Paz entre Nós, Guerra aos Senhores

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

 

Em novembro, o Centro Acadêmico da Faculdade de História da Universidade Federal Fluminense organizou uma atividade direcionada a trazer aos estudantes desta instituição maiores informações sobre a Revolução Russa. Juntamente com dois professores da UFF, um companheiro nosso também ali compareceu, a convite, para explanar especificamente sobre a participação dos anarquistas naquele expressivo momento histórico.

Quando da abertura das perguntas para o auditório notou-se, de certa parte, grande insistência de questões relativas à Kropotkin. Nosso companheiro ali presente, que havia confiado na opinião de Nestor Makhno a respeito daquele militante anarquista, viu-se surpreendido com a ênfase adotada nos detalhes passíveis de crítica à vida, obra e militância daquele anarquista. Isto, se considerando que é a ele que os anarquistas contemporâneos de todo o mundo ainda devem a maior parte dos conceitos filosóficos e ideológicos do anarquismo, ainda presentes como pano de fundo em qualquer manifestação do comunismo libertário em qualquer rincão de nosso planeta.

É de lembrar que quando de sua ida a Moscou em abril de 1918 para sondar o movimento ácrata naquela cidade em função de uma insurreição libertária na Ucrânia, Makhno se desiludiu profundamente com os anarquistas dali, tendo ao contrário, usado da seguinte expressão para descrever seu encontro com Kropotkin naquela mesma ocasião: “A todas as perguntas que lhe fiz, Piotr Alexandrovitch colocou respostas satisfatórias” e de que até o final de sua vida na França, na década de 1930, Makhno se lembrou do conselho de Kropotkin para que agisse com resolução na Ucrânia.

Além disso, é preciso recordar que Makhno, mesmo depois de ter pleno conhecimento do apoio de Kropotkin aos aliados na Primeira Guerra Mundial e de sua volta homenageada por Kerenski, além de sua participação em atos políticos promovidos por organizações pequeno-burguesas, ainda teve a idéia de enviar leitores para que lessem a grupos de camponeses analfabetos da Ucrânia a Conquista do Pão e considerava o conjunto da contribuição de Kropotkin para o movimento libertário em seus já 76 anos de existência como mais importante que alguns aspectos de sua trajetória em que ele se equivocou, recusando-se a polemizar com ele em público.

 

Outro tema recorrente das perguntas endereçadas a nosso companheiro foram as relativas a uma pretensa metodologia científica da História. Aqui, mais uma vez, percebe-se o porquê do desdém a Kropotkin, aquele que teve a coragem de afirmar no seu livro O Anarquismo e a Ciência Moderna que o anarquismo nasce diretamente do povo, daquilo que ele vê como sua liberdade perante as opressões diárias dos dominantes. A ciência apenas legitima este desejo do oprimido e nunca, em momento algum, pode ser um valor absoluto e metafísico, como os marxistas o fizeram, para substituir deuses e rituais mortos de teologias passadas.

Vale lembrar que a ciência, no que possui de dogmático e de cópia de esquemas de raciocínio religiosos foi bastante contestada no decorrer do século XX por pensadores libertários como Paul Feyerabend (no que diz respeito à sua metodologia) e ecológicos como Fritjof Capra (em relação à física racionalista). Isto sem falar no velho Bakunin que em seu escrito Deus e o Estado, depois de protestar contra o pretenso cientificismo dos marxistas que levaria, segundo ele, a uma nova ditadura sobre as massas, sai-se com este trecho sobre a História:

“Uma ciência pura da História (…) ainda não existe; hoje apenas podemos vislumbrar suas possibilidades extremamente complexas. Mas suponhamos que estivesse completamente desenvolvida, com o que poderia nos brindar? Não poderia dar um quadro fiel e racional do desenvolvimento natural das condições gerais – materiais e ideais, econômicas, políticas e sociais, religiosas, filosóficas, estéticas e científicas – das sociedades  humanas. Mas este quadro universal da civilização humana, por mais detalhado que seja, jamais mostraria nada superior às estimativas gerais e, em conseqüência, abstratas. Os milhões de indivíduos que proporcionaram os materiais vivos e sofredores dessa história, ao mesmo tempo triunfante e catastrófica (…) esses bilhões de obscuros indivíduos, sem o qual nenhum dos  grandes progressos na História poderia haver ocorrido (…) não encontrarão o mínimo lugar em nossos anais. (…) Deitaremos a culpa à ciência da História? Isto seria injusto e ridículo. (…) Ao que temos direito é a exigir que se nos assinale com uma mão fiel e segura as causas gerais do sofrimento. Esta é sua missão, estes são seus limites, além dos quais a ação da ciência social só pode ser impotente e mortífera.”

As palavras de Bakunin nos levam a pensar que tal “metodologia científica da História” em muito se aproxima da situação por ele denunciada em relação aos marxistas e que tal “cientificismo” nos leva muito à questão do “saber (ou dizer que sabe) é poder”. É preciso sempre um “errado” para justificar um “certo”. Enquanto isto, além dos muros das bizantinas discussões acadêmicas, as lutas sociais se desenvolvem e exigem mais do que um pretenso saber, uma disposição de luta e ação.

Anarquismo? Continuamos com Makhno (será correto citá-lo? Pedimos perdão aos cientistas do anarquismo se incorremos em pecado passível de anátema ou excomunhão, uma vez que ele admirava e muito Kropotkin, como fica bem em evidência em seu livro sobre a Makhnovichina) que dizia alguns anos antes de seu falecimento que ele – o anarquismo,

“é a vida livre e a obra criadora do homem. É a destruição de tudo que é dirigido contra essas aspirações naturais e sãs do homem. O Anarquismo não é um ensinamento exclusivamente teórico, a partir de programas elaborados artificialmente com o objetivo de reger a vida: é um ensinamento extraído da vida através de todas as suas saudáveis manifestações, passando ao largo de todas as normas artificiais.”

Ao final do evento, ficou nos estudantes que o assistiram a impressão de que havia muito a dizer sobre a história do movimento anarquista russo e sobre sua participação na Revolução de 1917 (o palestrante teve que abreviar sua intervenção em função de não ser possível expor todos os dados de que dispunha no tempo disponível). Os adeptos da “metodologia científica”, cientificamente impediram a instalação de uma banca de livros à entrada do auditório que pretendia divulgar publicações históricas e anarquistas, para dar lugar a uma pertencente a pessoas de seu próprio grupo. Sem dúvida uma atitude científica e libertária.

 

 

2004

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