A Neurose Revisionista

Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)

Segundo o semiólogo anarquista Roland Barthes, ao se referir a certas peculiaridades da linguagem: “Mas a língua, como desempenho de toda linguagem, não é nem reacionária, nem progressista; ela é simplesmente: fascista; pois o fascismo não é impedir de dizer, é obrigar a dizer”. Dessa forma Barthes tentava chamar a atenção para um fenômeno que, longe de ser invulgar, governa efetivamente muito do que se diz nos âmbitos público e privado. A carga de significação, as vezes involuntária, em determinados termos e conceitos, pode ser analisada também a partir deste prisma sugerido pelo semiólogo.

Tal metodologia pode ser aplicada também ao vocabulário político das “esquerdas”, e certamente encontraremos nele diversas incongruências entre o que se quer dizer e o que realmente se diz. Entretanto, para o melhor entendimento das palavras e o que, com elas, realmente se pretende comunicar é um enorme desafio.

Para a elucidação de tal dificuldade podemos escolher o termo, infelizmente cada vez mais empregado nos meios “libertários”, de “revisionismo”. E, para tal tarefa, iremos intentar uma pequena genealogia histórica da sua origem.

O rótulo de “revisionista”, no seu sentido “positivado”, poderia ser atribuído a todo o teórico que, a partir de 1883, tentou interpretar ou explicar os escritos de Marx, à luz de um determinado contexto histórico e até mesmo geográfico. Seria justo dizer que, nesse caso, se encontram figuras como Rosa de Luxemburgo, Lenin, Stalin, Trotsky e o próprio Engels. Assim, ser revisionista era apenas possuir uma leitura singular ou “atualizada” dos escritos do “mestre” Marx.

Posteriormente, em particular após as disputas internas na social-democracia alemã, a partir de 1890, na qual estiveram envolvidos Eduard Bernstein e Rosa de Luxemburgo, a idéia de “revisionismo” passou “pejorativamente” a ser utilizada como sinônimo de “reforma”. A partir de 1914, mais especificamente, seria atribuída a pensadores e políticos que, mesmo adotando premissas do marxismo, duvidavam das previsões de Marx, em relação às crises do capitalismo. Nesse momento, e isso se acentua após o triunfo bolchevista na Rússia, em 1921, a canonização do pensamento de Marx, garante para o termo lugar de suma importância no vocabulário político comunista.

Após 1945, com o triunfo do stalinismo sobre o nazismo, os partidos comunistas passaram, sob forma de anátema, a utilizar o rótulo “revisionista” para todo e qualquer PC não inteiramente submisso a Moscou. Nesse contexto, o termo passou a aparecer ainda mais sistematicamente nos relatórios e panfletos da ortodoxia stalinista. Unido por uma lógica perversa a outros termos, o “revisionismo” aparecia sempre dentro de um universo semântico associado a acusações, calúnias e difamação. Muitos expurgos e perseguições foram legitimados a partir da simples associação de pessoas, livros ou discursos ao referido termo. Tempos terríveis aqueles…

O maio de 1968, na sua expressão libertária viria exumar grande parte desses cadáveres conceituais que, segundo os estudantes, não tinham rigorosamente nenhuma relação com a Revolução Social de fato. Muito do vigor anarquista seria reconquistado nessa época, o próprio historiador marxista Eric Hobsbawn reconheceria, no seu livro Era dos Extremos, que, no Maio de 68, encontrava-se verdadeiramente o espírito de Bakunin. As transformações desse período traziam também a renovação do vocabulário político da “esquerda”. Até alguns marxistas com o mínimo de dignidade, como J. P. Sartre, perceberam o equívoco de suas posições e transigiram. Dessa forma, apesar de algumas limitações, o movimento de 68 logrou a reconstituição de um novo universo vocabular no qual não existia mais lugar para o famigerado “revisionismo”.

Após essa grande transformação operada não apenas no plano político, como também no psicológico, parecia que os novos ventos tinham varrido de vez a espessa e negra nuvem que cobria as idéias sempre caras aos socialistas libertários, desde os primeiros tempos das lutas pela revolução. Parecia ridícula, ao menos para os sinceros combatentes pela liberdade, a possibilidade de uma reabilitação de tão decrépitos termos, associados historicamente, aos inimigos da causa libertária. Termos que haviam servido a instauração de ditaduras “racionalmente” calcadas na “verdade” do socialismo científico.

Mas o “Ovo da Serpente” como nefasta alegoria está novamente entre nós. Para a sua incubação, ganhou o calor dos discursos mais “radicais” e pretensamente revolucionários. Das línguas, muitas delas academicamente treinadas, apesar da tentativa de ocultação do fato, brota a peçonha que envenena e cria a cisão interna. Como diria Brecht, ao referir-se ao nazismo, “a besta ainda tem suas entranhas férteis”. Desaparecendo com cartazes de seus “inimigos internos”, escrevendo calúnias nas propagandas de seus “desafetos”, fazendo “incursões punitivas” em eventos dos outros libertários, destilando veneno em grupos ou coletivos estes filhos de Torquemada trazem para o campo anarquista uma prática totalmente estranha à nossa cultura política.

Profética foi a afirmação do companheiro magonista, Raul Gatica, no Fórum Anarquista de Porto Alegre, em 2003. No âmbito da organização de grupos autônomos, promovido com muito trabalho pela FAG, Gatica, com a calma e serenidade de quem várias vezes enfrentou a morte pela causa magonista no México, diria dos termos utilizados para a versão prévia da carta final do encontro: “Ela está muito stalinista. Precisamos de um vocabulário político nosso.” Tal declaração, que dividiu a plenária, desnudava com exemplar simplicidade o processo que hoje se encontra acelerado.

Nesse momento, com as enormes dificuldades que temos para a nossa organização e tarefas, não menos complexas, ainda temos que lidar com o retorno do velho marxismo que para existir precisa negar e, para agir, precisa perseguir. O Ano Zero do Khmer Vermelho, instituído para condenar o que vinha antes e conferir glória aos novos adeptos, parece ter sinceros seguidores no movimento tupiniquim. E para isso, dispõem de uma “nova” fórmula, a saber, identificar no interior do movimento anarquista os “revisionistas”.

 

 

2004

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