Anarquismo Social

Anarquismo Social

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

O anarquismo, para nós, é uma ideologia, sendo esta um conjunto de idéias, motivações, aspirações, valores, estrutura ou sistema de conceitos que possuem uma conexão direta com a ação – o que chamamos de prática política. A ideologia exige a formulação de objetivos finalistas (de longo prazo, das perspectivas de futuro), a interpretação da realidade em que se vive e um prognóstico, mais ou menos aproximado, sobre a transformação desta realidade. A partir desta análise, a ideologia não é um conjunto de idéias e valores abstratos, dissociados da prática, com um caráter puramente reflexivo, mas, sim, um sistema de conceitos que existe, na medida em que é concebido junto à prática e está voltado a ela. Assim, a ideologia exige uma atuação voluntarista e consciente com o objetivo de imprimir à sociedade a transformação social desejada.

Entendemos o anarquismo como uma ideologia que fornece orientação para a ação no sentido de substituir o capitalismo, o Estado e suas instituições, pelo socialismo libertário – sistema baseado na autogestão e no federalismo –, sem quaisquer pretensões científicas ou proféticas.

Como outras ideologias, o anarquismo possui história e contexto específicos. Ele não nasce de intelectuais ou pensadores alheios à prática, que buscam apenas a reflexão abstrata. O anarquismo tem sua história desenvolvida no seio das grandes lutas de classe do século XIX, quando foi teorizado por Proudhon, e tomou corpo em meio à Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT), com a atuação de Bakunin, Guillaume, Reclus e outros que defendiam o socialismo revolucionário, em oposição ao socialismo reformista, legalista ou estatista. Esta tendência da AIT foi futuramente conhecida por “federalista” ou “antiautoritária” e teve sua continuidade na militância de Kropotkin, Malatesta e outros.

Portanto, foi no seio da AIT que o anarquismo tomou corpo, “na luta direta dos trabalhadores contra o capitalismo, pelas necessidades dos trabalhadores, por suas aspirações à liberdade e à igualdade, que vivem particularmente nas massas de trabalhadores nas épocas mais heróicas”[Dielo Trouda. Plataforma Organizacional]. O trabalho de teorização do anarquismo foi realizado por pensadores e trabalhadores que estavam diretamente envolvidos com as lutas sociais e que auxiliaram a formalizar e difundir este sentimento que estava latente naquilo que se chamou “movimento de massas”. Desta forma,

o anarquismo na sua gênese, nas suas aspirações, em seus métodos de luta, não tem nenhum vínculo com qualquer sistema filosófico. O anarquismo nasceu da rebelião moral contra as injustiças sociais. Quando apareceram homens que se sentiram sufocados pelo ambiente social em que estavam forçados a viver, e cuja sensibilidade se viu ofendida pela dor dos demais como se ela fosse a sua própria, e quando estes homens se convenceram de que boa parte da dor humana não é conseqüência fatal de leis naturais ou sobrenaturais inexoráveis, mas deriva, por outro lado, de feitos sociais dependentes da vontade humana e elimináveis por obra do homem, abriu-se então a via que deveria conduzir ao anarquismo.[Errico Malatesta. “Anarquismo e Anarquia”].

Com o passar dos anos, o anarquismo desenvolveu-se teorica e praticamente. Por um lado, contribuiu de maneira ímpar com episódios de transformação social, conservando seu caráter ideológico, como, por exemplo, na Revolução Mexicana, na Revolução Russa, na Revolução Espanhola, ou mesmo em episódios brasileiros, como na Greve Geral de 1917 e na Insurreição de 1918. Por outro lado, em determinados contextos o anarquismo assumiu certas características que lhe retiraram este caráter ideológico, transformando-o em um conceito abstrato, que passou a constituir-se tão somente em uma forma de observação crítica da sociedade. Com o passar dos anos, este modelo de anarquismo assumiu uma identidade própria, encontrando referências na história e, ao mesmo tempo, perdendo seu caráter de luta pela transformação social. Isso se evidenciou, de maneira mais gritante, na segunda metade do século XX. Pensado a partir dessa perspectiva, o anarquismo deixa de ser uma ferramenta aos explorados na sua luta pela emancipação e funciona como um passatempo, uma curiosidade, um tema para debate intelectual, um nicho acadêmico, uma identidade, um grupo de amigos etc. Para nós, esta visão ameaça fortemente o próprio sentido do anarquismo.

Essa desastrosa influência no anarquismo foi notada e criticada por diversos anarquistas, desde Malatesta, quando polemizou com os individualistas que eram contra a organização, passando por Luigi Fabbri, que realizou sua crítica das influências burguesas no anarquismo ainda no início do século XX[[1] Luigi Fabbri. Influencias Burguesas sobre el Anarquismo.], até Murray Bookchin que, em meados da década de 1990, apontou este fenômeno e buscou advertir:

A menos que eu esteja gravemente errado – e eu espero estar – os objetivos sociais e revolucionários do anarquismo estão sofrendo um desgaste de longo alcance a um ponto em que a palavra anarquia tornar-se-á parte do vocabulário elegante burguês do próximo século – desobediente, rebelde, despreocupado, mas deliciosamente inofensivo.[Murray Bookchin. Anarquismo Social ou Anarquismo de Estilo de Vida]

Defendemos que o anarquismo retome o seu caráter original de ideologia, ou como definimos anteriormente, de um “sistema de conceitos que possuem uma conexão direta com a ação, […] de prática política”. Buscando retomar esta caráter ideológico do anarquismo e para nos diferenciar das demais correntes que estão no amplo campo no anarquismo contemporâneo, reivindicamos o anarquismo social, pois corroboramos as críticas de Malatesta, Fabbri e afirmamos a dicotomia identificada por Bookchin, de que há hoje um anarquismo social, voltado às lutas e com um objetivo de transformação social, e um anarquismo de estilo de vida, que renunciou à proposta de transformação social e de envolvimento nas lutas sociais de nosso tempo.

Para nós, o anarquismo social é um modelo de anarquismo que, como ideologia, busca ser o fermento dos movimentos sociais e da organização popular, com o objetivo de superar o capitalismo, o Estado, e de construir o socialismo libertário – autogestionário e federalista. Para isso, sustenta um retorno organizado dos anarquistas à luta de classes, com o objetivo de retomar o que chamamos de vetor social do anarquismo. Acreditamos que é entre as classes exploradas – as maiores vítimas do capitalismo – que o anarquismo tem condições de florescer. Se, como colocou Neno Vasco, devemos buscar jogar as sementes do anarquismo no terreno mais fértil, este terreno é para nós a luta de classes, que se dá nas mobilizações populares e nas lutas sociais. Buscando opor o anarquismo social ao anarquismo de estilo de vida, Bookchin afirmou que

o anarquismo social está radicalmente em desacordo com o anarquismo que é focado no estilo de vida, a invocação neo-situacionista ao êxtase e a soberania do ego pequeno burguês que cada vez contrai-se mais. Os dois divergem completamente em seus princípios de definição – socialismo ou individualismo.[Ibidem.]

Frank Mintz, outro militante e pensador contemporâneo, ao comentar o título de seu livro Anarquismo Social enfatizou: “este título deveria ser inútil, pois os dois termos estão implicitamente ligados. É do mesmo modo equivocado porque sugere que pode existir um anarquismo não-social, fora das lutas.”[Frank Mintz. Anarquismo Social.]

Desta maneira, entendemos que o anarquismo social está necessariamente implicado na luta de classes.

* Trecho de Anarquismo Social e Organização

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