O Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro

HOMENAGEM AO CEPJO, AO MEL E A TODO@S @S COMPANHEIROS@SANARQUISTAS PRESO@S,PERSEGUIDO@S ETORTURADO@S PELA DITADURA MILITAR

 

A REPRESSÃO AOS ANARQUISTAS

Há 35 anos, no dia 11 de outubro de 1969, a sede do Centro de Estudos Professor José Oiticica (CEPJO, fundado em 7 de março de 1958), localizada na Av. Almirante Barroso, 6/1.101 (antiga sala de aulas de José Oiticica), foi arrombada e invadida por militares da Aeronáutica, que além de apreenderem equipamentos e publicações, destruíram o mobiliário e tudo aquilo que não puderam levar. Na véspera, os milicos haviam invadido e saqueado a casa de Ideal Peres e Esther Redes, no Leme, levando além de centenas de publicações libertárias, outros “materiais subversivos” como dinheiro, jóias, perfumes, tapetes, quadros, roupas e bebidas alcoólicas. No dia 15, era a vez da residência de Pietro Ferrua e da Editora Germinal, de Roberto das Neves, onde foram apreendidas mais publicações e, para não perder o hábito, roubado tudo aquilo de valor que puderam encontrar. Outras residências de companheiros tiveram o mesmo destino.

No rastro das invasões e saques, as prisões iam sendo efetuadas. No dia 1o de outubro, haviam sido presos três jovens freqüentadores do CEPJO (um deles soldado da Aeronáutica), que submetidos a maus tratos, forneceram os nomes dos outros participantes do CEPJO. A partir do dia 8, foram detidos Antônio da Costa e seus três filhos, Eliza, Roberto e Antônio, membros do Movimento Estudantil Libertário (MEL), sendo que o último recebeu choques elétricos; Carlos Alberto da Silva, estudante de Medicina, torturado com choques e espancamento; Mário Rogério Pinto e Maria Arminda Silva, ambos do MEL; Rui Silva, de 17 anos, que foi espancado e obrigado a assinar um depoimento sob a mira de armas. Roberto das Neves e Pietro Ferrua permaneceram presos por uma semana; Ideal Peres entre 8 de outubro e 1º de novembro nos tenebrosos centros de tortura da Base Aérea do Galeão e da Rua Barão de Mesquita; e Manuel Ramos, Fernando Neves, Edgar Rodrigues, Esther Redes, Paulo Fernandes da Silva e outros foram detidos por algumas horas para deporem.

Foi então instaurado pela Aeronáutica um Inquérito Policial Militar (IPM) contra 16 companheiro@s, acusado@s de atividades subversivas no âmbito do CEPJO e do MEL. Foi ainda sugerido pelo encarregado do processo a abertura de IPMs nas cidades onde foram registrados contatos com os anarquistas cariocas, como São Paulo, Porto Alegre, Ribeirão Preto, Belém, Salvador, Rio Claro, Araçatuba, Bebedouro e Catanduva. O processo estendeu-se até o início de 1972, quando todo@s @s acusad@s foram absolvid@s por falta de provas.

O CCS/RJ

Após 35 anos do fechamento do CEPJO, finalmente temos um local onde podemos tocar nossos projetos comunitários e culturais com autonomia. A grande casa da Rua Torres Homem, 790, no tradicional bairro de Vila Isabel, já é o nosso local. Estamos em processo de regularização do Centro de Cultura Social (CCS/RJ), que havia sido “fundado” em setembro de 1991, mas que nunca chegou a se concretizar. Agora temos essa chance! A Biblioteca Social Fábio Luz (BSFL) já funciona no local desde 2001, bem como o projeto de fabricação de bolinhos, nosso principal projeto comunitário.

O projeto AJAM (Associação de Jovens Aprendizes e Mestres) foi iniciado pela administração anterior do local, e consiste na capacitação e geração de renda a jovens estudantes das comunidades carentes próximas (principalmente da favela do morro dos Macacos) através da fabricação e venda de bolinhos de variados sabores (laranja, milho, chocolate, baunilha, coco, etc.) para a comunidade local. A partir de nossa entrada definitiva no local, modificamos inteiramente a estrutura do projeto, passando para @s jovens a (auto)gestão da atividade. Atualmente, são estes que decidem tudo no cotidiano e em reuniões quinzenais, onde nossa participação se restringe a uma orientação não impositiva. A capacitação, hoje, não se restringe apenas ao aprendizado de uma atividade laboral, mas da prática da autogestão desta atividade, bem como da responsabilidade individual e coletiva.

A nós consiste dotar o projeto da infra-estrutura necessária ao seu bom funcionamento, tal como os equipamentos (fornos, batedeiras, bicicletas para a distribuição, etc) e bancar o consumo de água, gás e eletricidade. A compra de insumos para a produção (farinha, açúcar, margarina, sucos e essências, sacos, etc) cabe aos jovens, que a cada 15 dias dividem igualmente entre si o excedente de dinheiro obtido. Conclamamos todo@s a virem conhecer o projeto e a comprar os bolinhos (R$0,40 cada) para consumo próprio ou para revenda.

Outro projeto importante em implantação é o de reaproveitamento de embalagens tipo Pet (refrigerantes) e Tetrapack (leite, sucos), tocada pelo companheiro Murilo “Berimbau”, que montou uma oficina de reciclagem no pátio dos fundos do local. Trata-se de um projeto da maior importância, tanto pelo fato de retirar do ambiente produtos que iriam fatalmente poluir o solo e os cursos d´água, como pela possibilidade de geração de renda para as pessoas das comunidades carentes próximas, que aprenderão a reutilizar essas embalagens para variados fins, tais como a fabricação de móveis (sofás, mesas, puffs), vassouras, brinquedos, artesanato, cortinas, etc.

A Biblioteca Social Fábio Luz, conforme temos freqüentemente informado no Libera, já possui um considerável acervo disponível ao público, que através de uma módica taxa de manutenção mensal de R$4,00, pode pegar emprestadas publicações não apenas relacionadas a temática libertária, como literatura e poesia nacional e estrangeira, filosofia, história do Brasil e universal, etc. A BSFL procura resgatar o espírito dos antigos ateneus operários e bibliotecas sindicais do início do século passado, onde trabalhadores e estudantes podem adquirir conhecimentos não difundidos pelas escolas, universidades e pela mídia oficial, procurando se capacitar para os embates de idéias e lutas que temos travar hoje e no futuro. A BSFL funciona aos sábados, entre 9:00h e 17:00h, sendo que futuramente estaremos implantando plantões durante a semana.

No âmbito da BSFL, estamos articulando a criação do Núcleo de Pesquisa Marques da Costa (NPMC), cujos objetivos são o resgate da história do anarquismo no Rio de Janeiro; o apoio a pesquisadores do anarquismo e dos movimentos sociais; oferecer palestras e cursos de formação em sindicatos, associações, escolas e universidades; a produção de uma revista histórica e, em 2005, quando completará uma década do falecimento do companheiro Ideal Peres, de um livro sobre a sua trajetória e a do movimento anarquista nos últimos 50 anos no Rio de Janeiro.

Destacamos também a cessão de uma sala ao Grupo Luz do Sol, que trabalha há alguns anos com o “letramento” (reforço escolar) de crianças carentes, atividade esta que se encaixa integralmente na orientação que queremos dar ao futuro CCS/RJ, ou seja, um espaço vivo e ativo de inserção na comunidade local.

O Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro, apesar de já estar em funcionamento, será “oficialmente fundado” após o Colóquio Internacional Libertário, que ocorrerá em meados de setembro próximo. Os nossos projetos estão aí para tod@s aquele/as que quiserem apoiar ou participar de forma séria e comprometida com a construção cotidiana da Revolução Social. Novos projetos e iniciativas também são bem-vindos e estamos esperando para ouvi-los e partilhá-los.

“Entendemos que, como trabalhadores, devemos pautar nossa intervenção a partir de nossa própria realidade social, tendo por base as lutas que enfrentamos em nosso cotidiano. Entretanto, tendo em vista que nós, anarquistas, consideramos que a atuação política passa por um comprometimento maior com as causas sociais, devemos buscar sempre relacionar nossa própria prática militante com as diversas manifestações das lutas populares. Portanto, acreditamos que qualquer manifestação neste sentido nos campos social, cultural, do campesinato, sindical, estudantil, comunitário, ecológico, etc. Desde que inseridas no contexto das lutas pela Liberdade, contemplam a nossa prática política de Inserção Social.” (Prática Política e Inserção Social, Carta de Princípios da FARJ, agosto/2003).

 

2004

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