Nosso Contexto Histórico

Esse texto é um fragmento do texto “As Eleições e a Luta Popular no Rio de Janeiro”.

No início do século XX, grande parte dos trabalhadores organizavam-se nos sindicatos revolucionários, os quais, por meio da luta, arrancaram dos patrões muitos dos direitos que nós ainda temos hoje. Nesse contexto, os anarquistas atuavam como “fermento” e minoria ativa nas lutas, “apertando o calo” dos ricos com a força da mobilização nos locais de trabalho e nas ruas. Junto a isso, os libertários construíam e organizavam o poder popular, utilizando o teatro, a educação/autoformação, a imprensa e, principalmente, a solidariedade de classe enquanto importantes ferramentas de emancipação popular, contribuindo para o avanço de suas conquistas diante dos patrões e políticos.

Grevista preso pela polícia em 1953.

A ditadura de Getúlio (1937-45) atacou principalmente os anarquistas e os sindicalistas revolucionários, e todos aqueles trabalhadores que não abaixavam a cabeça para a democracia representativa. Os sindicatos combativos foram fechados e os militantes mais ativos, presos e perseguidos. A estratégia era abafar todas a iniciativa de resistência ao autoritarismo do governo e dos capitalistas. Já o PCB e outros partidos reformistas, apostavam na opção eleitoral, sujando de lama burocrática e acorrentando as lutas aos limites da atuação institucional.

A redemocratização do país retomou as eleições, e os partidos de esquerda, principalmente o PCB, apostavam na estratégia de eleger “deputados do povo”. O secretário geral do PCB, Luís Carlos Prestes, dizia para o povo “apertar o cinto”, ou seja, que deixassem de fazer greves contra o aumento dos preços e o arrocho salarial. Na época, o comitê central do PCB, defendia a unidade ampla com a burguesia “progressista”, acusando os grevistas de serem “provocadores” do fascismo, estratégia que alguns partidos, ditos de “esquerda”, ainda defendem nos dias de hoje. Enquanto isso, os trabalhadores iam às ruas, mantendo a proposta de organizar a luta nos sindicatos e locais de trabalho.

Podemos entender os períodos de ditadura e democracia como as duas faces da mesma moeda do sistema capitalista, que se adapta e mantém sua estrutura de dominação diante de possíveis ameaças ao status quo. Depois do curto período de democracia, veio a terrível noite da ditadura civil-militar inaugurada com o golpe de 64. Nesse momento, o anarquismo brasileiro estava completamente desarticulado, e parte da esquerda opta pela luta armada, baseada em grande parte na estratégia do foquismo. A ditadura sangrenta torturou, matou e exilou muitos militantes/trabalhadores.

Projeto das elites políticas, e apoiada por muitos empresários e setores conservadores da sociedade e da imprensa, sufocou o país e proibiu as mobilizações populares que começaram a retornar com força, no final dos anos 70 e início dos 80.

Partindo dos acúmulos de um movimento sindical organizado e com base popular forte, parte da esquerda opta pela estratégia de construir um partido operário. Sua matriz ideológica seria leninista, ou seja, o Partido deveria ser o “guarda-chuva” e dirigente das lutas dos trabalhadores. Assim, com um forte apoio popular o PT construiu suas bases e lutou para “conquistar” o Estado por meio das eleições. Havia a ideia de que os movimentos sociais organizados, que serviam de base ao PT, controlariam os mandatos dos parlamentares eleitos, trabalhando pelos interesses do povo. O que provou de fato ser uma grande ilusão, pois os mandatos nunca foram realmente controlados pelas bases.

Repressão às mobilizações que contestaram o golpe civil-militar de 1964.

Ao contrário, inserindo-se na prática do “toma lá, dá cá” por alianças (governabilidade) era preciso que os setores radicais (como no caso do PT) fossem expulsos do partido ou “pacificados”, para não “obstruírem” as determinações do “comitê central”. De maneira bem semelhante, os “verdes” na Europa partiram de um movimento da “sociedade civil” para tornarem-se partidos engessados e comprometidos com a ordem burguesa.

Nos anos 90, a burguesia internacional e as elites nacionais atacavam os direitos dos trabalhadores com o projeto neoliberal. Ao redor do mundo, os movimentos antiglobalização, contando com participação dos anarquistas, lutavam contra esse perverso mecanismo econômico. Na América Latina destaca-se um movimento social cujos princípios podemos identificar como muito afins a nossa concepção de poder popular: o movimento popular zapatista sai às ruas em 1994, no México, não para “tomar o poder” do estado burguês, mas para construir o poder popular de baixo para cima e à esquerda. Até hoje, muitas comunidades zapatistas se autogovernam sem a presença do Estado, propondo sua forma de organização popular aos destinos da nação mexicana. Durante a década de 90, a anarquismo de nossa matriz especifista vinha se (re)construindo no eco do grito do “Ya Basta! (Já Basta!)” dos zapatistas. Enquanto parte da esquerda colocava peso no projeto de origem popular, mas partidário, do PT, os anarquistas procuravam se reinserir, como minoria ativa, no movimento popular, rural, sindical e estudantil, em várias partes do país, juntamente a outros militantes que também não acreditavam na via das urnas.

O então sindicalista Luis Inácio Lula da Silva discursa no ABC.

A eleição de Lula, em 2002, foi a vitória de um projeto partidário que foi se construindo durante os vinte anos anteriores. Mas o preço da vitória foi alto: cooptação de lideranças, desmobilização e silêncio nos movimentos sociais que formavam a base do governo, burocratização das lutas e engessamento de antigos militantes sinceros que acabaram sendo incorporados pela máquina estatal. O projeto do PT era o da colaboração de classes: não lutar contra os ricos e poderosos, mas fazer uma aliança com a burguesia nacional e uma coalizão com as políticas oligárquicas. Junto a isso, por meio do reformismo, o PT, aplicava sua política, que alguns chamam de social-liberalismo, onde a estrutura de poder mantém-se intacta. Mas onde há opressão e exploração, há também resistência e luta.

Anarquismo Organizado e de Luta

Bandeira do antigo Fórum do Anarquismo Organizado. O Fórum se transformou na Coordenação Anarquista Brasileira.

Há cerca de 10 anos atrás, um projeto de luta e organização vinha sendo tocado pelos anarquistas brasileiros. Esse projeto tinha raízes nas lutas dos trabalhadores e dos anarquistas de outras regiões e de experiências anteriores. Sua principal marca foi reforçar a cultura política do anarquismo organizado e de luta, ressaltando a importância e o lugar estratégio da organização específica anarquista neste processo junto aos movimentos sociais de base.

Com sucesso, os anarquistas construíram o Fórum do Anarquismo Organizado, que, depois de 10 anos, e contando os acúmulos de organizações de diferentes regiões do país, constituiu-se recentemente na Coordenação Anarquista Brasileira. Esta Coordenação conta hoje com 9 organizações anarquistas, envolvidas em várias lutas populares e tendo como acordo a unidade teórica, organizacional e estratégica na construção do Socialismo Libertário. Podemos afirmar, que o anarquismo brasileiro vive hoje um de seus momentos mais organizados, com intervenção modesta, mas concreta, em diversas lutas dos trabalhadores. Nossa corrente conseguiu imprimir seu estilo organizado e combativa na cultura política do anarquismo contemporâneo e, por isso, aposta num projeto de poder popular que tenha na luta dos movimentos sociais seu caráter efetivo

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