Da periferia aos centros e de volta a periferia: Chacina na Maré

Publicado originalmente em 02/07/2013

Federação Anarquista do Rio de Janeiro

O fim da ditadura militar no Brasil não acabou com as práticas repressivas da Polícia Militar sobre as classes populares. O papel e função desta instituição mantém-se o mesmo desde então: fazer valer e garantir os interesses das classes dominantes e do capital, levando adiante o rolo compressor das imposições de governantes e de suas políticas públicas em prejuízo do povo.

Desde a “democratização” do país, temos testemunhado cada vez mais a territorialização das ações violentas da PM nas periferias, favelas e subúrbios das cidades, mantendo-se as práticas mortais e repressivas dos “anos de chumbo” contra os pobres (jovens negros principalmente) e os “subversivos”. Para isso, as forças repressoras e o capital contam com a cumplicidade de empresas e corporações que monopolizam os meios de comunicação. Estas, que sempre fizeram o jogo do poder, lucram com notícias mentirosas e tendenciosas e colaboram bastante para estigmatizar as favelas como espaços de violência e de desordem, construindo o discurso de que estas comunidades seriam um “caso de polícia” que somente a violência do Estado pode conter.

Nas fronteiras dos estados e municípios, armas e drogas passam pelas barbas das “autoridades”, que muitas vezes são cúmplices do tráfico. Nas favelas, policiais apreendem drogas e armas para revendê-las aos próprios traficantes e, depois de matá-los, as vendem novamente. Nenhum governo (mesmo um de “esquerda”), desde a ditadura, tem se preocupado com este processo, ao contrário, tem o levado cada vez mais ao extremo. E muitos partidos de esquerda defendem a ideia absurda da possibilidade de uma polícia militar cidadã! Uma polícia que não reprima os pobres é um sonho absurdo dentro do capitalismo. O aparato repressivo do Estado é um de seus pilares de dominação; é uma das condições estruturais deste sistema. Esse Estado criou uma unidade policial que tem como símbolo uma caveira com uma adaga enterrada e duas pistolas cruzadas e que nasceu com o lema: “Homem de preto, qual é sua missão? Entrar na favela e deixar corpos no chão!” E tem tido muito sucesso referente a esta missão: milhares de corpos sobretudo de jovens, no chão das favelas marcam a história da violência policial das últimas décadas.

Ao eclodirem de um dia para o outro mobilizações históricas por todo o Brasil, a PM viu-se forçada a atuar no asfalto, disparando bombas e balas de borracha contra distintos segmentos sociais. Teve que enfrentar milhares de celulares e máquinas fotográficas que registraram seus atos de violência. Naquele momento, amplos segmentos puderam sentir na pele o quanto a violência estatal é desumana e a que grau pode atingir. Uma prática brutal que, na verdade, é regra, e não exceção. De repente, nas ruas, moradores de bairros (reconhecidos enquanto tal pelo poder público) puderam sentir junto com moradores de favelas a violência sistemática do Estado.

Na quinta-feira, 20 de junho, a violência policial foi das periferias até o Centro do Rio de Janeiro para caçar milhares de manifestantes, deixá-los em pânico, botá-los para correr, machucá-los e prendê-los. Fazendo o que sempre fazia nas periferias e favelas, a PM de repente viu-se alvo de críticas, teve suas ações registradas e publicadas por diversos meios de comunicação livres não dominados pela mídia corporativa.

Analista de segurança da Globo (a direita), Rodrigo Pimentel diz que fuzil deve ser usado na favela, não no asfalto.

Analista de segurança da Globo (a direita), Rodrigo Pimentel diz que fuzil deve ser usado na favela, não no asfalto.

O Fuzil AR-15 deve ser utilizado em guerra, em operações policiais em comunidades e favelas. Não é uma arma para se utilizar em área urbana”. (Rodrigo Pimentel, Comentarista de “Segurança” da Rede Globo)

Supostamente criticando a atuação da PM durante a passeata dos 100 mil, essa “avaliação” do “especialista” em (des)segurança pública, Rodrigo Pimentel (proferida em 18 de junho no RJ-TV da Rede Globo), ecoou pelas favelas: mais mortes estariam por vir. A raiva de terem que usar balas de borracha nas manifestações. A vontade de darem o exemplo e calarem de imediato a voz do povo. Impedir que cada vez mais a onda de revolta nas ruas se espalhasse pela cidade. Todos estes elementos tiveram seu papel quando, no dia 24 de junho, a PM entrou na favela da Maré para matar. Tudo isso, catalisado ainda mais pela vontade de vingarem a morte de um policial, o terrorismo de Estado resultou em uma noite de terror e morte para os moradores das favelas Nova Holanda e Rubens Vaz. Nesta chacina, que aconteceu do dia 24 para o 25, os fatos nunca serão todos revelados. Corpos somem, mortes a facadas sem deixar provas da arma utilizada, sangue nas camas e nos pisos das casas dos moradores deixam inúmeras evidências do ocorrido. Mas já era esperado que alguém fosse sentir as consequências dessa atuação mortal. E depois, vem cinicamente todo aquele papo de perícia, de “os excessos serão apurados” e o discurso padrão para produzir o consenso, e blá, blá, blá!

“Com esta polícia não tem diálogo, somente resistência!”

 “Não vem dizer agora, com UPP melhora. Até a ONU veio avisar, a PM tem que acabar!”

Na favela as balas não são de borracha.

Na favela as balas não são de borracha.

A resistência popular na Maré

Os moradores, junto a instituições não-governamentais que atuam há anos nas favelas da Maré, não iriam aceitar uma segunda noite de terror. Chega! A pressão destas entidades e a força popular nas ruas juntaram-se para proteger a vida dos moradores da Maré. Em uma passeata na tarde de terça-feira, 25 de junho, que foi crescendo à medida que buscava seu caminho pelas vias da favela, os moradores pararam em frente ao Caveirão (carro blindado da polícia militar para ações nas favelas), que ainda estava posicionado no meio da Rua Principal. E então, os moradores gritaram: “Não, não, não, não queremos Caveirão!” e “Não somos os culpados pela morte do policial, somos trabalhadores, queremos viver!“. Imagine o grito de alívio quando o blindado partiu e, de fato, deixou a favela: “Expulsamos o Caveirão!” A passeata terminou na Passarela 9, de onde tinha saído, encontrando a frente um segundo Caveirão, que ainda estava estacionado na beira da Avenida Brasil. Chegando a noite, a Rua Principal estava sem luz, e com mais pressão das entidades comunitárias e o apoio de diversas entidades de direitos humanos, que vieram até o local, conseguiram tirar, pelo menos por esta noite também, este segundo tanque de guerra. Um grupo dos manifestantes ficou para fazer vigília na entrada da favela Nova Holanda, reforçado por um grupo que veio depois de participar da Plenária do Fórum Contra o Aumento da Passagem: “PM, FORA DA MARÉ!”.

Até a ONU, instituição extremamente conservadora, pede o fim da polícia militar.

Até a ONU, instituição conservadora, pede o fim da polícia militar.

No Fórum, foi combinado um ato em frente à Secretaria de Segurança Pública, às 9h do dia seguinte, que infelizmente (mas talvez não de surpresa) não contou com o número de pessoas que se empolgaram na noite anterior para abraçar esta causa, que é a causa de tod@s nós. Chega de violência sistemática da Polícia! O corte de classe ainda está profundo. Ter notícias da violência que ocorre é uma coisa, senti-la é outra. O querer é uma coisa, o necessitar é outra. Mas entende-se que além de toda solidariedade e da necessidade de estarmos juntos, a construção do poder popular para acabar com a violência sofrida pelas classes populares continuará ocorrendo nas periferias, e a partir das periferias. O trabalho do policial não é apertar parafusos, nem dar aula, tampouco rejuntar um piso, o trabalho da polícia é prender e matar pobres. A favela já sabe disso há muito tempo, parte da esquerda precisa aprender. E neste momento histórico, no qual o povo está tomando as ruas, é também nas ruas que os moradores das favelas estão, para exigirmos todas e todos juntos: “Fim da Polícia Militar, já!

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