O “Novo Partido” ou Os Excluídos Do Banquete

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Grande é o burburinho em torno do “Novo Partido”. Em todos os setores da esquerda, ao menos aqueles que se sentiram traídos pelo governo Lula, a tônica das conversas acaba sempre por ser a nova agremiação, agora sim, “fiel aos preceitos do verdadeiro socialismo”. Horrorizados com o ex-operário torneiro mecânico, que agora afirma nunca ter declarado sua filiação ao socialismo, os militantes da “corajosa empreitada” partidária buscam nos depoimentos e atos do governo o anti-modelo para o seu futuro funcionamento. Ciosos pela salvaguarda do que restou de moralidade do fiasco petista, estes novos luteranos do marxismo culpam a antiga Sé pelos desvios ideológicos dos últimos tempos.

Entretanto, outros cismas experimentou a esquerda marxista no decorrer da história do século XX no Brasil. Nos anos 30, o PCB, já encontrava resistência no plano político das correntes trotskistas, situação que levaria a diversas lutas internas e desgastes profundos para ambos os lados. Na década de 60, de um racha interno surgiram dois partidos: o PCB, que optou por uma política de “massas” e o PCdoB que, sob inspiração chinesa, investia na luta armada e formação de um “exército popular”. O “novo partido”, com minúsculas para evitar anacronismos, o PCdoB, nascia para garantir aos comunistas uma expressão verdadeiramente revolucionária. A luta armada mostraria que a ideologia entre os comunistas, ao menos os da linha chinesa, prestava-se ainda a ser combativa e genuinamente revolucionária.

No início dos anos 80, surgia então o Partido dos Trabalhadores, como promessa de uma organização socialista livre do velho stalinismo, do PCdoB, e do reformismo adotado pelo PCB, na sua política de “massas”. O PT contou, para sua fundação, com os esforços de muitos egressos das legendas comunistas históricas e intelectuais, operários e estudantes que ensaiavam na política nacional, seus primeiros passos. Já no início de seu percurso, o partido parecia uma resumida representação das lutas intestinas da esquerda marxista ao longo de sua história no país. Da Convergência Socialista – tendência trotskista – surgiu o PSTU e outros grupos e tendências que formaram à sombra de um bizarro centralismo democrático, pequenos núcleos de poder que disputavam à hegemonia interna no partido.

Com a eleição de Lula, consumado o estelionato ideológico e as reformas claramente liberais e entreguistas, setores do PT resolveram, sob a bandeira rotulada pela mídia de “radical”, contestar a linha governista e iniciaram uma discussão com vistas a fundar o “Novo Partido”. Quadros como Milton Temer, Heloisa Helena, Babá, Luciana Genro e outros estão correndo o país anunciando um partido verdadeiramente socialista e revolucionário. Alegam que o PT, até a eleição de 2001, a panacéia da liberdade, não satisfaz mais os anseios das bases radicalizadas. Segundo os “radicais”, o partido perdeu a expressão revolucionária e, como conseqüência lógica, deve ser abandonado pelos militantes coerentes.

Talvez essa crise, pintada com fortes cores ideológicas, para conferir dignidade a quem sai do PT, esconda uma outra realidade. O PT do governo colocou nos postos principais dos primeiros escalões figuras da “Articulação”, tendência identificada com Lula e seus assessores, impedindo que os projetos políticos das outras tendências tivessem livre curso. Os ideólogos destas últimas, uma vez preteridos pelo governo para os referidos cargos, viram o “trabalho” de “uma vida” cair por terra, além é claro de seus respectivos orgulhos e vaidades. Sem nenhum trabalho social concreto, estes mesmos quadros não podiam “chamar à rebelião” as bases populares com as quais nunca se preocuparam e para as quais nunca tiveram um projeto verdadeiro. O resultado lógico, é claro, só poderia ser um: “O Novo Partido”.

A nova legenda não apenas resolve o problema dos egos de seus proponentes, como também, acena para a possibilidade de abrirem-se novos postos de trabalho para “desinteressados” e “abnegados” aderentes de primeira hora à proposta. Militantes que, sem grandes disposições de enfrentar as draconianas leis do mercado de trabalho, pois estas devem atingir apenas o povo, amontoam-se nas filas da “nova” instituição partidária. Assim, o “Novo Partido”, caso venha a colher vitórias políticas, já inicia sua trajetória resolvendo o problema do desemprego, ao menos dos militantes “desinteressados” e “abnegados”.

Como se pode observar, em conformidade com os diversos exemplos históricos, a criação de novas legendas partidárias, mesmo quando estas propõem mudanças revolucionárias, não resolve o problema da sociedade como um todo. O PCdoB, que nos anos 60 propunha a revolução pela luta armada, hoje apóia o governo federal e, no Rio de Janeiro, a gestão populista e conservadora de Rosinha Garotinho. O próprio PT que, como vimos, surgia para dar voz ao trabalhador hoje é o promotor de reformas impopulares e retrocessos incalculáveis nos direitos do operariado.

Quando, na nossa pré-adolescência, a realidade nos subtrai as ilusões de figuras como Papai Noel e o alvo Coelhinho da Páscoa, talvez a nossa vida fique menos colorida. Entretanto, passamos a tomar atitudes muito mais conseqüentes.

 

Pela Autogestão,

Organização Popular

e Sindicalismo Revolucionário!!!

 

2004

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