Uma Breve Leitura da Ocupação “Quilombo das Guerreiras”

UMA BREVE LEITURA DA OCUPAÇÃO “QUILOMBO DAS GUERREIRAS”

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Ensolarada, quente e disponível para o descanso, a manhã de quinze de novembro permitiu uma prévia do verão que se aproxima, superlotando as praias e afastando os trabalhadores do centro do Rio. Livres do vestuário convencional dos dias de trabalho, os cariocas aproveitaram para suar de prazer, saboreando a sensação de fazê-lo por razões bem diversas do cotidiano ingrato que a labuta diária impõe.

Enquanto isso, quase abandonadas, as ruas do centro aguardavam pela quarta-feira, capaz de acabar com os sonhos e trazer novamente ao povo o pesadelo da realidade carioca, tal como sempre acontece nas cinzas de carnaval. Atravessando essas ruas, hoje de almas pouco encantadoras, a antiga Avenida Central, também largada ao silêncio imposto pelo feriado, nada pareceu conservar do glamour de sua inauguração a exatos cem anos.

Contrastando com os banhistas de hoje, os homens e mulheres da Belle Époque, dispensaram naquele quinze de novembro seus compridos calções de banho, vestindo chapéus e luvas para testemunhar o batismo da grande obra do então prefeito Francisco Pereira Passos. Porém, ufanistas da jovem república que aniversariava, permaneceram aqueles brasileiros indiferentes aos abusos de autoridade cometidos pelo Estado, pois o engenheiro Paulo de Frontin, responsável pela abertura do boulevard, deixou como saldo final de suas atividades um total de 1681 habitações demolidas, ficando seus moradores abandonados pela “Res Publica” que se desejava comemorar.

Portanto, não surpreende que ainda hoje possamos observar as arbitrariedades dos governos contra a população desassistida, refletida literalmente no espelhado dos muitos arranha-céus da atual Avenida Rio Branco. Apesar disso, os netos e bisnetos daqueles que sonhavam com uma cidade maravilhosa, permaneceram em sua maioria tal como seus avós, alheios a estes desmandos, embora prefiram hoje as praias às enfadonhas manifestações cívicas.

Em conseqüência disso, a modesta celebração do aniversário da centenária via pública, teve de ser antecipada para o dia catorze, contando apenas com a irreverente participação da Confraria do Garoto. Contudo, a despeito do gigantesco bolo oferecido pelos membros da confraria aos que passavam pela avenida, na longe dali, setenta famílias aguardavam quase famintas o início de mais uma ocupação urbana, aglutinados em um pequeno prédio na Lapa.

Ao que parece, tal como não foram suficientes para que o Estado solucionasse os problemas de habitação, para os quais colaborou a derrubada dos cortiços que impediam a passagem da Avenida Central, os cem anos que se passaram não foram bastante para aplacar o desejo de justiça do povo. Cobrando das autoridades seu regresso ao coração da cidade, os sem-teto reivindicaram uma vida útil para o edifício de número vinte, situado à Rua Alcindo Guanabara, abandonado por mais de uma década pelo INSS e extremamente próximo à imponente Rio Branco.

Com apoio dos estudantes e diversos grupos anarquistas, tomaram o prédio de assalto em uma rápida operação, planejada com pelo menos seis meses de antecedência. Batizada com o emblemático nome de Quilombo das Guerreiras, a ocupação foi condenada ao mesmo destino trágico dos cortiços derrubados outrora, sendo seus participantes retirados sob o olhar ferino da polícia federal, cujo habitual malogro no combate ao tráfico de drogas no Rio, foi substituído pela brilhante atuação na repressão e obstrução da justiça.

Da organização:

Foram quase sete meses de reuniões, discussões, planejamentos e estratégias até a concretização do processo de ocupação, pelo movimento dos sem-teto do Rio de Janeiro, do prédio do INSS. A “nova ocupação”, batizada em uma assembléia bastante concorrida, no mês outubro, de Quilombo das Guerreiras, dentre outras seis opções apresentadas, constitui um importante foco de inserção social dos anarquistas, revivendo uma tradição histórica de lutas do passado, em que os libertários se destacaram na organização sindical. Como a atual conjuntura inclina-se para uma sensibilidade de lutas, cujo canal de inserção se encontra nas organizações das ocupações populares, é pertinente reiterar a importância dessas ocupações, em razão dos princípios da autogestão social, da ação direta e da cooperação mútua.

Durante todo o processo de organização da ocupação Quilombo das Guerreiras, a presença dos militantes da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), dos comunistas sem partido da Frente Internacional dos Sem-Teto (FIST), de outros grupos de inspiração libertária e do extinto grupo anarquista Grupo Ação Libertária (GAL) – cujos militantes foram para outras organizações, como o Coletivo Libertário Ativista Voluntariado de Estudos (CLAVE) e a FARJ – , foi de extrema relevância.

Nos meses que antecederam a ação dos ocupantes foram feitas reuniões semanais no Centro de Cultura Social no Rio de Janeiro (CCS). Durante estes encontros, os sem-teto e o apoio acharam por bem organizar as plenárias de forma que os pontos de pauta tradicionais guiassem a rotina dos debates. Para abrir a assembléia os presentes cantavam a Internacional e, por vezes, formavam uma corrente de mãos dadas para reforçar a fraternidade na luta. Todos os assuntos pertinentes eram enumerados, postos em pauta e discutidos exaustivamente pela plenária. Buscava-se o consenso nas demandas abordadas, mas, uma vez não alcançado, os ocupantes e o apoio votavam por maioria simples. Longe da harmonia idealizada por alguns, as assembléias quase sempre eram muito agitadas. Os diversos grupos presentes, os ocupantes e mesmo a constante chegada de novas famílias às reuniões provocavam descontinuidades que, se por um lado, imprimiam certa lentidão ao trabalho, por outro, adicionavam ao processo ainda mais diversidade, aumentando o desafio.

Os debates, sempre precedidos por análises de conjuntura, tentavam dar conta de diversas necessidades concretas na futura ocupação. Com esse propósito foram organizadas comissões de ocupantes para resolver os inevitáveis problemas de: hidráulica, eletricidade, cozinha, limpeza e animação infantil. Dessa forma, por afinidade com o trabalho, os ocupantes voluntariamente aglutinavam-se por tarefas concretas. Muitas das assembléias, inclusive, passaram a acontecer guardando as comissões, na forma da organização espacial, a sua estrutura específica. Assim, não apenas as discussões de problemas internos à organização na ocupação eram tratadas, como também, os fatos políticos que contribuíam para a piora da situação dos sem-teto em todo o país. Entretanto, e não menos fundamental, as comissões tinham outro papel. Pretendia-se, com a dinâmica estabelecida a partir das discussões em grupo, estimular, entre os futuros moradores do Quilombo das Guerreiras, uma cumplicidade e um sentimento de intimidade política que permitisse, no contexto da ação, um entrosamento só possível sobre a base sólida de confiança. A idéia era transformar cada indivíduo em um agente de sua própria libertação sem a qual a liberdade dos demais jamais se concretizaria. Parodiando a tradição bakuninista, seria dizer que a liberdade do outro ampliava a do agente individual ao infinito.

A aglutinação das ocupantes em comissões de trabalho deu-lhes, além disso, uma identidade por tarefa. Alinhavou, em uma primeira iniciativa, a costura que deveria impedir o esgarçamento do tecido coletivo no cotidiano da ocupação. Foi fundamental a experiência. Ela intentou lançar as bases para um regime embrionário de autogestão econômica e social no interior da nova ocupação. Tinha mesmo esse objetivo e, se não o alcançou na totalidade, muito pouco faltou para esse fim.

Um outro aspecto importante foi a elaboração de uma regimento interno para todos os ocupantes. Discutidas, ponto por ponto, todas as clausulas de conduta coletiva, de obrigações e segurança foram escrupulosamente submetidas à apreciação do coletivo. Como nas outras oportunidades, a metodologia foi a busca do consenso, com votação em caso de impasse. Dessa forma, com a aprovação do regimento interno, a ocupação tinha então definidas as suas questões de princípios, tão necessárias para verem-se diminuídas as votações intermináveis sobre questões que, implícita ou explicitamente, já tinham suas resoluções embutidas no referido documento.

Para o controle das presenças, a assembléia assumiu uma outra posição. De posse da convicção de que o contato semanal entre os ocupantes era fundamental para a criação do espírito de fraternidade e confiança já referidos, decidiu a assembléia pela execução, no fim das reuniões, de uma chamada oral. Através de uma ficha com dados dos ocupantes, um membro do apoio, ligado a FARJ, fazia os registros das presenças. Ainda segundo o mesmo fórum deliberativo, o ocupante que apresentasse um número superior a cinco faltas estava automaticamente desligado do movimento de ocupação. Na realidade tal critério, embora aparentemente restritivo, estava em fina sintonia com as lógicas de segurança e organização. Não sendo pouco importante referir que, caso necessário, o faltoso tinha direito de pedir abono das faltas, expondo os motivos para as mesmas diante da assembléia.

Entretanto, por força das condições de vida da população, e por uma constante ocorrência de candidatos a ocupantes, o cadastro parecia não conhecer seu termo. Nas ultimas semanas de reuniões o número de famílias cadastradas já ultrapassava os dois dígitos. A quadra coberta do CCS parecia pequena e o número de acentos insuficientes para tão grande demanda. Lá estavam, moradores de rua, inquilinos na iminência de despejo, pessoas que viviam precariamente em casebres improvisados nas favelas, trabalhadores informais que gastavam o que não ganhavam deslocando-se da periferia para o centro do Rio e agregados a famílias que, por viverem em cubículos, empurravam os parentes para qualquer outra possibilidade de moradia. Tais situações serviram de fermento para a o crescimento do grupo de ocupantes da Quilombo das Guerreiras.

Da ação:

Um mês antes da ação, um grupo de apoio, formado por militantes, achou conveniente transferirem-se as reuniões para um local mais próximo do objetivo final. No dia da ocupação, em um galpão no centro do Rio, houve uma assembléia que transcorreu em clima de bastante expectativa e tensão, pois somente neste momento os ocupantes souberam que a ocupação se daria naquela madrugada. Também a presença da polícia militar que circulava pelo local agravou a tensão, e houve até mesmo a desistência de muitos ocupantes, alguns, inclusive, que já vinham participando há muito tempo das reuniões. Estes argumentavam para justificar a atitude, que não conheciam muitos dos que ali se encontravam e que não tinham confiança neles para uma atitude mais ousada. Tal situação, a de estarem no referido dia muitos ocupantes desconhecidos, prendia-se ao fato de ter sido aprovado em assembléia, por insistência de um dos grupos de apoio, a continuidade dos cadastros ainda no momento da ocupação.

No fim da noite de domingo foram sendo deliberadas as questões mais urgentes, como rondas constantes ao local, a formação de grupos de ocupantes, entre outras. Os moradores do entorno do galpão ficaram desconfiados ao verem, em um domingo, tanta gente desconhecida. A saída foi improvisar um “culto ecumênico” no qual pregaram alguns evangélicos, católicos e militantes. Tal atividade não serviu apenas para aplacar a curiosidade dos inquietos vizinhos, como também, acabou por atuar positivamente no ânimo de muitos ocupantes submetidos à pressão do momento.

Foi até cogitada a desistência da operação por motivos de segurança, mas, aos poucos a tensão foi diminuindo e a situação voltou a se normalizar. A saída, antes programada para o período entre 02h45 e 3h da manhã, foi alterada, ainda na madrugada, para as 03h15, com a previsão de chegada de todos os grupos de moradores até as 03h30. Uma vez os grupos chegando, sem maiores atropelos ao local, guiados por indivíduos previamente orientados nesse sentido, tem início o arrombamento da porta do prédio feito, com alguma dificuldade, pela comissão com esta atribuição. A dificuldade inicial de arrombar a porta significou momentos de extrema tensão, pois a rapidez prevista para a sua abertura, em até aproximadamente 1 minuto não ocorreu; a porta, além do cadeado, estava vedada por solda, o que dificultou muito a ação.

Finalmente, a porta é aberta, constituindo a primeira etapa de nossa vitória. Inicia-se assim a entrada das pessoas no prédio, mas infelizmente algumas famílias ficaram de fora; o barulho provocado pelas marretas e ferramentas usadas chamou a atenção de seguranças do local e cinco minutos depois chegam os primeiros policiais, que, embora atônitos diante da situação apresentada, conseguiram ainda impedir a entrada de alguns ocupantes. Logo depois, por volta das 4h da manhã, começam a chegar outros efetivos de repressão do Estado e logo em seguida, por volta das 04h30, a comissão de elétrica da ocupação, consegue acender as luzes do prédio, seguida de enorme euforia. Nesse momento, apresenta-se aos ocupantes um sargento da polícia, querendo falar com o “líder” do movimento. De dentro do prédio, um militante da FARJ e de outro grupo de inspiração libertária respondem que o movimento não tinha líderes, mas sim uma comissão de moradores. Percebe-se aí uma confusão na cabeça do policial que, acostumado a tratar com as posições hierárquicas, se perde um pouco na sua apresentação. Ele nos pergunta o motivo da “invasão”, ao que respondemos: ”Não estamos invadindo, pois o prédio está vazio, mas estamos ocupando esse prédio que é público e abandonado por mais de dez anos e consta que ele não tem um fim social”. Pronto, a partir dessa resposta o policial militar, sem saber muito o que fazer, estaciona sua viatura bem em frente à porta. Mas, uma vez contrariado, um sargento da dita corporação, propositalmente, aperta o acelerador da viatura policial para introduzir pela entrada do prédio doses maciças de gás tóxico. Na sua irritação, além de tentar intoxicar os ocupantes prostrados na entrada, separados da força de repressão apenas pelas grades da porta, o dito policial ameaçou de prisão e agressão o advogado da FIST e um militante da FARJ, naquela primeira hora os únicos a permanecerem na porta do prédio pelo lado de fora. Então, outras viaturas são acionadas e chegam logo ao local.

Essa situação perdurou até às 8h aproximadamente, quando convocamos a primeira assembléia junto aos ocupantes. Discutiu-se ali a necessidade de organizar a resistência e a necessidade de participação de todos os ocupantes nas tarefas que poderiam vir a surgir durante o dia. Outra questão deliberada foi a reorganização das tarefas de vigilância. Enquanto os apoios se alternavam entre a portaria e janelas, os ocupantes se fixavam em outros pontos estratégicos, vigiando qualquer tentativa de invasão por parte da polícia.

A partir das 9h da manhã, a imprensa começa a chegar, ávida por informações; entrevistavam tanto os apoios que estavam no lado de fora como os que estavam no lado de dentro do prédio. Uma multidão de pessoas se aglomerou na rua sem muito entender o que acontecia e, com o passar das horas e a chegada de mais forças da repressão, a situação ora se encaminhava para uma “normalidade”, ora para momentos de extrema tensão.

Quando o relógio bate 13h, as pessoas que estavam desde domingo à noite e já na madrugada de segunda-feira começavam a reclamar da fome, principalmente, as senhoras mais idosas, as mulheres grávidas e as crianças. Um fato, porém, contribuiu para a obstrução da chegada de comida e água para os ocupantes: a polícia, a força mais reacionária e repressora do estado burguês, impedia que os simpatizantes e solidários da nossa causa nos enviassem os suprimentos necessários. Entretanto, com a presença da imprensa, os policiais diminuíram as hostilidades; porém, impediram a entrada de algumas crianças que, por terem sido resguardadas do momento da ocupação, ficando para trás, pediam pela companhia de suas mães. Esse fato gerou também um forte protesto, de dentro e de fora do prédio ocupado.

Quando estamos perto das 15h, o advogado da ocupação nos chega com uma notícia animadora: é concedido pelo juiz o “interdito proibitório”, que determinava a retirada do corpo repressivo do Estado diante da porta e que anulava sua ação de isolamento entre os ocupantes e o seu livre acesso. Comemoramos e gritamos seqüências de palavras de ordem. Subimos para o segundo andar e ali convocamos uma assembléia para organizar os critérios de entrada das outras famílias que ficaram para trás, porém, o corpo efetivo da “Justiça” Federal não aceita o termo apresentado pelo advogado e somos comunicados por um dos apoios presentes no ato, um militante da FARJ, que o advogado tinha ido atrás de outra petição para julgar a forma arbitrária como os defensores da “Justiça” Federal, que se mantiveram diante do prédio, receberam a nossa manutenção de posse. Nesse momento a rua já se encontra repleta de agentes das polícias Federal, Judiciária, Militar e da inteligência da Polícia Civil, o CORE. Tal reunião de forças da repressão devia-se não apenas a já costumeira abordagem criminal dos movimentos sociais, mas, a esta estratégia conservadora, somava-se à notícia de que, com a morte do traficante Bem-Te-Vi, o tráfico preparava ações no asfalto para distrair a polícia e tomar novamente a comunidade da Rocinha. Para alguns dos paranóicos policiais, o Quilombo das Guerreiras era claramente uma destas iniciativas.

Diante disso, a situação começava a ficar tensa, mais uma vez. Gritos de protesto dos ocupantes se misturavam com idêntica manifestação dos apoios externos. Nos momentos seguintes, fomos informados que a polícia estava planejando um ataque surpresa para dentro do prédio, entretanto, acreditamos que isso era uma jogada de terror psicológico para nos desestabilizar, pois eles não poderiam fazer qualquer tipo de ação sem autorização da “Justiça”.

Nesse momento, os apoios e solidários externos fazem um cordão diante da porta do prédio ocupado para impedir qualquer tentativa de violência por parte da polícia. Ao se aproximar das seis da tarde, o advogado retorna com uma liminar lendo em voz alta, diante da imprensa e de todos os presentes, o caráter abusivo e criminoso da ação da polícia federal e exigindo sua retirada da porta da ocupação.

Mais uma vez, comemoramos a decisão, porém, a liminar não foi aceita. É quando começa um tumulto entre os apoios, a polícia e os advogados que intercediam pelos ocupantes. Alguns apoios externos são agredidos e recebem ordem de prisão, o advogado é agredido por um delegado da Polícia Federal, conduzido de forma criminosa e algemado para um carro da polícia que estava próximo. Nesse momento víamos que nossas perspectivas estavam minguando. As horas de espera por notícias são tensas e bastante complicadas.

Por volta das 19h50 recebemos a visita de mais um advogado, parente de uma das militantes do grupo de apoio, nos informando que a “Justiça” tinha concedido a reintegração de posse do prédio à “Justiça” Federal, aliás, justiça que não esteve ao lado dos ocupantes, mas que atuava de forma privada e reiterava o que já sabíamos: a justiça não é nossa, mas deles. Nessa hora, recebemos a frustrante e triste notícia de que deveríamos nos retirar do prédio em dez minutos, e que estava a caminho uma força policial que usaria, em nome da “ordem” e da “lei”, todo o efetivo de violência para desocupar o prédio. Nesse momento, um apoio interno da ocupação, militante da FARJ, exigia 15 minutos de espera, pois seria convocada com urgência uma assembléia entre os ocupantes para decidir se sairíamos ou resistiríamos à invasão da polícia. Colocados todos os pontos de gravidade aos ocupantes – a possibilidade de resistência, e a que estavam sujeitos as mulheres gestantes, crianças e idosos –, a assembléia, como em outros momentos, tomou sua decisão soberana, por final, optando pela saída pacífica.

Ao abrir-se o cadeado da porta formou-se de imediato um corredor por parte da Polícia Federal. Foram saindo, um por um, os extenuados, mas ainda altivos, ocupantes do Quilombo das Guerreiras. Uma multidão esperava-os fora. Entoavam-se cantos de guerra e uma salva de palmas foi dirigida aos ocupantes. Lágrimas e choros reafirmavam o quanto a luta, a resistência são nossas armas contra todo esse sistema injusto e desigual, que numa manobra jurídica perversa, revelou mais uma vez sua insensibilidade frente aos graves problemas de moradia, do desemprego e da precariedade da vida. Por ora, os ocupantes do Quilombo das Guerreiras retornaram às ruas, favelas, às moradias de favor e o prédio continuará vazio…

Apesar do revés inicial, os moradores permanecem com suas necessidades. Continuaremos, sim, a mostrar que uma nova forma de organização social é possível e que os princípios da solidariedade, da fraternidade, da cooperação mútua e da autogestão social são os verdadeiros alicerces para uma sociedade mais humana.

Acumulando

A pergunta que insistentemente fustigava a consciência de cada um após o despejo do número 20 da Alcindo Guanabara era: Por que não resistimos? Tentados a um diagnóstico simples, o que mais confortavelmente resolveria o incômodo saldo da ação tão longamente preparada, ficava a impressão de ter sido a prisão do advogado da FIST o golpe fatal. Alguns, em avaliações tão superficiais quanto previsíveis buscaram neste simples fato resumir o malogro da ocupação. O velho estratagema bíblico de imputar a um único fato ou indivíduo a culpabilidade de todo um longo processo foi, infelizmente, também por setores do apoio, utilizado. Uma urdidura de interesses com vistas a estabelecer a hegemonia por parte de certos grupos, escamoteada muitas vezes por arroubos populistas, levou a assembléia de avaliação do ato a transformar-se em uma ode ao protagonismo de alguns e imolação da imagem de outros. Os relatos parciais, a sonegação ou omissão de detalhes fundamentais, mesmo sobre erros cometidos resultou, para prejuízo de todos, como diria o agora menos enfático Leandro Konder, em uma “simplificação cínica das contradições”.

Mas, por trás da fina membrana das mais vulgares justificativas, escondia-se um elenco significativo de motivos. E, entretanto, um entre eles, não sozinho, mas em colaboração com seus iguais, figurava com certo destaque. Uma vez que o advogado tinha sido levado pela polícia, algemado e submetido a espancamentos. Os ocupantes que a tudo assistiram perplexos, das sacadas do prédio, viram na imagem do homem de estudos despojado de sua autoridade pela polícia um presságio aterrador. Amputados de uma representação formal, só podiam contar com a aliança tão pacientemente galvanizada na longa seqüência de semanas que antecederam a ocupação. Era o momento de contarem com as forças coletivas sobre as quais repousaria de fato a força do Quilombo das Guerreiras. Entretanto, ironicamente, por força, quem sabe…, de uma generosidade ou então descuido da própria metodologia que deveria simbioticamente mesclar fraternidade com segurança, o cadastro havia ficado aberto até o último dia. Muitos dos que ali se encontravam não podiam gozar da confiança dos demais. Não se conheciam o suficiente. A maturação, fundamental para formar a tempera da resistência, estava cindida. O todo, por este motivo, constituía-se apenas do somatório das partes. Dentro da ocupação, ainda por este mesmo motivo, a divisão de tarefas ficou desigual. Ao contrário do pretendido, foram os militantes de apoio os que mais se expuseram colocando as fachas da ocupação e gritando as palavras de ordem. Ainda assim, apesar da falha, alguns ocupantes que haviam entrado e que participaram do processo desde o início davam entrevistas e ajudavam na organização.

Mas a polícia com seu aparato não deu ao Quilombo das Guerreiras tempo de, no cotidiano das tarefas, preencher com exemplos de solidariedade, a lacuna de reuniões não assistidas. Não foi possível ao grupo híbrido resistir à pressão extraordinária da força de repressão. A comunicação, por parte do outro advogado, de que a manutenção de posse teria sido derrubada em favor da reintegração, e que esta autorizava o uso da força, quebrou a resistência dos “modernos quilombolas”. Não conseguiu a ocupação, majoritariamente composta por negros, alcançar na sua integridade ao menos o dia de Zumbi, que seria no domingo seguinte. Sintomaticamente, no sábado seguinte, apareceram no CCS os que nas assembléias haviam estado por pelo menos dois meses. Foram eles, com suas presenças e opiniões generosas, que definiram a continuidade das reuniões e concitaram os seus apoiadores a permanecerem firmes em seus postos.

No campo tático a FARJ e a FIST tinham como objetivo, ao participarem dessa ocupação, não apenas estabelecer, por uma ação violenta contra a propriedade, um enclave de justiça social, ainda que dentro da mais ampla conjuntura de desigualdade que atravessamos. Os militantes destas organizações acreditavam tratar-se de um passo importante na direção de uma política mais conseqüente entre os grupos de apoio, não excetuando aí o estabelecimento de laços fraternos e de confiança, com vistas à unidade na luta. Tais expectativas que, invariavelmente levariam a uma discussão mais séria sobre estratégias, seriam, como não poderia deixar de ser, apenas contempladas caso a relação concreta entre os grupos envolvidos na preparação e na ação apontasse nessa direção. O despejo, entretanto, trouxe sérios obstáculos para a continuidade desse diálogo tão importante quanto necessário para a expansão da luta pela moradia. De fato, o tempo de convivência entre os grupos de apoio não foi suficiente para, uma vez diante de uma adversidade, encararem de forma madura as enormes tarefas que nos aguardam. Nesse sentido, deviam os próprios militantes observar a atitude dos “modernos quilombolas” que se apresentaram, por força das lições de organização, no sábado seguinte ao despejo, exigindo de todos ânimo para o recomeço da luta.

* Este artigo foi publicado no número 3 da revista Protesta!.

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