Especifismo

ORGANIZAÇÃO ANARQUISTA

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

 

A ausência de organização visível, normal e aceita

por cada um de seus membros torna possível o

estabelecimento de organizações arbitrárias,

menos libertárias.

Luigi Fabbri

Desde que o termo “especifismo” chegou ao Brasil, ainda em meados da década de 1990, houve uma série de polêmicas ou mesmo de confusões em torno dele. Houve, e infelizmente ainda há, pessoas que dizem que o especifismo não é anarquismo, acusam as organizações especifistas de serem partidos políticos, dentre outros absurdos. Quando reivindicamos a FARJ como uma organização anarquista especifista, estamos buscando, mais do que qualquer outra coisa, situar dentro da discussão sobre organização anarquista, quais são as posições que defendemos.

O termo especifismo foi criado pela Federação Anarquista Uruguaia (FAU) e, por ele, nos referimos a uma concepção de organização anarquista que possui dois eixos fundamentais: organização e trabalho/inserção social. Estes dois eixos estão baseados nos conceitos clássicos do anarquismo de atuação diferenciada nos níveis político e social (conceito bakuninista) e de organização específica anarquista (conceito malatestiano). Portanto, o termo especifismo, apesar de ter sido concebido recentemente, refere-se às práticas organizacionais anarquistas que existem desde o século XIX. Além desses dois eixos, há uma série de outras questões organizacionais que são definidas dentro do especifismo e que buscaremos desenvolver em seguida. Portanto, as duas principais referências clássicas do especifismo são Bakunin e Malatesta. Isso não significa que desconsideremos outros importantes teóricos como Proudhon e Kropotkin – utilizamos neste texto muitas referências teóricas deles – mas acreditamos que, para a discussão de organização anarquista, Bakunin e Malatesta possuem propostas mais adequadas para nossa atuação.

Nos próximos parágrafos, pretendemos retomar de maneira breve algumas discussões que fizemos ao longo deste texto, e principalmente deste último capítulo, situá-las e compará-las com outras posições existentes dentro do anarquismo. Acreditamos que mais do que afirmar as posições que defendemos – o que fizemos até aqui – cabe realizarmos algumas críticas fraternais a outras concepções de organização (ou de desorganização) presentes no anarquismo e comparar, com base em alguns pontos escolhidos, nossa concepção com outras.

Talvez o melhor contraponto com o modelo de organização especifista, seja o que chamamos de modelo de síntese, ou sintetismo. Este modelo foi formalizado teoricamente em dois documentos homônimos, chamados “A Síntese Anarquista”, um de Sebastièn Faure e outro de Volin. Histórica e mundialmente, foi a Plataforma do Dielo Trouda que estabeleceu este contraponto. Pretendemos retomar parte deste debate sobre organização anarquista, apesar de, na nossa concepção, o especifismo ser mais amplo que o plataformismo – ainda que possua sua significativa influência.

A síntese defende um modelo de organização anarquista em que estejam todos os anarquistas (anarco-comunistas, anarco-sindicalistas, anarco-individualistas, etc.) e, portanto, apresenta muitas das características que criticaremos a seguir. Sabemos que várias destas características não estão necessariamente ligadas ao modelo sintetista de organização. No entanto, é inegável que muitas delas se reproduzam em organizações deste tipo, principalmente por influência do individualismo, mas não somente dele. Reconhecemos que dentro de organizações sintetistas também há militantes sérios e compromissados com o anarquismo social e, portanto, não queremos que as críticas pareçam generalizadas. Apesar de nunca questionarmos se estas organizações são anarquistas (para nós, todas elas são), elas, na maioria dos casos, não convergem com nossa maneira de pensar a organização anarquista.

Antes de tudo, quando tratamos neste texto da “organização específica anarquista”, a partir desta perspectiva especifista, não estamos falando de qualquer organização de anarquista. Há diversas organizações anarquistas que não são especifistas. Portanto, o especifismo implica em muito mais do que se defender a organização anarquista.

Tratemos das diferenças entre o especifismo e outras formas de organização anarquista.

A primeira diferença está na forma de entender o próprio anarquismo. Como pontuamos no início deste texto, entendemos o anarquismo como uma ideologia, ou seja, um “um conjunto de idéias, motivações, aspirações, valores, estrutura ou sistema de conceitos, que possuem uma conexão direta com a ação – o que chamamos de prática política”. Neste caso, buscamos diferenciar esta compreensão de anarquismo de uma outra, puramente abstrata e teórica, que estimula somente o livre pensar, sem necessariamente conceber um modelo de transformação social. O anarquismo pensado somente a partir deste modelo de observação crítica da vida, oferece uma liberdade estética e de possibilidades infinitas. No entanto, se assim for concebido, não oferece possibilidades reais de transformação social, visto que não é colocado em prática, em ação. Não possui a prática política que busca os objetivos finalistas.

O especifismo defende um anarquismo que, como ideologia, busque conceber um modelo de atuação que transforme a sociedade de hoje no socialismo libertário por meio da revolução social. Este processo, necessariamente, passa pela organização das classes exploradas em organização popular e exige a utilização da violência, entendida fundamentalmente como resposta à violência do atual sistema. Outras correntes anarquistas são contra a violência e acreditam que a transformação social pode se dar de outras maneiras.

Outra diferença está em torno da própria questão da organização. Para nós, a organização é uma questão absolutamente central ao tratarmos de anarquismo. Sem ela, acreditamos ser impossível conceber qualquer projeto político sério e que tenha por objetivo chegar à revolução social e ao socialismo libertário.

Há correntes anarquistas sustentam posições “anti-organização”, ou mesmo espontaneístas, e acreditam que qualquer forma de organização é autoritária ou avessa ao anarquismo. Para estas correntes, a formação de uma mesa para coordenar uma assembléia é autoritária, a formação de um grupo para trabalhar nos movimentos sociais é autoritária. Enfim, para estes anarquistas, as lutas devem se dar de maneira espontânea, os ganhos, caso vierem, deverão vir de maneira espontânea, a conexão entre lutas deve ser espontânea e o mesmo o capitalismo e o Estado, se forem derrubados, será por uma mobilização espontânea. Talvez, ainda, depois de uma eventual revolução social, as coisas evoluirão por sua própria conta, entrando nos eixos sem maiores esforços. Estes anarquistas acreditam que a organização prévia não é necessária, outros pensam que ela nem mesmo é desejável.

Alguns indivíduos anarquistas que defendem estes pontos de vista e que se dispõem a realizar trabalho social, não conseguem lidar com as forças autoritárias e, sem a devida organização, terminam sendo tarefeiros e “buchas” para projetos autoritários ou saem frustrados por não conseguirem espaço nos movimentos sociais.

Pontuamos anteriormente que concebemos a organização específica anarquista como uma organização de minoria ativa. Assim, ela é uma organização de anarquistas que se agrupam no nível político e ideológico e que realizam sua principal atividade no nível social, que é mais amplo, buscando ser o fermento das lutas. No modelo especifista, há obrigatoriamente esta diferenciação entre os níveis político e social de atuação.

Diferentemente, há anarquistas que concebem a organização anarquista como um amplo agrupamento que federa todos aqueles que se intitulam anarquistas, servindo como um espaço de convergência para a realização de ações com completa autonomia. No anarquismo, de maneira ampla, também esta divisão entre os níveis político e social não é aceita por todas as correntes, que compreendem a organização anarquista de maneira difusa, podendo ser ela um movimento social, uma organização, um grupo de afinidades, um grupo de estudos, uma comunidade, uma cooperativa, etc.

Mesmo o conceito de anarco-sindicalismo, em diversos momentos, buscou suprimir esta diferença de atuação entre níveis, misturando a ideologia anarquista com o sindicalismo. Estas e outras tentativas de ideologizar os movimentos sociais, no nosso entender, enfraquecem tanto os movimentos sociais – que não funcionam mais em torno de questões concretas como terra, moradia, emprego, etc. –, quanto o próprio anarquismo, já que não permitem o aprofundamento das discussões ideológicas, que são feitas em meio ao movimento social. Enfraquece também, pois o objetivo destes anarquistas de tornar todos os militantes dos movimentos sociais anarquistas é impossível, a não ser que se reduzam e enfraqueçam significativamente os movimentos. Desta forma, ou mesmo por ver que é natural encontrar pessoas de ideologias diferentes nos movimentos sociais que nunca serão anarquistas, estes anarquistas se frustram, e muitas vezes se afastam das lutas. Como conseqüência disso, fazem, frequentemente, o anarquismo fechar-se em si mesmo.

A organização anarquista de minoria ativa é muitas vezes entendida, por outras correntes do anarquismo, como similar à organização autoritária de vanguarda. Como fizemos questão de pontuar, quando concebemos esta separação entre os níveis político e social, não queremos dizer com isso que queremos estar à frente dos movimentos sociais e nem que o nível político possui qualquer hierarquia ou domínio em relação ao nível social.

Há também uma diferença em relação ao espaço privilegiado para a prática do anarquismo. Nós especifistas acreditamos que este espaço é a luta de classes. Antes de tudo, já consideramos que não vivemos apenas em uma sociedade, mas em uma sociedade de classes. Independente da forma que pensemos a diferença destas classes, nos parece impossível negar que a dominação e a exploração aconteçam em níveis diferentes em nossa sociedade e que o fator econômico tem grande influência sobre isso. Para nós, o anarquismo nasceu no seio do povo e é lá que ele deve estar, tomando uma posição clara em favor das classes exploradas que estão em conflito permanente na luta de classes. Portanto, quando discutimos “onde jogar as sementes do anarquismo”, para nós é claro que deve ser no seio da luta de classes; nos espaços em que as contradições do capitalismo são mais evidentes.

Há anarquistas que não sustentam este viés classista do anarquismo e, o que é pior, há aqueles que o acusam de ser assistencialista, ou de querer “fazer apologia dos pobres”. Negando a luta de classes, a maioria desses anarquistas acredita que como a definição clássica de classes de burguês e proletário não dá conta da sociedade de hoje, então se poderia dizer que não existem mais classes; ou que este seria um conceito anacrônico. Discordamos radicalmente destas posições e acreditamos que, independente de como formos definir as classes – se daremos mais ou menos ênfase ao caráter econômico, etc. – é inegável que existam contextos e circunstâncias em que as pessoas sofrem mais os efeitos do capitalismo. E é nestes contextos e nestas circunstâncias que queremos priorizar o nosso trabalho.

Quando buscamos aplicar o anarquismo à luta de classes, reivindicamos o que chamamos de trabalho social, e que definimos anteriormente como “a atividade que a organização anarquista realiza em meio à luta de classes, fazendo o anarquismo interagir com as classes exploradas”. Como também dissemos, para nós, esta deve ser a principal atividade da organização específica anarquista. Por meio do trabalho social, defendemos que a organização anarquista deva buscar a inserção social, “processo de influência dos movimentos sociais a partir da prática anarquista”.

Há anarquistas que não defendem este trabalho com vistas à inserção social. Parte não acredita que isso seja prioridade, e outra parte, o que é mais complicado, acredita que é autoritário. Para os anarquistas que pensam que trabalho/inserção social não são prioritários, parece que outras atividades teriam mais efetividade no desenvolvimento do anarquismo – por mais que geralmente isso não seja dito. Apesar de, pelo menos aparentemente, não haver uma formulação estratégica, o que acontece na prática é que estes anarquistas procuram trabalhar com a propaganda, muito restrita às publicações, aos eventos, à cultura. Como já enfatizamos, esta propaganda também é central para nós, mas não é suficiente se for feita sem respaldo de trabalho/inserção social. Com este respaldo, a propaganda é muito mais efetiva. Portanto, a propaganda, no especifismo, deve ser realizada por estes dois vieses: educacional/cultural e de luta com os movimentos sociais.

Os anarquistas que não acreditam que trabalho/inserção social não são e nem devem ser prioridade, preferem trabalhar em outros meios, longe da luta de classes, longe dos movimentos sociais, longe das pessoas de ideologias diferentes. Alguns dizem que como são membros da sociedade, já possuem inserção social. Muitas vezes, terminam sectários, conseguindo conviver apenas com seus pares, e “guetificando” o anarquismo. Isso explica o sectarismo de parte dos anarquistas, que acontece em proporção muito menor com as organizações especifistas.

Muito mais complicada que a posição acima, é a posição defendida por anarquistas que são contra o trabalho e a inserção social; posição bastante comum no meio libertário. Esses anarquistas acreditam que como muitas vezes não são pobres, como muitas vezes não estão em movimentos sociais (não são sem-terra, por exemplo), que é autoritário trabalhar com a comunidade carente ou mesmo com os movimentos sociais, já que “são de fora dessa realidade”. Para eles, é autoritário uma pessoa que tem onde morar apoiar a luta dos sem-teto; é autoritário freqüentar um movimento comunitário sem ser da comunidade; é autoritário apoiar o trabalho dos catadores de lixo se você não é um deles. Para estes anarquistas, só há legitimidade em se trabalhar com movimentos populares se você é um “popular” e se você faz parte da realidade do movimento. Como geralmente esses anarquistas não estão nessas condições, não se aproximam de movimentos sociais e nem da luta de classes. Terminam por fazer de seu anarquismo um “movimento em si mesmo”, que se caracteriza por ser essencialmente de classe média e de intelectuais, por não buscar contato com as lutas sociais e populares, por não estar em contato com pessoas de ideologia diferentes. Aliás, este anarquismo de classe média e intelectual, quando não busca trabalho e inserção social, termina necessariamente em um de dois caminhos. Ou abandona a proposta de transformação social, ou constitui-se em um agrupamento que luta pelo povo, e não com o povo – assumindo a posição de vanguarda e não de minoria ativa.

O trabalho social, para estes militantes, é muitas vezes comparado ao “entrismo” da esquerda autoritária, pessoas que entram nos movimentos para fazê-los funcionar em seu próprio favor. Na maioria das vezes, defendem um espontaneísmo de que “vir de fora”, “colocar o anarquismo dentro dos movimentos sociais”, é autoritário. Segundo eles, as idéias deveriam surgir espontaneamente. Acusam a discussão, a persuasão, o convencimento, a troca, a influência, externos aos movimentos sociais e, por isso, autoritários.

Dessa posição contrária ao trabalho e à inserção social, nós especifistas também discordamos radicalmente. Como explicamos, para nós o anarquismo não deve ser fechado em si mesmo, e nem se afastar dos movimentos sociais e das pessoas de ideologias diferentes. Ele deve servir como ferramenta, como fermento, como motor das lutas de nosso tempo. Para isso, o anarquismo, ao invés de esconder-se deve confrontar-se com a realidade e buscar transformá-la. Para esta transformação, de nada adianta “pregarmos para os convertidos”; temos, necessariamente, que interagir com não-anarquistas.

Já que entendemos que a classe não se define a partir da origem, mas sim a partir da posição que se defende na luta, acreditamos que apoiar movimentos sociais, auxiliar mobilizações e organizações diferentes da realidade que se está incluído é uma obrigação ética de qualquer militante comprometido com o fim da sociedade de classes. Finalmente, acreditamos que o trabalho social traz a prática necessária ao anarquismo, que tem uma contribuição imensa na formulação da linha teórica e ideológica da organização. Esta atividade é, para nós, importantíssima em nossa formulação teórica, pois faz com que teorizemos tendo conhecimento da realidade e da aplicação prática do anarquismo nas lutas. Grupos e organizações que não possuem trabalho social tendem a radicalizar um discurso que não possui respaldo na prática. Quando isso acontece, a tendência é que exista um discurso ultra-radical e revolucionário – muitas vezes acusando outros de reformistas, etc. –, mas que não sai da teoria.

Como vimos, no especifismo há unidade teórica e ideológica, um alinhamento em relação aos aspectos teóricos e ideológicos do anarquismo. Esta linha política é construída coletivamente e todos na organização têm obrigação de segui-la. Por considerarmos o anarquismo algo muito amplo, com posições muito variadas ou mesmo contraditórias, nos parece necessário que, entre todas estas posições, devemos extrair uma linha teórica e ideológica a ser defendida e desenvolvida pela organização. Como enfatizamos, esta linha deve, necessariamente, ter vínculo com a prática, já que acreditamos que “para teorizar com eficácia é imprescindível atuar”.

Para anarquistas que não defendem esta unidade, a organização anarquista poderia trabalhar com diversas linhas teóricas e ideológicas. Cada anarquista ou grupo de anarquistas pode ter a sua interpretação do anarquismo e sua própria teoria. Isso é motivo de diversos conflitos e cisões em organizações com esta concepção. Como não há acordo nas questões de saída, são freqüentes as brigas, pois alguns acham que os anarquistas devem realizar trabalho com movimentos sociais, outros acham isso autoritário e “coisa de marxista”, alguns acham que a função do anarquismo é realçar o ego dos indivíduos, outros são radicalmente contra, e assim por diante. Para nós, não há como ter uma prática efetiva ou mesmo constituir-se em uma organização, sem que haja acordo em algumas “questões de saída”. Nas organizações que não trabalham com unidade teórica e ideológica, não há aprofundamento neste sentido, visto que com tantos problemas nas questões mais simples, as mais complexas não chegam nem a ser discutidas. Bakunin estava certo quando afirmou que “quem muito abraça, pouco aperta”[Mikhail Bakunin. “Programa Revolucionário e Programa Liberal”. In: Conceito de Liberdade p. 189.]. É importante

“que se compreenda que a divisão que existe neste ponto entre os anarquistas é muito mais profunda do que o que normalmente se acredita, e que supõe igualmente uma inconciliável discordância teórica. Digo isto para responder aos meus bons amigos, favoráveis a um acordo a qualquer preço, que afirmam: ‘Não criemos problemas de método! A idéia é uma só e a meta é a mesma; permaneçamos pois unidos sem nos rasgarmos por um pequeno desacordo sobre a tática’. Eu, ao contrário, dei-me conta há muito tempo atrás, que nos dilaceramos justamente porque estamos muito próximos, por que estamos artificialmente próximos. Sob o verniz aparente da comunidade de três ou quatro idéias – abolição do Estado, abolição da propriedade privada, revolução, anti-parlamentarismo – existe uma diferença enorme na concepção de cada uma destas afirmações teóricas. A diferença é de tal monta que nos impede de tomarmos o mesmo caminho sem querelarmo-nos e sem neutralizar reciprocamente o nosso trabalho ou, se assim quisermos, permanecer em paz, sem renunciarmos àquilo que acreditamos ser verdadeiro. Repito: não existe apenas uma diferença de método, mas sim uma grande diferença de idéias.”[Luigi Fabbri. “A Organização Anarquista”. In: Anarco-Comunismo Italiano pp. 104-105]

Além da unidade teórica e ideológica, os especifistas defendem a unidade estratégica e tática. Atuar com estratégia, como vimos, implica em realizar um planejamento de todas as ações práticas que forem realizadas pela organização, buscando verificar de onde se quer sair, onde se quer chegar e como. O anarquismo que trabalha com unidade estratégica e tática faz do planejamento e do alinhamento na atuação prática um forte pilar organizacional. Isso, porque acreditamos que a falta de estratégia dispersa os esforços, fazendo com que muitos deles sejam perdidos. Defendemos um modelo em que se discute coletivamente um caminho a seguir, e junto com este caminho, temos prioridades estabelecidas e responsabilidades atribuídas aos militantes. As prioridades e responsabilidades significam que cada um não vai poder fazer o que lhe passar pela cabeça, quando quiser. Cada um vai ter obrigação, perante a organização, de realizar aquilo que se comprometeu e aquilo que foi definido como prioritário. Obviamente que se buscará conciliar as atividades que cada um gosta de fazer, com as responsabilidades estabelecidas pela organização, mas nem sempre temos de fazer só aquilo que gostamos de fazer. Um modelo especifista implica em termos de fazer coisas que não gostamos muito ou deixarmos de fazer algumas coisas que gostamos muito. Isso, para fazer com que a organização caminhe com estratégia, com todos remando o barco no mesmo sentido.

Criticamos com ênfase as organizações que não trabalham com estratégia. Para nós, não há como trabalhar em uma organização em que cada militante ou grupo faz aquilo que achar melhor, ou simplesmente aquilo que gosta de fazer, acreditando estar contribuindo com um todo comum. Geralmente, quando se agrupa anarquistas de todos os tipos em uma organização, sem que haja afinidades estratégicas, não há qualquer acordo sobre como atuar. Ou seja, não é possível estabelecer uma forma de caminhar, e há somente um acordo: que as coisas devem ir caminhando.

Como pensar uma organização em que se busca conciliar um grupo que acredita que deve atuar como organização específica no movimento social, com um grupo que acha que a prioridade deve ser a convivência entre amigos, a terapia de grupo ou mesmo a exaltação do papel do indivíduo, considerando autoritário (ou mesmo marxista ou assistencialista) o trabalho com movimento sociais? Há duas formas de se trabalhar essas diferenças: ou se discute as questões, e se vive entre brigas e desgastes, que consomem grande parte do tempo, ou simplesmente não se toca nas questões. A maioria das organizações deste tipo opta pela segunda forma.

“A fim de estabelecer uma certa coordenação na ação, coordenação necessária, creio eu, entre pessoas que tendem para o mesmo objetivo, impõem-se determinadas condições: um certo número de regras ligando cada um a todos, determinados pactos e acordos renovados frequentemente – se falta tudo isto, se cada um trabalha como lhe apetece, as pessoas mais sérias encontrar-se-ão elas próprias numa situação em que os esforços de uns serão neutralizados pelos dos outros. Disto resultará a desarmonia e não a harmonia e a confiança serena para a qual nós tendemos.”[Mikhail Bakunin. “Táctica e Disciplina do Partido Revolucionário”. In: Conceito de Liberdade pp. 197-198.]

A unidade teórica e ideológica e a unidade estratégia e tática são atingidas por meio do processo decisório coletivo, adotado pelas organizações especifistas que é a tentativa de consenso e se este não for possível, a votação, vencendo a maioria. Como também enfatizamos, neste caso, toda organização adota a decisão vencedora. Diferentemente, há organizações que trabalham somente com o consenso, permitindo, muitas vezes, que uma ou outra pessoa tenha influência exacerbada em um processo decisório que envolve um número muito maior de pessoas. Buscando o consenso a qualquer custo, e com o medo de rachar, essas organizações permitem que uma ou outra pessoa consiga ter um peso desproporcional nas decisões, somente para se conseguir o consenso. Outras vezes, se gasta horas com discussões de pouca importância somente para se buscar o consenso. Temos em mente que o processo decisório é um meio e não um fim em si mesmo.

A obrigação de todos seguirem um mesmo caminho – que é regra no especifismo – é o compromisso que a organização possui com a estratégia, pois, se cada vez que uma decisão tomada não agradar parte dos militantes, e esta parte se recusar à realização do trabalho, será impossível a organização caminhar. Em caso de votação, é importante termos em mente que, em uma vez, alguns ganharão a votação e trabalharão na sua proposta, em outra vez, perderão e trabalharão na proposta dos outros companheiros. Com esta forma de tomada de decisão, se dá mais importância para as deliberações coletivas do que para os pontos de vista individuais.

Há diferença, ainda, em pontos centrais que favorecem a organização especifista: o comprometimento, a responsabilidade e a autodisciplina dos militantes com a organização. No modelo especifista, há alto nível deste compromisso militante. Assim, é imprescindível que os militantes assumam compromissos frente à organização e os cumpram. O compromisso militante imprime uma ligação entre militante e organização, que é uma relação mútua, em que a organização é responsável pelo militante, assim como o militante é responsável pela organização. Assim como a organização deve satisfação ao militante, o militante deve satisfação à organização.

A falta de comprometimento, responsabilidade e autodisciplina constitui um grande problema em muitos grupos e organizações anarquistas. É muito comum as pessoas se aproximarem e participarem mais ou menos das atividades, fazendo somente aquilo que têm interesse, muitas vezes participando de decisões, assumindo compromissos e não os cumprindo, ou simplesmente, não assumindo compromissos. Há muitas organizações que são complacentes com a falta de compromisso militante. É inegável que, por este motivo, essas organizações sejam mais “legais” de se fazer parte, no entanto, são muito pouco efetivas do ponto de vista militante. Como para nós a militância é algo necessário na luta por uma sociedade livre e igualitária, não acreditamos que ela será sempre “legal”. Se tivermos de optar entre um modelo de militância mais efetivo e outro mais “legal”, devemos optar pela efetividade.

Para o trabalho com compromisso militante, o especifismo sustenta uma organização com níveis de compromisso. Como explicamos, defendemos a lógica dos círculos concêntricos em que todos os militantes possuem um espaço bem definido na organização, espaço este que é determinado pelo nível de compromisso que o militante quer assumir. Quanto mais ele quiser se comprometer, mais dentro da organização ele estará e maior será o seu poder de deliberação. Portanto, tanto no nível político quanto no nível social, há critérios bem definidos de entrada desde as instâncias de apoio ou agrupamentos de tendência até a organização específica anarquista. Só estão dentro da organização específica anarquistas, militantes com afinidade ideológica com a organização.

Ao contrário do modelo especifista, há outras organizações cujo único critério para entrada de militantes é sua definição como anarquistas, independente de que concepção de anarquismo eles tenham. Algumas pessoas participam um pouco da organização, outras são mais comprometidas; uns assumem mais responsabilidades do que outros e todos possuem o mesmo poder de deliberação. Por isso, muitos deliberam sobre atividades que não vão realizar, ou seja, determinam o que os outros vão fazer. Quando uma organização permite que alguém delibere algo e não assuma responsabilidades, ou que assuma responsabilidades e não as cumpra, ela permite um autoritarismo daqueles que vão deliberar e jogar trabalho nas costas de outros companheiros. Enfim, neste outro modelo, cada um se envolve da forma que acha melhor, aparece quando acha que deve, e não há muita cobrança sobre a questão do compromisso militante. Muitos, ao serem cobrados, julgam-se vítimas do autoritarismo. Como explicamos, para nós, este modelo de organização, além de sobrecarregar os militantes mais responsáveis, acaba por permitir esta discrepância de pessoas que não deliberam e trabalham na mesma proporção.

Portanto, não querermos ser este grande “guarda-chuva” que abarca todos os tipos de anarquistas. Estas amplas (in)definições, aparentemente agregam mais anarquistas na organização, no entanto, acreditamos que não devemos optar pelo critério da quantidade, mas sim da qualidade de militantes.

“Não há dúvida que se evitarmos precisar bem o nosso verdadeiro caráter, o número de nossos aderentes poderá tornar-se maior. (…) É evidente, por outro lado, que se nós proclamamos alto os nossos princípios, o número dos nossos aderentes será menor, mas pelo menos serão aderentes sérios, com os quais poderemos contar.”[Idem. “Programa Revolucionário e Programa Liberal”. In: Conceito de Liberdade pp. 188-189]

Diferença relevante também se dá em torno da questão do individualismo anarquista. O especifismo significa uma recusa absoluta e completa do individualismo anarquista. Por este motivo, diverge de outras organizações que aceitam trabalhar com os individualistas. Para nós, há dois tipos de individualistas no anarquismo. Um tipo, que era mais comum no passado, de pessoas que preferem trabalhar sozinhas, mas que têm em mente o mesmo projeto que nós. Nestas pessoas, só temos a criticar o fato de que, estando desorganizadas, não conseguem potencializar os resultados de seu trabalho. Um outro tipo, mais em evidência nos dias de hoje, renunciou ao projeto socialista. Baseados na crítica anarquista do Estado, possuem pouca crítica ao capitalismo, e nenhuma atuação no sentido de transformar socialmente a realidade em que vivemos. Colocando-se na condição de simples observadores críticos da sociedade, constroem um anarquismo a partir de referências e pensadores secundários, simplesmente em torno da crítica. Não possuem qualquer projeto de sociedade e muito menos uma atuação coerente que aponte para esta nova sociedade. Poderíamos nos perguntar:

“o que então nos resta do individualismo anarquista? A negação da luta de classes, a negação do princípio de uma organização anarquista, cuja finalidade seja a sociedade livre de trabalhadores iguais: e mais ainda, a charlatanice vazia, estimulando os trabalhadores infelizes com sua existência, a tomar parte recorrendo a soluções pessoais, supostamente abertas a eles enquanto indivíduos libertados.”[Dielo Trouda. “El Problema de la Organización y la Noción de Síntesis”]

Assim, exacerbam o papel da liberdade individual, que, apartada da liberdade coletiva, torna-se meramente um gozo egoísta, para o deleite de alguns poucos que podem, por seus privilégios dentro do capitalismo, permitir-se isso. Na realidade, a liberdade individual só pode existir na liberdade coletiva. Isso, pois a escravidão de outros limita a liberdade de cada um, e a liberdade individual plena só pode se realizar no momento em que, coletivamente, todos forem livres. Concordamos com Bakunin quando colocou:

“Só posso considerar-me e sentir-me livre na presença e em relação a outros homens. (…) Só sou verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, são igualmente livres. A liberdade do outro, longe de ser um limite ou a negação da minha liberdade, é, ao contrário, sua condição necessária e sua confirmação. Apenas a liberdade dos outros me torna verdadeiramente livre, de forma que, quanto mais numerosos forem os homens livres que me cercam, e mais extensa e ampla for sua liberdade, maior e mais profunda se tornará a minha liberdade. Ao contrário, é a escravidão dos homens que põe uma barreira na minha liberdade. (…) Minha liberdade pessoal assim confirmada pela liberdade de todos se estende ao infinito.”[Mikhail Bakunin. Império Knuto-Germânico. Citado em Daniel Guérin (org.). Textos Anarquistas (trechos de Ni Dieu, Ni Maître). Porto Alegre: LP&M, 2002 pp. 47-48.]

Para nós, é impossível buscar uma liberdade individual em uma sociedade como a nossa, em que milhões não têm acesso às mais básicas necessidades de um ser humano. Não há como se pensar em um anarquismo puramente individual, como uma forma de se colocar no mundo, de ter um estilo de vida diferente. Para os individualistas, na grande maioria dos casos, ser anarquista significa ser artista, boêmio, defender a liberdade sexual de ter relacionamentos abertos ou com mais de um(a) companheiro(a), usar roupas diferentes, ter um corte de cabelo radical, ter comportamentos extravagantes, comer comidas diferentes, definir-se pessoalmente, realizar-se pessoalmente, ser contra a revolução(?!), ser contra o socialismo(?!), possuir um discurso sem pé nem cabeça – gozando da liberdade de estética – enfim, tornar-se apolítico. Discordamos radicalmente desta posição e acreditamos que as influências neste sentido são funestas ao anarquismo, afastando militantes sérios e comprometidos. Finalmente, concordamos com Malatesta quando enfatizou:

“É verdade, gostaríamos de poder estar, todos nós, de acordo, e reunir em um único feixe poderoso todas as forças do anarquismo. Mas não acreditamos na solidez das organizações feitas à força de concessões e de restrições, onde não há entre os membros simpatia e concordância real. É melhor estarmos desunidos que mal unidos.”[Errico Malatesta. “A Organização II”. In: Escritos Revolucionários p. 62.]

Para nós, escolher o modelo mais adequado de organização anarquista é fundamental para que tenhamos os meios mais adequados e coerentes com os fins que buscamos atingir. Se defendemos o especifismo, que é uma forma de organização anarquista, é porque acreditamos que ele é hoje mais adequado para o trabalho que pretendemos realizar. Entendemos que há anarquistas que não concordam com o especifismo e não achamos que são menos anarquistas por isso. Só exigimos respeito por nossa escolha, assim como nós respeitamos aqueles que fizeram outras escolhas.

 

 

* Trecho de Anarquismo Social e Organização.

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