Luta Libertária – Militância e Ativismo

Porque uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa

Com a publicação deste artigo, que foi escrito e difundido no meio libertário paulistano em meados de 2004, pretendo contribuir com os debates que vêm sendo forjados em torno dos modelos de mobilização e dos diferentes “estilos militantes”. À época, quando o artigo foi publicado, eu ainda tinha vínculos – já críticos, no entanto – com o que restava do Movimento de Resistência Global – chamado mais vulgarmente de “Movimento Antiglobalização”.

Por esse motivo, num primeiro momento, considerei que os companheiros haviam exagerado, que a coisa não era tão assim, etc. No entanto, com o passar do tempo, creio que a crítica era de fato acertada, e se não a endossei antes – o que o faria completamente no ano seguinte – era mais por sentimentos de afinidade com aquilo que se criticava, do que por uma análise racional das condições que estavam dadas.

Enfim, creio que o extinto Coletivo Anarquista Luta Libertária, neste artigo, contribui sobremaneira com esse debate que se coloca entre o modelo de mobilização desejada, e a diferença entre o que chamam de “militância e ativismo”, que não deixa de marcar significativamente as distinções entre aspectos considerados mais clássicos dos movimentos populares e os aspectos que vêm prevalecendo nos chamados “novos movimentos sociais”.

Espero que o retomar desse artigo contribua com o debate e com o desenvolvimento daqueles que, em São Paulo – e por que não do Brasil – continuam, de certa maneira, permeados pelo antigo “Espírito da Ação Global dos Povos”, do início dos anos 2000.

Felipe Corrêa, junho de 2011

No meio libertário é grande a confusão que se faz em torno do conceito de militância. Chega-se inclusive ao absurdo de tratá-lo como algo próprio do que é ou de quem é militar, ou na melhor das hipóteses, como se fosse algo dogmático, padronizado, típico de um militante comunista ortodoxo.

Caracterizações como essas evidenciam um infeliz e desesperado esforço de aproximar a militância de algo autoritário e hierárquico, supervalorizando um vocabulário institucionalizado, e aí sim militar, em detrimento de toda uma infinidade de conceitos produzidos a partir da luta real e histórica de organizações populares e específicas anarquistas em busca de uma sociedade mais justa. Evidenciam também um claro desrespeito ao histórico de lutas do trabalhador, que forjou cada um desses conceitos com seu próprio sangue e dedicação ao longo dos tempos e em diversos lugares.

Geralmente os críticos da militância opõem a ela e propõem como forma de atuação política o ativismo. Mas será que militância e ativismo podem ser comparados e substituídos um pelo outro? Muito mais do que termos, palavras diferentes, ambos são conceitos diferentes e como tais têm conteúdos diferentes que em nosso ponto de vista, mais do que se distinguirem, se opõem muitos aspectos.

Militância, por exemplo, pressupõe um grau de entrega, seriedade e compromisso que geralmente não está presente no ativismo, assim como o desenvolvimento de um trabalho regular que busque envolver na luta revolucionária os mais diversos setores explorados e oprimidos da sociedade. Militância também pressupõe um trabalho de longo prazo onde o militante verdadeiramente comprometido vê-se obrigado a reorganizar sua própria vida, abrir mão de muita coisa, enfim transformar sua própria vida em prática militante.

Enquanto na militância ela própria passa a ser a vida do militante, no ativismo acontece a relação oposta e a própria vida é que passa a ser a prática ativista. No primeiro caso, a vida pessoal se adapta às necessidades da luta, no segundo caso, é a militância que deve caber na vida pessoal do indivíduo. Dessa maneira cria-se um estilo diferenciado, que inclui o modo de se vestir e adornar o corpo, de se alimentar, a maneira de morar e decorar a casa, de se manter economicamente e se desenvolve o gosto cultural pelo que é supostamente “consciente”, entre outras coisas.

Criam-se variações, atuações criativas e esporádicas onde “tudo é anarquismo”. Enfim opta-se por um estilo de vida excêntrico que passa a ser a própria atuação política, possibilitando assim, que não se precise abrir mão de nenhum prazer e diversão em prol da “revolução”, pois ela já foi feita por ele (o ativista) consigo mesmo. É como se a revolução fosse algo meramente individual, existente no comportamento, e não um processo social.

Tudo isso faz com que a partir do ativismo o cara não se veja mais como um trabalhador, explorado pelo capitalismo e oprimido pelo Estado, mas unicamente como ativista, afastando-se dos meios sociais “normais e alienados”, identificando-se apenas com outros ativistas e criando um isolamento do campo popular incompatível com a militância. Muitas vezes reproduzindo preconceitos de classe sociais intermediárias da sociedade, onde têm origem muitos jovens que se aproximam do ativismo, segundo a autocrítica do próprio Reclaim the Streets – grupo inglês que foi um dos maiores incentivadores da dinâmica ativista no final da década de 90.

O ativismo em relação aos movimentos sociais e à população em geral

Esse isolamento dá origem a um grupo social peculiar que tem certas normas de conduta e que se opõe a outros grupos devido a sua visão diferenciada de mundo, opondo-se inclusive ao próprio trabalhador enquanto representante das classes oprimidas, que passa a ser visto como uma “pessoa comum” ou alguém que “não tem nada a ver”. Este tipo de ativista constitui um novo gueto social, com seus próprios valores e no final das contas tem grandes dificuldades de dialogar com todo aquele que seja diferente dele. É interessante notar que quando se encontram alguns destes ativistas em meio a um público mais amplo eles conversam apenas entre eles, apenas sobre os sons, os lugares, as coisas que interessam a eles, um tipo de papo que simplesmente impede o contato de quem seja diferente, não nenhum esforço para conhecer, se integrar, dialogar.

Ironicamente o ativista se propõe a lutar contra o capitalismo, e fica implícito que luta contra os efeitos perversos deste sistema. Ora quem mais sofre com este sistema são as classes trabalhadoras e exploradas. Mas o irônico é que os ativistas não lutam nunca com elas e sim por elas, dando origem a uma verdadeira elite dirigente, por mais que esperneiem contra o autoritarismo, o dirigismo, o vanguardismo, refutando isso com palavras, na prática a postura leva justamente a isso. Este ponto é polêmico, pois os próprios defensores do ativismo acusam os militantes mais regulares, pertencentes a grupos políticos e movimentos sociais de serem dirigentes e manipularem as massas. Na verdade essa é uma falsa polêmica, pois o militante em geral faz parte da massa; mesmo que esteja organizado politicamente com pessoas de afinidade política similares; não deixa de ser parte das massas, que sofrem com as mazelas do capitalismo e por isso mesmo se organiza socialmente em movimentos sem feição ideológica, religiosa, etc., que pelo seu perfil Bakunin chamou de movimentos de massa.

O militante só pode ser entendido como dirigente se for no sentido de que o seu dever é o de garantir o caráter revolucionário, e libertário no caso do anarquismo, dos movimentos sociais e isso se faz não por decreto, mas de igual para igual através de discussão e prática política. Mesmo assim seu papel se resume a isso, cuidar para que o movimento não caia no reformismo e avance cada vez mais e por si mesmo rumo à radicalização e futuramente a uma ruptura revolucionária, sendo essa a única direção para qual ele aponta. O militante anarquista nada mais é do que um fomentador da revolução social nos meios apáticos ou acorrentados pelo reformismo.

Ironicamente é o ativismo que assume um caráter tipicamente dirigente. Uma das atividades mais comuns, e talvez o ponto alto da dinâmica ativista, é mobilizar os que já estão engajados ideologicamente para atos de rua quantitativamente expressivos, festivos e/ou violentos contra o capitalismo e a globalização, nos moldes dos atos promovidos pela AGP ao redor do mundo, sempre em nome da população pobre e explorada, já que é ela quem mais sofre com o capitalismo e a globalização da economia. Atos esses que se tornaram grandes devido ao fenômeno do turismo político (que atrai ativistas de outras regiões e até países), mas que raramente contam com a participação do pivô da história, o trabalhador e suas entidades de luta. Nesse tipo de ato ao trabalhador lamentavelmente fica reservado ao papel de expectador que apenas observa indiferente pela janela do ônibus que o leva a caminho do trabalho.

Mesmo que houvesse alguma participação popular, organizada ou não, num ato desse tipo, ela facilmente seria arrastada pelo ativismo dirigente que pensa, organiza e ideologiza o ato sozinho. Nesse caso existe um muro que separa o ativista, que não atua socialmente, e o militante social, que busca no seu dia a dia envolver cada vez mais gente na luta: o primeiro organiza e o segundo vai na maré. Os papéis são bem claros, enquanto ao militante social cabe toda a tarefa regular e diária, ao ativista resta o trabalho profissional de organizar um ato de vez em quando. É como se o ativista, ou a elite ativista, fosse uma ponte pela qual o trabalhador teria obrigatoriamente que passar rumo à liberdade. Nós como anarquistas sempre reivindicamos o trabalhador como protagonista da transformação social. “A emancipação do trabalhador será obra do próprio trabalhador”, “Façamos nós por nossas mãos tudo que a nós nos diz respeito”. De que serve a letra da Internacional e o próprio anarquismo se for para atuar isolado do povo ou, o que é pior, em nome dele?

Os dirigentes “invisíveis” e a hierarquia informal

Mas o dirigismo ativista se manifesta é no interior do próprio movimento ativista. Sob o argumento do anti-autoritarismo, abre-se mão de qualquer organicidade, método decisório e principalmente da unidade na ação em prol do espontaneísmo. Porém, freqüentemente o único espontaneísmo que se manifesta é o de uma pequena fração de pessoas que, por serem mais experientes, terem mais tempo livre, possuírem os “contatos”, dominarem melhor as palavras, serem mais desinibidas, terem um tom de voz mais alto e uma infinidade de outros fatores, acabam impondo sua vontade à maioria, que terá que segui-la se quiser “fazer alguma coisa”, segundo a própria lógica ativista de fazer algo em tudo sem centrar forças em nada. Posteriormente o grupo dirigente e engajado arroga-se no direito de cobrar e pôr o dedo na cara de qualquer um que deixar de fazer algo (o que deveria ser um direito já que na dinâmica ativista ninguém é obrigado a fazer o que não queira) e com isso ganhar mais respeito e autoridade ainda, afinal de contas eles foram os que fizeram. Não importa quais foram os resultados, eles fizeram sua parte e sentem-se no direito de cobrar dos que não fizeram. São legítimos líderes.

Para quem tem dúvidas sobre isso, basta fazer um esforço de memória e se perguntar quem decide o destino das verbas arrecadadas em nome do movimento? Quem decide o que deve ser ou não notícia de destaque? Que alguém decide todos sabemos, mas como, quem, com que critérios, tudo isso permanece envolto numa nuvem de fumaça. Por detrás dela estão dirigentes auto-elegidos que fazem e desfazem em nome do coletivo, que de fato dirigem tal como os dirigentes das centrais sindicais e partidos que tanto criticam.

A organicidade e a existência de mecanismos de impeçam a reprodução da autoridade são necessários. O federalismo é uma ferramenta importante onde a democracia direta é exercida nos grupos e a decisão final é tomada numa instância maior entre os delegados dos grupos, mas tanto nesse caso como no caso de grupos menores onde a delegação ainda não é necessária, a unidade na ação é muito importante, pois é ela que permite a realização de qualquer atividade e depois sua avaliação coletiva. Em grupos menores, mais integrados devido à prática diária, a democracia direta é uma realidade, mas em reuniões mais amplas e com pessoas que mal se conhecem, mecanismos como inscrição e tempo de fala são garantias contra a centralização e estimulam a participação coletiva nos debates. Os verdadeiros autoritários, não gostam disso. No caos eles reinam e se impõem, com regras coletivas e igualdade são obrigados a respeitar os demais, já não podem ganhar no grito, o seu personalismo fica melindrado.

O ato pelo ato e a auto-alimentação do movimento

Um dos aspectos negativos do ativismo, citado de passagem no número anterior, é a supervalorização de grandes atos festivos de rua a ponto de serem sua atividade principal. Ora, o que se quer realmente com esses atos? Qual a finalidade de se tentar impedir e só conseguir atrasar em algumas horas uma reunião entre o Banco Mundial e o FMI? Será que com esse atraso eles deixaram de planejar a política econômica para os próximos meses? E se fossem impedidos de se reunir, será que o capitalismo cessaria? Humildemente receamos que não.

Obviamente reuniões como essas só são divulgadas e transformadas em encontros para manter a falsa imagem da democracia, de que tudo é feito aos olhos dos povos de todo o mundo e toda aquela conversa fiada. Será mesmo que o Banco Mundial e o FMI não trocam informações e fazem planos sem que nós saibamos?

Alguns podem até argumentar que os atos servem apenas como simbologia, que representam a indignação popular e que a ação violenta típica do ativismo chama mais atenção (como se o emprego da violência fosse típico unicamente do ativismo), mas acreditamos que isso também não seja verdade. Primeiro porque em geral esse tipo de ato não tem nada de popular, nós já falamos sobre isso e depois, se serve para representar, o que há por trás deles para ser representado? Nossas propostas, enquanto anarquistas e revolucionários que somos, já estão suficientemente difundidas para nos expormos desse jeito e ganharmos a confiança da população pobre e explorada que ainda não está organizada para a luta? Será que nós realmente representamos seus anseios? Novamente receamos que não.

Parece que a lógica da dinâmica ativista é realizar atos e atividades para se auto-alimentar. Na melhor das hipóteses este tipo de prática atrairia apenas os que já estão envolvidos ideologicamente e que são uma minoria esmagadora perante a proporção de gente que seria necessário mobilizar para uma legítima manifestação popular, mas que por fim acaba não cumprindo este papel, pois como já foi visto na prática a coisa tende a esfriar e os atos se esvaziam. Acaba-se por gastar tempo e energia por nada.

Como militantes acreditamos que nosso trabalho é na verdade um processo que passa por várias fases, que num primeiro momento necessita criar raízes e referências nos movimentos populares autônomos fortalecendo-os e também se fortalecendo para só então partir para um enfrentamento mais direto, sempre com apoio popular no mínimo significativo. Do contrário nada faria sentido, pois assim estaríamos assumindo praticamente um caráter vanguardista se acharmos que a população vai concordar conosco e se conscientizar apenas ao nos ver sambando na Avenida Paulista ou jogando pedra no Mcdonald’s. Seria quase um foquismo, só que em vez de armas e seqüestros, batucadas e festas.

Quando colocamos as questões nestes termos a contradição com o ativismo é radical. Nós, como militantes, reconhecemos a importância de atos e manifestações, mas isso tem que ser construído dia-a-dia. Se não tivermos uma força organizada que atue junto aos trabalhadores, estudantes, população dos bairros e favelas, etc. jamais faremos atos realmente eficazes. As pessoas que vão a uma manifestação em sua maioria são pessoas envolvidas com algum trabalho militante, pessoas que sabem o porque da manifestação, seus objetivos, que a construíram coletivamente.

Se militamos regularmente temos como debater isso com as pessoas, nos organizar coletivamente para ir a um ato. Caso contrário irão somente os organizadores e alguma pessoas que estão de passagem e que vez por outra aderem ao ato por curiosidade. Fora isso o único fator que pode “inchar” um ato é uma conjuntura muito positiva, que altere o estado de ânimo de uma parcela da população, mas achamos que não é bom ficar refém da conjuntura, porque ela muda. Exemplo vivo disso foram os atos anti-globalização de 2001, a conjuntura ajudava e muita gente veio, a onda passou e a coisa minguou, e minguou porque ali não havia base real mobilizada, porque não se avançou para a organização popular.

Hoje vemos ativistas embasbacados com a debandada geral a se perguntar o que aconteceu sem obter resposta. Cadê a AGP? Cade aquela juventude anti-globalização? Alguns fazem listas dos que traíram o movimento, sumiram, imaginam novas siglas, novas palavras de ordem para o movimento, tentam novos encontros, novos atos, tudo em vão. E não encontrar respostas enquanto não fizerem para si mesmos uma auto-crítica que ataca o próprio ativismo. Que a coragem não falte a eles…

Está mais do que provado que não é somente com panfletos de propaganda que se convence alguém a ir a um ato, é com organização popular cotidiana, é com inserção social, por mais trabalhoso e difícil que isso seja. E o ativismo renuncia a isso.

O carnaval político e a destruição da mercadoria

O caráter festivo do dito carnaval político e o fetiche pela destruição da mercadoria também são coisas a se criticar. Esse principio ativista de “transformar a política numa festa” joga o anarquismo no descrédito frente aos movimentos populares, desrespeita as pessoas sem moradia, escola, trabalho, comida, etc. que não tem nada para comemorar. Transformar a luta em festa o Estado faz a cada dois anos durante as eleições, “a grande festa da democracia” e uma vez ao ano no 1º de Maio, que aliás dizíamos antes que era luta e não festa não é?

Já em relação ao simplório ato de destruição da mercadoria, acreditamos que ele não seja nem um pouco louvável, uma vez que isso não nos traz beneficio algum por ser bem diferente da expropriação (onde tomamos de volta o que é nosso por direito enquanto produtores alienados do fruto de nosso trabalho) e, ao contrário do que se pensa não dá prejuízo a ninguém (a não ser a nós mesmos), simplesmente porque todos ganham: o proprietário que recebe o seguro, a seguradora que foi paga para isso e principalmente a mídia burguesa que se farta junto à população desinformada com cenas de “vandalismo sem sentido”. Estas explosões de raiva periódicas parecem uma espécie de dia da desforra, onde ativistas que nada fazem no dia-a-dia, exceto talvez acessar a internet, despejam sua raiva acumulada. O ato se converte numa espécie de catarse coletiva, depois da qual cada um volta ao seu cotidiano, onde a militância raramente está presente. De tempos em tempos uma nova catarse se segue, cada qual se alivia, sente que fez sua parte e que o culpado mesmo é o povo que só olhou e ficou parado. Que pensamentos reconfortantes podem ocorrer nas cabecinhas ocas dos ativistas…

Será que a população que vê tudo bem distante, pela televisão, entende o porquê de o banco, onde está o seu dinheiro conquistado com muito esforço, estar sendo apedrejado? Fica meio difícil explicar que focinho de porco não é tomada quando se está distante dos movimentos sociais organizados que agregam uma boa parte da população e que muitas vezes têm o respeito e o apoio da parte ainda não organizada. Além do mais, destruir a mercadoria sempre foi uma tática da burguesia para regular a economia capitalista segundo seus critérios, com a diferença de que ela sabe exatamente o que está fazendo.

A aceitação do uso da violência e de práticas “ilícitas” por parte dos movimentos sociais sempre foi um ponto delicado de se tocar, principalmente num momento como este, em que a ideologia oficial da burguesia assume um caráter pacifista de combate hipócrita à violência e que é reproduzida pela maioria esmagadora da sociedade. Não que nós sejamos contra o uso da violência, muito pelo contrário, ela é necessária, mas deve ser introduzida nas lutas populares de maneira estrategicamente pensada, do contrário só servirá para nos deturpar e prejudicar como freqüentemente vem sendo feito.

Alguns, argumentando em favor da destruição sem sentido da mercadoria, ainda dizem que ela é justificável porque o coração do capitalismo, ou “sociedade espetacular” segundo seus termos, é feito de vitrines que apresentam a mercadoria deificada. Bom, se esse fosse mesmo o coração do sistema, então estaríamos no século XVI e provavelmente o chamaríamos de mercantilismo.

O “colonialismo ativista”, a classe média se dando bem e o porque da militância

O modelo ativista, em alguns aspectos, pode até se justificar em alguns países do chamado primeiro mundo. Mas este tipo de prática vem sendo importada por parcelas do chamado “movimento anti-globalização” sem nenhuma adequação à nossa realidade. O que somente prova que boa parte de nossa juventude, apesar do discurso anti-EUA, anti-Bush, segue tendo uma cabeça muito colonizada. Como se já não bastassem modas de fora, bandas e letras feitas em inglês, convivemos agora com movimentos importados, é o imperialismo ativista, que acha possível se deitar pacificamente no chão numa manifestação de rua em São Paulo: a pedagogia das borrrachadas e as marcas nos corpos lembraram aos nossos “europeus”, tomados pelo “espírito de Seatlle” que vivemos no Brasil.

Existe uma infinidade de organizações populares no campo e na cidade, uma outra infinidade de problemas sociais existentes onde ainda se pode trabalhar. Afastar-se de todos eles sob a desculpa esfarrapada de que são hierárquicos, institucionais, de que tem problemas, etc é o mesmo que dizer: “eu só atuo onde tudo for libertário, autônomo”. Mas neste caso para que atuar? É uma posição muito cômoda e conformista, não nos envolvermos com nada além de nós. É quase a escolha de atuar por prazer, naquilo que gosto, naquilo que nada me exige além do que eu estou acostumado a fazer, atuar onde estão os meus iguais, minha turma, meus amigos, sem gente diferente, estranha, com outros gostos.

Na verdade, é triste reconhecer isso, boa parte dos ativistas são elementos da classe média com alguma dose de remorso pela situação social da qual se beneficiam e que desejam fazer algo. Mas esse algo tem quer ser agradável, fácil, não exigir sacrifícios, muita dedicação ou convivência com este “estranho povo”. Muitos sabem que isso não dará em nada, e hoje em dia já há quem viva destes movimentos quase mortos. Vídeos, livros, artigos, palestras e entrevistas na TV fazem muito bem ao ego dos nossos “dirigentes anti-globalização”. Lamentável? Certamente, mas ambição e personalismo se encontram aos montes por aí, não apenas entre os burgueses, mas amiúde entre os nossos ativistas.

Para nós, as disparidades existentes entre a militância anarquista e a dinâmica ativista são gritantes e é por isso que optamos e propomos a atuação da organização anarquista nos movimentos sociais de nossa gente, contribuindo sempre para que sejam combativos e estejam organizados de forma horizontal e que num futuro, não muito distante, esperamos, dêem origem aos legítimos organismos de poder popular em oposição ao poder burguês do Estado e do capital.

* Artigo publicado em duas partes no boletim Combate Anarquista, números 37 e 38, julho/agosto de 2004.

One Response “Luta Libertária – Militância e Ativismo” →

  1. Paula

    12/08/2013

    Sou uma pessoa do povo,e a palavra militãncia ainda me faz associar com milhares militantes de vários partidos, que lutam sobre o que cada partido acredita, sem contestação do que é oficial e norma(nos próprios partidos)como os soldados que não questionam,treinados para obedecer;como fazem os evangélicos e sua bíblia,cada igreja com o que acreditam e dão importãncia:uns não doam sangue,outros não cortam cabelo,outros tem de fazer circuncisão, outros ñ,etc etc etc,brigando cada um sobre a forma,perdendo de vista a essência da própria ideologia,.Em suas próprias vidas ñ existe nenhuma coerência com o âmago da crença;como a grande maioria dos militantes da esquerda,onde o discurso sobre a igualdade é lindo,(nos movimentos de rua, organização de greves,palanques, etc são muito atuantes, até convincentes),mas no dia a dia ñ existe uma reação como real conciência,como se o discurso estivesse só na mente,mas não no coração.De forma que me parece que gostam mesmo é do Poder,e abusam da palavra Povo,(seres destinados a dirigir a boiada que que não sabe para onde vai…).Da direita nem vou comentar…Quero acreditar que entre os militantes Anarquistas existe vontade real de mudança, e não só uma forma de por o ódio para fora,mas percebo que em todos nós;a mudança mais necessária ainda é a de dentro,para que entre pensamento e ação exista um dia coerência,e a mudança verdadeira se reflita cotidianamente entre cada um de nós;seres humanos,anarquistas ou não.
    Sentimentos introjetados são muito fortes,tenho dado o nome de “política cotidiana” para minha forma de atuar,depois de ler a defesa da palavra,vou tentar me chamar de militante…
    Mas que a palavra ainda me faz sofrer,faz!
    E muitos anarquistas,também! A indignação que vem do amor e nos põe a lutar tem valor!
    Tanto ódio, tão pouco amor!

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