Organização e Trabalho Social

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

 

 

Porque, enquanto houver desigualdade, enquanto uns trabalharem para que

outros consumam, enquanto existirem as palavras burguesia e plebe,

não haverá paz: haverá guerra sem descanso, e nossa bandeira, a bandeira vermelha da

plebe, seguirá desafiando a metralhadora inimiga, bandeira sustentada pelos

bravos que gritam: Viva Terra e Liberdade!

Ricardo Flores Magón

 

 

A NECESSIDADE DO TRABALHO SOCIAL

 

Reconhecemos que os momentos de reflexão, produção intelectual e de sociabilidade com as pessoas que têm alguma afinidade ideológica conosco são importantíssimos para o desenvolvimento do anarquismo. Consideramos também que isso é fundamental para a formação política que acontece entre os membros de nossa organização ou mesmo de fora dela, para compreendermos o contexto em que estamos inseridos e termos clareza de onde queremos chegar e por que meios pretendemos caminhar. Como conseqüências positivas desses momentos, acrescentamos, além disso, o estabelecimento de laços de fraternidade com companheiros e companheiras, que acabam por propagar os ideais pelos quais lutamos e aproximar pessoas às lutas que estão sendo desenvolvidas no seio de nossa organização.

No entanto, os pequenos círculos e os infindáveis debates sem desdobramentos práticos não nos bastam, pois acreditamos ser necessário partir para a prática real de transformação social. Acreditamos que há mais de um século, grande parte das respostas para a problemática social que hoje assola o mundo foi dada. Muito se discutiu em torno das conseqüências nefastas da economia capitalista, hoje ainda agravadas por sua concepção neoliberal: miséria, desigualdade social, níveis baixíssimos de educação e saúde. Muito também se discutiu em torno do papel alienador e opressor do Estado e de todas as suas instituições. Nossa posição é que a bandeira negra do anarquismo tem muitas respostas teóricas e experiências práticas que podem auxiliar o trabalho social e fazer com que ele constitua-se como uma ferramenta concreta e contemporânea nas lutas contra a exploração e a alienação.

Para isso, é necessário extrapolar as questões teóricas e concretizar as nossas demandas de transformação social, buscando inspiração e saber nas lutas passadas. Se a teoria não ganha corpo na luta social, a chance de exercermos alguma influência política, econômica ou social não existe. Se não buscamos a associação e a organização bem articuladas, acabamos por não conseguir exercer qualquer influência nas lutas e conseqüentemente na sociedade de hoje.

Acreditamos que é dentre as maiores vítimas do capitalismo – pessoas que têm necessidades reais e que sofrem de maneira mais dura suas conseqüências – que o anarquismo tem campo para florescer e para prosperar. Por isso afirmamos a necessidade do trabalho social, desenvolvido pelos anarquistas de maneira organizada, criando uma alternativa real de combate à ordem estabelecida, oferecendo possibilidades concretas de melhoria nas condições de vida de trabalhadores (empregados e desempregados), potencializando o ideal revolucionário e pavimentando o caminho rumo aos nossos objetivos de longo prazo.

Para nós, se o anarquismo pretende constituir minimamente uma força social considerável, que possua espaço na sociedade, ele deve sair dos guetos, ampliar seus horizontes, interagir ativamente em meio à sociedade, atuar dentro dos movimentos sociais e das lutas mais diversas, em busca de seu devido espaço.

ANARQUISMO SOCIAL NO RIO DE JANEIRO, BRASIL

A constante luta pelo socialismo libertário, levada a cabo pela Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), vem sendo concretizada com uma atuação social que está baseada em dois eixos estratégicos: os trabalhos de nossa frente comunitária e de nossa frente de ocupações.

A frente comunitária é hoje responsável pela gestão do Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro (CCS-RJ) e de todos os projetos comunitários que lá estão radicados, como a gestão da Biblioteca Social Fábio Luz (e o trabalho de produção teórica que lá se desenvolve), o projeto de reciclagem e educação ambiental, o projeto de letramento (educação de jovens com dificuldades no reconhecimento da palavra escrita e suas funções de comunicação), o curso pré-vestibular comunitário, a rede de distribuição de produtos alimentícios ecológicos (com participação de pequenos agricultores), o projeto de serigrafia e o núcleo de saúde e alimentação Germinal (que promove almoços vegetarianos regularmente).

A frente de ocupações articula-se em torno da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST). O trabalho da FARJ com os sem-teto teve início há três anos atrás e desenvolve-se hoje em oito ocupações urbanas, que mais recentemente vêm se articulando em torno da Frente Internacionalista dos Sem-Teto (FIST). A importância que damos ao trabalho com essas ocupações existe, por acreditarmos que as ocupações urbanas questionam, em primeira instância, a propriedade privada, a especulação imobiliária e a lógica do lucro, ou seja, pilares centrais do capitalismo que, como tais, devem ser questionados e combatidos por meio da organização dos explorados.

Da mesma forma, acreditamos que a nós não cabe simplesmente esperar as medidas de bem-estar que podem vir de algum político, partido ou do próprio Estado, mas sim, por meio da ação direta, fazermos de cada dia de luta um dia de aprendizado para a solidariedade e o apoio mútuo.

É dessa maneira que, com muita humildade, temos tentado desenvolver os nossos trabalhos.

 

 

2006

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