Lombroso e os Anarquistas

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

O século XIX foi berço de inúmeras teorias – umas mais consistentes, outras nem tanto – sobre a origem do homem, do planeta e mesmo a fundamentação, utilizando-se como contraponto as áreas colonizadas e “exóticas do mundo”, das “leis sociológicas”. Todos estes movimentos, até mesmo os mais bizarros, buscavam a chancela da ciência para a legitimação de seus intelectuais proponentes, sequiosos por um nicho acadêmico ou mesmo visibilidade na esfera social burguesa. Nesse contexto, em uma circunstância em que as cátedras acadêmicas não tinham ainda encontrado seu justo espaço, médicos, advogados, engenheiros e os mais diversos pensadores tentaram sintetizar, em um campo comum, as idéias racistas, imperialistas e “científicas” de seu tempo. Com algumas exceções, a Sociologia nascia – ao menos através de seus publicistas mais conhecidos – como resultado lógico do preconceito, arrogância e desprezo das classes dominantes pelo povo em geral de dentro e fora da Europa.

Os “socialistas” não escaparam a esse fenômeno; médicos-sociólogos como o italiano Cezare Lombroso, e mesmo o argentino José Ingenieros, mesclavam observações empíricas parciais a estereótipos conservadores para explicar as atitudes e o estágio civilizatório dos povos. Lombroso chegou mesmo a montar uma complexa tabela de medição de crânios humanos para estabelecer relações entre a conformação biológica dos homens e suas atitudes. Nem os anarquistas escaparam ao olhar atento de Lombroso. A estes, o sociólogo italiano dedicou um breve ensaio com todos os ingredientes de sua estrutura de pensamento. Era a distopia da ordem capitalista: descobrir, através da conformação craniana, o futuro delinqüente, ou mesmo, fornecer à polícia elementos concretos para identificar os criminosos, antes mesmo de cometerem o delito. Foi um período de euforia no qual a Sociologia ganhava prestígio, juntamente com seus “modestos” precursores, e arrogava-se como ciência preventiva dos desvios humanos. O caminho para a sociedade sadia estava aberto. Estes sociólogos criavam a “ciência” capaz de limitar o campo de ação de “seitas heréticas” nos meios urbanos e camponeses.

A Frenologia, nome emprestado ao conjunto de idéias de Lombroso, ganhou enorme prestígio. Fez sucesso até mesmo em jornais operários de várias partes do mundo, inclusive do Brasil. A polícia brasileira fez largo uso dessas teorias, criando até mesmo, na virada dos anos 10 para 20 do século passado, um Gabinete de Estatística que, dentre outros, contava com a base teórica de Lombroso. A possibilidade do controle de anomalias, desvios e atavismos “perniciosos à sociedade” ganhava assim, dentro da ordem burguesa, seu paroxismo na Polícia Científica. Eliminar da sociedade seu “rebotalho”, o “estorvo humano de impenitentes” dos novos tempos não podia prescindir da metodologia, nada original, de classificar, identificar e segregar. A taxonomia era aliada importante na luta contra a pluralidade e diversidade sociais.

Como diz um bordão para historiadores, atribuído a Lucien Febvre, “toda filosofia é filha de seu tempo”. Entretanto, podemos perceber no contexto atual, ainda bem que cada vez menos, de alguns grupos “anarquistas”, a Frenologia ainda faz muito sucesso. Classificar outros grupos anarquistas com variados adjetivos, na verdade neologismos nem sempre criativos, para esses “companheiros” parece ser de suma importância para a definição de seu espaço de militância. Partindo da negação, só assim logram alguma firmeza, define-se lombrosianamente a gênese do desvio no interior do movimento. Como sociólogos oitocentistas, buscam nos gestos, forma de expressão oral e atividades militantes dos seus “inimigos burgueses infiltrados no anarquismo” o atestado para a confirmação de seus complexos e caricatos manuais de “boa conduta” libertária. Manuais (Manifestos) publicados em espaços que eles próprios sempre desqualificaram e que, obviamente por oportunismo, valem-se nas horas de maior necessidade.

Se o espírito de Lombroso passasse rapidamente por estes que vos escrevem, poderíamos até arriscar o palpite de que estes “anarquistas” assim agem por atavismo de formação. Há a Sociologia – que grande graduação ainda propicias – mas, por rechaçarmos tal mecanicismo de pensamento, vemos com certa melancolia a atitude destes que, desprendendo enorme energia, colaboram para semear a cisão entre os libertários. Lamentamos tantas horas de leitura desperdiçadas em conclusões que já merecem a reprovação quase unânime dos anarquistas de todo o Brasil. Tanto “talento” imolado na pira da vaidade, muitas vezes travestida por uma capa de humildade.

As farsas são desmascaradas pela vida. Elas acabam por cair como frutas apodrecidas de uma velha árvore, nesse caso, a da intolerância. Elas caem, como sabiamente observou Lima Barreto, pelo ridículo… ou pela troça, troça e troça….

 

 

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