Não começou em 2013, não terminará em 2014: o legado da lutas populares e da Copa

Texto publicado originalmente no Libera #162

Não começou em 2013, não terminará em 2014:

o legado da lutas populares e da Copa

Junho de 2013 pegou os lutadores e lutadoras sociais de surpresa. O povo não engoliu passivamente o gasto de bilhões do dinheiro público na Copa, enquanto que os serviços públicos de saúde, educação, transportes só pioram. O aumento da tarifa dos precários transportes públicos foi o estopim para milhares irem às ruas e lutarem contra os abusos e violências das grandes empresas capitalistas e dos governos. A deterioração dos serviços públicos, a crescente crise social e urbana, a influências das lutas sociais internacionais e a indignação com a forte repressão policial nos primeiros atos contribuíram para que os atos seguintes fossem ganhando cada vez mais volume. A pressão popular que conseguiu abaixar a tarifa dos transportes em várias cidades foi uma vitória do povo contra a classe dominante, mesmo com as tentativas de setores de direita e ultra-conservadores em infiltrarem e colocarem suas pautas nos atos.

Junho parecia ser apenas o início de uma longa primavera. E um dos legados de 2013 foi a crescente mobilização de vários setores dos(as) explorados(as). Nas Greves dos Garis, Professores e Rodoviários trabalhadores e trabalhadoras combateram a burocracia e não abaixaram a cabeça para os sindicatos patronais e vendidos ao governo. Outros exemplos foram a resistência das favelas, as lutas do movimento sem-teto em São Paulo e as manifestações realizadas em bairros da periferia em várias partes do Brasil. E o povo realizou táticas mais ousadas de mobilização nas ruas: a resistência e a ação direta como em paralisações, a ação dos garis em cobrir as ruas de lixo em pleno carnaval, fechamentos de ruas, catracaços e ocupações de espaços governamentais. Tudo isso deu força às pressões e levou a conquistas, o que dificilmente aconteceria apenas com as mesmas passeatas burocratizadas.

Pode-se dizer que 2013 foi um marco, ou seja, traz algumas mudanças para os movimentos populares. Também mudam e endurecem certas políticas do Estado para estes movimentos e mobilizações. Por outro lado, apesar de milhares terem seguido pelas ruas os espaços sociais e de organização dos(as) trabalhadores(as), como sindicatos e outros, não cresceram proporcionalmente. Além disso a classe dominante também aprendeu com as estratégias das lutas nas ruas, tendo a mídia burguesa como aliada para lidar com os enfrentamentos das jornadas de junho. A morte do cinegrafista Santiago foi hipocritamente explorada pelas empresas de comunicação, que colaboraram com o Estado na articulação de um forte sistema de repressão contra os manifestantes para desmobilizá-los. O que as sanguinárias forças militares de segurança do Estado já fazia há décadas nas favelas, com repressão, criminalização e violência contra os pobres, passou a ser utilizado no asfalto, de modo mais brando mas não menos repulsivo.

2014 iniciou como uma espécie de “ressaca” de 2013. As condições para a mobilização social tinham mudado. Os setores conservadores do poder se reorganizaram e passaram a atacar com a criminalização ideológica dos manifestantes e movimentos sociais.

Muito antes da atual onda repressiva, organizações políticas e movimentos populares já denunciavam que estava em curso um eficiente sistema de criminalização do protesto e da pobreza, atualmente dirigido pelo PT e à serviço do grande capital nacional e internacional, como a FIFA e as empresas que lucraram com a Copa. E que sem a participação ampla dos setores oprimidos as manifestações encontrariam sérios limites. A estratégia da classe dominante já estava desenhada. Os protestos foram criminalizados e isso só poderia ser combatido se os movimentos populares, organizações políticas e demais grupos transformassem a força das ruas em força social, com a ampliação da participação popular. Tal atitude não viria dos partidos políticos, preocupados mais em aumentar apenas suas próprias organizações, já olhando para as eleições, do que em fortalecer os movimentos populares e sindicatos.

Sabemos que essa luta para a ampliação da força social não vai ser tarefa de uma única organização ou de um único movimento social, mas é algo que cabe ao conjunto dos lutadores e lutadoras que apostam na estratégia de massas e na construção do poder popular. É com esse objetivo é que nossa militância segue com nossa modesta contribuição na luta social cotidiana, nas ruas e mobilizações, ombro a ombro com os movimentos populares do campo e urbanos, comunitários, de favelas, estudantis e sindicais. Participando e ajudando a construir espaços de poder popular e participação direta do povo organizado.

O contra-ataque da classe dominante aos movimentos organizados não demorou, buscando isolar os setores que não compactuavam com o reformismo e a disputa partidária. Companheiros e companheiras perseguidos(as) em diversos estados do país (Distrito Federal, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo, entre outros) sofrem prisões e acusações absurdas, montadas pela farsa do Governo Federal. As táticas de resistência, utilizadas no calor das ruas em 2013, passaram a ser duramente reprimidas pelos setores dominantes e pelas forças militares de repressão. O que acabou influenciando também em cada vez menos adesão popular às mobilizações.

Nesse sentido, repudiamos a crescente política de criminalização dos pobres e movimentos sociais no país, que vem se manifestando num endurecimento repressivo e jurídico pelo Estado. Diversos movimentos socais e grupos de direitos humanos vem denunciando as violências e autoritarismos que a polícia, justiça e Estado vem cometendo. São citadas várias arbitrariedades na condução dos processos e inquéritos, violações de direitos como perguntas sobre a vida política dos manifestantes e a apreensão de livros, o que indica criminalização ideológica.

Longe de recuarmos devemos fazer um balanço crítico, e auto-crítico, da conjuntura desde junho de 2013, avaliando onde o conjunto da esquerda errou e acertou. Para os(as) que ainda tinham dúvidas ficou claro o papel do PT e dos que determinam as políticas do Estado: defender a propriedade privada e garantir o lucro dos capitalistas, mantendo seus privilégios. Também aprendemos nesse período que a ação direta, que é a participação direta do povo nas lutas, é fundamental para as conquistas dos oprimidos frente aos interesses dos patrões e políticos. Que a revolta popular pode obter vitórias sobre as injustiças sociais, principalmente quando dotada de métodos de autogestão das lutas pelos(as) trabalhadores(as), com autonomia política na decisão dos rumos dos processos de mobilização, reivindicação e resistência.

Por outro lado, conquistar a adesão popular é central para o avanço dos processos sociais e para dar sustento às mobilizações. É fundamental para que as lutas nas ruas como não se isolem das pautas populares e percam sua capacidade de pressão. E o papel da organização política não é atrás nem à frente, mas lutando junto com o povo. Como fermento, propondo políticas e organicidade para a luta. Com grande sensibilidade para acompanhar e respeitar a dinâmica viva da ação popular, com táticas flexíveis mas ancoradas na realidade. Esse é o caminho para derrotar a classe dominante e construir o poder popular para além das urnas, fortalecendo movimentos populares que pautem suas lutas com independência de governos, partidos ou empresas. Ou se vota nos de cima ou se luta com os de baixo!

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