A Propriedade é um Roubo: Movimento Sem-Teto no Rio de Janeiro

A Propriedade é um Roubo: Movimento Sem-Teto no Rio de Janeiro

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

A responsabilidade e a disciplina organizacionais
não devem horrorizar: elas são companheiras
de viagem da prática do anarquismo social.
Nestor Makhno

A constante luta pelo socialismo libertário, levada a cabo pela Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), vem sendo concretizada com uma atuação social que está baseada em dois eixos estratégicos: os trabalhos de nossa frente comunitária e de nossa frente de ocupações.

A frente comunitária é hoje responsável pela gestão do Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro (CCS-RJ) e de todos os projetos comunitários que lá estão radicados, como a gestão da Biblioteca Social Fábio Luz (e o trabalho de produção teórica que lá se desenvolve), o projeto de reciclagem e educação ambiental, o projeto de letramento (educação de jovens com dificuldades no reconhecimento da palavra escrita e suas funções de comunicação), o curso pré-vestibular comunitário, a rede de distribuição de produtos alimentícios ecológicos (com participação de pequenos agricultores), o projeto de serigrafia e o núcleo de saúde e alimentação Germinal (que promove almoços vegetarianos regularmente).

A frente de ocupações articula-se em torno da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST). O trabalho da FARJ com os sem-teto teve início há três anos atrás e desenvolve-se hoje em oito ocupações urbanas, que mais recentemente vêm se articulando em torno da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST). A importância que damos ao trabalho com essas ocupações existe, por acreditarmos que as ocupações urbanas questionam, em primeira instância, a propriedade privada, a especulação imobiliária e a lógica do lucro, ou seja, pilares centrais do capitalismo que, como tais, devem ser questionados e combatidos por meio da organização dos explorados.

Da mesma forma, acreditamos que a nós não cabe simplesmente esperar as medidas de bem-estar que podem vir de algum político, partido ou do próprio Estado, mas sim, por meio da ação direta, fazermos de cada dia de luta um dia de aprendizado para a solidariedade e o apoio mútuo.

DA NECESSIDADE DO TRABALHO SOCIAL

Reconhecemos que os momentos de reflexão, produção intelectual e de sociabilidade com as pessoas que têm alguma afinidade ideológica conosco são importantíssimos para o desenvolvimento do anarquismo. Consideramos também que isso é fundamental para a formação política que acontece entre os membros de nossa organização ou mesmo de fora dela, para compreendermos o contexto em que estamos inseridos e termos clareza de onde queremos chegar e por que meios pretendemos caminhar. Como conseqüências positivas desses momentos, acrescentamos, além disso, o estabelecimento de laços de fraternidade com companheiros e companheiras, que acabam por propagar os ideais pelos quais lutamos e aproximar pessoas às lutas que estão sendo desenvolvidas no seio de nossa organização.

No entanto, os pequenos círculos e os infindáveis debates sem desdobramentos práticos não nos bastam, pois acreditamos ser necessário partir para a prática real de transformação social. Acreditamos que há mais de um século, grande parte das respostas para a problemática social que hoje assola o mundo foi dada. Muito se discutiu em torno das conseqüências nefastas da economia capitalista, hoje ainda agravadas por sua concepção neoliberal: miséria, desigualdade social, níveis baixíssimos de educação e saúde. Muito também se discutiu em torno do papel alienador e opressor do Estado e de todas as suas instituições. Nossa posição é que a bandeira negra do anarquismo tem muitas respostas teóricas e experiências práticas que podem auxiliar o trabalho social e fazer com que ele constitua-se como uma ferramenta concreta e contemporânea nas lutas contra a exploração e a alienação.

Para isso, é necessário extrapolar as questões teóricas e concretizar as nossas demandas de transformação social, buscando inspiração e saber nas lutas passadas. Se a teoria não ganha corpo na luta social, a chance de exercermos alguma influência política, econômica ou social não existe. Se não buscamos a associação e a organização bem articuladas, acabamos por não conseguir exercer qualquer influência nas lutas e consequentemente na sociedade de hoje.

Acreditamos que é dentre as maiores vítimas do capitalismo – pessoas que têm necessidades reais e que sofrem de maneira mais dura suas conseqüências – que o anarquismo tem campo para florescer e para prosperar. Por isso afirmamos a necessidade do trabalho social, desenvolvido pelos anarquistas de maneira organizada, criando uma alternativa real de combate à ordem estabelecida, oferecendo possibilidades concretas de melhoria nas condições de vida de trabalhadores (empregados e desempregados), potencializando o ideal revolucionário e pavimentando o caminho rumo aos nossos objetivos de longo prazo.

Para nós, se o anarquismo pretende constituir minimamente uma força social considerável, que possua espaço na sociedade, ele deve sair dos guetos, ampliar seus horizontes, interagir ativamente em meio à sociedade, atuar dentro dos movimentos sociais e das lutas mais diversas, em busca de seu devido espaço.

É dessa maneira que, com muita humildade, temos tentado desenvolver os nossos trabalhos.

FRENTE INTERNACIONALISTA DOS SEM-TETO (FIST)

Como mencionamos anteriormente, a frente de ocupações da FARJ está organizada em torno da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST). Demos início aos nossos trabalhos com as ocupações há três anos atrás, a partir de uma demanda palpável da população carioca, por razão de toda a falta de espaço que é ocasionada pelo livre trânsito do capital, que “limpa o centro” e que joga os pobres cada vez mais para a periferia. Pobres que são então obrigados a amontoar-se nos morros, nos subúrbios ou a quilômetros de distância de seus locais de trabalho (quando existe algum trabalho para eles). Dessa forma, identificamos que este poderia ser um terreno fértil para as idéias do anarquismo.

Sabemos, no entanto, que políticos aproveitadores, partidos corruptos, aparelhistas de toda sorte, ONGs assistencialistas, instituições religiosas e o próprio tráfico de drogas constituem obstáculos para a radicalização do movimento social e da semeação das idéias libertárias. Foi nadando contra toda essa lógica, que corrompe muitas vezes o movimento social, que iniciamos nosso trabalho e acreditamos, após um significativo período de luta, que os resultados são bastante positivos.

A constituição da FIST deu-se a partir do trabalho que já era realizado por nós em quatro ocupações: Olga Benário, Vila da Conquista, Poeta Xynayba e Nelson Faria Marinho. A FARJ teve importante participação na constituição da FIST, estabelecendo juntamente com seus outros membros, princípios éticos e morais mínimos para a convivência, articulação política e organização das lutas do movimento de ocupações do Rio de Janeiro. Além disso, o respaldo jurídico às ocupações também acabou constituindo um de seus fortes pilares.

Dentro da FIST, a FARJ trabalha para organizar-se com outras pessoas de ideologias diferentes (basicamente comunistas apartidários) e representantes de cada uma das ocupações. Há militantes da FARJ residentes em uma das ocupações, a Poeta Xynayba. Tanto esses militantes, quando os outros da frente de ocupações, revezam-se entre a participação nas assembléias de cada uma das ocupações e da FIST.

O trabalho que desenvolvemos na FIST e nas ocupações gira em torno da formação política, da organização de atividades pedagógicas e educativas, e também do auxílio freqüente nas questões que surgem no dia-a-dia. Além disso, estimulamos permanentemente a participação de todas as ocupações no fórum geral de articulação, que é a FIST. Também nesta instância se dá o nosso trabalho de propaganda do modelo de organização libertário, estimulando as práticas de autogestão, federalismo, apoio mútuo e ação direta, com o objetivo de que elas aconteçam na prática o máximo possível.

Muitas vezes há um trabalho de aparar arestas de autoritarismo que surgem nos grupos ou nos representantes que atuam na FIST, que encaram a representação como um posto de autoridade, ou que assumem valores do sistema vigente. Como uma prática comum do federalismo em que cremos, estimulamos que cada uma dessas ocupações tenha representantes na FIST. Estes representantes –delegados de cada uma das ocupações – discutem com os outros delegados a articulação das lutas e assim, não é necessária a participação neste fórum de todos os membros de todas as ocupações, o que seria um completo descabimento. Além disso, a FARJ faz questão de estimular a tomada de decisões coletiva, mostrando na prática como funcionam os conceitos de horizontalidade e democracia direta. Acreditamos ser essa uma forma de tirar o autoritarismo da cabeça e da vida das pessoas; dando o exemplo da solidariedade de classe, trazendo conceitos libertários para o trabalho prático do dia-a-dia, incentivando e encorajando os outros militantes.

Princípios da autogestão e da ação direta são também utilizados na solução dos problemas particulares, que frequentemente acontecem. Neste processo de solução dos problemas, incentivamos o gerenciamento dos conflitos sem que ocorra a dominação de uma pessoa ou grupo por outros, o poder de voz igualitário, as discussões em meio às assembléias e as tomadas de decisões coletivas, comprovando-se assim que este é um método de organização e de solução de conflitos muito mais efetivo, solidário e democrático do que aqueles que buscam a confiança em terceiros, como em governantes, policiais ou mesmo na Justiça.

O crescimento da FIST acontece como resultado de um processo bastante fundamentado que busca, desde um primeiro momento, conversar diretamente com os representantes da comissão de moradores das ocupações e, estreitando os laços, mostrar os exemplos das conquistas e das vantagens da articulação política em torno desta frente. O objetivo é tentar trazer essas pessoas para as reuniões, fazendo com que as ocupações saiam da política estritamente local e da comunidade, e passem a trabalhar articuladas com as outras ocupações, com práticas de solidariedade e apoio mútuo, potencializando os resultados da mobilização e da luta.

Muito importante também é o estreitamento de laços que estimulamos das ocupações com outros militantes ou pessoas simpáticas aos projetos que estão sendo desenvolvidos. Acreditamos que essas outras pessoas, que têm afinidade com as idéias libertárias, quando em contato com as ocupações, têm espaço para desenvolver atividades com as quais mantém algum tipo de afinidade (trabalhos culturais, projetos de alfabetização e hortas comunitárias, por exemplo) e dessa forma engajar-se de maneira mais séria nas lutas.

Há um importante esforço de se acabar com o conceito de invasão e de se trabalhar o conceito de ocupação, que traz em seu bojo a concepção de posse. A posse estimula a não comercialização e a não obtenção de lucro sobre a propriedade, estimula a propriedade coletiva que é utilizada por quem tem necessidade. É importante que não se transforme a moradia em um local comercial, e que se discuta de maneira clara, o que é de uso privado (de cada um) e o que é público (de todos). Aquilo que está interno às residências como, por exemplo, os bens e a mobília, é inicialmente privado. O espaço externo e os centros comunitários, por exemplo, são espaços públicos.

Similar ao que acontece no campo, quando os movimentos de sem-terra ocupam propriedades improdutivas, realçamos na área urbana a idéia de reapropriação dos espaços abandonados. É assim que buscamos dar uma função social para os espaços vazios, transformando-os em moradia para os sem-teto cariocas.

EM CADA UMA DAS OCUPAÇÕES

Vila da Conquista / Nelson Faria Marinho

Localizada no bairro de Curicica, zona oeste do Rio de Janeiro, inicialmente constituíam duas ocupações vizinhas, atuando independentes uma da outra. Foram constituídas há aproximadamente três ou quatro anos em um terreno e, depois da ocupação, aos poucos as casas começaram a ser construídas. O local funcionava então como um lixão da região e, algumas vezes, servia ao crime organizado para desova de corpos. A maioria das casas é de alvenaria e algumas poucas são de madeira. Desde o início, os moradores recusaram qualquer auxílio do poder público e constituíram, de maneira autônoma, suas próprias redes de luz, água e esgoto. Na Vila da Conquista moram hoje aproximadamente 80 famílias.

A ocupação Vila da Conquista teve um trabalho, em um período anterior, de militantes de partidos políticos que valorizavam somente a competição entre os moradores e a obtenção de “quadros” para o partido, sendo o PC do B um dos maiores representantes dessa estratégia no local. O partido percebeu que os moradores não serviam de “base” e também não se interessavam pela participação parlamentar (apoiando lideranças locais, etc.). Ao mesmo tempo, conforme os políticos começaram a não cumprir as promessas de campanha, houve um processo de perda de credibilidade e de afastamento dos ocupantes em relação ao partido. Assim, os ocupantes, de maneira autônoma, decidiram pedir apoio da FARJ (a FIST ainda não existia no momento) para a continuidade dos trabalhos que estavam em desenvolvimento ou, ao menos, em projeto.

A ocupação Nelson Faria Marinho foi resultado de uma expansão da Vila da Conquista para o terreno ao lado. Lá vivem hoje outras 80 famílias, totalizando nas duas ocupações aproximadamente 160 famílias. Há quatro meses as duas ocupações decidiram se unificar, constituindo uma só organização. O que unifica as duas ocupações são as assembléias em conjunto – somente uma assembléia para os dois espaços – e os benefícios que se consegue com as arrecadações públicas e os sindicatos, que acabam servindo às duas.

Há algum tempo, quando o subprefeito da região de Jacarepaguá decidiu pelo despejo, e na ocasião destruiu duas casas e o centro comunitário das ocupações, a FIST apoiou os ocupantes numa ação de indenização contra a prefeitura. As ocupações, nos fins de 2005, ganharam a ação contra a prefeitura para a manutenção de posse, além da indenização por danos materiais e morais.

Poeta Xynayba

Localizada na Tijuca, zona norte do Rio, a Xynayba é uma vila de casas que já tinham sido edificadas na época em que os moradores entraram. A estrutura das casas remete a um histórico de quase 80 anos, pois, na realidade, a vila foi construída para abrigar os moradores do antigo Morro do Castelo, que tinha a mais antiga igreja carioca, morro esse que foi derrubado para facilitar o acesso da região central à zona sul, e cuja terra foi utilizada para o aterro do Flamengo. Essas casas chegaram a funcionar como uma vila operária no período Vargas e há algumas décadas foram tombadas pelo patrimônio histórico. No governo de César Maia, esse patrimônio foi “destombado” e os imóveis, abandonados, acabaram ocupados pelos atuais moradores. Alguns dos moradores que habitam o local são descendentes de ex-moradores, que outrora residiam no local. A ocupação hoje conta com 38 famílias residentes.

O morador mais antigo está lá há 14 anos, porém a maioria das pessoas vive no local há aproximadamente três anos. Antigamente, os moradores pagavam aluguel a um outro ocupante, que se impunha pela força. No início da organização com a FARJ e outros grupos, essa pessoa foi expulsa e o sistema de coletivização das discussões, as assembléias permanentes e a posse, em oposição à propriedade privada, foram implementados. O processo jurídico teve início há dois anos, quando se deu à ocupação o nome do poeta, que era um militante do movimento social e ecologista do interior do estado do Rio de Janeiro, chamado Antonio Vieira, e popularmente conhecido como Poeta Xynayba (uma mistura de chinês com paraíba). O poeta morreu recentemente, no ano de 2005.

Domingos Passos

Localizada em Sampaio, zona norte do Rio de Janeiro, é a mais recente ocupação a integrar a FIST. Fica em um terreno com um casarão de aproximadamente 100 anos de idade. A maioria das famílias mora dentro desse casarão, mas no terreno em volta dele, há outras seis pequenas casas construídas. O local já é ocupado há oito anos, mas só há cinco meses a ocupação, como organização, integrou-se à FIST e passou a chamar-se ocupação, dando assim um sentido mais politizado às suas atividades. O espaço era alugado e, num determinado momento, descobriu-se que o proprietário simplesmente não existia. Com o desaparecimento da pessoa que intermediava a relação de locação do espaço, o local ficou “sem dono”, e como os moradores acharam que poderiam ser expulsos a qualquer momento, decidiram dar um reforço político ao projeto, procurando o trabalho da FIST para auxiliar na organização da ocupação. Isso aconteceu pelo reconhecimento da FIST em meio às ocupações – neste caso, mais especificamente a Poeta Xynayba. Há algum tempo, o segundo andar do casarão desabou (local onde morava uma família), deixando todas as outras famílias (que viviam na parte de baixo) desalojadas. No momento, as famílias providenciaram, com a solidariedade de sindicatos e outras ocupações, lonas e material para lá ficar e estão arrecadando material de construção para refazer o casarão; um belo exemplo de solidariedade. Vivem lá 24 famílias.

No início do processo de politização da ocupação, as reuniões aconteciam semanalmente, mas conforme as coisas começaram a “entrar nos eixos” e a rotina a se estabelecer, as reuniões passaram a acontecer a cada 15 dias. O nome da ocupação é fruto da influência libertária no local e uma homenagem a um anarquista que esteve ligado à construção civil, responsável pela organização dos trabalhadores cariocas, no início do século XX.

Olga Benário

Localizada em Campo Grande, na zona oeste do Rio de Janeiro. Fica em um terreno ocupado, onde antigamente os moradores viviam em barracões de lona e sofreram mais de quatro incursões da polícia, resistindo em todas elas. A partir da terceira vez, a resistência foi determinante, com um papel preponderante das mulheres na luta contra a polícia. Desde então a polícia parou as suas investidas e os moradores começaram a fazer as construções de alvenaria, que constituem hoje o maior número de casas. Hoje, moram nesta ocupação, aproximadamente 100 famílias.

A ocupação tem mais de três anos e a FARJ desenvolve trabalho por lá há dois. Uma recente discussão é o método de entrada na ocupação e um problema que lá existe é a repressão aos moradores feita pelos grupos de extermínio ligados à polícia e aos políticos. Estes grupos, além da “propaganda política” forçada, muitas vezes se apropriam de terrenos e os vendem, um grave problema para os objetivos políticos da ocupação. As assembléias acontecem a cada 15 dias e quando algum problema ou assunto de urgência aparece, há assembléias extraordinárias.

Confederação dos Tamoios

Localizada no Cosme Velho, zona sul da cidade, é talvez uma das ocupações mais peculiares dentre aquelas com as quais trabalhamos: foi feita em uma mansão, abandonada há mais de 30 anos, em um bairro de classe muito alta (próximo ao Cristo Redentor) e tem deixado a high society carioca em pânico. Os ocupantes entraram previamente com um processo de manutenção de posse para garantir que estão no legítimo direito de morar no local. O antigo proprietário era dono do jornal Correio da Manhã e hoje, a filha dele, apoiada pela associação de moradores do bairro (sic), pela prefeitura e por membros da Justiça, está movendo um processo para retirada dos moradores do local (com inúmeras arbitrariedades jurídicas). A propriedade é sustentada por esses setores da burguesia como sendo um patrimônio histórico, com claro objetivo de retirar os ocupantes, que estariam “destruindo o imóvel” (o que, inclusive, não foi comprovado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – INEPAC). Atualmente 22 famílias habitam o local.

A ocupação foi organizada por militantes do Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL) e com apoio essencial da FIST, sendo batizada inicialmente de “Com Jeito Vai”. Parte dos militantes que constituíram a ocupação pertence a um grupo que partilhava conosco opiniões favoráveis à autonomia e que participou de manifestações pelo voto nulo nas últimas eleições. Vale dizer que o MTL é um setor de movimento social do PSOL, que havia desautorizado formalmente a direção do MTL a constituir essa ocupação. Desobedecendo aos mandos da hierarquia, este grupo do movimento deu vida à ocupação em seu momento inicial. Porém, problemas relacionados às próprias polêmicas internas do movimento ao qual este grupo estava inserido prejudicaram a sua permanência na organização da ocupação. O grupo se retirou e a ocupação pediu entrada na FIST. Esta questão foi amplamente discutida e se concluiu pela aceitação da ocupação, que passou a se chamar Confederação dos Tamoios (em referência à luta antiga dos índios cariocas contra a invasão portuguesa).

Margarida Maria Alves

Localizada na cidade de São Gonçalo, no bairro de Trindade, a ocupação tem mais de 30 anos de história, tendo sido realizada ainda na década de 1970. Na época em que foi ocupada, era um imenso brejo, porém hoje as condições são muito diferentes: o local foi aterrado pelos ocupantes, que também participaram ativamente na constituição da rede de luz, água e esgoto, juntamente com os vizinhos da época. A maioria dos moradores é constituída por migrantes da cidade de Carpina, Pernambuco, que por sua origem nordestina, optaram por ressaltar o nome de Margarida, uma militante sindical dos trabalhadores de usinas na Paraíba, que morreu assassinada à mando de um usineiro em 1983. As casas são de alvenaria e há 10 famílias vivendo no local.

Como os moradores não possuíam a documentação do terreno, a prefeitura reivindicou sua propriedade, justificando que ela seria pública e exigindo a desocupação por parte dos moradores. Há um ano e meio eles se integraram à FIST e passaram a dar passos mais largos rumo à organização e à combatividade, aumentando o ritmo das assembléias e articulando-se com as outras ocupações. Como muitos de seus moradores são ligados à construção civil, essa ocupação ajuda muito as outras, com o auxílio na compra de material de construção e mão-de-obra qualificada.

Quatro Casas do Instituto Benjamin Constant

As casas, localizadas no bairro da Urca, zona sul do Rio, têm uma história interessante: foram doadas na época do segundo Império pela corte de Dom Pedro II para funcionários e pacientes cegos do antigo instituto. Ao longo do tempo, as gerações de funcionários foram herdando as casas que vagavam, ficando responsáveis pela manutenção do espaço. Lá, há casas que foram ocupadas por militantes do movimento social, e casas em que vivem aposentados e membros da classe média, estando em cada casa, uma família. Por estarem em uma área nobre da cidade, próxima do Iate Clube, têm uma visibilidade significativa.

Houve anteriormente uma articulação política que já não acontece hoje em dia. Apesar disso, quatro dessas casas se reuniram com o objetivo de entrarem juntas, com um processo contra o governo, que há tempos passou a cobrar uma “taxa de ocupação” dos moradores. No governo Lula essa taxa aumentou muito, havendo casas cuja taxa mensal chega a quase R$ 2000,00. Quatro delas comprometeram-se a trabalhar com a FIST, apesar de não constituírem formalmente uma ocupação, com articulação política.

É LUTANDO QUE SE APRENDE A LUTAR

A legitimidade que tem sido conquistada pela atuação da FARJ e pela FIST, mais o comprometimento e a ética adotados na prática, têm constituído elementos facilitadores para o trabalho dos militantes nas ocupações. Por isso, militam juntos sem maiores problemas as pessoas que vivem nas ocupações e os militantes que não vivem. Mesmo estes, não são vistos como estranhos que vêm de fora, mas sim como companheiros de luta que estão no mesmo barco, em busca de um trabalho coletivo na luta contra a exploração e o privilégio.

É assim que julgamos estar começando um processo de inserir o anarquismo dentro do cenário político e dos processos de luta contemporâneos. É assim que buscamos sair dos pequenos círculos e ampliar o escopo do anarquismo social, utilizando-o com uma ferramenta fundamental de suporte às lutas cotidianas. Por sinal, é na luta que vemos muitas das diferenças desaparecerem. É na luta que aprendemos, junto com outros explorados, as lições de solidariedade e da autogestão. É exatamente quando as pessoas são estimuladas a desenvolver completamente seu potencial e sentem-se envolvidas na luta – e não são meramente utilizadas como uma massa de manobra – que vemos aflorarem os princípios libertários.

Neste processo de lutas existe uma série de contratempos que a própria organização busca superar para, com isso, prosseguir caminhando. Como qualquer trabalho com os movimentos sociais, as dificuldades são muitas: no caso específico das ocupações, com o tráfico de drogas, a violência, as instituições religiosas, a polícia, a ideologia capitalista que está dentro do imaginário popular, dentre outras. Temos convicção de que a militância que pretende obter ganhos sociais terá de lidar com esses e outros problemas. Por isso, buscamos entender esses problemas como momentos de aprendizado e de acúmulo para a organização, estando certos que isso só se resolverá com muita persistência e acúmulo desse aprendizado.

A horizontalidade é um norte que direciona nossas ações e que se estabelece como nosso objetivo último, mas, como todos que estão na luta sabem, essa busca da autogestão é incessante e quanto maior o trabalho desenvolvido, maior a necessidade de trabalho. É uma busca interminável que só se consegue superar com grande comprometimento e dedicação, elementos que com muita humildade, temos tentado trazer à militância anarquista. “Porque a noite escura passará, e nós trabalharemos para ver o amanhecer.”

SE MORAR É UM DIREITO, OCUPAR É UM DEVER!

PELA CONQUISTA DA MORADIA E A COLETIVIZAÇÃO DO SOLO URBANO! PELA AUTOGESTÃO SOCIAL! PELO SOCIALISMO ANTIAUTORITARIO E INTERNACIONALISTA!

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