Atenção para o Refrão

Atenção para o Refrão

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Já se disse, certa vez, que a profissão do brasileiro é a esperança. Confirmando esta antiga sentença e crente ainda na panacéia do sufrágio universal, o povo brasileiro elegeu em 2002 Lula para ocupar a presidência da república. A esperança de uma vida melhor e a ilusão de que participa de alguma forma nas decisões políticas do país são mantidas por uma barragem incessante de mensagens explícitas ou não, produzida pela mídia e por todas as instituições para uma população a quem é negado o mínimo de recursos materiais, que dirá os de uma educação libertadora.

O que é preciso lembrar sempre é que o atual governo continua de mãos tão amarradas quanto qualquer outro para concretizar mudanças necessárias na sociedade brasileira, uma vez que continuam em vigor os acordos assinados por governantes anteriores com organismos financeiros internacionais e que remontam a um período até anterior à ditadura militar, isto é, à década de 50. O governo petista, aliás, tem se mostrado um excelente aluno ao fazer o “dever de casa”, haja vista que pagou R$ 128 bilhões a credores internos e internacionais em 2004. Por isto, na reunião do Fórum Econômico Mundial, na Suíça, para onde viajou em seu avião que custou uma fortuna (o famoso “Aerolula”, verdadeiro palácio voador das mil e uma noites) Lula foi paparicado por magnatas globais como Bill Gates e astros pop politicamente corretos como Bono Vox e divertiu-se com o tragicômico leilão promovido pela hollywoodiana Sharon Stone para comprar mosquiteiros para a Tanzânia (Jornal do Brasil, 29/01/2005).

E você, trabalhador? É “seu” partido que está no poder, mas ao que parece esta nova conjuntura não trouxe novas perspectivas, já que as mesmas relações sociais se mantêm, assim como a pobreza, desafiando as estatísticas oficiais, parece estar crescendo, conforme você mesmo pode sentir no seu dia-a-dia. Acontecimento recente na Bahia talvez seja a melhor imagem de toda esta situação, quando após a ocupação de terreno pertencente a multinacional, Lula em pessoa ali compareceu pedindo que estes se retirassem e fazendo uma série de promessas, apelando inclusive para o surrado chavão de apelar para as crianças presentes (“eu não poderia mentir para elas”).

Sim, porque a triste realidade que não passa pelas telas globais é o crescente empobrecimento da população urbana e rural. No caso das grandes cidades a carência geral não gera outra alternativa senão a radicalização e a realização de ações ilegais e “anti-sistema”. Estas formas de luta social urbana vêm gerando forte violência. Desta forma, em Jacarepaguá, um bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, por exemplo, no decorrer das duas últimas décadas o número de líderes comunitários assassinados em conflitos por terra já extrapola a casa das dezenas. Alguns, e são muito poucos de fato, advogados de causas populares já enquadram tais problemas no campo da tortura e perseguição política. Não se trata, se quisermos falar na língua do Estado, apenas de uma questão fundiária. Mas da necessidade de sobrevivência do povo trabalhador já bastante espoliado. No caso citado de Jacarepaguá, os ocupantes enfrentam com coragem e determinação ações arbitrárias da prefeitura (que há dois anos mandou tratores para derrubarem um Centro Comunitário e casas da ocupação de Vila da Conquista) e alguns grileiros locais que, por tentarem semear a discórdia dentro das comunidades, também possuem apoio da prefeitura.

Destas lutas nasce uma organização social com forte caráter classista. Em comunidades como Vila da Conquista e Nelson Faria Marinho (ao lado da primeira), na Curicica (uma subdivisão do bairro de Jacarepaguá), os moradores já se regem por um estatuto criado por assembléia, a propriedade já é coletiva (não pode ser vendida) e o trabalho, realizado em regime de mutirão, visa a melhorias na infra-estrutura do local. Estas comunidades, assim como a Olga Benário em Campo Grande, que completará dois anos de luta em fevereiro de 2005, criaram relações com movimentos de reciclagem de lixo e de iniciativas pedagógicas autônomas colocando estes projetos em ação a partir dos próprios moradores. Associados a estes trabalhadores estão também os estudantes de uma recente iniciativa libertária de organização, imbuídos do entendimento de que o movimento estudantil, para ser realmente revolucionário, não pode lançar raízes em território exclusivamente acadêmico. Estes já envidam esforços no sentido de incluir na sua pauta de prioridades uma aliança com os movimentos sociais, em particular, o dos sem-teto.

Vemos assim que apesar da ação de partidos políticos com fins eleitoreiros e da repressão violenta, os excluídos ali se organizam em grupos sociais com normas criadas coletivamente, onde o trabalho é realizado por todos para alcançar o bem comum, onde a propriedade é de todos, onde se procura educar as crianças dentro de uma pedagogia livre e desenvolver formas de produção artesanais e alternativas. A prática de tais princípios por uma comunidade é o que se costuma designar por anarquismo. A estes fatos sociais devemos ficar atentos, lembrando sempre o velho Bakunin que já na segunda metade do século XIX demonstrava que não só aos trabalhadores industriais cabia uma função transformadora e que não é delegando pretensos mandatos a intermediários para que façam alguma coisa por nós, como já na época apregoavam os marxistas, que chegaremos à liberdade, mas sim, única e exclusivamente através da ação direta.

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