Cem Anos do Primeiro Congresso Operário

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

 

Em abril de 2006 o trabalhador brasileiro terá motivo para comemorar uma data de suma importância para a sua história. Naquele mês, se completarão 100 anos da realização do I Congresso Operário Brasileiro, realizado de 15 a 22 de abril de 1906 no Centro Galego, situado à rua da Constituição, no centro do Rio de Janeiro. Ali, pela primeira vez, o operariado reuniu-se em âmbito nacional, estando presentes ao encontro 43 delegados de diversas partes do Brasil, representando 28 sindicatos e/ou associações operárias ligadas à área industrial ou ao setor de serviços.

Outras iniciativas de congregar o mundo operário para deliberar a respeito de suas condições de vida e de trabalho, e sobre as táticas e estratégias a serem por ele desenvolvidas nas lutas sociais já haviam antecedido o I Congresso Operário Brasileiro. Assim foi com o I Congresso Operário do Rio Grande do Sul (realizado ns dias 1 e 2 de janeiro de 1898 em Porto Alegre) e com os congressos socialistas do Rio e de São Paulo em 1892 e em maio de 1902, respectivamente. O Congresso Operário do Rio Grande, embora conseguisse aprovar moção no sentido do uso da boicotagem como arma de luta econômica dos operários teve, como os congressos socialistas carioca e paulistano, curto alcance na aplicação de suas decisões, até mesmo pelos limites regionais em que foram organizados.

Desta maneira, apenas o I Congresso Operário Brasileiro de 1906 pôde apresentar resultados de maior amplitude e mais detidamente debatidos pelo e para o operariado brasileiro. Sua amplitude e a importância de sua realização naquele momento podem ser medidas pela declaração de Júlio Sorelli, que presidiu algumas de suas sessões de abertura, de que “ali não estava o anarquista Júlio Sorelli. O anarquista Júlio Sorelli havia ficado em São Paulo em sua biblioteca, cochilando sobre a obra de Kropotkin e de Elisée Reclus. O que vos fala atualmente é a sombra do que ficou na biblioteca, o carpinteiro que trabalha e que sofreu tantos desdobramentos na sua curta e tempestuosa vida de luta e de dor”.

Embora a maioria dos representantes de sindicatos e entidades presentes ao I Congresso Operário Brasileiro seguisse orientação sindicalista-revolucionária, uma outra tendência dita “pragmática” também participou de seus trabalhos. Sua presença deu-se principalmente por meio de Antonio Augusto Pinto Machado, à época dirigente da União dos Operários do Engenho de Dentro, constituída principalmente por ferroviários. Durante as sessões do I Congresso suas teses de colaboração entre classes e de desestímulo às greves foram derrotadas.

Dentre as resoluções a que chegou o I COB estava o conselho ao operariado a que se organizasse em sociedades de resistência econômica, colocando fora do sindicato toda e qualquer luta política. Consideravam os congressistas que opiniões políticas e religiosas apenas dividem o trabalhador, enquanto os interesses econômicos são comuns a todas as classes. Além disso, também ponderaram os debatedores daquele Congresso que “todos os trabalhadores reconhecem a necessidade iniludível de ação econômica direta de pressão e resistência, sem a qual, ainda para os mais legalitários, não há lei que valha”. Dentro da mesma linha de raciocínio, o I COB rejeitava o assistencialismo como forma de atrair mais membros para os sindicatos, já que tal prática embaraçaria sua capacidade de luta e resistência.

Em termos específicos de categorias, o Congresso recomendou uma campanha contra a exploração de colonos pelos fazendeiros, sugerindo a formação de sindicatos de trabalhadores rurais, assim como de mineiros e de operários que trabalhassem para o governo, posicionando-se contra a exploração do trabalho feminino. Aconselhava ainda a formação de uma federação de trabalhadores marítimos, a não criação de cargos remunerados nos sindicatos, a menos que eles exigissem dedicação integral, e a não aceitação de títulos honoríficos pelos sindicalistas.

Ainda dentre as resoluções do I COB estava a de substituir as diretorias de sindicatos por comissões administrativas, a não admissão de patrões, mestres e contramestres em seu meio e a deflagração de luta imediata pela consecução da jornada de 8 horas de trabalho através da ação direta, isto é, prescindindo os trabalhadores de quaisquer intermediários. Com esta finalidade, o I COB resolveu que uma greve geral seria deflagrada a 1º de Maio de 1907. A greve efetivamente ocorreu naquela data, irradiando-se a partir de São Paulo, tendo durado mais de 30 dias e conseguido vitórias para pedreiros, carpinteiros, sapateiros, canteiros, gráficos, chapeleiros, costureiras, limpeza pública, metalúrgicos e marceneiros. Por último, mas não menos importante, o I COB deliberou pela criação da Confederação Operária Brasileira (COB) com sede no Rio de Janeiro.

Primeira organização sindical de âmbito nacional, a COB era calcada nos princípios do sindicalismo revolucionário da Confederação Geral do Trabalho francesa, representando, portanto, o que naquele momento histórico havia de mais efetivo na luta dos trabalhadores. A Confederação estruturou-se efetivamente a partir de 1908 reunindo, em bases federativas, cerca de 50 associações de vários estados (Rio, São Paulo, Bahia, Rio Grande do Sul, Pernambuco, etc). Durante os anos seguintes, a COB esteve à frente de grandes campanhas como o movimento antimilitarista de 1908 (reação a uma manobra internacional para jogar Argentina e Brasil em uma possível guerra, em que a COB manifestava sua fidelidade a moção aprovada no I COB de que “a guerra é um grande mal para os trabalhadores que lhe pagam todos os encargos com seu dinheiro e o seu sangue”) e as manifestações de protesto contra o fuzilamento do pedagogo libertário Francisco Ferrer na Espanha que chocou todo o mundo (com uma manifestação de 5.000 pessoas só no Rio), além das lutas sindicais propriamente ditas. Foi ainda criado um jornal que seria o seu órgão: A Voz do Trabalhador que, dinâmico por ser um reflexo direto das lutas sociais da época, circulou em duas fases (1908-1909 e 1913-1915). Em sua última fase, A Voz do Trabalhador chega a atingir uma tiragem de 4.000 exemplares, considerável para a época.

O I Congresso Operário Brasileiro teve ainda como conseqüência direta a realização em São Paulo de 17 a 19 de abril de 1908 do 2º Congresso Operário Estadual de São Paulo, realizado com o objetivo de reafirmar, no plano local, as resoluções aprovadas dois anos antes, no Primeiro COB. Mais dois congressos operários nacionais em 1913 e 1920 reafirmaram, em suas linhas gerais, as diretrizes do Congresso de 1906.

 

 

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One Response “Cem Anos do Primeiro Congresso Operário” →
  1. Olá queremos retomar a COB no Rio De Janeiro. Como fazer, quem contatar? Obrigad@.
    federacaoanarcossindicalbrasil@yahoo.com.br
    http://www.federacaoanarcossindicalb.blogspot.com

    Responder

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