Por um Novo Paradigma de Análise do Panorama Internacional

Por Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

“Na verdade, as utopias dos anarquistas andaluzes, dos zapatistas, etc., foram muito realistas. O que acontece é que os observadores intelectuais tendem a esquecer que o céu dos pobres é um céu muito modesto.” (Rudolf de Jong)

A luta dos anarquistas contra o sistema torna-se, a cada dia, mais complexa. A transformação da sociedade, movida por imperativos que muitas vezes buscamos destruir, nos obriga a pensar com um mínimo de autonomia as enormes tarefas que nos aguardam e que devem inspirar todas as nossas ações e táticas de combate. Para tanto, é necessário que busquemos analisar alguns paradigmas que, por serem sistematicamente utilizados, às vezes, acabam por influenciar significativamente nossas atitudes diante dos programas e demandas levados a público por setores da “esquerda” autoritária.

REALISMO POLÍTICO E TERCEIRO MUNDISMO
Durante muitos anos as teorias das Relações Internacionais foram divulgadas por um duplo prisma: de um lado o Realismo Político – calcado nos princípios de Hobbes de que, o homem é o lobo do homem –, a partir do qual as relações entre países deveriam obedecer à lógica de blocos de poder, ou áreas de dominação, dentro das quais os atores internacionais necessariamente buscariam evitar a hegemonia de uma única nação sobre determinada extensão continental ou regional. Uma vez que um determinado país se aproximava de tal situação, ou seja, a de tornar-se hegemônico, as demais nações, por segurança, deveriam auxiliar os países vizinhos ou naturais concorrentes a diminuírem a importância do hegemonista no contexto internacional. Tal atitude impediria a ascensão bélica e econômica, assimétricas e desiguais entre países, o que, quando acontecia, arrastava quase sempre um punhado de nações à guerra. Para elucidação desta política, basta lembrar o exemplo da Inglaterra que, para evitar a hegemonia da França, na Europa Continental no início dos anos 30 do século passado, teria ajudado a financiar o “milagre” econômico da Alemanha nos primórdios da escalada do nazismo.

O outro paradigma das Relações Internacionais, um pouco mais recente, passou à história com distintivo de “terceiromundismo”. Esta ferramenta de análise, inaugurada com a Conferência de Bandung, em 1955, defendia a idéia de que os países deveriam se organizar segundo sua classificação econômica e reivindicar as melhorias para todos, quase na totalidade ex-colônias dos países europeus, como fórmula para uma paz duradoura e progresso internacional. Os principais organizadores da conferência foram: Índia, Indonésia e a antiga Iugoslávia, já com algumas divergências da linha de Moscou.

Muito do que se discutiu em Bandung foi aproveitado pela URSS, para desenvolver uma nova retórica, em relação à independência dos países pobres da África e do antiimperialismo divulgado pelos PCs nas nações miseráveis das Américas e Ásia. Até na América Latina, tivemos, nos anos 60, através da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), a introdução da “Teoria da Dependência” que possuiu, entre outros, Fernando Henrique Cardoso como epígono. De fato, apesar de o terceiromundismo possuir qualitativamente um distintivo em relação ao Realismo Político, ele foi fruto de uma discussão de cúpula promovida pelas elites das nações promotoras do encontro.

Dessa forma, os anarquistas precisam de um paradigma independente para a análise do contexto internacional. Se vamos propor novas formas de luta é necessário que nossa análise seja diferenciada. É fundamental que as conclusões sejam o fruto de uma perspectiva emancipada do receituário terceiromundista que, ainda hoje, influencia a quase totalidade das esquerdas.

Não devemos, inclusive, reproduzir o discurso simplista, repetidas vezes defendido pelos marxistas, com base naquela teoria, de que: “nós somos pobres porque eles são ricos”. Tal atitude interessou à esquerda marxista durante a vigência do mundo bi-polarizado e induziu ao equívoco de entender que reforçar certos elementos do nacionalismo, mascarados pela “latinidade”, faria avançar a luta na América Latina. Como arrimo de tal concepção, Rudolf de Jong afirma que, após a independência de países africanos e asiáticos, os comunistas e socialistas “admitiram” entusiasticamente o nacionalismo orientado para o centro (núcleos de poder urbanos, sob forte inspiração liberal burguesa), que se verificou na organização das jovens nações.

Torna-se assim necessário definir que América Latina defendemos, para, posteriormente, encontrar formas de luta propositivas. Assim como nos anos 60 e 70 o foquismo guerrilheiro foi inspirado, em grande medida, no terceiromundismo, e algumas forças revolucionárias naquele momento encontraram razões para a luta, é necessário um olhar libertário e contemporâneo para o contexto social latino-americano e uma teoria genuinamente anarquista para fomentar ações conseqüentes e de confronto com o capital.

É, assim, fundamental aprender com as experiências de nexo anarquista e, enfileirá-las, para um estudo sistemático e fecundo daquilo que queremos e/ou devemos fazer. Vertentes como o magonismo, e agora o próprio zapatismo, cheias de ensinamentos nos campos da autonomia e federalismo, tão claramente libertários, devem ser as premissas de um estudo sistemático de todos aqueles comprometidos com a causa da liberdade. A pluralidade, o respeito às etnias e a diversidade de métodos de luta estão a nossa disposição e nos foram generosamente legados por séculos de resistência indígena, negra e mestiça contra toda opressão, antes mesmo da vulgarização da palavra capitalismo.

A questão de fundo que se coloca é: como vencer as limitações de um vocabulário político datado historicamente e, efetivamente, sem nenhuma relação com a cultura revolucionária anarquista, tendo em vista que carecemos não apenas de novas formas de organização, mas também de iniciativas mais conseqüentes de retomada de nossas raízes sociais no continente americano.

Como, e isso se faz necessário a cada dia, romper com o nosso ostracismo sem abrir mão de nossa prática ética e libertária desacreditada no decorrer do século XX por nossos inimigos marxistas e que, sob a desculpa de inserção do anarquismo nas lutas sociais, recebe agora o reforço de muitos dos militantes de organizações autoproclamadas especifistas?

Acreditamos que as questões acima apresentadas, se não se resolvem com rapidez e simplicidade, podem ter um encaminhamento mais objetivo e com o mínimo de garantias para esta primeira fase dos nossos trabalhos. Devemos pensar de forma diferente o processo histórico. Como no século XIX, o anarquismo deve continuar sendo uma alternativa radical e não apenas um grupo de pressão que, no coro das esquerdas, represente apenas uma voz dissonante. Temos que, como na Primeira Internacional, apresentar uma estratégia que atraia os grupos oprimidos e, por ser ousada e íntegra na sua afinidade com os nossos princípios, marque claramente a diferença dos anarquistas, mesmo quando entendermos viável uma aliança tática com organizações revolucionárias não libertárias.

POR UMA TEORIA LIBERTÁRIA
Para tanto, é fundamental esboçarmos uma teoria para que possamos ler o mundo em que estamos. Não como uma lente que adapte a realidade às nossas preferências, mas um conjunto de paradigmas que nos dêem, ao menos para pensarmos nossas tarefas, o mínimo de consonância reflexiva. Algo que possibilite um “idioma comum” a ser utilizado nas discussões evitando assim, não o dissenso, mas as veleidades autorais e as dispersões de concepção muito comuns em certos momentos dos nossos processos decisórios.

Assim pensando, devemos entender que as teorias que dividiram o mundo em países “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”, por um lado, traziam em seu cerne o signo da autoridade de classe, ao defenderem um padrão satisfatório único de desenvolvimento para todas as nações. Mas que, ao relegarem as “áreas periféricas” ao campo da marginalidade garantiram, inversamente, para estas regiões, uma fisionomia pluriforme, de difícil categorização. Tal atitude, que buscava estigmatizar e, contraditoriamente, inserir todas as nações no sistema capitalista, acabou por demonstrar que a “pobreza” de determinadas áreas poderia ser interpretada como uma não vinculação ao projeto hegemônico de industrialização do planeta.

Muitos grupos, realmente marginais do ponto de vista do sistema, o eram, por defenderem uma resistência, sem quartéis, ao avanço do capitalismo. A inadequação ao sistema, assim, não implicava na falta de capacidade, mas em uma decisão política deliberada de não tomar parte no banquete ególatra promovido pelo capital. Posição análoga verificamos no passado em relação ao “lumpemproletariado”, difamado por Marx, mas que encontrou em Bakunin um sincero admirador, tendo em vista este entender que as iniciativas revolucionárias deveriam obedecer à metodologia federalista, por ele coerentemente defendida no seio da AIT.

Bakunin, muito antes das “modernas” teorias das Relações Internacionais, já rejeitava a relação centro-periferia, ou antes, percebia tal dicotomia como simples mistificação intelectual de seu tempo. Às injunções desenvolvidas por Marx, no campo da AIT, e a própria concepção de progresso, revelada na prática, pela proposta centralista dos marxistas, respondia Bakunin com uma visão duplamente revolucionária. Ele dissociava a existência de um centro – modelos bem sucedidos de capitalismo europeus – das lutas sociais, como um todo, que ocorriam no continente. Tudo era rebelião e, sem dogmatismos, Bakunin esteve em movimentos das mais diversas naturezas, desde que levassem a atitudes revolucionárias.

Assim, a partir de uma atualização, podemos dizer que a luta dos oprimidos na América Latina é essencialmente anticapitalista, pois pelo seu caráter autônomo e federativo, inclusive rejeitando o modelo foquista dos anos 60 e 70, segue incluindo em seu conjunto de demandas as questões étnicas e de identidade. Questões, aliás, presentes em lutas ancestrais e que agora, sob uma nova conjuntura, ganharam força e varreram, em grande parte, das agendas destes grupos concepções de monolitismo e engajamento na perspectiva do marxismo-leninismo. Teorias, como as que determinavam a transformação de todo o movimento social em partido político, hoje sofrem sérias e severas críticas por boa parte das organizações em luta.

Deve-se também lembrar do magonismo que, através do Partido Liberal Mexicano, logrou potencializar todo o espírito anticapitalista dos camponeses mexicanos e colocá-lo em profunda harmonia com a estratégia da luta classista, em um México essencialmente rural e indígena. Estratégia, aliás, que negava a existência de um centro a ser tomado pelas massas amotinadas na Revolução de 1910; a anomalia era o governo, suas instituições e seu projeto para todas as comunidades do país.

O grito rebelde partia de muitas regiões, as forças que lutaram contra a ditadura porfirista, a despeito do setor reformista, continuaram autônomas e, por esse motivo, a revolução se manteve por vários anos podendo-se observar o fenômeno do “Povo em Armas”. Nesse sentido, entendemos que o nosso patrimônio histórico encontra-se em todos esses processos emancipatórios que, a despeito da ocultação que deles faz a história ordinária, não abandonaram o nosso imaginário social.

RELAÇÃO CENTRO-PERIFERIA E GUERRILHA
Entre muitas outras, o anarquismo apresenta uma distinção clara em relação ao marxismo. Como na retórica liberal, os marxistas pregam uma hipertrofia do centro industrial das cidades que, com seus valores, deveria “incluir” no novo mundo da técnica os demais setores da sociedade.

Assim, o proletariado como elemento constitutivo do espaço urbano, apenas provisoriamente apartado da nova sociedade, pela alienação que experimentava em relação aos meios de produção, era quase que a única força revolucionária a ser considerada na luta contra o Estado burguês. Tal lógica, certamente, justificaria a condenação que fizeram Marx e Engels de grupos periféricos, ou mesmo de etnias pertencentes a Estados em formação, como os “mexicanos preguiçosos” e “indianos atracados”, em favor do avanço das forças produtivas nestes locais. Como vimos, os anarquistas discordam peremptoriamente dessas premissas e, para formulação de um consistente contradito, devem levar em consideração mais alguns elementos.

Historicamente, os libertários defenderam a ação em áreas periféricas. Bakunin já apontava a importância de se fazer a agitação em países europeus “menos centrais” como a Itália, Espanha e a Rússia. Ele entendia, como denunciou na AIT, que o proletariado de áreas com economia capitalista “desenvolvida” tendia a lutar pelos benefícios resultantes do próprio sistema, tornando-se assim, a médio prazo, uma força reformista. Inversamente, os pobres da periferia, quase sempre alheios a qualquer benefício real, tendiam a buscar formas de organização de caráter revolucionário. As necessidades concretas das massas de excluídos, ainda segundo Bakunin, é que as impulsionaria à rebelião sem a intermediação de políticos ou a aceitação de promessas reformistas. A luta, dessa forma, seria encaminhada por quem realmente sentia os efeitos do sistema e, por conseguinte, precisava urgentemente aboli-lo.

Tal reflexão, principalmente se levarmos em consideração o advento do “Estado de Bem-Estar Social” pelo qual passaram os países desenvolvidos, certamente coloca a América Latina em condição privilegiada para a constituição de grupos insurgentes com vias ao desenvolvimento de processos realmente revolucionários.

A própria história da América Latina, os séculos de espoliação, e as múltiplas iniciativas populares anticapitalistas, nos permitem a construção de um paralelo entre o que propunha Bakunin para a Europa e o que se pode vislumbrar hoje em termos de estratégia revolucionária. O nosso continente fervilha de múltiplas rebeliões. Demandas contra o sistema inspiram, a cada dia, mais e mais, levantes camponeses e indígenas.

O movimento operário das grandes cidades, em muitos aspectos perplexo por haver optado pela via reformista, principalmente após a década de 1930, busca novos horizontes e percebe, nas comunidades em luta, uma nova inspiração para retomar o fio partido pelo populismo do nexo revolucionário, antes expresso pelo sindicalismo revolucionário. Ao que tudo indica é na periferia, nas “margens”, que a revolução mantém acesa a sua chama.

Nesse contexto podemos, como complemento necessário à nossa análise, em um passado recente, observar a experiência das guerrilhas urbanas e rurais. Tal fenômeno, quer na sua versão “cubana”, o “foquismo”, ou na iniciativa inspirada na linha chinesa, a formação de “exércitos populares”, é de fundamental importância para a distinção entre as propostas de luta do anarquismo e do marxismo. Estes movimentos em algum sentido possuíram um caráter libertário, mas que, na condução de seus propósitos e na essência de suas estratégias, longe ficaram das tradições mais caras ao anarquismo.

Muito do que se fez nas guerrilhas castrista, guevarista e mesmo, no caso brasileiro, no Araguaia, partiu da premissa de que se deveria buscar o poder no centro. Estes movimentos, embora em determinado aspecto com relativa base social, eram formados por lideranças estranhas às comunidades onde surgiram e tinham como projeto final a tomada de um poder que ficava a imensa distância, tanto física quanto cultural, das comunidades “sensibilizadas” para a luta armada. Tal situação definiu, quase sempre para estes grupos, um perfil militarista no qual a disciplina férrea supria a lacuna de laços mais profundos entre comando e comandados.

Diferente do magonismo ou mesmo da guerrilha makhnovista – eventos que surgiram a partir de demandas puramente periféricas, e de núcleos de guerrilha formados por indivíduos que nasceram e cresceram nas aldeias do sul do México ou da Ucrânia – o movimento guerrilheiro de inspiração marxista carecia de entendimento das necessidades reais das comunidades que pretendiam organizar.

Em conformidade com esta reflexão, embora as guerrilhas dos anos 60 e 70, na América Latina, tenham obedecido à lógica periférica, no que se referia à população pobre do mundo, portanto à margem do capitalismo, a metodologia possuía orientação contrária. Era o centro, a macropolítica, a capital, em detrimento da província, que determinava a condução do processo guerrilheiro. Um erro lógico que, aparentemente, não foi explicitado por importantes intelectuais analistas e entusiastas da referida iniciativa.

A nosso ver a guerrilha, que é fundamental para a queda do sistema, deve ser orientada para os elementos específicos da região onde acontece. Deve, o mais possível, conter os germes, e isso só se alcança com a metodologia original voltada para tal objetivo, da erradicação das relações centro-periferia. Precisa acontecer reforçando a identidade do povo que se encontra na luta, em constante antagonismo com as forças do centro. Ela deve operar, no seio da comunidade, a viragem social que torne incompatível sua submissão a qualquer determinação estranha aos seus interesses específicos. A guerrilha anarquista, por tanto, deve apontar para o federalismo radical, deve promover, na prática, o que, em teoria, postulam os textos clássicos do universo libertário.

Por outro lado, podendo apresentar-se como aparente contradição, a emancipação de organizações locais, que deve contar com os esforços de indivíduos autóctones, pode receber a colaboração de intelectuais e militantes dos grandes centros. Estes, por seus contatos e experiências distintas, possibilitam em certa medida um diálogo constante com entusiastas das mesmas idéias localizados em outras partes, ampliando, com tal envolvimento, o círculo de ação e a propaganda tão necessários em casos como este. Assim, sem a sujeição a um projeto vertical pode ser organizada a rede de relações que apontará para a integração das diversas comunidades ao todo federado.

Sabendo-se que, durante o século XX, as revoluções de matizes esquerdistas aconteceram em áreas periféricas, como, Rússia, China, Cuba, Argélia, México, Vietnam etc., o que confirma as teses de Bakunin, é necessário ressaltar que não basta apenas estimular algumas iniciativas revolucionárias na periferia sem se aplicar o princípio libertário e federativo como método.

Agir diferente disso implicaria em reforçar as bases autoritárias subjacentes às elites locais, tão integradas ao sistema como as forças conservadoras do centro. Dessa forma, acreditamos ser fundamental encontrar o caminho revolucionário anarquista sem a utilização de modelos autoritários, em particular na nossa linha de raciocínio, para a elaboração de uma estratégia revolucionária genuinamente libertária.

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