Homenagem a Ideal Peres: 10 anos de sua morte

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

 

Em concorrida sessão especial a 16 de agosto, o Círculo de Estudos Libertários Ideal Peres (CELIP) homenageou a memória de um de seus fundadores, na data de seu falecimento, ocorrido há dez anos. A reunião foi realizada no Sindsprev/RJ, local onde o CELIP vem funcionando todas as terças-feiras (Rua Joaquim Silva, 98A, auditório do 3º andar, Lapa). O evento contou com a presença de diversas pessoas que conheceram Ideal Peres pessoalmente e que ali foram para rememorar sua convivência pessoal com aquele que é hoje reconhecido como uma das figuras seminais do atual movimento anarquista no Rio.

Ao dar início aos depoimentos, Renato Ramos narrou como Ideal, filho de militante anarquista, iniciou sua própria militância no final do Estado Novo, participando em uma fase inicial do movimento de resistência cultural dos anarquistas para preservarem sua doutrina, em face da hegemonia marxista e populista que os colocou à margem do movimento operário. Rememorou ainda a criação do Centro de Estudos Professor José Oiticica (CEPJO) no Rio em 1958, em que Ideal teve participação ativa até seu fechamento pelos militares em 1969, ocasião em que foi preso com outros integrantes do CEPJO na Base Aérea do Galeão, sendo sua casa invadida e saqueada pela repressão. Neste sentido, relembrou ainda que, logo após o golpe de 1964, Ideal já havia escapado da prisão ao compor grupo que retirou material comprometedor da sede do CEPJO ali abandonado por trotskistas que sublocavam o espaço. Com o fim da ditadura Ideal e sua companheira Esther Redes fundaram junto com outr@s companheir@s o Círculo de Estudos Libertários (CEL, que se transformou no CELIP após seu falecimento). Mencionou também a atuação de Ideal no movimento de bairros no início dos anos 80, e sua participação na Associação de Moradores do Leme.

Relembrou ainda que travou conhecimento com Ideal Peres em 1986 quando o então CEL funcionava na escola Senador Correia, em Laranjeiras, e a partir deste espaço formou com outros companheiros o Grupo Anarquista José Oiticica (GAJO). Seu grupo participou da edição do jornal anarquista O Inimigo do Rei em sua última fase, assim como da revista Utopia, publicada entre 1988 e 1992. O GAJO e outros grupos libertários fizeram uma forte campanha pelo voto nulo nas eleições de 1988, com repercussão junto aos políticos que se sentiram por ela atingidos, chegando o então vereador Chico Alencar (PT/RJ) a promover uma “contra-campanha”, incitando os jovens a exercerem seu “sagrado” direito ao voto. Ideal Peres incentivou ou participou de todas estas iniciativas, inclusive apoiando o jornal Mutirão, uma das primeiras tentativas dos anarquistas de voltar ao protagonismo social. Em 1991, Ideal afastou-se do CEL, passando sua responsabilidade para militantes mais jovens. Passou então a correr o país divulgando o anarquismo através de palestras.

Milton Lopes, por sua vez, contou como conheceu Ideal Peres em 1973 na casa deste no Leme, ali mandado por outro militante histórico do anarquismo no Rio, o editor Roberto das Neves. Desconfiado por ter acabado de sair do processo do CEPJO, Ideal acabou acertando com Milton e alguns outros colegas seus que se interessavam pelo estudo das idéias anarquistas a constituição de um grupo de estudos que funcionou durante alguns anos na residência de Ideal. Disse Milton que esta oportunidade lhe permitiu, além de colocá-lo a par da história e da doutrina anarquistas, conhecer pessoalmente a antigos militantes que por ali passavam como o professor Matos, Roberto das Neves, participantes do Movimento Estudantil Libertário que tinham sido presos com o pessoal do CEPJO, o professor Pietro Ferrua (hoje residindo nos Estados Unidos) e, principalmente, Diamantino Augusto, velho, mas jovial militante de Santos (onde coordenou uma greve nas docas em 1920) e do Rio de Janeiro, que o impressionou particularmente. Ou então ouvindo recordações de militantes já falecidos como o professor José Oiticica (a quem Ideal foi muito ligado).

Aquele momento era apenas o de manutenção do movimento e Ideal procurava refrear os arroubos mais “revolucionários” dos companheiros mais jovens de maneira bem humorada. Mas, de acordo com Milton, em uma das primeiras reuniões do CEL, Ideal queria à saída iniciar pichação de muros e colar cartazes, sinalizando que os tempos haviam mudado e que neles não haveria lugar para os anarquistas “filósofos”. Para Milton Lopes o que Ideal lhe transmitiu é que o anarquismo é uma doutrina, mas, acima de tudo, uma prática que pode transformar o mundo ao atacar de frente e com ética as raízes dos males sociais.

Já Fábio López teve seu primeiro contato com Ideal Peres no CEL. Relembrou que este possuía às vezes um temperamento difícil, o que nunca particularmente o incomodou. Além de nunca ter levado puxão de orelhas do Ideal, disse ele, “é preciso reconhecer que todas as vezes em que este temperamento difícil se manifestava era porque alguma coisa séria estava acontecendo, ou iria acontecer, em termos de desrespeito aos princípios anarquistas. Não esqueçamos que ele começou a militar ainda muito jovem e que o que ele falava era produto de uma experiência muito grande, tinha muito valor.”

Oscar Farinha comentou a seguir que Ideal embora fosse uma pessoa difícil não era autoritário. Lembrou que também chegou a Ideal através de Roberto das Neves e que este o ajudou bastante nas pesquisas para sua tese sobre a Federação Operária do Rio de Janeiro, posteriormente lançada em livro pela Editora Achiamé. Róbson Achiamé, também presente, apesar de também ter conhecido Ideal Peres, preferiu não dar depoimento explicando que pouco havia convivido com ele e que esta pouca convivência havia ocorrido ao final da vida de IP.

Ao final da reunião, bem que poderia ter passado pelo pensamento dos presentes que a melhor definição para Ideal Peres seria a que ele usava para o militante anarquista: “um sujeito que tem uma ética libertária sabe porque está lutando e consegue explicar os motivos ideológicos da luta; tem compromisso e autodisciplina para levar a cabo as tarefas assumidas”.

 

 

2005

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