Anarquismo e Sindicatos

Anarquismo e Sindicatos

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

É ilusório acreditar que o sindicalismo, por si só, possa nos conduzir a mudanças sociais profundas.

A atual sociedade é constituída de uma maneira perversa que, muitas vezes, faz com que os interesses imediatos de cada categoria trabalhadora sejam opostos. Isso faz com que, em geral, os sindicatos se tornem corporativistas e até mesmo mantenedores do modo de produção capitalista. Afinal, eles se estruturam segundo a organização do trabalho na sociedade atual, organização esta ditada pelo capitalismo. Portanto, a nova sociedade não pode ser sedimentada a partir dos sindicatos, mas sim pela dissolução do modo de produção capitalista e pela criação de novas organizações que correspondam a uma outra realidade, libertária e igualitária.

No Brasil, a ação sindical tornou-se mais problemática a partir do governo de Getúlio Vargas. Este ditador fechou sindicatos livres e impôs uma organização trabalhista autoritária, copiada da legislação fascista de Benito Mussolini. Determinou para os sindicatos uma filiação compulsória aos órgãos do Estado, roubando-lhes dessa forma certa independência e muito do caráter revolucionário que haviam adquirido durante os primeiros anos do século XX, quando ainda da vigência do “sindicalismo revolucionário” de orientação marcadamente anarquista.

Mas o fato é que os sindicatos têm valor e importância para nós. Na atuação sindical podemos obter melhorias mais imediatas que também são necessárias. Além disso, através dos sindicatos travamos contato com outros trabalhadores e trabalhadoras que, longe de aceitar passivamente o que lhes é “dado” pelos patrões ou o Estado, exigem, aqui e agora, melhores condições de vida e aprendem o valor da organização. Não deixa de ser ainda, em que pese o grau avançado de burocratização, o sindicato uma escola de formação de indivíduos dispostos a reconhecer na classe uma alternativa de aglutinação para a luta. E mesmo é dentro dele que, de posse da perspectiva de suas limitações, o militante pode mobilizar recursos e estrutura para o apoio necessário aos movimentos sociais que, uma vez assumindo o caráter insurgente, não dispõem dos mínimos recursos materiais para a manutenção da ação contra o sistema.

Assim, a partir da premissa de que o anarquismo deve estar onde estão os trabalhadores, ele não pode encapsular-se em elucubrações teóricas e dedicar-se a projetos de sociedade futura que nunca saem do papel. Temos que estar junto a nossa classe, levando nossa mensagem, prática e ética libertária. Situação que, por mais limitada que possa parecer, é imensamente mais avançada para o acúmulo de experiências dos militantes que o isolamento em grupos de discussão pretensamente superiores à realidade que os cerca.

É fato que, hoje, como tática, devemos dar maior ênfase ao estabelecimento de novas formas de organização (não-hierárquicas) em trabalhos comunitários e – sobretudo – em ocupações urbanas e rurais, combatendo o latifúndio e a especulação imobiliária. Pois estes movimentos questionam a propriedade, um dos pilares do capitalismo, passando assim, para nós anarquistas, a representarem também um elemento estratégico. Uma vez que no apoio dado às ocupações encontramos a possibilidade de uma ação concreta nos meios sociais, o que nos auxilia na construção de uma alternativa mais clara de inserção, vemos também dentro dessa articulação a clara possibilidade da definição dos objetivos a serem alcançados, não apenas devolvendo ao anarquismo seu caráter constitutivo de classe, mas também orientando a nossa prática para uma direção mais conseqüente e amparada pelos tradicionais princípios revolucionários.

Tal já vem sendo feito por vários grupos anarquistas no Rio de Janeiro. É o caso da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), atuante na Ocupação Olga Benário, em Campo Grande, e do Coletivo Libertário Ativista Voluntariado de Estudos (CLAVE) presente nas ocupações Vila da Conquista e Nelson Faria Marinho (em Curicica, Jacarepaguá), entre outras iniciativas que incluem o Grupo Ação Libertária (GAL), presente na organização de novas ocupações.

Dessa forma torna-se importante mantermos uma proximidade com sindicatos, inclusive levando até eles informes de nossa atuação e reivindicando apoio para a manutenção e ampliação de projetos como estes. A Biblioteca Social Fábio Luz, o Projeto AJAM (fabricação de bolinhos por jovens do Morro dos Macacos), o Centro de Cultura Social do Rio de Janeiro como um todo, as ocupações urbanas e as diversas outras iniciativas impulsionadas por anarquistas não devem prescindir da ajuda de órgãos que congregam trabalhadores e estão organizados, assim como quaisquer demais ações que apontem para o estabelecimento, desde já, de uma sociedade livre e solidária. Se por um lado, as associações de classe foram submetidas a um processo histórico de burocratização e perderam muito de seu conteúdo revolucionário; por outro, percebendo nos demais movimentos sociais algum vigor para a luta, torna-se fundamental que contribuam com o que for possível para os ganhos coletivos proporcionados pela sociedade socialista que se faz necessário construir.

Saúde e Anarquia!!!

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