Grupo Mutirão – ANARQUISMO: Caminhos para o projeto político

Muitas vezes nos encontramos perguntando a nós mesmos as seguintes questões:
– Qual o nosso projeto político?
– Qual o melhor caminho para implementá-lo?
– Quais são os passos necessários para o atual momento?

Para sermos rigorosos na análise, boa parte destas perguntas são impossíveis de definirmos hoje com precisão. Um bom começo, é utilizarmos as ferramentas de análise que temos nas mãos para atuar sobre o real e o concreto. São estas: os princípios (idéias-guia), as experiências-históricas e os conceitos (instrumentos) elaborados na forja entre as duas primeiras ferramentas e a militância diária. Partindo das três perguntas, tentando respondê-las através das ferramentas acima citadas, tiramos dois objetivos básicos para o projeto político anarquista.

Como modo de produção do trabalho, riqueza, conhecimento, informação, cultura, e numa esfera mais ampla, de toda a vida coletiva, temos como objetivo pleno a Autogestão Social e Econômica. Como expressão política deste modo de produção é necessário um instrumento coletivo da classe oprimida. Este tem de ser o espaço de todos os grupos de interesse da classe e do povo em luta. Ao dizer povo em luta, afirmamos a necessidade da auto-organização da maioria das categorias e segmentos populares existentes.

Todo este esforço, através da auto-organização (a classe em si), gera um instrumento político que chamamos de Poder Popular. A soma deste com a Autogestão Sócio-Econômica, durante um processo de luta avançada, acreditamos que possa consolidar um Poder Popular Revolucionário. Este seria a expressão mais ampliada da classe em luta, dos movimentos populares e organizações socialistas e revolucionárias. Nesta categoria, como uma organização de projeto socialista e de intenção revolucionária cujo objetivo é um processo de ruptura, se incluem os grupos, coletivos, organizações e federações especifistas-anarquistas.
Até aí tudo bem, um projeto político revolucionário, de longo prazo, amplo o bastante para entrarem todos os movimentos e organizações que com ele concordarem. Socialista ao ponto de o próprio povo ser protagonista de seu destino e não uma “vanguarda ou partido auto-elegido pela dialética da arrogância e pretensão histórica”. Mas, cabe uma pergunta elementar. E agora José, o que que a gente faz? Sim, o que fazer para trabalhar todos os dias para este projeto? Como se dá a acumulação de forças em um momento tão adverso como o atual? Buscar responder à esta pergunta sem tirar os dois pés do chão, acreditamos ser dever e direito de todo militante anarquista.

No atual momento brasileiro, começamos a nos consolidar estadualmente e os movimentos populares, quando em luta, se encontram numa etapa de resistência de base. Convivemos cinicamente com um Estado “de Direito” que há muito já declarou guerra de extermínio contra o povo (exemplos sobram: Carandiru, Eldorado de Carajás, Corumbiara, Candelária, Vigário Geral, entre outros). Sendo esta a realidade, como manter objetivamente o projeto político de longo prazo sem perder o vínculo com a luta e a necessidade de conquistas imediatas?

Com certeza aí que se traça o rumo do projeto político. Através do fruto da participação em movimentos populares, temos de demonstrar a viabilidade da Autogestão das Lutas. Óbvio que não tendo o controle coletivo dos meios de produção, circulação e funcionamento básico da sociedade, é impossível praticar a Autogestão Sócio-Econômica. Mas, a Autogestão em experiências vitoriosas ainda que pequenas, trazendo avanços materiais e garantido conquistas para a classe oprimida, é uma vitória do projeto político!

O Poder Popular pode ser construído através da famosa e tão pouco praticada Unificação das Lutas. Isto, a partir de um princípio tantas vezes esquecido pelo reformismo, a solidariedade de classe. Assim, um passo imediato para começar a caminhada rumo ao Poder Popular é buscar aglutinar em cada luta pontual, o maior número possível de entidades de base.

Por exemplo, tentando fazer que as reivindicações dos trabalhadores em educação pública e/ou dos estudantes desta rede se transformem, a médio prazo, numa luta pela educação popular. A classe se veria representada por estas duas categorias, mais as comunidades locais e os pais e mães de alunos. Esta disputa pode ser dada não somente sobre salários e verbas para a escola (que são fundamentais e necessárias, é sempre bom ressaltar), mas também pela constituição e autonomia do conselho comunidade-escola, pelo conteúdo curricular e o método pedagógico. Não dizemos que isto é fácil nem que o momento proporciona muitos avanços, mas é simplesmente o único caminho viável para a luta popular não capitular com opções eleitoreiras ou de conciliação com o inimigo opressor de classe.

O exemplo dado na luta pela educação pode ser aplicado em todas as lutas concretas tais como moradia, trabalho, emprego, saúde, saneamento, terra, e todas demais lutas dos oprimidos brasileiros. Por mais distante que esteja o projeto político, nossa obrigação perante a classe oprimida é resistir na base e buscar ao máximo unificar as lutas autênticas do povo. Quanto mais coordenadas e com programas de curto, médio e longo prazo comuns, mais chances de vitória teremos. Este processo, se constrói todos os dias.

Nota: Este texto foi originalmente escrito e publicado
pelo Grupo Mutirão, em seu órgão informativo A Peleja,
no Rio de Janeiro, maio de 1997

3 Responses “Grupo Mutirão – ANARQUISMO: Caminhos para o projeto político” →

  1. leneymar1997

    30/05/2012

    adorei….estva fazendo um trabalho sobre isso e achei mega interessante esse site…

    Responder

    • le-le

      30/05/2012

      adorei….estva fazendo um trabalho sobre isso e achei mega interessante esse site…

      Responder
  2. Existe mais material sobre o Grupo Mutirão na Biblioteca Social Fábio Luz, em Vila Isabel, RJ. Contato: farj@riseup.net

    Responder

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