O Colóquio Internacional Libertário

Rio de Janeiro – 13 a 15 de setembro de 2004

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Muitas vezes, ao aceitar um desafio, não temos a certeza do que iremos encontrar pela frente. Do nosso companheiro Plínio Coêlho, com sua crônica empolgação e inquebrantável otimismo, veio o convite, no início desse ano, para que a Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) participasse do ousado projeto de organizar um evento libertário internacional sobre o Sindicalismo Revolucionário. Discutida a idéia entre nós, ponderamos os riscos, analisamos os benefícios e aceitamos o convite unanimemente. Alguns de nossos militantes já tinham a experiência anterior na organização de eventos, mas este seria um passo em terreno pouco conhecido. No ano anterior, já tínhamos ajudado a organizar, diga-se lá com muito sucesso, o I Seminário de História do Anarquismo (na Universidade Federal Fluminense – UFF, em Niterói). Mas o novo evento era, pela primeira vez, internacional, sendo prevista a vinda de 4 companheiros da Europa, o que envolveria passagens aéreas e hospedagens, ou seja, valores cuja ordem de grandeza estava bem acima da que estamos acostumados.

A FARJ, então com alguns meses de existência, ainda se veria envolvida, em meados do ano, com a ameaça de ter que fechar a Biblioteca Social Fábio Luz, nosso principal espaço público, ameaça esta que, para ser superada, exigiu de nós muito esforço pessoal e coletivo. Nessa mesma época, tivemos a grata notícia da vitória da luta pela reintegração dos trabalhadores petroleiros demitidos por motivos políticos, movimento em que a Federação teve grande participação. Ao longo desses meses, havíamos mantido contatos com alguns sindicatos importantes, cujo apoio foi imprescindível para viabilizar o Colóquio. Um destes, o SINDISPREV (dos trabalhadores na área de saúde e previdência), além de fazer 32 inscrições, imprimiu gratuitamente 1.000 cartazes coloridos de divulgação do evento. Outros, como o SINDIPETRO (petroleiros), SINTUFF (servidores da UFF), SINTRASEF (servidores públicos federais) e o sindicato dos trabalhadores em Previdência Privada, contribuiriam com mais 35 inscrições. Através do apoio dessas entidades, tínhamos contabilizado quase a metade das 150 inscrições previstas para o Rio de Janeiro, além da possibilidade de divulgação da história, das práticas e idéias do Sindicalismo Revolucionário nesses sindicatos, tanto através do evento em si, como do maravilhoso livro História do Movimento Operário Revolucionário (Ed. Imaginário – IMES – Ed. Expressão e Arte, 2004), que foi entregue a cada um dos inscritos.

As primeiras inscrições ocorreram no final do mês de maio, sendo que até a véspera do evento, já tínhamos obtido 104 inscrições para o Rio de Janeiro. Foram cerca de 4 meses de intensa divulgação por folders e cartazes colocados em universidades, sindicatos, restaurantes, associações e livrarias (algumas vezes arrancados pelos espíritos-de-porco de plantão); envio de mala direta pelo Correio e pela internet; trabalho de boca-a-boca; divulgação pelo Libera, etc.

Em São Paulo, o Coletivo Terra Livre e a Editora Imaginário fizeram a sua parte, e o evento ocorreu da melhor forma possível entre os dias 9 e 11 de setembro. No próprio dia 11, sábado, recebemos no aeroporto Eduardo Colombo, sua companheira, Heloisa Castellanos, e Daniel Colson que, após se hospedarem, foram levados para a já tradicional visita ao Mirante Dona Marta, onde puderam ver a cidade de cima, em um dia ensolarado e limpo. No dia seguinte, chegaram Larry Portis, Christiane Passevant e Frank Mintz, além dos compas do Coletivo Terra Livre.

No amplo auditório 91 da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), na Zona Norte da cidade, teve início na tarde do dia 13 de setembro a fase carioca do Colóquio Internacional Libertário. Do lado de fora do auditório, bancas de publicações libertárias das editoras Achiamé e Imaginário, e o Comitê Organizador apurado com a distribuição de crachás, livros, CDs e certificados para os inscritos. Cabe ressaltar que ainda foram feitas 22 inscrições durante o Colóquio, totalizando 126, e que as sessões foram abertas a todos/as aqueles/as que quiseram participar (mesmo sem a inscrição), o que possibilitou a presença de muitos estudantes, tanto da UERJ, como de outras universidades.

No dia 13 de setembro, sob o tema “O Operariado Revolucionário no Continente Americano”, o companheiro Larry Portis abordou brilhantemente a história do movimento operário nos EUA e os Internacional Workers of the Word (IWW), destacando o papel da CIA, durante a Guerra Fria, no controle de entidades e líderes sindicais, além do financiamento de sindicatos colaboracionistas. Eduardo Colombo contou a história da Federación Obrera Regional Argentina (FORA) e sua importância para a evolução das reivindicações sindicais na Argentina do primeiro quartel do século XX. O professor Carlos Addor discorreu sobre a insurreição anarquista de 18 de novembro de 1918, abordando a conjuntura de greves no país e os efeitos da industrialização no processo produtivo nacional. Os companheiros Alexandre Samis e Milton Lopes, da FARJ, abordaram detalhes da história do movimento operário no Brasil e no Rio de Janeiro, dando ênfase às primeiras associações e as disputas entre trabalhistas, anarquistas e comunistas.

No segundo dia, sob o tema “O Operariado Revolucionário no Continente Europeu”, o companheiro Daniel Colson apresentou um painel sobre as fontes socialistas do pensamento de Proudhon que influenciaram o movimento sindical francês no século XIX e, a noite, fez uma palestra sobre a cisão interna no sindicalismo europeu e o surgimento do Partido Comunista na França, além da crise que se abateu sobre o sindicalismo revolucionário após a Primeira Guerra Mundial. Frank Mintz, militante da CNT-Vignoles, da França, fez uma longa exposição sobre as origens do anarquismo na Espanha e Rússia, apresentando semelhanças e diferenças dos respectivos processos, e em sua palestra noturna, traçou um panorama geral sobre a atuação sindical no contexto atual da Europa, que se encontra envolvida nas questões econômicas da globalização e políticas da União Européia. Eduardo Colombo fez uma cartografia, que incluiu parte do século XIX e o XX, dos vários eventos nos quais o movimento operário revolucionário contribuiu para avanços no campo dos direitos sociais.

No último dia do evento, na parte da tarde, teve lugar uma dinâmica mesa com a participação de Robledo Mendes e Renato Ramos, ambos militantes da FARJ, além dos professores Dimas de Souza e Carlo Romani. O companheiro Robledo Mendes expôs as iniciativas dos sindicatos revolucionários no campo da educação, enfatizando as escolas sindicais e o ensino racionalista no Brasil. Renato Ramos abordou a repressão estatal aos sindicatos revolucionários cariocas nos anos 20 do século passado, e a nefasta atuação dos bolchevistas, aliados aos cooperativistas (amarelos), visando destruir a influência anarquista no meio sindical. O professor Dimas de Souza passou em revista o teatro operário levado a cabo pelos sindicatos revolucionários brasileiros, analisando a temática destas peças e o contexto no qual elas foram encenadas. Carlo Romani apresentou abrangente painel sobre a Colônia Penal de Clevelândia do Norte (no Estado do Amapá), para onde foram deportados a partir de 1924 sindicalistas anarquistas, soldados insurretos, imigrantes e criminosos comuns. Após a palestra, foi apresentado um vídeo sobre a Colônia Penal, gravado no local onde se deram os fatos, mostrando inclusive o cemitério onde foram enterradas as centenas de vítimas da “Sibéria Tropical”.

O evento foi encerrado com a mesa “Perspectivas e Estratégias Atuais do Sindicalismo Revolucionário”, com a participação de Daniel Colson, Frank Mintz, Larry Portis, Eduardo Colombo e Alexandre Samis. Estes discorreram sobre suas propostas para a manutenção de um fórum permanente de discussão sobre os caminhos a serem percorridos pelo sindicalismo revolucionário nos continentes americano e europeu. Abordaram as novas relações de trabalho, estabelecidas a partir do fenômeno conhecido genericamente como “globalização”, e seus desdobramentos no campo das leis trabalhistas, na flexibilização das relações laborais, a terceirização de serviços e as privatizações em países de economia dependente. Tais elementos foram analisados também, a luz do governo Luiz Inácio Lula da Silva e das reformas levadas a efeito pelo Partido dos Trabalhadores, no Brasil.

A presença nas palestras foi amplamente satisfatória e a participação do público durante todo evento demonstrou claramente o interesse pelo assunto em questão. Calculamos que passaram pelo Colóquio mais de 200 pessoas. A presença de palestrantes com capacidade reconhecida no exterior, e projeção nos meios acadêmico e sindical, deu ao Colóquio uma dimensão que extrapolou a simples exposição de fatos sem consistência argumentativa prática. Sindicalistas, estudantes e acadêmicos estavam entre os membros atentos da platéia durante os três dias do Colóquio Internacional de História do Movimento Operário Revolucionário. O encontro conseguiu reunir, em flagrante interesse, segmentos da sociedade que, em poucas oportunidades, dividem o espaço nas universidades brasileiras.

A Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ) sente-se orgulhosa por ter organizado e participado desse projeto e agradece a todos/as aqueles/as que ajudaram a concretizá-lo.

 

 

Ética, compromisso e liberdade!

Viva a Anarquia!

Secretariado de Relações – FARJ

Rio de Janeiro, novembro de 2004

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