Classe e Transformação Social

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Para nós, o anarquismo é uma ideologia, sendo esta um conjunto de idéias, motivações, aspirações, valores, estrutura ou sistema de conceitos, que possuem uma conexão direta com a ação – o que chamamos de prática política. A ideologia exige a formulação de objetivos finalistas (de longo prazo, das perspectivas de futuro), a interpretação da realidade em que se vive e um prognóstico, mais ou menos aproximado, sobre a transformação desta realidade. A partir desta análise, a ideologia não é um conjunto de idéias e valores abstratos, descolados da prática, com um caráter puramente reflexivo, mas sim um sistema de conceitos que existe, na medida em que é concebido junto à prática e está voltado a ela. Assim, a ideologia exige uma atuação voluntarista e consciente com o objetivo de imprimir à sociedade a transformação social desejada. Entendemos o anarquismo como uma ideologia que fornece orientação para a ação no sentido de substituir o capitalismo, o Estado e suas instituições, pelo socialismo libertário – sistema baseado na autogestão e no federalismo.

Ao reivindicarmos o anarquismo a partir desta noção ideológica, evidenciamos seu caráter de “ferramenta fundamental de suporte às lutas cotidianas”, com objetivo de transformação social. Para tanto, é importante elucidar nossa definição de classe. Mesmo considerando a luta de classes central e absolutamente relevante na sociedade de hoje, entendemos que os marxistas, ao elegerem o operário fabril como sujeito único e histórico da revolução, desprezaram todas as outras categorias das classes exploradas, enquanto sujeitos potencialmente revolucionários. O conceito de classe trabalhadora dos autoritários, que se circunscreve somente à categoria dos trabalhadores da indústria, não dá conta da realidade das relações de dominação e exploração que ocorreram durante a história e nem mesmo das relações que ocorrem na sociedade presente, da mesma forma que não dá conta da identificação dos sujeitos revolucionários de tempos passados e presentes.

A partir da necessidade de elucidação deste conceito de classe, incluímos dentro do conjunto das classes exploradas – que podem e devem contribuir com o processo de transformação social por meio da luta de classes – outras categorias que receberam, em grande medida, a atenção dos anarquistas durante a história. Esta definição do conceito de classe não modifica a luta de classes como terreno privilegiado da atuação do anarquismo social, mas traz uma forma diferente de enxergar seu objetivo: de transformação das relações centro-periferia, ou mais especificamente, de transformação das relações de dominação das periferias pelos centros. Baseados na classificação de Rudolf de Jong [“Algumas Observações sobre a Concepção Libertária de Mudança Social”] e na nossa própria e recente história de luta, conceituamos o conjunto das classes exploradas, a partir destas relações centro-periferia. Desta maneira, fazem parte deste conjunto:

a. Culturas e sociedades completamente estranhas e distantes do centro, de maneira nenhuma “integradas”, e que são “selvagens” aos olhos do centro. Por exemplo, os índios do Amazonas.

b. Áreas periféricas relacionadas ao centro e pertencendo a estruturas políticas e sócio-econômicas que tentam, ao mesmo tempo, manter suas identidades. São dominadas pelo centro, ameaçadas em sua existência pela expansão econômica deste. Pelos padrões do centro são “atrasadas” e subdesenvolvidas. Por exemplo, as comunidades indígenas do México e dos países andinos. Outros exemplos nesta categoria – talvez devêssemos falar em um subgrupo b.1 – são pequenos produtores, trabalhadores especializados e camponeses ameaçados em sua existência econômica e social pelo progresso do centro e que ainda lutam por sua independência.

c. Classes econômicas ou mesmo sistemas sócio-econômicos que costumavam pertencer a um centro, mas que voltaram a uma posição periférica após inovações tecnológicas e desenvolvimentos sócio-econômicos no centro. Por exemplo, o lumpemproletariado, trabalhadores informais precarizados e o exército permanente de pessoas desempregadas.

d. Classes sociais e grupos que fazem parte de um centro num sentido econômico, mas que são periféricos num sentido social, cultural e/ou político: as classes trabalhadoras, o proletariado em sociedades industriais emergentes, as mulheres, os negros, os homossexuais.

e. Relações centro periféricas de natureza política, seja entre Estados ou dentro deles: relações coloniais ou imperialistas, relações capital versus província, etc. Tais relações no sistema capitalista desenvolvem-se paralelamente às relações econômicas mencionadas acima – ou, grupo e.1: dominação neocapitalista, colonização interna e exploração.

Aceitando esta classificação, e conscientes de suas limitações e sobreposições, definimos o conjunto das classes exploradas como as áreas periféricas que estão dominadas por um centro. É importante ressaltar que não consideramos parte deste conjunto das classes exploradas indivíduos que estejam, em teoria, em áreas periféricas, mas que, na prática, estabeleçam relações de domínio sobre outros, constituindo-se em novos centros. Daí a necessidade de todas as lutas das classes exploradas terem uma perspectiva revolucionária, para que não busquem, simplesmente, fazer com que partes das áreas periféricas constituam-se em novos centros.

A partir desta definição, há duas formas de se pensar a transformação social: uma, autoritária, utilizada historicamente pelos herdeiros do marxismo (revolucionários ou reformistas) e outra, libertária, utilizada pelos anarquistas.

Os autoritários, incluindo alguns que se dizem anarquistas, pensam no centro como um meio, e têm sua política orientada para ele. Para eles, o centro – sendo este considerado o Estado, o partido, o exército, a posição de direção – é instrumento para a emancipação da sociedade, e “a revolução significa em primeiro lugar a tomada do centro e de sua estrutura de poder, ou a criação de um novo centro”[Ibid.]. A própria concepção de classe dos autoritários está baseada no centro, quando definem o proletariado industrial como sujeito histórico – o que está descrito na letra “d” da definição citada acima – e excluem e marginalizam outras categorias das classes exploradas que estão na periferia, como, por exemplo, os camponeses.

Os libertários não pensam no centro como um meio, e lutam permanentemente contra ele, construindo seu modelo revolucionário e sua estratégia de luta em direção a todas as periferias – explicitadas pelas letras que vão de “a” a “e” na definição acima. Ou seja, em sua atuação na luta de classes, o anarquismo considera como elementos das classes exploradas comunidades tradicionais, camponeses, desempregados, subempregados, sem-tetos e outras categorias freqüentemente desconsideradas pelos autoritários. “A luta, dessa forma, seria encaminhada por quem realmente [sente] os efeitos do sistema, e por conseguinte [precisa] urgentemente aboli-lo.”[FARJ. “Por um Novo Paradigma de Análise do Panorama Internacional”] Na periferia, os anarquistas estimulam os movimentos sociais pela base e buscam construir a organização popular para, em solidariedade, combater a ordem existente e criar uma nova sociedade que seja baseada na igualdade e na liberdade, e na qual as classes já não façam mais sentido. Nesta luta, os anarquistas utilizam-se de meios que contêm dentro de si os germes da sociedade futura.

“A concepção anarquista das forças sociais por trás da mudança social é muito mais geral (…) que a fórmula marxista. Diferentemente do marxismo, não concede um papel específico ao proletariado industrial. Nos escritos anarquistas encontramos todos os tipos de trabalhadores e de pobres, todos os oprimidos, todos aqueles que de algum modo pertencem a grupos ou áreas periféricas e, portanto são fatores potenciais na luta revolucionária pela mudança social.” [Rudolf de Jong. Op. Cit.]

Com esta concepção das forças revolucionárias, afirmamos que “ao que tudo indica, é na periferia, nas ‘margens’, que a revolução mantém acesa sua chama” [FARJ. Op. Cit.]. Portanto, nossa conclusão é que o anarquismo deve estar em permanente contato com as periferias para a busca de seu projeto de transformação social.

 

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