Anarquismo: um debate histórico e ideológico – FARJ

O anarquismo vai além da palavra anarquia. Seu surgimento está ligado às lutas da classe trabalhadora na segunda metade do século XIX. É absurdo separar a raiz e o tronco socialista e classista do anarquismo. Ele não surge da cabeça de nenhum pensador, tampouco é uma filosofia “individual”. É fruto de uma experiência coletiva.

Não é coincidência que já, na sua gênese, onde há anarquismo no final do século XIX, há seções da Associação Internacional dos Trabalhadores, há perspectivas de formação do sindicalismo revolucionário nos centros urbanos do mundo. Desde então, o anarquismo é uma ferramenta de luta dos trabalhadores. Se não fosse assim, sua extensão e impacto históricos não teriam sido tão amplos, com presença registrada nos cinco continentes.

O anarquismo como ideologia realiza a crítica das relações capitalistas de produção e distribuição de riquezas. Os anarquistas têm ideias bem definidas a respeito da economia ou da sociedade. Essas ideias foram postas em prática na Espanha e em outros processos revolucionários, como na Comuna de Paris, Revolução Ucraniana e Russa, Revolução Mexicana, a Comuna da Manchúria, entre tantos. Não é sinônimo de individualismo, anti-estatismo ou antítese do marxismo. Ele constitui um tipo de socialismo caracterizado por um conjunto de princípios político-ideológicos, que inclui a oposição ao Estado, mas que não se resume a ela. Sempre reconheceu a importância de conciliar o socialismo com a liberdade individual e coletiva e pretende superar o sistema de dominação e a estrutura de classes da nossa sociedade. A superação do capitalismo pela revolução social está na proposta econômica anarquista.

O anarquismo baseia-se em análises racionais, métodos e teorias que não são idealistas (explicações metafísicas/teológicas). Essas análises são feitas para tentarmos compreender “onde estamos” e “onde queremos chegar”. Para isso, defendemos que os anarquistas estejam organizados, no nível político, como um grupo coeso, com discussão política e ideológica avançada, com critérios de ingresso, uma estratégia bem definida e um estilo militante de trabalho nos movimentos sociais. O anarquismo que defendemos (e o que foi hegemônico na sua história) não nega a organização e as lutas de curto prazo (saúde, educação, tarifa zero,moradia, reforma agrária etc.) como um caminho para atingir a revolução. Nesse sentido, acreditamos que para se abolir o Estado é preciso potencializar as lutas dos movimentos populares, sindicatos e movimentos camponeses. Não aceitamos a ação parlamentar porque não há nenhum exemplo na história em que esta via trouxesse uma significativa transformação social, ou mudança nas estruturas de poder vigentes. Além disso, acreditamos que a construção de nosso projeto e do sujeito de transformação se dá com a participação ativa no cotidiano das lutas, e não entregando o poder na mão de representantes.

Defendemos a organização política não num sentido vanguardista, mas enquanto minoria ativa que luta sempre ombro a ombro com os movimentos sociais e respeita o seu tempo. Lutamos por um sistema de autogestão generalizada e de estratégias capazes de promover a transformação social de um sistema para outro (poder popular, autogoverno). O poder para os anarquistas está na tomada das fábricas, dos bairros, dos meios de produção, das minas, das ruas e finalmente no que os zapatistas chamam de “povo em armas”.

Os debates fundamentais dentro do anarquismo se dão em torno dos seguintes temas: organização, lutas de curto prazo e o papel da violência. As divergências estão nos debates estratégicos, que dão origem às diferentes correntes anarquistas.

Por isso é equivocado dizer que há “dezenas de anarquismos” ou que há “tantos anarquismos quanto anarquistas” no mundo. Apesar das diferentes estratégias, seu tronco histórico tem princípios políticos muito bem definidos e que demonstram a existência de uma coerência interna. Não temos a ilusão de que nossa vitória, a dos oprimidos, será feita de uma só tacada. Uma luta contra a burguesia e o Estado envolve a busca permanente de força social em direção ao poder popular. Este se constrói fortalecendo cada vez mais os movimentos populares.

Não podemos esperar uma revolução que nunca chega, devemos desde já agir de acordo com os fins que queremos atingir, conquistando as necessidades populares a partir da organização, da luta, da ação direta. Não podemos ser ingênuos esperando uma solução “pacífica” nem ter fetiche pelas táticas que iremos utilizar. O Estado e a burguesia nos violentam todos os dias e nunca houve uma revolução sem resistência e violência dos(as) oprimidos(as). Bakunin já falava que o Estado não é “neutro” mas uma forma específica de organização das classes dominantes. Assim, os trabalhadores não podem utilizar o Estado como meio para atingir uma sociedade socialista e libertária, pois isso só transformará um restrito setor dos trabalhadores numa nova classe dominante.

Por isso afirmamos que anarquismo não é negação da política, do poder. Defendemos uma concepção de política e de poder (popular). O que condenamos é um determinado tipo instituído de relação de poder, que é a dominação (econômica, política, social, ideológica), cujo pilar não é apenas o sistema de produção capitalista, mas também o Estado, a religião institucionalizada, a educação dominante, o imperialismo, a dominação de gênero e de etnia.

Além disso, a luta popular e a auto-organização dos trabalhadores mostram que vale a pena lutar e caminhar com o anarquismo e é para isso que ele existe. Anarquismo é luta!

Federação Anarquista do Rio de Janeiro

Texto publicado originalmente no Libera de número 161 em 2014.

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