus e quarenta minutos depois, efetivamente começava a ação de despejo.

Os portões do prédio foram acorrentados e soldados pelos moradores, para dificultar a ação dos invasores. Os apoios estavam em número reduzido, devido à dificuldade em se criar uma estrutura de solidariedade em tão pouco tempo. Os advogados (um da ocupação e do grupo de apoio) tentaram negociar, mas em ações como esta, a política do governo mostra sua face mais determinada. Sem possibilidades de negociação, sem poder financeiro e alijados da cidadania do capital, as dificuldades se avolumavam categoricamente. Ao questionarmos o ato violento e arbitrário a uma das oficiais de justiça, esta se limitou a responder que “justiça é justiça e deve ser cumprida”.

Justiça segundo a definição do dicionário: “é a virtude moral que leva a dar a cada um aquilo que é seu, ou aquilo a que fez jus”. Como assim? Que justiça é esta? Expulsar 60 famílias e crianças de um prédio há anos abandonado é justo? Sob que lógica? A da propriedade privada? A do capital?

Nossa insatisfação e nossos argumentos incomodaram a ponto de sermos ameaçados de prisão por uma das oficiais de justiça que conduzia a operação sob a alegação de atrapalhar a operação. Fomos, então, expulsos pelos policiais para longe de um dos portões de acesso ao prédio; onde um trabalhador (por ironia) contratado pelos agentes da repressão, tentava quebrar uma das correntes que salvaguardava o prédio da ação violenta do Estado. Os moradores se organizaram muito bem, apesar do pouco tempo que dispunham, portões estavam tão bem fechados, que foi preciso mobilizar outras forças do Estado (Bombeiros) para invadir o prédio. A única câmera que não era da polícia militar foi impedida de filmar a ação mais proximamente.

A polícia “estudava” formas de agir, em determinado momento, invadiu a casa ao lado da ocupação (sem mandado judicial, “diga-se de passagem”, configurando invasão de domicílio) para entrar no prédio, causando pânico e provocando a retirada da moradora pela maca dos bombeiros, pois esta passava mal devido ao estresse nervoso. Do lado de fora, um policial usava spray de pimenta indiscriminadamente, mesmo tendo ciência da presença de crianças no local. Um membro do conselho tutelar dizia que estava presente para salvaguardar as crianças, confrontado com a pergunta de para onde elas iriam se houvesse despejo, este se limitou a gaguejar hipocritamente, dizendo que “não sabia”.

Ninguém “sabe de nada” no Estado brasileiro, sabem apenas incentivar as pessoas a enfeitar as ruas em épocas de copa do mundo em troca de prêmios e alusões cínicas de um patriotismo que serve apenas ao interesse dos poderosos.

Ao conseguirem abrir o portão, não sabíamos exatamente o quê se passava dentro do prédio, o som das crianças chorando e dos gritos resumiam muito bem a política social do Estado quanto à reforma urbana: combate-se a pobreza e a desigualdade social oprimindo os pobres e defendendo ferozmente a propriedade privada. No caso da prefeitura, esta não poupou recursos para a operação, Polícia Militar, Tropa de Choque, Bombeiros, Conselho Tutelar, Justiça Federal e até mesmo a Comlurb estava presente, para ajudar a “varrer” os indesejáveis. Para se ter idéia da disposição com a qual a prefeitura tratava o caso, contamos um efetivo de no mínimo 70 policiais, armados com metralhadoras, granadas de efeito moral, escopetas e spray de pimenta, sentíamos a verdadeira sensação de estar no meio de uma guerra civil. E realmente estávamos; esta era uma guerra mais cínica e demagógica é verdade, uma demonstração aberta e explícita da guerra entre classes.

Em poucos minutos o local tornava-se palco de um verdadeiro espetáculo midiático, a mídia burguesa, representada por diversas redes de televisão, jornal e rádio chegavam ávidas por um bom pedaço de notícia, que recheassem seus noticiários de violência. Com o despejo consumado, alguns moradores recusavam-se a dar entrevistas para a mídia, já que esta foi chamada para noticiar o caso há anos atrás e nunca apareceu.

Os repórteres eram nitidamente mal-intencionados, e tentavam sempre induzir os moradores entrevistados por meio de perguntas tendenciosas a legitimar o despejo. Muitos deles acompanhavam a ação da polícia tão próximos, que às vezes os confundíamos com agentes da secretaria de segurança, devido a “afinidade” clara entre o primeiro (o Estado) e o quarto poder (mídia).

Por volta das 10h30, os ocupantes começavam a retirar seus pertences para não haver mais violência. Muitos se perguntavam: Para onde vamos agora? Para onde vamos? Infelizmente, para esta pergunta o Estado não tinha resposta. A lei já fora cumprida. A suposta “justiça” foi feita e o resto não importava aos agentes do poder. Um prazo de 24h ou 48h foi negado e a presença do corregedor da câmara obviamente uma ação de caráter político para abastecer as câmeras de TV com mais lixo demagógico, apenas sacramentou a ação odiosa da prefeitura.

Tentamos, na medida de nossas forças, providenciar locais para que estes se abrigassem e estabelecermos contatos para futuras ações de solidariedade.

Uma bandeira amarela numa das fardas dos policiais, me fez lembrar a copa do mundo e as ruas enfeitadas pelos habitantes das urbes brasileiras e o apelo cínico da mídia ao patriotismo. Unir especuladores imobiliários e sem-teto, burgueses e assalariados, opressores e oprimidos sob uma única bandeira é uma tentativa de mascarar os conflitos inevitáveis da desigualdade capitalista, mas a ação do poder público apenas reforçou nossa tese, de que este poder é um poder privado, que defende interesses particulares.

Onde estavam os partidos políticos, os políticos profissionais, as ONGs milionárias? Talvez escrevendo algum artigo acadêmico ou alguma tese que confirme que o voto “consciente” é o caminho para mudanças sociais e que a democracia representativa é a saída para problemas como estes. Porém, acontecimentos como estes, apenas servem para reforçar em nossos corações que “não haverá paz para os opressores enquanto não houver justiça para os oprimidos”. Não uma justiça fictícia restrita a retóricas acadêmicas e a salões, mas uma justiça real. Uma justiça revolucionária.

 

 

2006

 

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