Diário de Uma Ocupação Urbana: Anarquismo Agora

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)


15 de novembro de 2005. As ruas do centro do Rio de Janeiro amanhecem quase abandonadas por conta do feriado. Os muitos arranha-céus espelhados que compõem a Avenida Rio Branco naquele dia não refletem, como acontece cotidianamente, o espetáculo urbano de tantas injustiças. No dia anterior a avenida comemorara seu centenário, com a distribuição de bolo aos transeuntes. Não longe dali, 70 famílias quase famintas aguardavam o início de mais uma ocupação urbana, concentradas em um prédio da Lapa. Expulsos da região no início do século XX pela construção da então Avenida Central, os sem-teto reivindicavam sua volta à região, pleiteando uma vida socialmente útil para o prédio número 20 da rua Alcindo Guanabara, abandonado há mais de uma década pelo INSS e bem próximo à imponente Rio Branco. A ocupação contou com o apoio de estudantes e de diversos grupos anarquistas, sendo batizada com o emblemático nome de “Quilombo das Guerreiras”. Os anarquistas foram representados pela Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), pelo Coletivo Libertário Ativista Voluntariado de Estudos (CLAVE), pelo extinto Grupo Ação Libertária (GAL) e outros grupos de inspiração libertária que, ao lado da Frente Internacionalista dos Sem Teto (FIST) forneceram apoio aos ocupantes. Os anarquistas, com sua participação, deram continuidade ao processo de retomada de sua tradição de luta e inserção social no Rio de Janeiro.

A ocupação foi preparada no decorrer dos meses antecedentes em reuniões semanais sempre precedidas de análises de conjuntura, sendo tiradas comissões para resolver problemas que sempre ocorrem nestes momentos, ligados à hidráulica, eletricidade, cozinha, limpeza e animação para crianças. Tais reuniões também serviram para despertar e estimular entre os participantes um sentimento de fraternidade e de entrosamento político, baseados na confiança mútua. Parodiando Bakunin, a liberdade de outros amplia a do indivíduo até o infinito. Além disso, princípios de autogestão econômica e social eram veiculados no seu decorrer, com sua dinâmica também compreendendo tópicos de organização como a elaboração de um regimento interno e o registro de presenças (5 faltas = excluído da ocupação). Nas últimas reuniões o número de famílias cadastradas ultrapassou dois dígitos em vista das péssimas condições de vida da população.

A ação de ocupação desenvolveu-se a partir da concentração em um galpão na Lapa já no dia anterior. Ali se realizou uma assembléia final que votou as deliberações mais urgentes para o momento. Com a chegada ao local de todos os grupos de ocupantes até as 3:30 da madrugada, a porta do prédio foi aberta após momentos de tensão. Em alguns minutos chegam alguns policiais que conseguem impedir a entrada de alguns ocupantes. Às 4 horas chegam mais efetivos da repressão do Estado. Às 4.30h a luz é ligada em clima de euforia. Neste momento, um sargento da polícia declara querer conversar “com o líder”. Recebe a resposta de que ali não havia líderes, mas uma comissão de moradores, o que causa visível confusão mental no policial, acostumado a lidar com hierarquias. Seguiu-se uma tentativa de intoxicação dos ocupantes, quando a polícia abre o cano de descarga da viatura postada bem na entrada do prédio, apertando seu acelerador. Um militante da FARJ e o advogado da FIST também são ameaçados de prisão e agressão neste momento. Novas viaturas policiais chegam ao local. Ainda naquela manhã foi convocada assembléia para reorganização das tarefas de vigilância. A imprensa chegou por volta das 9 horas, entrevistando todos os apoios (os que estavam dentro e fora do prédio), o que fez com que a polícia “maneirasse” sua atuação. À tarde, por volta das 13 horas, porém, esta mesma polícia não permite a entrada de água e alimentos para os ocupantes (que incluíam senhoras idosas, mulheres grávidas e crianças).

Às 15 horas o advogado da ocupação anuncia para a alegria geral que o juiz havia concedido “interdito proibitório”, determinando a retirada do corpo repressivo do Estado diante da porta. No entanto, tal não foi aceito pelos defensores da “Justiça” Federal postados em frente ao prédio, obrigando o advogado a ir apresentar nova petição, desta vez de julgamento dos atos de tais guardiões. A rua, a esta altura, já está coalhada com agentes das polícias federal, militar, judiciária e da inteligência da polícia civil, o CORE, numa clara manifestação de que a criminalização de questões sociais está longe de ser coisa do passado. Às seis da tarde o advogado retorna com uma liminar, lida em voz alta para a imprensa e todos os presentes. Mais uma vez se comemora, mas a liminar não é aceita pelos “bravos agentes da lei”. Começa então um tumulto que envolve policiais, advogados e o pessoal de apoio. Alguns dos apoios, inclusive um militante da FARJ, são agredidos e recebem voz de prisão, e o advogado é agredido e conduzido de forma criminosa à delegacia. Aproximadamente às 20 horas recebeu-se a notícia de que estaria a caminho força policial que usaria em nome da “lei” e da “ordem” toda a violência para desalojar os ocupantes. Perante tal situação, foi convocada uma assembléia para decidir pela retirada ou resistência à invasão policial, tendo prevalecido a opção pela saída do prédio. Esta ocorreu entre cantos de guerra e salva de palmas aos ocupantes, que se abraçavam entre lágrimas e choros e que neste momento de emoção, reafirmavam o quanto a luta e a resistência são armas contra a desordem social vigente, que numa manobra jurídica perversa revelou mais uma vez insensibilidade aos graves problemas de moradia, desemprego e de precariedade da vida. Nestes momentos a sociedade estatal-capitalista mostra sua verdadeira face: a da repressão e do terror contra dominados e excluídos.

Apesar do revés sofrido, os moradores continuam com suas necessidades. Cabe aos anarquistas continuar mostrando que uma nova forma de organização social é possível e que os princípios de solidariedade, apoio mútuo e autogestão social, exercidos através da ação direta, são os verdadeiros alicerces e o caminho para uma sociedade enfim livre e humana.

 

 

2005

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