A divisão é entre exploradores e explorados: análise sobre a eleição 2014

FARJ – Publicado em Libera 163 (Julho a Outubro de 2014)

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“O primeiro erro, o mais funesto, que pesou sobre a humanidade, foi ter colocado o governo acima da sociedade.”

Pierre-Joseph Proudhon

As eleições acabaram e evidenciaram dois projetos de gerência do capitalismo no Brasil. A disputa entre tucanos e petistas no período eleitoral foi a mais acirrada da história. Mas cabe lembrar (Coordenação Anarquista Brasileira, Elementos de Conjuntura 2014) que apesar de PT e PSDB não serem iguais, ambos são partidos da ordem burguesa que disputam a gestão do aparelho e do capital, não um projeto de transformação da sociedade.

Longe de ser o reflexo da vontade popular, quando olhamos para o congresso brasileiro o que vemos é, na realidade, a configuração das forças que, além de defenderem seus próprios interesses, estão na linha de frente das agendas do capital. Afinal, as campanhas políticas vitoriosas são em sua esmagadora maioria financiadas por grandes empresas e representam interesses da burguesia.

Para o próximo mandato, além desse cenário, convivemos com o avanço da organização da direita ultra-conservadora. Esse foi o “resultado” do projeto democrático-popular do PT (e apoiado por seus satélites), que ao invés de “avançar massivamente a consciência de classe” permitiu que as forças mais reacionárias pudessem se organizar melhor e avançassem assimetricamente sem um projeto popular que pudesse barrá-las.

Durante o período eleitoral, alguns acreditam que a participação nas eleições é um caminho válido, ou mesmo “complementar”, para avançar as pautas dos/as trabalhadores/as. Contudo, a via eleitoral além de estar totalmente dominada por esses poderes econômicos e políticos, legitima os mecanismos conservadores do Estado e dos oligopólios da mídia para que as transformações radicais nas estruturas do sistema de dominação nunca sejam realizadas. Esta pode até permitir uma oposição republicana e moderada de alguns partidos da esquerda não governistas, mas jamais essa oposição se tornará aguda a ponto de colocar em xeque o sistema vigente. Esses partidos tendem a moderar suas pautas e discursos, e o gasto de energia nas lutas populares praticamente acaba dando espaço à corrida eleitoral. Ao fim e ao cabo, estes acabam legitimando o processo eleitoral, que finge ser democrático com a presença da esquerda no seu interior. Nesse sentido, não compartilhamos da estratégia na qual ao ocuparmos postos no Estado (organização política da classe dominante) possamos fazer avançar o poder popular. O próprio PT que tem um “verniz de esquerda” vem, na prática, governando para e com a direita afim apenas de manter seu governo e aprofundar a exploração e violência sobre o povo. O PT representa, no atual cenário, o governo de turno da classe dominante, prometendo assim, para o próximo período o que há de pior aos trabalhadores e trabalhadoras. Basta vermos a escolha de Kátia Abreu para o Ministério da Agricultura, representante da burguesia rural e do agronegócio, e o anúncio de uma política econômica voltada para atender as exigências do mercado. Engana-se quem acha que o governo do PT pode ser disputado. O governo do PT nunca esteve em disputa, é um governo de pacto de classes e continuará a retirar os direitos dos trabalhadores, a fazer avançar o agronegócio no campo, a manter o controle militar nas favelas, ainda que jogue algumas “migalhas” do banquete em forma de políticas de acesso a crédito (estímulo ao consumo).

Não se pode afirmar, ao nosso ver, que exista dimensão ou argumento tático de defesa do “voto crítico”, pois as urnas não são o espaço de luta. Como vimos, o essencial na perpetuação desse sistema está garantido e não será modificado pelo voto. Muitas agências e organismos internacionais e nacionais funcionarão independente dos eleitos e estão blindados contra qualquer “pressão” do voto, pois por ele não são afetados. Para termos uma ideia, 42% do orçamento público já está comprometido com o pagamento de juros da dívida púlica ao capital especulativo financeiro, e ambas as candidaturas foram financiadas por grandes empreiteiras e bancos. O PT e o PSDB mesmo tendo projetos com algumas características distintas e, “simbolicamente” antagônicos, estão dentro desse sistema político e econômico. Representam assim duas “formas” para um mesmo conteúdo. Não se trata de um ser menos pior (PT de Dilma) que o outro (PSDB de Aécio) mas sim, cenários distintos que se apresentam e que só podem ser enfrentados no terreno real da luta de classes. Esse terreno não é a disputa dentro do Estado, mas sim a vida cotidiana dos/as trabalhadores/as e suas entidades classistas. Podem até se revezar de tempos em tempos, como os dois grandes partidos norte-americanos (o Democrata e o Republicano), mas na prática operam modelos de dominação e exploração, diga-se de passagem, cada vez mais parecidos.

Entendemos que este país continua dividido em explorados e exploradores e que não será nenhum governo da ordem, aliado da burguesia, que fará com que isso se modifique. A reeleição conquistada pelo PT não irá modificar esse rumo. Nada conquistaremos sem a construção e fortalecimento de estruturas e organizações sociais de caráter popular e permanente. Estruturas essas que o PT, vale lembrar, há décadas vem ajudando a enfraquecer e burocratizar. Portanto, é preciso construir, a partir do que já existe, as bases da futura sociedade.

As mudanças que se ensaiaram vieram todas das ruas e somente aí, se apresenta uma saída à esquerda para o próximo período sob o governo petista. Mas isso só pode ser feito se tivermos movimentos populares, organismos de base sindical e movimentos camponeses muito bem organizados e que tenham pautas objetivas de intervenção na realidade (educação, saúde, moradia, terra etc), para que as ruas não sejam esvaziadas e despolitizadas. É importante fortalecermos desde já uma alternativa com métodos e práticas autônomos e independentes do governo e partidos.

 As dimensões do poder vão muito além das eleições, e por isso não buscamos encontrar nas urnas a solução para as mazelas sociais, mas sim nas ruas e nas lutas cotidianas das mulheres, negros e LGBTTs, na favela, no sindicato, no campo e nas universidades, é a partir dessas lutas e espaços que começamos a construir o mundo livre com que sonhamos. Que cada militante entenda a importância de fortalecermos movimentos combativos e autônomos, ou corremos o risco de continuar reclamando da burocratização, do reformismo e das eleições, no mesmo ritual de escolha do “menos pior”.

É fundamental reconstruirmos e criarmos grupos de base sindical que possam romper com o governismo, com a burocracia e superar a prática autoritária de se transformar essas entidades classistas em “correias de transmissão” de vanguardas e correntes partidárias. É preciso avançar de acordo com o contexto e a consciência de classe que se apresenta, mas sem um projeto de poder popular classista e independente de governos, repetiremos os erros que levaram grande parte da esquerda que lutava nos movimentos populares, décadas atrás, a assumir hoje o lugar dos exploradores de plantão.

Referências: CALC, Breve Análise Socialista Libertária sobre o resultado das urnas em 2014 [http://anarquismopr.org/2014/10/28/breve-analise-socialista-libertaria-sobre-o-resultado-das-urnas-em-2014%5D

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