O Grito dos Excluídos

O GRITO DOS EXCLUÍDOS
Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

“Se sua visão for para um ano, plante trigo.
Se sua visão for para dez anos, plante árvores.
Se sua visão for para a vida inteira, plante pessoas.”
(Provérbio chinês)

O dia 7 de setembro foi eleito pelo governo brasileiro como a data em que se comemora a Independência. Diferentemente de outras datas comemorativas, é nesta ocasião que se abrem cortejos em todas as capitais do país para o desfile de grupos representantes das forças do Estado, com maior ênfase, os militares. Felizmente, para a povo em geral, tirando aqueles que vão aos desfiles para apreciar as fantasias verde-oliva e o espetáculo da virilidade bélica, este não é mais do que um dia de folga e descanso do trabalho. Porém, esta parte da sociedade observa confusa ou revoltada o fetichismo nacionalista. Os que recordam a história acham contraditória a rememoração atual de uma libertação colonial, em que a nobreza brasileira dava fim ao domínio político do império português. Lembre-se que o fim da colonização portuguesa apenas fundou o início de nossa dependência aos acordos econômicos internacionais, na época com a Inglaterra, e bancava-se na escravização dos trabalhadores vindos da África e espoliação dos demais habitantes daqui. Desde lá, apesar das muitas resistências populares, nossas relações não se modificaram significativamente a ponto de nos considerarmos independentes. Somos ainda cativos dos sistemas financeiros internacionais, cativos do imperialismo renovado (estadunidense), cativos dos valores capitalistas, cativos de um sistema político elitista, autoritário e autoprivilegiário, cativos dos sistemas de trabalho altamente exploratórios e sem nenhuma utilidade direta para nossas vidas, etc. Enfim, os próprios que nos mantém na dependência, posam de galo (e de gala) na avenida.

Justamente, a partir desta desordem é que se constrói a revolta. Diversos indivíduos ou integrantes de movimentos sociais, há poucos anos (pois nos tempos da ditadura não seria possível este tipo de manifestação sem que se corresse o risco de repressão e assassinato), resolveram mostrar o contraditório, organizando um protesto chamado Grito dos Excluídos, de desfile não-oficializado e programado para o final da passagem das forças do Estado. Porém, de algumas versões para cá, diversos setores que mobilizavam a manifestação arrefeceram-se ao canto das sereias da política e juntaram-se ao coro dos contentes. Estas vozes enganadoras faziam crer que estavam no rumo correto e bastava-nos a esperança. Desde o início do governo Lula, o Grito, quando não era abafado, era taxado de fora do tom. Mesmo rouca ou desafinadamente, resistiu-se em soltar o verbo contra as injustiças. E neste exato momento, nada mais oportuno, pois a credibilidade nos poderes superiores despenca, frente as confirmações de corrupção, enriquecimento e autoritarismo.

Nas últimas versões, apesar da confiança e presença neste protesto, nós anarquistas ainda não havíamos conseguido comparecer de forma organizada. O ano de 2005 é símbolo do nosso amadurecimento e o Grito dos Excluídos foi nossa prova. Consideramos até que, no conjunto dos que organizaram a atividade (no qual estamos incluídos), a postura foi certamente mais radicalizada que nos últimos anos. Em grande parte, nossa participação surtiu efeito e nossa concepção sobre como se devem funcionar protestos e manifestações se fizeram respeitar. Para nós o protesto deve ser não apenas um instrumento de propaganda e conscientização social, mas a demonstração de nossas propostas e atividades concretas. Em confirmação, o número de pessoas ligadas aos nossos trabalhos no movimento social que compareceram ao ato foi massivo, cerca de 300 pessoas: membros da FARJ, anarquistas e ativistas que congregam o Centro de Cultura Social, sindicalistas e os moradores da ocupação de Campo Grande, das duas ocupações de Jacarepaguá (Curicica), ocupação de São Gonçalo e da Tijuca, que, junto ao MST, compuseram com maestria a ala representante da luta pela terra e moradia.

Com críticas construtivas, chamamos a atenção dos movimentos sociais com que temos afinidade e que estavam presentes, sobre a desorganização e a falta de sensibilidade em importantes circunstâncias. A responsabilidade dos erros é coletiva, mas não foi por falta de aviso que ocorreram os problemas com certos indivíduos (mais especificamente com os protofascistas, comunistas do partido de linha governista), que ganharam projeção às nossas custas. Nem o “Fica Lula” era permitido antecipadamente, mas por eles houve estandarte. Não fosse o bom senso dos militantes libertários, estes vagabundos, com suas desavenças e tumultos, nos teriam atrapalhado o percurso.

Falhamos também na concessão da responsabilidade da confraternização final, almoço coletivo (onde teríamos reforçado nossas idéias e ações conjuntas), às mãos de grupos de pouca organização. Mas nosso encerramento da passeata cumpriu bem este papel, pois harmonizou as vozes e os gritos dos moradores das ocupações, militantes de sindicatos, grupos anarquistas e ativistas, o grupo indígena presente e ativistas recém apresentados. Satisfez-se, sim, a nossa esperança e confiança de que os caminhos do socialismo, da autonomia e da autogestão podem ser percorridos e expandidos.

Avancemos!
Anarquia é ordem!
Socialismo é luta!

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