A “ponte para o futuro” precisa de uma barricada no meio do caminho

Faz alguns anos que os jornais e a TV tentam “vender” o estado do Rio de Janeiro como um “modelo para o futuro”. O governo e a grande imprensa prometiam que a “cidade olímpica” seria o símbolo desse progresso. Porém, a partir do final de 2015, a realidade começou a vir à tona. O tão exaltado “progresso” era somente as empreiteiras e os políticos com seus bolsos cheios, e as/os trabalhadores/as padecendo em uma crise criada pelo governo estadual.

O PMDB/PSDB continua o que o PT/PMDB começou

Os/as trabalhadores e trabalhadoras cariocas e fluminenses, assim como ocorre em outros estados, vinham sofrendo duros ataques aos seus direitos, cometidos pelo governo do PT/PMDB com a sua política de conciliação de classes. Esses ataques, que agora têm como liderança o governo do PMDB/PSDB, se aprofundaram diante de um novo acordo da classe dominante que também é aplicado nos estados. O governo Temer já afirmou que “tudo que for possível será privatizado”. O que vem pela frente é uma nova onda de agressões aos direitos da classe trabalhadora.

A crise é o aumento da taxa de exploração

Sempre que a economia capitalista diminui sua taxa de exploração os empresários e políticos resolvem atacar o salário e os direitos dos trabalhadores e trabalhadoras para “compensar” o lucro perdido. Já falam em acabar com o horário de almoço e também em diminuir salários e atacar as aposentadorias. O “sacrifício” nunca atinge os de cima, mas os cortes sempre sangram os/as trabalhadores/as. Nenhum partido vai fazer diferente, pois a entrada no Estado não garante nenhuma conquista para o povo. Por exemplo, o ajuste fiscal iniciado pelo PT/PMDB agora é aprofundado pelo PMDB/PSDB. Em discurso realizado no dia 29 de outubro de 2015, Lula afirmou que a prioridade do partido era “criar condições políticas para que sejam aprovadas as medidas do ajuste fiscal encaminhadas por Dilma Roussef”. Mudaram os jogadores e seu estilo de jogo, mas o time continua o mesmo. O time dos de cima, contra nós, as/os de baixo. Independente do partido, as necessidades do povo nunca foram e nem serão prioridades no parlamento.

Os lucros do petróleo alimentam as empreiteiras e os empresários

A lógica dos governantes é manter o Brasil dependente de uma política de exploração e exportação de matérias-primas, os commodities, como petróleo, minérios, grãos e outros. Política essa que passa como trator por cima de camponeses, quilombolas, comunidades indígenas, de pesca tradicional, ribeirinhas e outros povos das florestas para a construção de portos, estradas, minerodutos e outros mega projetos, gerando graves impactos socioambientais.

Dentro dessa lógica de dependência, os estados produtores de petróleo recebem porcentagens das petroleiras referentes à exploração de óleo e gás, os royalties, que dependem também do preço internacional do barril. No caso do estado do Rio, este foi afetado com a queda do preço do barril e a mudança na legislação brasileira, que diminuiu a parte dos royalties que vai para os estados e municípios produtores.

Quem paga a conta é o povo

Apesar da queda do preço do barril e dos recursos vindos dos royalties, o estado do Rio arrecada muito dinheiro, mas os governantes nunca quiseram gastar com o povo os seus orçamentos já comprometidos com seus esquemas com o empresariado, gastos em obras superfaturadas e outras pilantragens que só favorecem os políticos, empreiteiras e o empresariado em geral. Afinal, são as grandes empresas que financiam as campanhas eleitorais dos políticos. Com isso, os setores essenciais para a população sofrem duros cortes, como a saúde, educação, saneamento. Quando falta “dinheiro em caixa”, eles fazem o que sempre fizeram: suspendem o pagamento dos aposentados, parcelam o salário dos servidores, cortam dinheiro para a Educação, para a Saúde, para os Serviços Sociais. Além disso, estão cortando os já poucos programas sociais que atingem as camadas mais pobres da população do Estado, como o “Programa Renda Melhor” e o “Renda Jovem”. Por isso, é essencial a participação e decisão popular na escolha das matrizes energéticas e nas políticas sobre seus usos.

A farsa das UPP’s

Além de sentir no bolso as consequências das políticas de estado, o povo sente também seus resultados cada vez mais na carne. As UPPs, dia após dia, mostram o que os movimentos sociais falam desde 2008: que são uma farsa que só visa oprimir os/as favelados, principalmente a população negra. Nos últimos meses, as operações policiais em favelas com UPPs e que, teoricamente, não teriam mais tráfico, têm se intensificado, deixando quase sempre moradores e moradoras mortos ou feridos. Rocinha, Alemão, Fallet, Prazeres e Complexo do Lins são alguns recentes exemplos onde operações policiais aterrorizaram moradores. O projeto da UPP veio como demanda dos de cima para controlar e oprimir o morador e a moradora da favela. O genocídio e o encarceramento em massa do povo negro seguem como política de estado.

As Olimpíadas e a farra
das empreiteiras

Enquanto o governo priorizou as Olimpíadas, a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) cai aos pedaços; a Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) está prestes a fechar as portas e os servidores e aposentados têm seus salários parcelados ou ficam sem receber. Só com as Olimpíadas, foram gastos 39 bilhões, sendo que 35% desse montante é dinheiro público, dividido entre União, estado e município. Grande parte da dívida do estado vem dessa gastança desenfreada. A farra das empreiteiras garantiu muitos lucros para as cúpulas corruptas do PMDB/PSDB/PT e de outros partidos. Os donos e acionistas destas empresas ganharam milhões com as obras olímpicas para “inglês ver” e que não atende as necessidades do povo, que segue sofrendo enlatado nos trens, espremidos nos ônibus e metrôs ou contando o pouco dinheiro para pagar suas dívidas na fila do caixa. Parte do que se chama “legado olímpico” não atende as necessidades populares e é feito com superfaturamento, desvio de dinheiro público e sem consultar a população, visando apenas a próxima eleição.

O objetivo é privatizar: entregar o ouro aos bandidos

No ano passado, o governo estadual deu isenção de 6,609 bilhões para grandes empresários do Rio de Janeiro (SUPERVIA, AMBEV etc). Apenas para a AMBEV, o valor da isenção foi de 760 milhões. Pra se ter ideia do absurdo, esse valor de isenção total daria para pagar sozinho todos os gastos com saúde daquele ano! Essas isenções são, na verdade, o retorno que os políticos dão aos seus patrocinadores de campanha. O governo de Dornelles-Pezão prossegue na aplicação da agenda neoliberal e já anunciou mais cortes nos direitos sociais e nos serviços públicos. As secretarias sofrerão um corte de 30% do seu orçamento e o Bilhete Único vai ser cortado para a maioria da população. O Bilhete Único universitário também está mudando as regras de renovação, para emitir o menor número possível e garantir os lucros da máfia dos transportes. E com isso avança o projeto de fazer os trabalhadores e trabalhadoras pagarem ainda mais pelos serviços básicos, entregando a educação, a saúde e outros serviços nas mãos de empresas através das políticas de Parcerias Público-Privadas (PPP), onde o privado é quem sai sempre ganhando mais. Esse é o início do processo de privatização, que sucateia e torna esses serviços cada vez mais inacessíveis a população.

Contra a farsa eleitoral: se organizar e lutar com as/os de baixo

Como defendido pela Coordenação Anarquista Brasileira (CAB), os 14 anos de hegemonia do projeto democrático popular chegam à sua saturação final. Esse foi o “triste fim do governismo”, dos acordos com Kátia Abreu, Sarney e o que há de pior na política nacional. Esse tipo de política também ocorreu no Rio de Janeiro. Não vamos esquecer que o ex-governismo (PT) e sua base (PCdoB e afins), aliaram-se com o PMDB durante décadas e o que sofremos hoje, tem haver com essa aliança. Foi essa lógica que atuou para acabar com a independência de movimentos históricos da classe trabalhadora, numa política de barganhas com suas direções e subordinando-os aos conchavos das eleições.

Nestes últimos anos, a esquerda não-governista esteve em meio a uma luta para conformar uma alternativa a esse bloco. Cada setor, cada organização concebeu, a sua maneira, o que seria essa alternativa. Mas no fim, não foi capaz de consolidar algo que disputasse com o bloco governista nas lutas populares. Pior ainda, muitos buscaram apenas acumular e capitalizar para seus partidos e insistem na via eleitoral para se projetarem politicamente. Muitos pedem “Eleições Gerais” (seria para eleger Aécio ou Marina?), “Reforma Política” (para perfumar a merda?) ou o voto em candidatos “amarelos” que supostamente vão transformar a máfia do estado num “palácio de santos”. Essas opções vazias repetem a lógica do governismo petista ou são mais recuadas ainda, pois querem vencer nossos inimigos com suas próprias armas.

Nossa opção só pode ser romper com a prática de atrelamento dos movimentos sociais e sindicatos à burocracia e ao parlamentarismo. Pois foi essa prática que desmobilizou as bases e impediu que houvesse resistência popular aos ataques da burguesia. Chega de reproduzir o parlamentarismo burguês dentro de sindicatos e movimentos populares, onde as decisões são tomadas apenas pela cúpula e as greves são traídas ou manobradas pelas direções burocratizadas. É preciso combater a política dos poderosos com o envolvimento e a ação direta coletiva. Resgatar as práticas e a cultura combativa de democracia direta e de base, para construirmos poder popular hoje!

Por isso, convidamos todas e todos a construírem uma outra forma de fazer política. Uma política que rejeita a farsa eleitoral e construa a decisão do povo fora das urnas, nos bairros, nos assentamentos, nas escolas e nos locais de trabalho.

Contra a farsa eleitoral
e o corte de direitos!
Só a luta popular decide!

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