DIELO TROUDA – PLATAFORMA ORGANIZACIONAL DOS COMUNISTAS LIBERTÁRIOS

A Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertários

(Makhno, Mett, Arshinov, Valevski, Linski)

e o Debate entre Nestor Makhno e Errico Malatesta

Plataforma Organizacional dos Comunistas Libertarios

Dielo Trouda – 1926

(Makhno, Mett, Arshinov, Valevski, Linski)


Em 1926 um grupo de anarquistas russos exilados na França, o grupo Dielo Trouda (A Causa dos Trabalhadores), publicou este panfleto. Não surgiu de nenhum estudo teórico, mas de suas experiencias na revolução russa de 1917. Eles contribuiram para a desintegração da velha classe dirigente, paticiparam no florecimento da autogestão dos trabalhadores e camponeses, compartilharam o otimismo existente acerca de um novo mundo de socialismo e liberdade… e viram tudo isso ser subtituido pelo Capitalismo Estatal e pela ditadura do partido Bolchevique.

Prefacio, Alan MacSimóin (WSM, 1989)

Prefacio


Em 1926 um grupo de anarquistas russos exilados na Francia, o grupo Dielo Trouda (A Causa dos Trabalhadores), publicou este panfleto. Não surgiu de nenhum estudo teórico, mas de suas experiencias na revolução russa de 1917. Eles contribuiram para a desintegração da velha classe dirigente, paticiparam no florecimento da autogestão dos trabalhadores e camponeses, compartilharam o otimismo existente acerca de um novo mundo de socialismo e liberdade… e viram tudo isso ser subtituido pelo Capitalismo Estatal e pela ditadura do partido Bolchevique.

O movimento anarquista russo exerceu um papel importante na revolução. Na época existiam cerca de 10.000 anarquistas ativos na Russia, sem incluir o movimento liderado na Ucrania por Nestor Makhno. Haviam pelo menos quatro anarquistas no Comitê Militar Revolucionario (dominado pelos bolcheviques), que tomou o poder em Outubro. E, mais importante que isso, os anarquistas estavam envolvidos nos comites de fabricas que surgiram logo apos a revolucao de fevereiro.

A base destes eram os locais de trabalho, eleitos por assembleias massivas de trabalhadores, e tinham como função supervisionar a fábrica e coordenar-se com outros locais de trabalho no mesmo ramo de industria ou regiao. Os anarquistas foram particularmente influentes entre os mineiros, estivadores, padeiros e exerceram um importante papel na Conferencia nas Comissoes de Fábrica por toda a Russia, que se reuniram em Petrogrado quase ao final da revolucao. Eram estes comites os quais os anarquistas viam como base para uma nova autogestao que se implantaria atraves da revolucao.

Sem embargo, o espirito revolucionario e a unidade de outubro não durou muito. Os bolcheviques ansiavam por suprimir todas aquelas forças da esquerda as quais viam como um obstáculo para exercer o poder do “partido único”. Os anarquistas e alguns outros na esquerda criam que a classe trabalhadora seria capaz de exercer o poder atraves de suas proprias comunidades e sovietes (conselhos de delegados eleitos). Os bolcheviques não. Propuseram que os trabalhadores ainda nao podiam tomar o controle de seu proprio destino, dessa forma os bolcheviques tomariam o poder como uma “medida provisoria” durante o “periodo de transicao”. esta falta de confianca nas habilidades das pessoas comuns e a tomada autoritaria do poder conduziu à traição dos interesses da classe trabalhadora, como tambem de todas suas esperanças e sonhos.

Em abril de 1918 os centros anarquistas de Moscou foram atacados, 600 anarquistas encarcerados e dezenas deles acabaram mortos. A desculpa foi de que os anarquistas eram “incontrolaveis”. Seja lá o que for que queriam dizer com isso, o certo é que simplesmente se negaram a obedecer aos líderes bolcheviques. .

A razão real foi a formação das Guardas Negras, que haviam sido criadas para lutar contra as brutais provocações e abusos da Cheka (predecessores da KGB)

Os anarquistas deveriam decidir o que fazer. Uma seção trabalhava com os bolcheviques, e se uniram a eles, todavia quando existia preocupacao quanto à eficiencia e à unidade contra a reação – Outra seção lutou duramente para defender os avanços da revolucao contra aqueles que seriam uma nova classe dominante, como corretamente vislumbravam.  O movimento Makhnovista na Ucrania e o levante do Kronstadt foram as últimas batalhas importantes. Em 1921, a revolução anti-autoritaria já estava morta. Sua derrota teria profundas e duradouras consequencias para o movimento internacional de trabalhadores.

Havia a esperança dos autores de que esse desastre nao ocorresse novamente. Como contribuicao, eles escreveram o que ficou conhecido como “A Plataforma”. A qual encherga as licoes do movimento anarquista russo, seu fracasso em constituir uma presenca dentro do movimento da classe trabalhadora, suficientemente grande e efetivo para se contrapor a tendencia bolchevique e outros grupos politicos em impor-se a si mesmos sobre a classe trabalhadora. Constitui um guia que a grosso modo sugere como os anarquistas devem organizar-se, em resumo, como podemos chegar a ser efetivos.

Trata-se de verdades bastante simples, é ridículo uma organizacao composta por grupos com definicoes contraditorias e mutuamente antagonistas ao anarquismo. É necessario estabelecer formalmente um acordo por meio de políticas expressas por escrito, o rol participantes, a necessidade de estabelecer comissoes e metodos de trabalho; o tipo de estrutura que resulte em uma organizacao democratica, grande e efetiva.

Quando foi publicada pela primeira vez recebeu o ataque das personalidades mais conhecidas na época, tais como Enrico Malatesta e Alexander Berkman. Foram acusados de estar “a um só passo dos bolcheviques” e de intentar um “Anarquismo bolchevique”. Esta reação exagerada deveu-se em parte à proposição de criar uma União Geral de Anarquistas. Os autores não explicaram claramente como seria a relação entre esta organização e os outros grupos de anarquistas fora dela, nem que nada impedia que organizações anarquistas distintas trabalhassem juntas em publicações que compartilhassem posições e estratégias comuns.

Não consiste, como tem sido colocado tanto por seus detratores como por alguns de seus adeptos ultimamente, em um programa para “afastar-se do anarquismo em direção ao comunismo libertario”. Os dois termos são completamente interelacionados. Foi escrito para ressaltar o fracasso dos anarquistas russos em sua confusão teórica; tanto quanto em sua falta de coordenação a nivel nacional, desorganização e incerteza política. Em outras palavras, carecia de efetividade. Em suma, longe de fazer um compromisso com politicas autoritarias, buscava a necessidade vital de criar uma organização que combinasse um efetivo ativismo revolucionario com os principios fundamentais do anarquismo.

Não é um programa perfeito agora, e tampouco o foi em 1926. Tem debilidades. Não explica algumas de suas ideias com suficiente profundidade, pode-se argüir que não cobre em absoluto alguns tópicos importantes. É bom não esquecer o documento é um pequeno panfleto e não uma enciclopedia de 26 volumes. Os autores deixam bastante claro em sua introdução que não se trata de nenhum tipo de “Biblia”. Não é uma análise ou programa completo, é uma contribuição ao necessário debate – um bom ponto de partida.

Para que não reste qualquer tipo de dúvida de sua relevancia hoje em dia, deve ser dito que as ideias básicas de “A Plataforma” são preponderantes entre as idéias do movimento anarquista internacionalmente. Os anarquistas buscam mudar o mundo para melhor, e este panfleto nos leva em uma direção onde podemos encontrar algumas das ferramentas necessarias para cumprir esta tarefa.

Alan MacSimoin, 1989

Tradução: Alvimar Bessa
mail: projetoperiferia -A- ig.com.br

Introdução Histórica, Nick Heath (AF, 1989)

Introdução Histórica


NESTOR MAKHNO e PIOTR ARSHINOV juntamente com outros anarquistas russos e ucranianos em Paris, publicaram a excelente Dielo Trouda bimensalmente a partir de 1925. Consistia em uma revista anarco-comunista teórica de muito boa qualidade. Anos antes, quanto ambos foram encarcerados na prisão Butirky em Moscou, tiveram a ideia de publicar uma revista desse estilo. Agora a estavam colocando em pratica. Makhno escreveu um artigo quase em todos os números durante o curso de tres anos. Em 1926 se uniu ao grupo IDA METT (autor da denuncia contra os bolcheviques chamada: “A Comuna Kronstadt“), que a pouco tempo havia conhecido na Russia. Naquele ano tambem viu a publicação de “Plataforma Organizacional”.

A publicação da “Plataforma” foi encarada com ferocidade e indignação por muitos no movimento internacional anarquista. O primeiro a atacar foi o anarquista russo Voline, à época tambem na França, e fundador com Sebastião Faure de “Síntese“, que buscava justificar uma mescla de anarco-comunismo, anarco-sindicalismo e anarquismo individual. Junto a Molly Steirner, Fleshin, e outros, escreveu uma réplica dizendo que “sustentar que o anarquismo é apenas uma teoria de classes é limitá-lo a um único ponto de vista”.

Sem desanimar, o grupo Dielo Trouda fez em 5 de fevereiro de 1927 um convite a uma “conferencia internacional”, onde ocorreria uma reunião preliminar no dia 12 daquele mesmo mes. Estavam presentes nesta reunião – fora o grupo Dielo Trouda 0 um delegado da Juventude Anarquista Francesa (Odeon); um Búlgaro, Pavel, enquanto individuo, um delegado do agrupamento anarquista polaco, Ranko, e outro polaco enquanto individuo, alguns militantes espanhois, entre os quais Fernández, Carbo e Gibanel; um italiano, Ugo Fedeli; um chines, Chen; e um frances, Dauphin-Meunier, todos como individuos. A primeira reunião foi realizada em um pequeno quarto atraz de um café parisiense.

Foi criada uma comissão provisoria, composta por Makhno, Chen e Ranko. Uma circular foi enviada a todos os grupos anarquistas em 22 de fevereiro. Foi convocada uma conferencia internacional que teve lugar em 20 de abril de 1927, em Hay-les-Roses – perto de Paris – no cinema Les Roses.

Alem dos que vieram na primeira reunião, havia um delegado italiano que apoiou a “Plataforma”, Bifolchi, e outra delegação italiana do periódico “Pensiero e Volontà“, Luigi Fabbri, Camillo Berneri, e Ugo Fedeli. Os franceses tiveram dois delegados, um de Odeon, favoravel à “Plataforma”, e Severin Ferandel.

Foi colocada a seguinte proposta:

  1. Reconhecer a luta de classes como o aspecto mais importante da ideia anarquista;
  2. Reconhecer o Anarco-Comunismo como a base do movimento;
  3. Reconhecer o sindicalismo como o principal método de luta;
  4. Reconhecer a necessidade de um ‘Sindicato Geral de Anarquistas’, baseado na tática e unidade ideologica, e na responsabilidade coletiva;
  5. Reconhecer a necessidade de um programa positivo para realizar a revolução social.

Depois de uma grande discussão algumas modificações foram agregadas à proposta original. Todavia, não deu tempo de fazer mais nada pois a policia invadiu o local, prendendo todos os presentes. Makhno quase foi deportado, só não o foi graças a uma campanha iniciada por anarquistas franceses. A proposta de criar uma Federação Internacional de Anarco-Comunistas Revolucionarios havia sido desbaratada, mesmo alguns daqueles que participaram na dita conferencia recusaram dar-lhe alguma autoridade.

Outros ataques à “Plataforma” vieram de Fabbri, Berneri, do historiador anarquista Max Nettlau, seguidos de Malatesta, o conhecido anarquista italiano. O grupo Dielo Trouda replicou com “Uma Resposta aos Confusionistas do Anarquismo”, seguido de uma declaração de Arshinov sobre a “Plataforma” em 1929. Arshinov, decepcionado pela maneira com que se reagiu à idei da “Plataforma”, voltou à URSS em 1933. Foi acusado de “tentar restaurar o Anarquismo na Rusia”, sendo executado em 1937, durante as purgas estalinistas.

A “Plataforma” falhou em estabelecer-se em nível internacional, mas afetou alguns movimentos:

Na França, a situação foi marcada por uma serie de divisões e fusões, os “Plataformistas” por algumas vezes chegaram a controlar o movimento anarquista, enquanto que em outras ocasiões se viram forçados a dispersar-se e formar seus proprios agrupamentos. Na Italia, os simpatizantes da “Plataforma” criaram o pequeno “Unione Anarco Comunista Italiano‘, o qual rapidamente entrou em colapso. Na Bulgaria, a discussão sobre formas de organizar-se provocou a reconstrução da Federação Anarquista Búlgara (F.A.C.B.) sobre uma “plataforma concreta” “para uma organização anarquista específica, permanente e estruturada” “baseada nos principios e táticas do comunismo libertario”. Todavia, os “Plataformistas” da linha dura se negaram a reconhecer a nova organização e a denunciaram em seu periódico semanal “Prouboujdane”, antes dela entrar em colapso pouco tempo depois.

De forma similar na Polonia, a Federação Anarquista da Polonia (AFP) reconheceu que se há de derrubar o capitalismo e o estado atraves da luta de classes e da revolução social, criando uma nova sociedade baseada em conselhos de trabalhadores e camponeses, e uma organização construida sobre a unidade teórica, embora negando a “Plataforma” ao considerar que tinha tendencias autoritarias. Na Espanha, ocorreu, conforme Juan Gómez Casas descreve em “Organización Anarquista – La Historia de la F.A.I.“: “O anarquismo espanhol estava preocupado em como resgatar e incrementar a influencia que teve desde que a Internacional chegou à Espanha”. Os anarquistas espanhois não tinham naquela época preocupações sobre sair do isolamento, ou de competir com os bolcheviques. Na Espanha, a influencia bolchevique era ainda pequena. A “Plataforma” dificilmente poderia afetar o movimento espanhol. Quando se criou a Federação Anarquista Ibérica em 1927, a “Plataforma” não pode ser discutida mesmo estando na agenda, pois não haviam sido traduzidas suas propostas.  J. Manuel Molinas, à época Secretario dos Grupos Anarquista de fala hispanica na França, escreveu mais tarde a Casas: “A plataforma de Arshinov e outros anarquistas russos exerceu muito pouca influencia no movimento no exilio e dentro do pais… ‘A Plataforma’ foi uma tentativa de renovar, de dar mais caráter e capacidade ao movimento anarquista à luz da Revolução Russa. Hoje, ao longo de toda nossa experiencia, me parece que esse esforço não foi totalmente apreciado.“.

A Guerra Mundial interrompeu o desenvolvimento das organizações anarquistas, mas a controversia sobre a “Plataforma” reapareceu com a fundação da Fédération Communiste Libertaire na França, e dos Gruppi Anarchici di Azione Proletaria na Italia no principio dos anos 50. Ambos usaram a “Plataforma” como ponto de referencia (houve também uma pequena Federación Comunista Libertaria de espanhois no exilio.) Isto foi seguido em finais dos anos 60 e começos dos anos 70 pelo surgimento de grupos tais como Organisation of Revolutionay Anarchists na  Inglaterra e a Organisation Revolutionnaire Anarchiste na França.

A “Plataforma” continua sendo uma valiosa referencia histórica para os anarquistas da luta de classes, na busca por maior efetividade e pela saida do isolamento político, da inatividade e da confusão, buscando respostas aos problemas que enfrentam.

Nick Heath, 1989

Tradução: Alvimar Bessa
mail: projetoperiferia -A- ig.com.br

Apresentação


É muito significante o fato de que, apesar da força e o caráter incontestavelmente positivo das idéias libertárias, e apesar da franqueza e integridade das posições anarquistas perante a revolução social, e finalmente o heroísmo e inúmeros sacrifícios suportados pelos anarquistas na luta pelo comunismo libertário, o movimento anarquista permanece fraco a despeito de tudo, e tem aparecido, frequentemente, na história de lutas da classe trabalhadora como um pequeno acontecimento, um episódio, e não um fator importante.

Esta contradição entre a positiva e incontestável substância das idéias libertárias, e a situação miserável na qual o movimento libertário vegeta, tem sua explicação em um número de causas, das quais a mais importante, a principal é a falta de princípios e práticas organizacionais no movimento anarquista.

Em todos os países, o movimento anarquista é representado por várias organizações locais que advogam teorias e práticas contraditórias, ficando, assim, sem perspectivas para o futuro, nem uma continuidade no trabalho militante, e habitualmente desaparecendo, dificilmente deixando o menor vestígio de existência em seu lugar.

Considerando-o como um todo, tal estado de anarquismo revolucionário só pode ser descrito como “desorganização geral crônica” .

Como a febre amarela, esta doença de desorganização se introduziu no organismo do movimento anarquista e o tem abalado por dezenas de anos,

No entanto, sem sombra de dúvidas, esta desorganização se origina de alguns defeitos de teoria: notavelmente de uma falsa interpretação do princípio de individualidade no anarquismo: sendo esta teoria freqüentemente confundida com a total falta de responsabilidade, Os amantes da asserção ‘eu’, com o interesse voltado unicamente para o prazer particular, agarram-se obstinadamente ao estado caótico do movimento anarquista e citam em sua defesa os princípios imutáveis do anarquismo e seus professores.

Mas os princípios imutáveis e os professores têm mostrado exatamente o contrário.

Dispersão e quebra de unidade são arruinantes: uma união bem suturada é um sinal de vida e desenvolvimento. Esta negligência de luta social aplica-se tanto às classes quanto às organizações.

Anarquismo não é uma utopia bonita, nem uma idéia filosófica abstrata, é um movimento social das massas trabalhadoras. Por esta razão, deve unir forças em uma organização, agitando constantemente, como é exigido pela realidade e estratégia de luta de classe.

“Nós estamos convictos” afirma Kropotkin, “de que a formação de uma organização anarquista na Rússia, longe de ser prejudicial à tarefa revolucionária comum, é, pelo contrário, desejável e útil no mais alto grau.” (Prefácio para The Paris Comune (“A Comuna Parisiense”) de Bakunin, edição de 1892.)

Bakunin nunca se opôs ao conceito de uma organização anarquista geral. Pelo contrário, suas aspirações a respeito de organizações, assim como sua participação na primeira Internacional nos oferece razões para vê-lo justamente como um guerrilheiro ativo de uma organização como tal.

Em geral, praticamente todos os militantes anarquistas ativos lutaram contra qualquer tipo de atividade dispersiva, e desejaram um movimento anarquista soldado pelo unidade em meios e fins.

Foi durante a Revolução Russa de 1917 que se sentiu mais profundamente e urgentemente a necessidade de uma organização geral. Foi durante esta revolução que o movimento libertário mostrou o maior grau de fragmentação e confusão. A falta de uma organização geral levou muitos militantes anarquistas ativos a tomar parte de postos dos bolchevistas. Esta falha é também a causa de muitos outros militantes atuais permanecerem passivos, impedindo qualquer uso de suas forças, que é freqüentemente bem considerável.

Nós temos grande necessidade de uma organização que, tendo reunido a maioria dos participantes do movimento anarquista, estabeleça no anarquismo uma linha política geral e tática a qual deve servir como um guia para o movimento inteiro.

Está na hora do anarquismo sair do pântano da desorganização, pôr um fim às infinitas vacilações das questões táticas e teóricas mais importantes, mover-se definitivamente em direção a um ideal claramente reconhecido, e operar uma prática coletiva e organizada.

No entanto, não é o bastante reconhecer a necessidade vital de tal organização: é também necessário estabelecer o método para sua criação.

Nós rejeitamos como teoricamente e praticamente inapta a idéia de criar uma organização baseada na receita da ‘síntese’ , que está reunindo os representantes de diferentes tendências anarquistas. Tal organização, tendo incorporado elementos teóricos e práticos heterogêneos, seria apenas uma reunião mecânica de indivíduos, cada qual possuindo um conceito diferente das questões do movimento anarquista, uma reunião que eventualmente se desintegraria ao entrar em contato com a realidade.

O método anarco-sindicalista não resolve o problema da organização anarquista, pois ele não dá prioridade a este problema, interessando-se somente pela penetração e aumento de forças no proletariado industrial.

Entretanto, muito coisa não pode ser realizada nesta área, até mesmo em adquirindo igualdade, a menos que haja uma organização anarquista geral.

O único método que leva à solução do problema de organização geral é, do nosso ponto de vista, reorganizar militantes anarquistas ativos baseando-se em posições precisas: teórica, tática e organizacional, a base mais ou menos perfeita de um programa homogêneo.

A elaboração de tal programa é uma das principais tarefas imposta aos anarquistas pela luta social dos últimos anos. É nesta tarefa que o grupo de anarquistas russos em exílio dedica uma parte importante de seus esforços.

A Plataforma Organizacional publicada abaixo representa os esboços, o esqueleto de tal programa. Deve servir como o primeiro passo em direção a um reagrupamento de forças libertárias em um único coletivo revolucionário ativo capaz de lutar, a União Geral dos Anarquistas.

Não temos dúvidas de que há falhas na presente plataforma. Tem falhas, assim como todos os passos novos e básicos que tenham qualquer importância. É possível que algumas posições importantes tenham sido deixadas de fora, ou que outras tenham sido tratadas de forma inadequada, ou ainda que outras tenham sido muito detalhadas ou repetitivas. Tudo isso é possível, mas não de relevância vital. O que é importante é fixar as fundações de uma organização geral, e é este propósito que é atingido, em certo grau de necessidade, pela plataforma presente.

Depende do coletivo como um todo, a União Geral dos Anarquistas, em ampliá-la, para depois dá-la profundidade, transformá-la em uma plataforma definitiva para todo o movimento anarquista.

Em outro aspecto também temos dúvidas. Nós prevemos que vários representantes de um estilo próprio individualista e anarquismo caótico irão nos atacar, espumando pela boca, e nos acusar de quebrar princípios anarquistas. Contudo, sabemos que os elementos individualistas e caóticos entendem pelo título ‘princípios anarquistas’ indiferença política, negligência e total falta de responsabilidade, o que tem causado em nosso movimento separações quase incuráveis, e contra as quais estamos lutando com toda nossa energia e paixão. Esta é a razão pela qual podemos calmamente ignorar os ataques provindos deste campo.

Baseamos nossa esperança em outros militantes: naqueles que permanecem fiéis ao anarquismo, tendo experimentado e sofrido a tragédia do movimento anarquista, e estão dolorosamente procurando por uma solução.

Mais ainda, colocamos grandes esperanças nos jovens anarquistas que, nascidos na respiração da Revolução Russa, e posicionados desde o início no meio de problemas construtivos, irão certamente exigir a realização de princípios positivos e organizacionais no anarquismo.

Convidamos todas as organizações anarquistas russas espalhadas em vários países do mundo, e também militantes isolados, a unir-se baseados em uma plataforma organizacional comum.

Deixem esta plataforma servir como a espinha dorsal revolucionária, o ponto de unificação de todos os militantes do movimento anarquista russo! Deixem-na formar as fundações para o União Geral dos Anarquistas!

Vida longa para a Revolução Social dos Trabalhadores do Mundo!

GRUPO DIELO TROUDA

Paris, 20 Junho1926

Translation by FAG – Federação Anarquista Gaucha

Seção Geral


1. Luta de Classe, seu papel e significado

Não há uma humanidade
Há uma humanidade de classes
Escravos e Senhores

Assim como todas que a precederam, a sociedade capitalista burguesa dos nossos tempos não é “uma humanidade”. É dividida em dois campos bem distintos, diferenciados socialmente por suas situações e funções, o proletariado (no sentido mais amplo da palavra), e a burguesia.

A sina do proletariado é, e tem sido há séculos, carregar o fardo de um trabalho físico e doloroso do qual provêem seus frutos, não para eles, no entanto, mas sim para outra classe privilegiada que possui propriedade, autoridade e os produtos culturais (ciência, educação, arte): a burguesia. A escravidão e exploração social das massas trabalhadoras formam a base na qual se ergue a sociedade moderna, sem a qual esta sociedade não poderia existir.

Isto gerou uma luta de classe, por vezes, assumindo um caráter aberto e violento, e, por outras, um semblante de progresso vagaroso e inatingível, que reflete carências, necessidades e o conceito de justiça dos trabalhadores.

No domínio social, toda história humana representa uma corrente ininterrupta de lutas realizadas pelas massas trabalhadoras pelos seus direitos, liberdade e uma vida melhor. Na história da sociedade humana esta luta de classe tem sido sempre o fator primário que determinou a forma e estrutura destas sociedades.

O regime social e político de todos os estados está acima de todo e qualquer produto da luta de classe. A estrutura fundamental de qualquer sociedade nos mostra o estágio no qual a luta de classe tem gravitado e deve ser encontrada. A mínima mudança no curso das batalhas de classes, nas posições relativas nas quais se encontram as forças da luta de classe, produz modificações contínuas no tecido e na estrutura da sociedade.

Tal é o geral e universal âmbito e significado da luta de classe na vida das sociedades de classes.

2. A necessidade de uma revolução social violenta

O princípio de escravidão e exploração das massas pela violência constitui a base da sociedade moderna. Todas as manifestações de sua existência: a economia, política, relações sociais, apoiam-se na violência de classe, cujos órgãos servidores são: autoridade, a polícia, o exército, o judiciário. Tudo nesta sociedade: cada empresa considerada separadamente, assim como todo o sistema de Estado, não é nada mais do que o baluarte do capitalismo, de onde eles mantêm vigília constante nos trabalhadores, de onde eles sempre têm preparadas as forças intencionadas a reprimir quaisquer movimentos feitos pelos trabalhadores que ameaçam a fundação ou até mesmo a tranquilidade daquela sociedade.

Ao mesmo tempo, o sistema desta sociedade, deliberadamente, mantém as massas trabalhadoras em um estado de ignorância e estagnação mental; ele previne através da força o aumento do seu nível moral e intelectual, a fim de obter mais facilmente o melhor aproveitamento delas.

O progresso da sociedade moderna: a evolução tecnológica do capital e a perfeição do seu sistema político, fortifica o poder das classes dominantes, e toma mais difícil a luta contra elas, desta maneira adiando o momento decisivo da emancipação dos trabalhadores.

Análises da sociedade moderna nos levam à conclusão que a única forma de transformar a sociedade capitalista em uma sociedade de trabalhadores livres é pelo caminho de uma revolução social violenta.

3. Anarquistas e comunismo libertário

A luta de classe criada pela escravidão de trabalhadores e suas aspirações à liberdade geraram, na opressão, a idéia do anarquismo: a idéia da negação total a um sistema social baseado nos princípios de classes e um Estado, e sua substituição por uma sociedade livre não-estatal de trabalhadores sob gestão própria.

Portanto, o anarquismo não se origina de reflexões abstratas nem de um intelectual ou filósofo, mas sim da luta direta de trabalhadores contra o capitalismo, das carências o necessidades dos trabalhadores, das suas aspirações à liberdade e igualdade, aspirações que se tornam particularmente vivas no melhor período heróico da vida e luta das massas trabalhadoras.

Os notáveis pensadores anarquistas, Bakunin Kropotkin e outros, não inventaram a idéia de anarquismo, mas, tendo encontrado este nas massas, simplesmente ajudaram, com a força de seu pensamento e conhecimento, a especificá-lo e propagá-lo.

O anarquismo não é o resultado de esforços particulares, nem o objeto de pesquisas individuais.

De igual modo, o anarquismo não é o produto de aspirações humanitárias. Não existe uma humanidade única. Qualquer tentativa de fazer do anarquismo um atributo de toda humanidade atual, de atribuir a ele um caráter humanitário geral seria uma mentira social e histórica, que levaria, inevitavelmente, à justificação do status quo e à uma nova exploração.

O anarquismo é em geral humanitário somente no sentido de que as idéias das massas tendem a melhorar as vidas de todos os homens, e que o destino da humanidade de hoje e de amanhã é inseparável da exploração dos trabalhadores. Se as massas trabalhadoras forem vitoriosas, toda humanidade renascerá; caso contrário, violência, exploração, escravidão e opressão reinarão no mundo como antes.

O nascimento, o florescimento, e a realização de idéias anarquistas têm suas raízes na vida e na luta das massas trabalhadoras e estão inseparavelmente ligadas ao seu destino.

O anarquismo quer transformar a atual sociedade capitalista burguesa em uma sociedade que assegure ao trabalhador os produtos de seus esforços, sua liberdade, independência, e igualdade política e social. Esta outra sociedade será o comunismo libertário, no qual a solidariedade social e a individualidade livre acharão sua expressão plena, e no qual estas duas idéias se desenvolverão em perfeita harmonia.

O comunismo libertário acredita que o único criador de valor social é o trabalho, fisico ou intelectual, e, consequentemente, somente o trabalho tem o direito de governar a vida econômica e social. Por causa disto, ele nem defende nem permite, em qualquer proporção, a existência de classes não-trabalhadoras.

Na medida em que estas classes existem simultaneamente com o comunismo libertário, o último não reconhecerá obrigações em relação a estes. Isto terá fim quando as classes não-trabalhadoras decidirem se tornar produtivas e quererem viver em uma sociedade comunista sob condições iguais para todos, as quais são a de membros sociais livres, gozando dos mesmos direitos e deveres assim como todos os outros membros produtivos.

O comunismo libertário quer pôr um fim a toda exploração e violência, sendo elas contra indivíduos ou as massas de pessoas. Para este fim, ele instituirá uma base econômica e social que unirá todas as seções da comunidade, garantindo a cada indivíduo uma posição de igualdade entre o resto, e concedendo a cada um o máximo de bem-estar. A base é a propriedade comum de todos os meios e instrumentos de produção (indústria, transporte, terra., matéria prima, etc.) e a construção de organizações econômicas dentro dos princípios de igualdade e gestão própria das classes trabalhadoras.

Dentro dos limites dessa sociedade auto-gerenciada de trabalhadores, o comunismo libertário estabelece o princípio de igualdade de valor e direitos de cada indivíduo (não individualidade “em geral”, nem de “individualidade mística”, nem o conceito de individualidade, mas sim cada indivíduo real e vivo).

4. A democracia burguesa é uma das formas da sociedade capitalista

A base da democracia está na manutenção de duas classes antagônicas da sociedade moderna: a classe trabalhadora e a classe capitalista e sua colaboração na base da propriedade privada capitalista. A expressão desta colaboração é o parlamento e a representação governamental nacional.

Formalmente, a democracia proclama liberdade de fala, da imprensa, de associação, e a igualdade de todos perante a lei.

Na realidade, todas estas liberdades são de um caráter muito relativo: elas são toleradas somente enquanto elas não contestam os interesses da classe dominante isto é, a burguesia. A democracia preserva intacto o princípio da propriedade privada capitalista. Desta maneira, ela (a democracia) fornece à burguesia o direito de controlar completamente a economia do país, toda a imprensa, educação, ciência, arte – que de fato toma a burguesia senhora absoluta do país inteiro. Tendo um monopólio na esfera da vida econômica a burguesia também pode estabelecer seu poder ilimitado na esfera política. Em efeito o parlamento e o governo representativo nas democracias não passam de órgãos executivos da burguesia.

Consequentemente, a democracia é apenas um dos aspectos da ditadura burguesa, encoberta por fórmulas enganadoras de liberdades e garantias democráticas fictícias.

5. A negação do Estado e Autoridade

As ideologias da burguesia definem o Estado como o órgão que regulariza as complexas relações políticas, civis e sociais entre os homens na sociedade moderna, e protege a ordem e leis destes. Os anarquistas estão em perfeito acordo com esta definição, mas eles a completam afirmando que a base desta ordem e destas leis é a escravidão da grande maioria das pessoas pela minoria insignificante, e que é precisamente este propósito que é servido pelo Estado.

O Estado é simultaneamente a violência organizada da burguesia contra os trabalhadores e o sistema de seus órgãos executivos.

Os socialistas de esquerda, e em particular os bolchevistas também consideram o Estado e a Autoridade burgueses como empregados do capital. Mas eles mantêm que esta Autoridade e o Estado pode tornar-se, nas mãos de partidos socialistas, uma arma poderosa na luta pela emancipação do proletariado. Por esta razão, estes partidos são a favor de uma Autoridade socialista e um Estado proletário. Alguns querem conquistar poder através de meios parlamentares pacíficos (o social democrático), outros por meios revolucionários (os bolchevistas, os ‘sócio-revolucionários’ de esquerda).

O anarquismo considera estes dois fundamentalmente errados, desastrosos no trabalho pela emancipação dos trabalhadores.

A Autoridade sempre depende da exploração e escravidão da massa de pessoas. Ela nasce desta exploração, ou é criada dentro dos interesses desta exploração. A Autoridade sem violência e sem exploração perde toda razão de ser (raison detre).

O Estado e a Autoridade tiram toda iniciativa das massas, matam o espírito de criação e atividade livre, cultivam nelas a psicologia servil de submissão, de expectativa, de esperança de escalar a escada social, de confiança cega em seus líderes, de ilusão de compartilhamento em autoridade.

Desta maneira, a emancipação do trabalho só é possível na luta revolucionária direta das vastas massas trabalhadoras e de suas organizações de classe contra o sistema capitalista.

A conquista do poder pelos partidos sócio-democráticos através de meios, pacíficos, sob as condições da ordem em vigor atualmente, não irá colaborar no progresso da tarefa de emancipação dos trabalhadores, pela simples razão de que o poder verdadeiro, consequentemente a autoridade verdadeira, permanecerá com a burguesia, a qual controla a economia e a política do país. O papel da autoridade socialista, neste caso, fica reduzido ao campo das reformas: o aprimoramento deste mesmo regime. (Exemplos: Ramsay MacDonald, os partidos democráticos da Alemanha, da Suécia, da Bélgica, os quais adquiriram poder numa sociedade capitalista.)

Mais ainda, tomar o poder através de uma revolução social e organizar um assim chamado “Estado proletário” não pode servir à causa autêntica de emancipação dos trabalhadores. O Estado, imediatamente e supostamente construído pela defesa da revolução, invariavelmente termina deturpado pelas necessidades e características peculiares a si mesmo, tornando-se ele mesmo a meta, produz castas específicas e privilegiadas, e, consequentemente, restabelece a base da Autoridade e do Estado capitalistas; a habitual escravidão e exploração das massas através da violência. (Exemplo: “o Estado operário-camponês” dos bolchevistas.)

6. O papel das massas e o papel dos anarquistas na luta social e na revolução social

As principais forças da revolução social são a classe trabalhadora urbana, as massas de camponeses e uma parte dos ‘pensadores trabalhadores’.

Observação: apesar de ser uma classe explorada e oprimida assim como os proletariados urbanos e rurais, os pensadores trabalhadores são relativamente desunidos se comparados com os trabalhadores e os camponeses, graças aos privilégios econômicos concedidos pela burguesia a alguns de seus membros. É por isso que, durante os primeiros dias da revolução social, somente a camada menos favorecida dos pensadores participou ativamente.

A concepção anarquista do papel das massas na revolução social e na construção do socialismo difere-se tipicamente daquele dos partidos estadistas. Enquanto o bolchevismo e tendências afins consideram que as massas possuem somente instintos destrutivos e revolucionários, sendo incapazes de realizar atividades criativas e construtivas – a principal razão pela qual a última atividade deve concentrar-se nas mãos dos homens que formam o governo do Estado do Comitê Central do partido – os anarquistas, pelo contrário, acham que as massas trabalhadoras possuem enormes possibilidades criativas e construtivas inerentes, e os anarquistas desejam suprimir os obstáculos que impedem a manifestação destas possibilidades.

Os anarquistas consideram o Estado o principal obstáculo, que usurpa os direitos das massas e retira delas todas as funções da vida econômica e social. O Estado deve perecer, não “em algum dia” na sociedade vindoura, mas sim imediatamente. Deve ser destruído pelos trabalhadores no primeiro dia de sua vitória, e jamais deverá ser reconstituído usando qualquer outro tipo de falsa aparência. O Estado será substituído por um sistema federalista de organizações dos trabalhadores de produção e consumo, unidas federalmente e autogestionadas. Este sistema exclui tanto as organizações autoritárias quanto a ditadura de um determinado partido, qualquer que seja ele.

A Revolução Russa de 1917 demonstra precisamente esta orientação do processo de emancipação social através da criação do sistema de soviets de operários e camponeses e os comitês de fábrica. Seu triste erro foi não ter liquidado, em um momento oportuno, a organização de poder do estado: inicialmente do governo provisório, e em seguida do poder bolchevista. Os bolchevistas, aproveitando-se da confiança dos trabalhadores e dos camponeses, reorganizaram o estado burguês de acordo com as circunstâncias do momento e, consequentemente, mataram a atividade criativa das massas, através do apoio e da manutenção do estado: que sufocou o regime livre dos soviets e dos comitês de fábrica, o que havia representado o primeiro passo em direção à construção de uma sociedade socialista não-estatal.

A ação dos anarquistas pode ser dividida em dois períodos, um antes da revolução, e outro durante a revolução. Em ambos, os anarquistas só podem satisfazer seu papel como uma força organizada e se possuírem uma concepção clara dos objetivos de sua luta e os caminhos que levam à realização destes objetivos.

A tarefa fundamental da União Geral dos Anarquistas no período pré-revolucionário deve ser a de preparar os operários e camponeses para a revolução social.

Negando a democracia formal (burguesa), a autoridade e o Estado, proclamando a total emancipação trabalhista, o anarquismo enfatiza ao máximo os rigorosos princípios da luta de classe. Isto atenta e desenvolve nas massas consciência de classe e a intransigência revolucionária da classe.

E precisamente em direção à intransigência de classe, ‘anti-democratismo’, anti-estadismo’ das idéias do anarco-comunismo que a educação libertária das massas deve ser direcionada, mas a educação em si não é o suficiente – É também necessária uma certa organização da massa anarquista – Para realizar isto, é necessário trabalhar em dois sentidos: por um lado, trabalhar em direção à seleção e agrupamento de forças revolucionárias de trabalhadores e camponeses levando em conta uma base libertária comunista teórica (uma organização especificamente libertária comunista); por outro lado, em direção à um reagrupamento de trabalhadores e camponeses revolucionários baseado em uma economia de produção e consumo (trabalhadores e camponeses revolucionários organizados em volta da produção: trabalhadores e camponeses livres cooperativos). A classe dos trabalhadores e camponeses, organizada com base na produção e consumo, penetrada por posições anarquistas revolucionárias, será o primeiro grande ponto a favor da revolução social.

Quanto mais estas organizações estiverem conscientes e organizadas de uma maneira anarquista, como a presente, maior será a manifestação da vontade intransigente e criativa na hora da revolução.

Quanto à classe trabalhadora russa: está claro que após oito anos de ditadura bolchevista, que acorrenta as necessidades naturais de as massas terem atividade livre, a natureza verdadeira de toda e qualquer forma de poder é demonstrada melhor do que nunca; esta classe possui dentro de si grandes possibilidades para a formação de um movimento anarquista de massa. Militantes anarquistas organizados deveriam ir imediatamente, com toda força a seu dispor, encontrar-se com estas necessidades e possibilidades, de forma que elas não se degenerem em reformismo (‘menshevismo’).

Com a mesma urgência, anarquistas deveriam dedicar-se à organização dos camponeses pobres, que são esmagados pelo poder estatal, procuram uma solução para o problema e escondem um enorme potencial revolucionário.

O papel dos anarquistas no período revolucionário não pode ser restrito somente à propagação das linhas mestras das idéias libertárias. A vida não é só uma arena para a propagação desta ou daquela concepção, mas também, e da mesma forma, uma arena de luta, de estratégia, e de aspirações destas concepções na gestão da vida social e econômica.

Mais do que qualquer outro conceito, o anarquismo deveria se tornar o principal conceito de revolução, pois é somente dentro da base teórica anarquista que a revolução social pode ser bem sucedida na total emancipação trabalhista.

A principal posição das idéias anarquistas na revolução sugere uma orientação de acontecimentos direcionados pela teoria anarquista.

Contudo, esta força teórica condutora não deve ser confundida com a liderança política dos partidos estatais que levam, por fim ao Poder de Estado.

O anarquismo não aspira ao poder político nem à ditadura. Sua principal aspiração é ajudar as massas a tomar o caminho autêntico da revolução social e da construção do socialismo. Mas não é o bastante que as massas tomem o caminho da revolução social. É também necessário manter esta orientação de revolução e seus propósitos: a supressão da sociedade capitalista em nome dos trabalhadores livres. Como a experiência da revolução russa de 1917 nos mostrou, esta última tarefa está longe de ser fácil, principalmente por causa dos inúmeros partidos que tentam orientar o movimento para uma direção oposta à da revolução social.

Apesar de as massas se expressarem profundamente nos movimentos sociais, em termos de tendências e princípios anarquistas, estas tendências e princípios ainda permanecem dispersos, sendo descoordenados, e, consequentemente, não levam à organização da força condutora das idéias libertárias, a qual é necessária para a preservação da orientação anarquista e dos objetivos da revolução social. Esta força condutora teórica só pode ser expressada por um coletivo criado especialmente pelas massas com esse propósito. Os elementos anarquistas organizados constituem exatamente este coletivo.

As massas exigem uma resposta clara e precisa dos anarquistas a respeito destas e de muitas outras questões. E, a partir do momento que os anarquistas declaram uma concepção de revolução e da estrutura da sociedade, eles são obrigados a dar uma resposta clara à todas estas questões, relacionar a solução destes problemas à concepção geral de comunismo libertário, e devotar todas suas forças à realização destes.

Somente desta forma a União Geral dos Anarquistas e o movimento anarquista asseguram completamente sua função como forças teóricas condutoras na revolução social.

7. O período de transição

Os partidos socialistas entendem a expressão ‘período de transição’ como sendo uma fase definitiva na vida do povo cujos traços característicos são: ruptura com a velha ordem e a instalação de um novo sistema econômico e social – um sistema que, no entanto, ainda não representa a total emancipação dos trabalhadores. Neste sentido, todos os programas mínimos* (Um programa mínimo não tem o objetivo de transformar o capitalismo, mas sim de solucionar alguns dos problemas imediatos que assolam a classe trabalhadora sob o regime capitalista.) dos partidos políticos socialistas, por exemplo, o programa democrático dos oportunistas socialistas ou o programa comunista pela ‘ditadura do proletariado’, são programas do período de transição.

O traço essencial de todos estes é que eles consideram impossível, no momento, a concretização completa dos ideais dos trabalhadores: sua independência, liberdade e igualdade – e, consequentemente, preservam várias instituições do sistema capitalista: o princípio de coerção estatal, privatização dos meios e instrumentos de produção, a burocracia, e muitos outros, de acordo com as metas do programa de cada partido.

A princípio, os anarquistas sempre têm sido inimigos de tais programas, considerando-se que a construção de sistemas de transição, que mantêm os princípios de exploração e coerção das massas, levam, inevitavelmente, a um novo crescimento da escravidão.

Em vez de estabelecer programas mínimos políticos, os anarquistas sempre defenderam a idéia de uma revolução social imediata, que priva a classe capitalista de seus privilégios econômicos e sociais, e coloca os meios e instrumentos de produção e todas as funções da vida econômica e social nas mãos dos trabalhadores.

Até agora, foram os anarquistas que mantiveram este posicionamento.

A idéia do período de transição, de acordo com o qual a revolução social deve levar não à uma sociedade comunista, mas sim a um sistema X, mantendo elementos do velho sistema. é anti-social em essência. Ele ameaça resultar em um reforço e desenvolvimento destes elementos às suas dimensões anteriores, e isto seria como dar um passo para atrás.

Um flagrante exemplo disto é o regime de ‘ditadura do proletariado’ estabelecido pelos bolchevistas na Rússia.

De acordo com eles, o regime deve ser somente uma passo transitório rumo ao comunismo total. Na verdade, este passo resultou na restauração da sociedade de classes, na qual os trabalhadores e camponeses voltaram a ficar por baixo.

O centro de gravidade para a construção de uma sociedade comunista não consiste na possibilidade de assegurar a cada indivíduo liberdade ilimitada para satisfazer suas necessidades a partir do primeiro dia de revolução; mas consiste na conquista da base social desta sociedade, e estabelecimento dos princípios de relacionamentos igualitários entre os indivíduos. Quanto à questão da abundância, maior ou menor, ela não se posiciona ao nível de princípios, mas sim como um problema técnico.

O princípio fundamental sobre o qual a nova sociedade será erigida e posicionada, e que não deve ser restrito de qualquer forma é aquele de igualdade de relacionamentos, de liberdade e independência dos trabalhadores. Este princípio representa a primeira exigência fundamental das massas, pelo qual elas se erguem em uma revolução social.

Ou a revolução social terminará com a derrota dos trabalhadores, que seria o caso de recomeçarmos novamente a preparação da luta, uma nova ofensiva contra o sistema capitalista-, ou levará à vitória dos trabalhadores, e neste caso, tendo conquistado os meios que permitem auto-gestão – a terra, produção, e funções sociais, os trabalhadores começarão a construção de uma sociedade livre.

Isto é o que caracteriza o início da construção de uma sociedade comunista, que, uma vez começada, continua seguindo o rumo de seu desenvolvimento sem interrupções, reforçando-se e aprimorando-se continuamente.

Desta forma, a tomada das funções sociais e produtivas por parte dos trabalhadores, traçará uma linha exata de demarcação entre as eras estatal e não-estatal.

Se deseja se tornar um porta-voz das massas combatentes, a bandeira de toda uma era de revolução social, o anarquismo não deve assimilar traços da velha ordem em seu programa, as tendências oportunistas de sistemas e períodos de transição, não escondem seus princípios fundamentais, mas, pelo contrário, os desenvolve e aplica o máximo possível.

8. Anarquismo e sindicalismo

Consideramos a tendência de opor comunismo libertário a sindicalismo, e vice-versa, artificial e desprovida de fundamento e significado.

As idéias do anarquismo e as do sindicalismo pertencem a dois planos diferentes. Enquanto o comunismo, isto é, uma sociedade de trabalhadores livres, é a meta da luta anarquista – sindicalismo, isto é, o movimento revolucionário de trabalhadores nas suas ocupações, é somente uma das formas de luta de classe revolucionária. Através da união de trabalhadores baseada na produção, o sindicalismo revolucionário, como todos os grupos baseados em profissões, não possui uma teoria determinada, não possui uma concepção do mundo que responda todas as complicadas questões sociais e políticas da realidade contemporânea. Os sindicalismo sempre reflete as ideologias de diversos grupos políticos, notavelmente daqueles que trabalham mais intensamente em seus postos.

Nossa postura perante o sindicalismo revolucionário origina-se do que será dito em seguida. Sem querer tentar solucionar com antecedência a questão de papel dos sindicatos revolucionários após a revolução, se eles serão os organizadores de uma nova produção, ou se deixarão esta função para os comitês de fábricas ou os soviets de trabalhadores – julgamos que os anarquistas devem participar do sindicalismo revolucionário como sendo uma das formas do movimento revolucionário dos trabalhadores.

Contudo, a questão colocada hoje não é se os anarquistas devem ou não participar do sindicalismo revolucionário, mas sim como e para que fim eles devem tomar parte.

Consideramos o período, até o dia de hoje, quando os anarquistas entraram no movimento sindicalista como indivíduos e propagandistas, como um período de relações artesanais direcionadas ao movimento dos trabalhadores profissionais.

O anarco-sindicalismo, tentando introduzir forçosamente as idéias libertárias na ala esquerda do sindicalismo revolucionário como sendo uma forma de criar tipos de sindicatos anarquistas, representa um passo para frente, porém ainda não deixa de ser um método empírico*, pois o anarco-sindicalismo não necessariamente une a ‘anarquização’ do movimento sindicalista com aquela dos anarquistas organizados fora do movimento. Pois somente dentro desta base, de tal ligação, que o sindicalismo revolucionário pode ser ‘anarquizado’ e impedido de se direcionar ao oportunismo ou reformismo.

Considerando o sindicalismo somente como um corpo profissional de trabalhadores sem uma teoria social e política coerente, e, consequentemente, sem poder para resolver a questão social sozinho, acreditamos que as tarefas dos anarquistas nos postos do movimento consiste em desenvolver a teoria libertária, e conduzi-lo em uma direção libertária, a fim de transformá-lo em um braço ativo da revolução social. É preciso ter sempre em mente que, se o sindicalismo não achar na teoria anarquista um apoio nos momentos oportunos, ele se direcionará, com ou sem nossa aprovação, para a ideologia de um partido político estatal.

As funções dos anarquistas nos postos do movimento revolucionário dos trabalhadores puderam ser concretizadas somente sob as condições de seus trabalhos estarem diretamente ligados e costurados à atividade da organização anarquista fora do sindicato. Em outras palavras, devemos entrar em sindicatos revolucionários como uma força organizada, responsável por executar metas no sindicato perante a organização anarquista geral e orientada por ela.

Sem nos restringirmos apenas à criação de sindicatos anarquistas, devemos exercitar nossa influência teórica em todos os sindicatos, e de todas as formas (a IWW, o sindicato russo). Só podemos conquistar este objetivo trabalhando em coletivos anarquistas rigorosamente organizados; mas nunca em pequenos grupos empíricos, que não têm entre eles nem uma ligação organizacional nem um acordo teórico.

Grupos anarquistas em companhias, fábricas e oficinas de trabalhos, preocupados em criar sindicatos anarquistas, levando a luta em sindicatos revolucionários para a dominação das idéias libertárias no sindicalismo, grupos cujas ações são organizadas por uma organização anarquista geral: estes são as formas e os meios das posturas anarquistas quanto ao sindicalismo.

* baseado em observações ou experiências e não em teoria.

Translation by FAG – Federação Anarquista Gaucha

 

 

Seção Construtiva


A meta fundamental dos trabalhadores na luta é a fundação, por meio da revolução, de uma sociedade comunista livre e igualitária fundada no princípio “de cada um de acordo com sua habilidade, para cada um de acordo com suas necessidades”.

No entanto, esta sociedade não surgirá sozinha, somente pela força da revolução. Sua concretização se dará por um processo de revolução social, mais ou menos esquematizado, orientado pelas forças organizadas dos trabalhadores vitoriosos em um caminho determinado.

A nossa função é indicar este caminho a partir de agora, e formular problemas concretos e positivos que ocorrerão aos trabalhadores desde o primeiro dia de revolução social, o resultado que depende dos acertos de suas soluções.

É evidente que a construção de uma nova sociedade só será possível após a vitória dos trabalhadores em cima do sistema capitalista burguês e seus representativos. E impossível começar a construção de uma nova economia e novas relações sociais enquanto o poder do estado, que defende o regime de escravidão, não tiver sido esmagado, enquanto trabalhadores e camponeses não tiverem tomado, como o objeto da revolução, a economia industrial e agrícola.

Consequentemente, a primeira tarefa social revolucionária é esmagar o edifício estatal do sistema capitalista, desapropriar a burguesia e todos os elementos privilegiados em geral dos seus meios de poder, e estabelecer acima de tudo a vontade de revolta dos trabalhadores, como é expressado pelos princípios fundamentais da revolução social. Este aspecto agressivo e destrutivo da revolução só pode servir para limpar o caminho para as tarefas positivas que formam o significado e a essência da revolução social-

Estas tarefas são as que se seguem:

1. A solução, no sentido comunista libertário, do problema da produção industrial do país.

2. Similarmente, a solução do problema agrário.

3. A solução do problema de consumo.

Produção

Levando-se em conta que a indústria de um país é o resultado dos esforços de várias gerações de trabalhadores e que as diversas ramificações da indústria estão fortemente ligadas, consideramos toda produção efetiva como uma única oficina de trabalho de produtores, pertencendo totalmente a todos os trabalhadores juntos, e não a alguém em particular.

O mecanismo produtivo do país é global e pertence à toda classe trabalhadora. Esta tese determina o caráter e as formas da nova produção. Ela também será global, comum no sentido que os produtos produzidos pelos trabalhadores pertencerão a todos. Estes produtos, de qualquer categoria que sejam, o fundo geral de provisões para os trabalhadores, onde cada um que participar na produção receberá aquilo que precisar, de uma forma igual para todos.

O novo sistema de produção suplantará totalmente a burocracia e a exploração em todas as suas formas e estabelecerá em seu lugar o princípio de cooperação fraternal e solidariedade entre os trabalhadores.

A classe média, que em uma sociedade capitalista moderna exercita funções intermediárias – comércio, etc., assim como a burguesia, deve tomar parte do novo modo de produção sob as mesmas condições que todos os outros trabalhadores. Caso contrário, estas classes se posicionarão fora da sociedade de trabalho.

Não haverão chefes, nem empreendedores, proprietário ou proprietário indicado pelo Estado (como é o caso atual do estado bolchevista). Nesta nova produção, a gestão será repassada para a administração especialmente criada pelos trabalhadores: soviets de trabalhadores, comitês de fábrica ou gestão pelos trabalhadores de trabalhos e fábricas. Estes órgãos, interligados ao nível de comuna, distrito e finalmente a gestão geral e federal da produção. Construídos pelas massas e sempre sob seu controle e influência, todos estes órgãos constantemente renovados e realizadores da idéia de autogestão, autogestão verdadeira, pelas massas populares.

Produção unificada, na qual os meios e os produtos pertencem a todos, tendo substituído a burocracia pelo princípio de cooperação fraternal e tendo estabelecido direitos iguais para todo tipo de trabalho, da gestão produtiva feito pelos órgãos do controle dos trabalhadores, eleito pelas massas, é o primeiro passo verdadeiro no caminho para a realização do comunismo libertário.

Consumo

Este problema aparecerá durante a revolução em duas formas:

1. O princípio da procura por produtos e consumo.

2. O princípio de sua distribuição.

Naquilo que concerne a distribuição de mercadorias aos consumidores, a solução depende sobretudo da quantidade de produtos disponíveis e do princípio de acordo de alvos.

A revolução social, preocupando-se com a reconstrução de toda ordem social, toma para si também a obrigação de satisfazer as necessidades de vida de todos. A única exceção é do grupo dos não trabalhadores – aqueles que se negam a tomar parte na nova produção por razões contra-revolucionárias. Mas em geral, excetuando-se a última categoria de pessoas, a satisfação das necessidades de todos na área da revolução é assegurada pela reserva geral de mercadorias. No caso da insuficiência de mercadorias, elas são divididas de acordo com o princípio de maior urgência, isto é, o caso de crianças, inválidos e famílias trabalhadoras.

Um problema ainda mais dificil é a organização de uma base para o consumo em si.

Sem dúvidas, desde o primeiro dia da revolução, as fazendas não oferecerão todos os produtos vitais à vida da população. Ao tempo que os camponeses têm em abundância que falta às cidades.

Os comunistas libertários não têm dúvidas sobre o relacionamento mútuo existente entre os trabalhadores da cidade e os do campo. Eles acreditam que a revolução social só pode ser realizada através dos esforços iguais de trabalhadores e camponeses. Em conseqüência, a solução do problema de consumo na revolução só será possível por meio de uma colaboração revolucionária direta entre estas duas categorias de trabalhadores.

Para estabelecer esta colaboração, a classe trabalhadora urbana, tendo assumido a produção, deve imediatamente suprir as necessidades de sobrevivência do campo e esforçar-se por prover os produtos, meios e implementos usados na agricultura coletiva diariamente. As medidas de solidariedade tomadas pelos trabalhadores quanto às necessidades dos camponeses, provocarão como resposta destes o mesmo tipo de gesto, a provisão do produto do seu trabalho coletivo para as cidades.

As cooperativas de trabalhadores e camponeses serão os principais órgãos, assegurando às cidades e o campo suas necessidades em alimentação e materiais econômicos. Mais tarde, sendo também responsáveis por funções mais importantes e permanentes, como fornecer tudo que seja necessário para garantir e desenvolver a vida social e econômica dos trabalhadores e camponeses, estas cooperativas serão transformados em órgãos permanentes encarregados de prover cidades e campo.

Esta solução para o problema de provisão permite ao proletariado criar um estoque permanente de provisões, que terá um efeito favorável e decisivo no resultado de toda nova produção.

A terra

Para a solução do problema agrário, acreditamos serem os camponeses trabalhadores, que não exploram o trabalho de outros – e o proletariado assalariado do campo as principais forças revolucionárias e criativas. Sua tarefa será efetivar a redistribuição de terras no campo de forma a estabelecer o uso e exploração da terra de acordo com princípios comunistas.

Como a indústria, a terra, explorada e cultivada por sucessivas gerações de trabalhadores, é o produto dos seus esforços. Também pertence a todos os trabalhadores e a ninguém em particular, visto que é propriedade comum e inalienável dos trabalhadores, a terra nunca mais pode ser comprada, vendida ou alugada: ela não pode, portanto, servir como um meio de exploração do trabalho de outros.

A terra é também uma espécie de oficina de trabalho geral e pública, onde as pessoas produzem os meios pelos quais vivem. Mas é o tipo de oficina onde cada trabalhador (camponês) se acostumou, graças à certas condições históricas, a realizar seu trabalho sozinho, independente de outros produtores. Enquanto, na indústria, o método coletivo de trabalho é essencial e o único caminho possível nos dias de hoje, a maioria dos camponeses cultiva a terra por conta própria.

Consequentemente, quando a terra e os meios para sua exploração são assumidos pelos camponeses, sem possibilidade de venda ou arrendamento, a questão das formas de utilização e os métodos de exploração (comunitário ou familiar) não achará uma solução completa e definitiva imediatamente, como no setor industrial. De início, provavelmente ambos os métodos serão usados.

Serão os próprios camponeses revolucionários que estabelecerão os termos definitivos de exploração o utilização da terra. Nenhuma pressão vinda de fora será possível quanto à esta questão.

Contudo, já que consideramos que somente uma sociedade comunista, pela qual a revolução social será realizada., retira os trabalhadores da sua situação de escravidão e exploração e lhes dá total liberdade e igualdade; já que os camponeses constituem a grande maioria da população (quase 85% na Rússia na época tratada aqui) e, consequentemente, o regime agrário que eles estabeleceram será o fator decisivo do destino da revolução; e, finalmente, já que uma economia privada para a agricultura, assim como em uma indústria privada, leva a um comércio, acumulação, propriedade privada e restauração de capital – nosso dever será o de fazer tudo possível, desde agora, para facilitar a solução do problema agrário de uma forma coletiva.

Para tal, precisamos, desde já, nos engajar em uma propaganda enérgica entre os camponeses a favor de uma economia agrária coletiva.

A fundação de um sindicato especificamente dos camponeses libertários, facilitará consideravelmente esta tarefa.

A respeito disto, o progresso técnico será de grande importância, facilitando a evolução da agricultura, assim como a concretização do comunismo nas cidades e, acima de tudo, na indústria. Se os trabalhadores industriais agirem junto aos camponeses, não individualmente ou em grupos separados, mas sim como um imenso coletivo comunista, abraçando todos os ramos da indústria; se, além disso, eles manterem em mente as necessidades do campo e se, ao mesmo tempo, suprirem cada vila com coisas usadas diariamente, ferramentas e máquinas para a exploração coletiva das terras, os camponeses se sentirão impelidos a aplicar o comunismo na agricultura.

A defesa da revolução

A questão da defesa da revolução também está ligada ao problema do ‘primeiro dia’. Basicamente, o meio mais poderoso para a defesa da revolução é a solução feliz para seus problemas positivos: produção, consumo, e a terra. Assim que se resolver corretamente estes problemas. nenhum contra-revolucionário será capaz de alterar ou desequilibrar a sociedade livre de trabalhadores. No entanto, os trabalhadores terão de sustentar uma luta ferrenha contra os inimigos da revolução, a fim de manter sua existência concreta.

A revolução social, que ameaça os privilégios e a própria existência das classes não-trabalhadoras da sociedade, provocará inevitavelmente uma resistência desesperada por parte destas classes, que tomará a forma de uma violenta guerra civil.

Como podemos perceber pelo que aconteceu na Rússia, uma guerra civil como tal não será uma questão de poucos meses, mas sim de muitos anos.

Não importando quão bem sucedidos sejam os primeiros passos dos trabalhadores no início da revolução, as classes dominantes irão conservar uma enorme capacidade de resistência por muito tempo. Por muitos anos elas irão lançar ofensivas contra a revolução, tentando reconquistar o poder e os privilégios dos quais foram desprovidas.

Uma grande exército, estratégias e técnicas militares, capital – serão jogados contra os trabalhadores vitoriosos.

De forma a preservar as conquistas da revolução, os trabalhadores devem criar órgãos para a defesa da revolução, para assim fazer oposição às ofensivas reacionárias com uma força guerrilheira que corresponda à magnitude da tarefa. Nos primeiros dias da revolução, esta força guerrilheira será formada por todos os trabalhadores e camponeses armados. Mas esta força armada espontânea só será valiosa durante os primeiros dias, antes de a guerra civil alcançar seu pico e os dois partidos em luta terem criado organizações militares regularmente constituídas.

Na revolução social o momento mais crítico não é durante a supressão da Autoridade, mais sim o que se segue, que é quando as forças do regime derrotado lançam uma ofensiva geral contra os trabalhadores, e quando se trata de uma questão de se guardar bem as conquistas sob ataque. O caráter próprio desta ofensiva, assim como as técnicas e o desenvolvimento da guerra civil, obrigarão os trabalhadores a criar certos contingentes militares revolucionários. A essência e os princípios fundamentais destas formação deverão ser decididos com antecedência. Ao negar os métodos de governo estatais e autoritários, também estaremos negando o método estatal de organizar as forças militares de trabalhadores, em outras palavras, os princípios de um exército estatal baseado no serviço militar obrigatório. Sendo coerente com as posições fundamentais do comunismo libertário, o princípio de serviço voluntário deve ser a base das formação militares de trabalhadores. As repartições de guerrilheiros insurgentes, trabalhadores e camponeses, que lideraram a ação militar na revolução russa, podem ser citadas como exemplos de tais formações.

No entanto, ‘serviço voluntário’ e a ação de guerrilheiros não deve ser entendida no sentido estrito da palavra, que é o de uma luta de repartições de trabalhadores e camponeses contra o inimigo local, não coordenada por um plano geral de operação e cada uma agindo sob sua própria responsabilidade, sob seu próprio risco. A ação e as táticas usadas pelos guerrilheiros no período de seu desenvolvimento completo devem ser guiadas por uma estratégia revolucionária comum.

Como em todas as guerras, a guerra civil não pode ser financiada com êxito pelos trabalhadores, a menos que eles apliquem os dois princípios fundamentais de qualquer ação militar: unidade no planejamento de operações e unidade de comando em comum. O momento mais crítico da revolução virá quando a burguesia marchar contra a revolução como uma força organizada. Este momento crítico obriga os trabalhadores a adotar estes princípios de estratégia militar.

Desta maneira, em vista das necessidades impostas pela estratégia militar e também pela estratégia contra-revolucionária, as forças armadas da revolução deve, inevitavelmente, ser baseada em um exército revolucionário geral com um comando em comum e planejamento de operações. Os princípios que se seguem formam a base para este exército.

(a) o caráter de classe do exército;

(b) serviço voluntário (qualquer coação será completamente excluída da tarefa de defender a revolução);

(c) disciplina revolucionária livre (autodisciplina) (serviço voluntário e autodisciplina revolucionária são perfeitamente compatíveis, e dão ao exército revolucionário mais moral do que qualquer exército do estado);

(d) submissão total do exército revolucionário às massas de trabalhadores e camponeses como são representadas pelas organizações de trabalhadores e camponeses comum por todo país, e estabelecidas pelas massas nos setores de controle da vida econômica e social.

Em outras palavras, o órgão de defesa da revolução, responsável por combater a contra-revolução, por grandes frentes militares assim como por uma frente interna (complôs burgueses, preparação para ação contra-revolucíonária), estará inteiramente sob a jurisdição das organizações produtivas dos trabalhadores e camponeses, às quais será submisso, e pelas quais receberá seu direcionamento político.

Observação: ao mesmo tempo que deve ser conduzido em conformidade com princípios comunistas libertários definitivos, o exército em si não deve ser considerado um ponto de princípio. Não é nada além de uma conseqüência de estratégia militar na revolução, uma medida estratégica que os trabalhadores são fatalmente forçados a tomar devido o processo de guerra civil. Mas esta medida deve chamar atenção a partir de agora. Deve ser estudada cuidadosamente a fim de evitar quaisquer contratempos irreparáveis no trabalho de proteção e defesa da revolução, pois os contratempos em uma guerra civil podem provar ser desastrosos ao resultado de toda revolução social.

Translation by FAG – Federação Anarquista Gaucha

Seção Organizacional


As posições gerais, construtivas expressadas acima constituem a plataforma organizacional das forças revolucionárias do anarquismo.

Esta plataforma, contendo uma orientação tática e teórica definitiva, parece ser o mínimo necessário e urgente para reunir todos os militantes do movimento anarquista organizado.

Sua tarefa é agrupar ao seu redor todos os elementos saudáveis do movimento anarquista em uma organização geral, ativa e agitadora em uma base permanente: a União Geral dos Anarquistas. As forças de todos os militantes anarquistas devem ser orientadas em direção à criação desta organização.

Os princípios fundamentais para a organização de uma União Geral de anarquistas são os seguintes:

1. Unidade Teórica

A teoria representa a força que orienta a atividade de pessoas e organizações por uma trilha definida e direcionada a um objetivo determinado. Naturalmente, ela deve ser comum a todas as pessoas e organizações aderentes à União Geral. Qualquer atividade realizada pela União Geral, tanto no global quanto em seus detalhes, deve estar em perfeita concórdia com os princípios teóricos professados pelo coletivo.

2. Unidade Tática ou o Método Coletivo de Ação

Da mesma forma, os métodos táticos aplicados pelos membros e grupos isolados dentro da União devem ser unitários, ou seja, estar em concórdia rigorosa tanto entre si quanto com a teoria e a tática da União.

Uma linha tática comum no movimento é de importância decisiva para a existência da organização e para o movimento todo: ela elimina o efeito desastroso de várias táticas que se opõe entre si, concentra as forças do movimento, oferece à elas uma direção em comum levando, portanto, a um objetivo fixo.

3. Responsabilidade Coletiva

A prática de agir sob a responsabilidade de um indivíduo deve ser decididamente condenada e rejeitada nos postos do movimento anarquista. As áreas da vida revolucionária, sociais e políticas, são, acima de tudo, profundamente coletivas por natureza. A atividade social revolucionária nesta áreas não pode ser baseada na responsabilidade de indivíduos militantes.

O órgão executivo do movimento anarquista geral, a União Anarquista, ao tomar uma posição definitiva contra a tática de individualismo irresponsável, introduz em seus postos o princípio de responsabilidade coletiva: a União toda será responsável pela atividade política e revolucionária de cada membro; da mesma forma, cada membro será responsável pela atividade política e revolucionária de União como um todo.

4. Federalismo

O anarquismo sempre negou o conceito de organização centralizada, tanto na área da vida social das massas quanto na sua ação política. O sistema centralizado depende na diminuição do espírito crítico, iniciativa e independência de cada indivíduo e na submissão cega das massas ao ‘centro’. As conseqüências naturais e inevitáveis deste sistema são a escravidão e a mecanização da vida social e da vida da organização.

Sendo contra a centralização, o anarquismo sempre professou e defendeu o princípio de federalismo, que concilia a independência e a iniciativa dos indivíduos e da organização que servem à causa comum.

Ao conciliar a idéia de independência e alto grau dos direitos de cada indivíduo com o serviço das carências e necessidades sociais, o federalismo abre as portas para toda manifestação saudável das faculdades de todo indivíduo.

Mas, freqüentemente, o principio federalista tem sido deformado nos postos anarquistas: ele tem sido interpretado como o direito, acima de tudo, de manifestar o ‘ego’ de alguém, sem a obrigação de arcar com os deveres para com a organização,

Esta falsa interpretação já desorganizou nosso movimento no passado. Está na hora de pôr um fim a isso de uma forma firme e irreversível.

A federação significa a concordância livre entre indivíduos e organizações a trabalhar coletivamente em rumo a um objetivo comum.

Contudo, tal acordo e federação, que é baseada nele, só poderão se tornar realidade, ao invés de ficção ou ilusão, sob as condições essenciais de que todos os participantes do acordo e a União cumpram completamente os deveres assumidos, e conforme as decisões compartilhadas. Em se tratando de um projeto social, independente de quão vasta seja a base federalista na qual é construído, não podem haver decisões que não sejam executadas. É ainda menos admissível em uma organização anarquista, que assume exclusivamente obrigações relacionadas aos trabalhadores e sua revolução social.

Consequentemente, o tipo federalista de organização anarquista, ao mesmo tempo que reconhece os direitos de independência, opinião livre, liberdade individual e iniciativa de cada membro, requer deles que assumam deveres organizacionais fixos, e exige a execução de decisões compartilhadas.

Somente com esta condição o princípio federalista terá vida, e a organização anarquista funcionará corretamente, e se guiará em direção do objetivo definido.

A idéia da União Geral dos Anarquistas expõe o problema de coordenação e concordância das atividades de todas as forças do movimento anarquista.

Cada organização aderente à União representa uma célula vital do organismo todo. Cada célula deve ter seu secretariado, executando e guiando teoricamente o trabalho político e técnico da organização.

Visando a coordenação da atividade de todas as organizações aderentes da União, um órgão especial será criado: o comitê executivo da União. O comitê será responsável pelas seguintes funções: a execução das decisões tomadas pela União com as quais são confiados; a orientação teórica e organizacional da atividade de organizações isoladas consistente com as posições teóricas e a linha geral tática da União; a monitoração do estado geral do movimento; a manutenção das relações de trabalho e organizacionais entre todas as organizações da União; e com outras organizações.

Os direitos, responsabilidades e tarefas efetivas do comitê executivo são fixados pelo congresso da União. A União Geral dos Anarquistas tem uma meta concreta e determinada. Em nome do sucesso da revolução social ela deve, acima de tudo, atrair e absorver os elementos mais revolucionários e altamente críticos dos operários e camponeses.

Exaltando a revolução social, e mais ainda, sendo uma organização anti-autoritária que aspira à abolição da sociedade de classes, a União Geral dos Anarquistas depende igualmente da duas classes fundamentais da sociedade: os operários e os camponeses. Ela põe peso igual sob o trabalho de emancipação destas duas classes.

Quanto aos sindicatos dos trabalhadores e as organizações revolucionárias das cidades, a União Geral dos Anarquistas terá de dedicar todos os seus esforços para ser seu pioneiro e guia teórico.

Ela assume a mesma tarefa em relação às massas exploradas de camponeses. Assim como pretende ter o mesmo papel que o sindicato revolucionário dos trabalhadores, a União se esforça por efetivar a criação de uma rede de organizações econômicas revolucionárias dos camponeses, além disso, uma união específica de camponeses, fundada a partir de princípios anti-autoritários.

Nascida da massa de pessoas trabalhadoras, a União Geral deve tomar parte de todas as manifestações de suas vidas, levando a eles o espírito de organização, perseverança e ofensiva em todas as ocasiões. Somente desta forma ela poderá concretizar sua tarefa, sua missão teórica e histórica na revolução social dos trabalhadores, e se tornar a vanguarda organizada do seu processo de emancipação.

Nestor Makhno, Ida Mett, Piotr Arshinov, Valevsky, Linsky
1926

Translation by FAG – Federação Anarquista Gaucha

NOSSA ORGANIZAÇÃO

Nestor Makhno


A atual situação enfrentada pelo proletariado mundial exige uma tensão máxima do pensamento e da energia dos anarquistas revolucionários, para esclarecer as questões mais importantes.

Nossos camaradas, que desempenharam um papel ativo na revolução russa e continuam fiéis às suas convicções, sabem de que maneira funesta se fez sentir, em nosso movimento, a ausência de uma sólida organização. Esses camaradas estão bem situados para ser particularmente úteis na tarefa de unificação atualmente empreendida. Suponho que não lhes passou despercebido que o anarquismo foi um fator de insurreição nas massas trabalhadoras revolucionárias, na Rússia e na Ucrânia, incitando-as à luta por toda parte. Contudo, a ausência de uma grande organização específica, que contraponha suas forças vivas aos inimigos da revolução, tornou os anarquistas incapazes de assumir uma função organizativa. A tarefa libertária na revolução sofreu as pesadas conseqüências dessa incapacidade. Conscientes dessa limitação, os anarquistas russos e ucranianos não devem permitir que tal fato se repita. A lição do passado é demasiado penosa e, por não a terem esquecido, eles devem ser os primeiros a dar o exemplo de coesão de suas forças. Como? Criando uma organização que possa cumprir as tarefas do anarquismo, não somente no momento de preparar a revolução social, mas igualmente depois. Uma tal organização deve unir todas as forças revolucionárias do anarquismo, e se ocupar imediatamente da preparação das massas para a revolução social e para a luta pela realização da sociedade anarquista.

Se bem que a maioria dos anarquistas reconhece a necessidade de uma tal organização, é lamentável constatar que são poucos os que se preocupam com a seriedade e a constância indispensáveis.

Neste momento, os acontecimentos se precipitam em toda Europa, inclusive na Rússia, prisioneira dos bolcheviques. Está próximo o dia em que será necessário participarmos ativamente dos acontecimentos. Se nos apresentarmos outra vez sem estarmos organizados, previamente e de maneira adequada, seremos novamente incapazes de impedir que os acontecimentos evoluam no turbilhão dos sistemas estatais.

O anarquismo se insere e vive concretamente por toda a parte onde há vida humana. Em contrapartida, ele não se torna compreensível para todos, a não ser onde e quando existem os propagandistas e os militantes que romperam sincera e inteiramente com a psicologia de submissão desta época, eis por que são ferozmente perseguidos. Esses militantes agem de acordo com suas convicções, desinteressadamente, sem medo de descobrir, em seu processo de desenvolvimento, aspectos desconhecidos, para assimilar, ao fim e ao cabo, o que se fizer necessário para a vitória contra o espírito de submissão.

Duas teses decorrem do que acima foi dito:

  • a primeira, é que o anarquismo conhece expressões e manifestações diversas, mas conserva uma perfeita integridade em sua essência.
  • a segunda, é que o anarquismo é naturalmente revolucionário e, na luta contra seus inimigos, só pode adotar métodos revolucionários.

No decorrer de seu combate revolucionário, o anarquismo não somente derruba os governos e suprime suas leis, mas se ocupa também da sociedade em que nasceu, de seus valores, seus costumes e sua “moral”, o que lhe vale ser cada vez mais compreendido e assimilado pela maioria oprimida da humanidade.

Tudo isso nos convence de que o anarquismo não pode continuar aprisionado nos limites de um pensamento marginal e reivindicado unicamente por uns poucos grupelhos, em suas ações isoladas. Sua influência natural sobre a mentalidade dos grupos humanos em luta é mais do que evidente. Para que esta influência seja assimilada de modo consciente, ele deve doravante se munir de novos meios e iniciar desde já o caminho das práticas sociais.

Dielo Trouda n.º 4, setembro de 1925.

Anarquismo e nossos tempos

Nestor Makhno


O anarquismo não é uma doutrina que trata meramente sobre a vida social do Homem, no sentido limitado com que o termo é indicado nos dicionários políticos, e as vezes, nas conferências, por parte de nossos oradores propagandistas. É, muito mais, um ensino que envolve a toda existência do Homem como um indivíduo completo.

No curso da elaboração da imagem plena do mundo, o anarquismo tem tido uma tarefa muito específica: abarcar ao mundo na sua totalidade, varrendo todo tipo de obstáculos, presentes e futuros, que podem ser postos pela ciência e pela tecnologia capitalista e burguesa. Isto, com o fim de suprir ao Homem com uma explicação mais exaustiva possível da existência neste mundo e de fazer o melhor possível frente a todos os problemas que o homem deva confrontar: esta aproximação, deve ajuda-lo a internalizar uma consciência do anarquismo que lhe é naturalmente inerente – isto, ao menos, é o que suponho – visto que este depara-se continuamente a manifestações parciais do anarquismo.

É sobre a base da vontade do indivíduo, que o ensino libertário pode ser encarnado na vida real e limpar o terreno o qual ajuda o Homem a desfazer-se de todo espírito de submissão de seu seio.

Quando se desenvolve, o anarquismo não conhece ataduras. Não reconhece barreiras as quais deva confinar-se e ajustar-se. Tal qual a existência humana, não tem fórmulas definitivas para suas aspirações e objetivos.

Tal como eu o vejo, o direito de cada Homem a desfrutar de sua total liberdade, como o definem os postulados teóricos do anarquismo, podem somente ser, para ele, um meio com o qual irá lograr um florescimento mais ou menos completo, entretanto continua-se em desenvolvimento. Havendo desaparecido do Homem tal espírito de submissão que tem sido artificialmente instalado nele, o anarquismo se transforma então na idéia força da sociedade humana em marcha até o cumprimento de todas suas metas.

Em nossos tempos, o anarquismo ainda é visto como teoricamente débil: mas ainda, há aqueles que argumentam que é interpretado freqüentemente de forma errônea. Sem obstáculos, seus expoentes tem muito o que dizer a respeito: muitos vão constantemente propagando-o, militando ativamente e, as vezes, queixando-se de sua falta de êxito (imagino, neste último caso, que esta atitude é propiciada pelo fracasso para demarcar, através da investigação, o engenho social vital para anarquismo se se quer ganhar a ocasião na sociedade contemporânea)…

Todos, e cada um de nós, estamos de acordo que a coesão entre todos os anarquistas ativos, na forma de uma atividade coletiva séria, é o que se necessita. Seria, então, algo muito surpreendente que os oponentes de tal União em nossas fileiras o reconheçam. A questão a resolver, se relaciona apenas com o formato organizativo que tal União de anarquistas deve assumir.

Pessoalmente, me inclino a aceitar como forma organizativa mais apropriada e mais necessária, a que se apresenta como uma União de anarquistas, construída sobre a base dos princípios da disciplina coletiva e da direção concentrada de todas as forças anarquistas! Assim, todas as organizações que se afiliem a ela, estariam interconectadas, não só por uma comunidade de objetivos sociais revolucionários, mas também por um acordo comum aos meios que levam até este fim.

As atividades das organizações locais podem ser adaptadas, tanto quanto seja possível, para ajustar-se as condições locais; sem problemas, tais atividades devem, indefectivelmente, ser coerentes com os esquemas do conjunto da prática organizativa da União de anarquistas de todo o país.

Se esta União se descreve a si mesma como um partido ou como outra coisa, é um assunto de importância meramente secundária. O ponto essencial, é que deve focalizar todas as forças anarquistas sobre uma prática uniforme e comum contra o inimigo, levando adiante a luta pelos direitos dos explorados, a implementação da revolução social e o estabelecimento da sociedade anarquista!

Dielo Trouda, nº6, novembro de 1925, pg. 6-7

SOBRE A DISCIPLINA REVOLUCIONÁRIA

Nestor Makhno


Alguns camaradas me fizeram a seguinte pergunta: como é que eu entendo a disciplina revolucionária? Vou lhes responder.

Compreendo a disciplina revolucionária como uma autodisciplina do indivíduo, estabelecida num coletivo atuante, de modo igual para todos, e rigorosamente elaborada.

Ela deve ser a linha de conduta responsável dos membros desse coletivo, induzindo a um acordo estrito entre sua prática e sua teoria.

Sem disciplina na organização, é impossível empreender qualquer ação revolucionária séria. Sem disciplina, a vanguarda revolucionária não pode existir, porque então ela se encontrará em completa desunião prática e será incapaz de formular as tarefas do momento, de cumprir o papel de iniciador que dela esperam as massas.

Faço repousar esta questão sobre a observação e a experiência de uma prática revolucionária conseqüente. De minha parte, baseio-me sobre a experiência da revolução russa, que tinha um conteúdo tipicamente libertário sob muitos aspectos.

Se os anarquistas estivessem firmemente ligados no plano organizativo e tivessem observado, em suas ações, uma disciplina bem determinada, não teriam jamais sofrido uma tal derrota. Mas, porque os anarquistas “de todo estilo e de todas as tendências” não representavam, mesmo em seus grupos específicos, um coletivo homogêneo, com uma disciplina de ação bem definida, não puderam suportar o exame político e estratégico que lhes impuseram as circunstâncias revolucionárias.

A desorganização conduziu os anarquistas à impotência política, dividindo-os em duas categorias:

  • a primeira foi a dos que se dedicaram à sistemática ocupação das residências burguesas, nas quais se alojaram e viveram para o seu bem-estar. Eram os que eu chamo de turistas, os diversos anarquistas que vão de cidade em cidade, na esperança de encontrar um lugar onde permanecer algum tempo, espreguiçando-se e desfrutando o máximo possível de conforto e prazer.
  • a segunda se compunha dos que romperam todos os laços honestos com o anarquismo (ainda que alguns deles, na URSS, façam-se passar agora pelos únicos representantes do anarquismo revolucionário) e se lançaram sobre os cargos oferecidos pelos bolcheviques, no momento mesmo em que o poder fuzilava os anarquistas que permaneciam fiéis ao seu posto de revolucionários e denunciaram a traição dos bolcheviques.

Diante desses fatos, compreende-se facilmente porque eu não posso continuar indiferente ao estado de despreocupação e negligência que existem atualmente em nossos meios.

De uma parte, isso impede a criação de um coletivo libertário coerente, que permitirá aos anarquistas ocuparem o lugar que lhes cabe na revolução. Doutra parte, isso permite contentar-se com belas frases e grandes pensamentos, omitindo-se no momento de agir.

Eis porque eu falo de uma organização libertária apoiada sobre o princípio duma disciplina fraternal. Uma tal organização conduzirá ao acordo indispensável de todas as forças vivas do anarquismo revolucionário e o ajudará a ocupar seu lugar na luta do Trabalho contra o Capital.

Por esse meio, as idéias libertárias certamente ganharão as massas e não se empobrecerão. Somente os fanfarrões consumados e irresponsáveis fugirão diante de uma tal estrutura organizacional.

A responsabilidade e a disciplina organizacionais não devem horrorizar: elas são companheiras de viagem da prática do anarquismo social.

Dielo Trouda, n°s 7-8, dezembro de 1925 – janeiro de 1926.

SOBRE A DEFESA DA REVOLUÇÃO

Nestor Makhno


No quadro da discussão que houve, entre nossos camaradas de diversos países, em torno do projeto de Plataforma da União Geral dos anarquistas, publicada pelo grupo dos anarquistas russos no exterior, pergunto-me sobre as inúmeras maneiras de dedicar um artigo específico à questão da defesa da revolução. Esforçar-me-ei para tratá-la com a maior atenção, mas presumo que meu dever é, desde já, advertir os camaradas que esta questão não é o ponto central do projeto de Plataforma. Sua parte essencial consiste na necessidade de unir nossas fileiras comunistas libertárias da maneira mais conseqüente. Essa parte carece de ser emendada e completada antes de ser posta em execução. Ou então, se não agruparmos nossas forças, nosso movimento estará condenado a sucumbir definitivamente sob a influência dos liberais e dos oportunistas que freqüentam nosso meio: especuladores e aventureiros políticos, uma corja que, na melhor das hipóteses, se dedica à tagarelice e às intrigas, incapaz que é de lutar pela realização de nossos grandiosos objetivos. Nossos objetivos só serão alcançados se juntarmos a nós todos os que instintivamente acreditam na justeza de nossa luta e desejam conquistar para a revolução a liberdade e a independência mais completas, a fim de construir uma vida e uma sociedade novas, onde cada um poderá enfim afirmar sua vontade criadora para o bem de todos.

No que diz respeito à questão particular da defesa da revolução, eu me apoiarei sobre a experiência que vivi durante a revolução russa na Ucrânia, no curso da luta ilegal, porém decisiva, conduzida pelo movimento revolucionário dos trabalhadores ucranianos. Essa experiência me ensinou que, em primeiro lugar, a defesa da revolução está diretamente ligada à sua ofensiva contra a contra-revolução; em segundo lugar, seu crescimento e sua intensidade colidirão sempre com a resistência dos contra-revolucionários; em terceiro lugar, em conseqüência do que já foi dito: as ações revolucionárias dependem intimamente do conteúdo político, da estruturação e dos métodos organizacionais empregados pelos destacamentos revolucionários armados, que devem combater, numa extensa frente, os exércitos convencionais contra-revolucionários.

Na luta contra seus inimigos, a revolução russa começou por organizar, sob a direção dos bolcheviques, os destacamentos de guardas vermelhos. Logo se percebeu que eles não suportariam a pressão das forças inimigas – no caso, os corpos expedicionários alemães, austríacos e húngaros -, pela simples razão de que agiam, na maior parte do tempo, sem qualquer orientação operacional geral. Eis por que os bolcheviques recorreram à organização do exército vermelho, na primavera de 1918.

Foi então que nós lançamos a palavra de ordem da organização de “batalhões livres” de trabalhadores ucranianos. Rapidamente, tornou-se visível que essa organização era impotente para enfrentar as provocações internas de todo tipo, pela falta de critérios sociais e políticos com que aceitava todos os voluntários, que desejavam unicamente pegar em armas e combater. O fato é que as unidades armadas constituídas por essa organização foram traiçoeiramente entregues ao inimigo, circunstância que as impediu de cumprir até o fim seu papel histórico na luta contra a contra-revolução estrangeira. Contudo, diante desse primeiro fracasso da organização de “batalhões livres” – que poderiam ser qualificados de unidades combatentes para a defesa imediata da revolução – nós não perdemos a cabeça. A organização foi um pouco modificada em sua forma, incluindo cavalaria e infantaria. Esses destacamentos tinham por tarefa agir na retaguarda profunda do inimigo. Essa organização foi posta à prova nas ações contra os corpos expedicionários austro-alemães e os bandos do hetman (chefe cossaco) Skoropadsky, durante o fim do verão e o outono de 1918.

Apegando-se a essa forma de defesa da revolução, os trabalhadores ucranianos conseguiram arrancar, das mãos dos contra-revolucionários, o laço de forca que ameaçava a revolução na Ucrânia. Além disso, não se contentando com a defesa da revolução, aprofundaram-na tanto quanto foi possível. Cabe assinalar que, nesse momento, os bolcheviques não dispunham de qualquer força militar na Ucrânia. Suas primeiras unidades combatentes só vieram da Rússia bem mais tarde; logo ocuparam uma frente paralela à nossa, esforçando-se na aparência para se unir aos trabalhadores ucranianos, organizados de maneira autônoma e sobretudo livres de seu controle estatal, mas de fato os bolcheviques se ocuparam, dissimuladamente, de sua decomposição e desaparecimento em seu (dos bolcheviques) benefício. Para atingir esse objetivo, os bolcheviques não desdenharam nenhum meio, chegando à sabotagem direta do apoio que haviam se comprometido a fornecer sob a forma de munições e de obus; isso, no exato momento em que nós desenvolvíamos, sobre toda a nossa frente, uma grande ofensiva, cujo sucesso dependia sobretudo da potência de fogo de nossa artilharia e de nossas metralhadoras, e quando era grande nossa escassez de munições. Na medida em que se desenvolvia no país, a contra-revolução interior recebia a ajuda de outros países, não somente em armas e munições, mas também em soldados. Apesar disso, nossa organização da defesa da revolução também cresceu e adotou, simultaneamente e em função das necessidades, uma nova forma e os meios mais apropriados para a luta.

Sabe-se que a frente contra-revolucionária mais perigosa da época foi constituída pelo exército do general Denikin. No entanto, o movimento insurrecional conseguiu barrá-lo durante cinco ou seis meses. Muitos dos melhores comandantes denikinianos quebraram o pescoço enfrentando nossas unidades equipadas unicamente com armas tomadas ao inimigo. Nossa organização contribuiu grandemente para isso: sem usurpar a autonomia das unidades combatentes, reorganiza-as em regimentos e brigadas, coordenadas por um estado-maior operacional comum. É verdade que a criação desse estado-maior só aconteceu graças à tomada de consciência, pelas massas trabalhadoras revolucionárias, que combatiam tanto na frente quanto na retaguarda, da necessidade de um comando militar único. Ou seja, sempre influenciadas pelo nosso grupo comunista libertário camponês de Gulai-Polé, os trabalhadores se preocuparam também com a determinação de direitos iguais para cada indivíduo, na participação da nova edificação social, em todos os domínios e inclusive a obrigação de defender essas conquistas. Assim, enquanto a frente denikiniana ameaçava de morte a revolução libertária, acompanhados com um vivo interesse pela população, os trabalhadores revolucionários se uniram à base de nossa concepção organizacional da defesa da revolução, fazendo-a sua e reforçando o exército insurrecional pelo fluxo regular de novos combatentes, que substituíam os feridos ou esgotados.

Ademais, as exigências práticas da luta impunham que, no interior de nosso movimento, fosse criado um estado-maior operacional e organizacional de controle comum para todas as unidades combatentes.

Na continuidade dessa prática, não posso aceitar o pensamento de que os anarquistas revolucionários rechaçam a necessidade de um tal estado-maior para orientar estrategicamente a luta armada revolucionária. Estou convencido de que todo anarquista revolucionário que se encontrar em condições idênticas às que conheci durante a guerra civil na Ucrânia será obrigado a agir como nós agimos. Se, no decorrer da próxima revolução social autêntica, houver anarquistas que neguem esses princípios organizacionais, eles serão no interior de nosso movimento meros tagarelas ou, ainda, elementos frenadores e nocivos, que não tardarão a ser rejeitados.

Dedicando-se a resolver o problema da defesa da revolução, os anarquistas devem se incumbir do caráter social do comunismo libertário. Diante de um movimento revolucionário de massas, devemos reconhecer a necessidade de organizá-lo e de fornecer-lhe os meios dignos. Portanto, engajarmo-nos totalmente nele. Caso contrário, se nós lhes parecemos sonhadores e utópicos, então não deveremos dificultar a luta dos trabalhadores, em particular dos que seguem os socialistas-estatistas. Sem dúvida, o anarquismo foi e continua sendo um movimento social revolucionário, eis porque sou e serei sempre um partidário de sua organização bem estruturada e da criação, no momento da revolução, de batalhões, regimentos, brigadas e divisões, tendendo a se fundir, em certas circunstâncias, num exército comum, sob um comando regional único, sob a forma de estados-maiores organizacionais de controle. Estes se encarregarão, segundo as necessidades e as condições da luta, de elaborar um plano operacional federativo, coordenando as ações dos exércitos regionais, com o objetivo de levar à vitória os combates em todas as frentes, esmagando a contra-revolução armada. A defesa da revolução não é uma tarefa das mais fáceis; ela pode exigir das massas revolucionárias um imenso esforço organizativo. Os anarquistas devem saber disso e estar prontos para ajudá-las nessa tarefa.

Dielo Trouda, n° 25, junho de 1927.

Um Projeto de Organização Anarquista

Errico Malatesta (1927)

Recentemente, li um panfleto francês intitulado ‘Plataforma Organizacional da união Geral dos Anarquistas (Projeto), que me chegou às mãos por acaso. Sabe-se que, hoje, na Itália [1927], os escritos não-fascistas não podem circular livremente.

É um projeto de organização anarquista, publicado sob o nome de um ‘Grupo de Anarquistas Russos no exterior, e parece-me ser particularmente dirigido aos companheiros russos. Porém, trata de questões de igual interesse para todos os anarquistas, e, é claro, por ser escrito em francês, busca a adesão de companheiros de todos os países. De qualquer forma, é valido examiná-lo, tanto para os russos como para os demais, se a proposta está de acordo com os princípios anarquistas e se sua realização servir verdadeiramente à causa do anarquismo. Os motivos dos companheiros são excelentes. Eles lamentam o fato de que até agora os anarquistas não tiveram influência nos eventos políticos e sociais em proporção aos valores teóricos e práticos de sua doutrina, tampouco em seu número, sua coragem e seu espírito de sacrifício; e acreditam que a razão principal desse relativo fracasso é a falta de uma organização grande, séria e ativa.

Até aqui, em princípio, estou de acordo. A organização nada mais é do que cooperação e solidariedade na prática, uma condição natural e necessária para a vida social. É um fato inevitável, que se impõe a todos, numa sociedade humana em geral ou em qualquer grupo de pessoas unidas por um objetivo comum. Os seres humanos não podem viver isolados, na verdade não podem sequer tornar-se verdadeiros seres humanos e satisfazer suas necessidades morais e materiais a não ser como parte da sociedade e com a cooperação de seus semelhantes. É, pois, inevitável que todos os aqueles que não se organizam livremente, seja por que não podem ou porque não o consideram necessário, devem submeter-se à organização estabelecida por outros, que geralmente formam uma classe ou um grupo dirigente, cuja finalidade é oprimi-los e explorá-los.

A milenar opressão das massas por um número pequeno de privilegiados tem sempre sido o resultado da incapacidade, da maioria dos indivíduos, em chegar a um acordo e se organizar com base na comunidade de interesses e de sentimentos com os outros trabalhadores, para produzir, para consumir e, eventualmente, defender-se contra aqueles que procuram explorá-los e oprimi-los. O anarquismo quer resolver esse estado de coisas com seu principio básico de organização livre, fundada e gerada mediante o livre acordo de seus membros, sem qualquer espécie de autoridade; ou seja, sem que ninguém tenha o direito de impor sua vontade. É, pois, óbvio que os anarquistas procurem aplicar em sua vida privada e sua vida política esse mesmo princípio sobre o qual acreditam que toda a sociedade humana deveria se basear.

A julgar por certas polêmicas, parece que existem anarquistas que rejeitam qualquer forma de organização. Mas, de fato, as inumeráveis discussões sobre este assunto, mesmo quando são obscurecidas por questões de linguagem ou envenenadas por questões pessoais, referem-se às formas e não ao princípio de organização. Tanto é assim, que mesmo aqueles companheiros mais hostis à organização, quando querem realmente fazer alguma coisa, organizam-se como os demais e até de maneira mais efetiva. Tudo não passa de uma questão de aplicação.

Portanto, eu apenas posso observar com simpatia a iniciativa dos companheiros russos, por estar convencido de que uma organização mais geral, mais unida, mais duradoura do que qualquer outra até aqui organizada pelos anarquistas – mesmo se ela não conseguiu abolir todos os erros e deficiências que são talvez inevitáveis num movimento como o nosso, que avança no meio da incompreensão, indiferença e mesmo a hostilidade da maioria – seria inegavelmente um elemento importante de força e de sucesso, um poderoso meio para fazer valer nossas idéias.

Eu acredito sobretudo que é necessário e urgente que os anarquistas se organizem para influenciar o rumo que seguem as massas na sua luta pelas reformas e pela emancipação. Hoje, a maior força de transformação social é o movimento operário (movimento sindical) e de sua direção depende, em grande parte, o curso que tomarão os eventos e o objetivo da próxima revolução. Nas organizações que cria para a defesa de seus interesses, os trabalhadores adquirem a consciência da exploração que sofrem e do antagonismo que os separam dos patrões, começam a desejar uma vida melhor, acostumam-se à uma luta coletiva e à solidariedade e conquistam as melhorias compatíveis com o regime capitalista e estatal. Em seguida, virá a revolução ou a contra-revolução. Os anarquistas devem reconhecer a utilidade e a importância do movimento sindical; apoiar seu desenvolvimento e fazer dele uma das alavancas de sua ação, esforçando-se para que o sindicalismo coopere com as outras forças progressistas na revolução social que suprime as classes, realiza a liberdade, a igualdade, a paz e a solidariedade. Mas seria uma funesta ilusão acreditar, como muitos o fazem, que o movimento operário levará, por si mesmo, em virtude de sua natureza, à revolução. Pelo contrário, todos os movimentos baseados em interesses materiais e imediatos (e um vasto movimento operário não pode ter outras bases) carecem do estímulo, do impulso, da ação conjunta de pessoas que lutam e se sacrificam por um ideal a realizar. Sem essa alavanca, todo movimento tende fatalmente a se adaptar às circunstâncias, engendrando um espírito conservador e o temor das mudanças naqueles que conseguirem melhores condições. Freqüentemente, surgem novas classes privilegiadas que se esforçam para apoiar e consolidar o estado de coisas que nós queremos destruir.

Disso decorre a urgente necessidade de organizações especificamente anarquistas que, dentro e fora dos sindicatos, lutem pela integral realização do anarquismo e procurem esterilizar todos os germes de corrupção e reação. Mas é óbvio que para atingir seus fins, as organizações anarquistas devem, em sua constituição e funcionamento, manter-se em harmonia com os princípios da anarquia. É necessário que não estejam sequer minimamente impregnadas do espírito autoritário, que saibam conciliar a ação livre dos indivíduos com a necessidade e a prazer da cooperação, que desenvolvam a consciência e a iniciativa de seus membros sejam um ativo instrumento educativo no ambiente em que agem, e de uma preparação moral e material para o futuro que desejamos.

O projeto em questão satisfaz essas exigências? Creio que não. Ao invés de estimular nos anarquistas um maior desejo por organização, parece deliberadamente reforçar o preconceito de muitos companheiros que acreditam que organizar-se significa submeter-se a chefes, aderir a um organismo autoritário e centralizador, que sufoca toda livre iniciativa. E, de fato, o projeto contém precisamente essas propostas que alguns, contra a evidência e apesar de nosso protestos, insistem em atribuir a todos os anarquistas qualificados de organizadores.

Examinemos esse projeto. Antes de tudo, parece-me uma idéia falsa (em todo caso, irrealizável) a de reunir todos os anarquistas numa “União Geral” – isto é, como diz o Projeto, UMA SÓ coletividade revolucionária ativa.

Nós, anarquistas, podemos dizer que somos todos do mesmo partido, se pela palavra “partido” entendermos o conjunto dos que estão DO MESMO LADO, que têm as mesmas aspirações gerais, que de uma maneira ou de outra lutam pelo mesmo fim contra adversários e inimigos comuns. Mas isso não significa que seja possível – ou mesmo desejável – estarmos todos reunidos numa só e mesma associação determinada.

Os ambientes e condições de luta diferem muito; os modos possíveis de ação entre os quais se dividem as preferências, as diversidade de temperamentos e as incompatibilidades pessoais para que uma União Geral, mesmo aceita seriamente, não se torne um obstáculo para as atividades individuais, ao invés de um meio para coordenar e totalizar os esforços de todos.

Como, por exemplo, organizar da mesma forma e com o mesmo pessoal uma associação pública para a propaganda e agitação entre as massas, e uma sociedade secreta, forçada pelas condições políticas em que atua, a esconder do inimigo seus planos, métodos e militantes? Como poderiam os educacionistas, que acreditam que a propaganda e o exemplo bastam para a transformação gradual de indivíduos e portanto da sociedade, adotar as mesmas táticas que os insurrecionalistas, convencidos da necessidade de destruir pela violência um estado de coisas que é mantido pela violência, e de criar, contra a violência dos opressores, as condições necessárias para o livre exercício da propaganda e a aplicação prática dos ideais? E como manter juntas pessoas que, por motivos particulares, não se entendem e, no entanto, podem igualmente ser militantes úteis para o anarquismo?

Além disso, os autores do Projeto declaram “inepta” a idéia de criar uma organização reunindo todos os representantes das diversas tendências do anarquismo. Tal organização, eles dizem, “incorporando elementos teórica e praticamente heterogêneos, não seria mais do que um ajuntamento mecânico de indivíduos que têm concepções diferentes sobre todas as questões relativas ao movimento anarquista; esse ajuntamento se desagregaria tão logo eles fossem testados pelos fatos e pela vida real”.

Muito bem! Mas então, se reconhecem a existência de anarquistas de outras tendências, eles deverão deixar-lhes o direito de se organizar como quiserem e de trabalhar pela anarquia da maneira que julgarem melhor. Ou pretenderão excluir do anarquismo, excomungar todos os que não aceitam seu programa? Eles dizem que querem “reunir numa só organização” todos os elementos sadios do movimento libertário. Naturalmente, eles tendem a julgar sadios apenas os que pensam como eles. Então, que farão com os elementos que não são sadios?

Certamente, entre aqueles que se dizem anarquistas existem, como em toda coletividade humana, elementos de diferentes valores. E, o que é pior, existem alguns que, em nome do anarquismo, difundem idéias que muito pouco tem a ver com ele. Mas como evitar isso? ´A verdade anarquista’ não pode e não deve depender das decisões das maiorias reais ou fictícias. Somente é necessário – e suficiente – que todos tenham e exerçam o mais amplo direito de livre crítica e que cada um possa manter suas próprias idéias e escolher seus próprios companheiros. Em última instância, os fatos decidirão quem está certo.

Abandonemos, portanto, a idéia de reunir todos numa única organização, consideremos essa União Geral que os russos nos propõem como o que realmente será: a união de um grupo de anarquistas, e veremos se o modelo organizacional proposto se adapta aos métodos e princípios anarquistas e se ele pode ajudar para o triunfo do anarquismo. Mais uma vez, parece-me que não. Não estou pondo em dúvida o sincero anarquismo dos companheiros russos. Eles querem realizar o comunismo anarquista e procuram fazê-lo o mais rápido possível. Mas não basta apenas querer, é necessário utilizar os meios convenientes; assim, para ir a um determinado lugar deve-se tomar o caminho certo. Ora, sendo a organização proposta tipicamente autoritária, não só não facilitará a vitória do comunismo anarquista, como falsificará o espírito anarquista e resultará no contrário do que esperam seus organizadores.

Efetivamente, essa União Geral consistirá de tantas organizações parciais que serão necessários secretariados para dirigir ideologicamente a tarefas políticas e técnicas, um comitê executivo que encaminhe as decisões tomadas pela União e “dirija” a ideologia e a organização dos grupos em conformidade com a estratégia geral da União.

Isto é anarquismo? Na minha opinião, isto é um governo e uma igreja. É verdade que não há polícia nem baionetas, nem o fiel rebanho disposto a aceitar a ideologia imposta. Mas isso significa apenas que tal governo seria impotente e impossível, e que tal igreja seria uma fonte de heresias e cisões. O espírito e a tendência permanecendo autoritários, o efeito educativo será antianarquista.

Vejam: “O órgão executivo do movimento libertário geral – a união anarquista – adota o princípio da responsabilidade coletiva; toda a União será responsável pela atividade revolucionária e política de cada membro; e cada membro será responsável pela atividade revolucionária e política da união.” E, depois desta absoluta negação de toda independência individual, de toda liberdade de iniciativa e de ação, seus porta-vozes, lembrando-se de que são anarquistas, autodenominam-se federalistas e bradam contra a centralização, cujos resultados inevitáveis, dizem eles, “são a escravização e a mecanização da vida da sociedade e dos partidos.”

Mas se a união é responsável pelo que cada membro faz, como pode deixar, a cada membro em particular e aos vários grupos, a liberdade de aplicar o programa comum da maneira que julgarem a melhor? Como alguém pode ser responsável por uma ação que não pode impedi-la? Portanto, a união e, em seu nome, o Comitê Executivo têm de monitorar todos os membros individuais e ordenar-lhes o que fazer e não fazer. E como a desaprovação depois do fato não atenua a responsabilidade previamente aceita, ninguém poderá fazer qualquer coisa antes de ter obtido a permissão do comitê. Por outro lado, quem assumiria a responsabilidade pelas ações de uma coletividade sem saber o que ela fará e como impedi-la de fazer o que ele desaprova?

Além disso, os autores do Projeto dizem que é a União que propõe e dispõe. Mas, quando se referem à vontade da União, eles se referem também à vontade de todos os membros? Se sim, para a União funcionar seria necessário que todos os membros sempre tivessem a mesma opinião sobre todas as questões. Ora, é normal que todos estejam de acordo com os princípios gerais e fundamentais, sem o que não estariam e permaneceriam unidos, mas isso não permite supor que seres pensantes terão sempre a mesma opinião sobre o que precisa ser feito em diferentes circunstâncias e quanto à escolha de pessoas responsáveis pelas tarefas de dirigir e executar.

Na realidade, como resulta do próprio texto do Projeto, pela vontade da União entende-se apenas a vontade da maioria, expressa através de congressos que nomeiam e controlam o Comitê Executivo e decidem sobre todas as questões importantes. Os congressos seriam compostos por representantes eleitos pela maioria dos membros em cada grupo, e esses representantes decidiriam o que fazer, sempre por maioria de votos. Então, no melhor dos casos, as decisões seriam tomadas pela maioria da maioria, e isso poderia facilmente, em particular quando as opiniões opostas são mais do que duas, representar apenas uma minoria.

Aliás, isso poderia indicar que, nas condições em que os anarquistas vivem e lutam, seus congressos são ainda menos representativos do que os parlamentos burgueses. E seu controle sobre os órgãos executivos, se estes possuem poderes autoritários, raramente é oportuno e eficaz. Na prática, os congressos anarquistas são assistidos por aqueles que desejam e podem, que possuem dinheiro suficiente e não estão impedidos por medidas policiais. Entre os presentes, há os que representam apenas a si próprios ou um número pequeno de amigos, como aqueles que representam as opiniões e desejos de um numeroso coletivo. Apesar das precauções tomadas contra os traidores e espiões – e também por causa dessas precauções – é impossível fazer uma verificação séria dos representantes e do valor de seus mandatos.

De toda maneira, estamos em pleno sistema majoritário, em pleno parlamentarismo. Sabe-se que os anarquistas não aceitam o governo da maioria (democracia), nem o governo de poucos (aristocracia, oligarquia, ditadura de classe ou de partido), tampouco o de um indivíduo (autocracia, monarquia ou ditadura pessoal).

Os anarquistas criticaram milhares de vezes o governo dito da maioria, que na prática sempre leva à dominação de uma pequena maioria. Precisamos repetir tudo isso para nossos companheiros russos?

Alguns anarquistas reconhecem que, na vida em comum, é necessário que a minoria acate a opinião da maioria. Quando há evidente necessidade ou utilidade de fazer uma coisa e isso requer a concordância de todos, a minoria deve respeitar a vontade da maioria. Usualmente, no interesse da convivência pacífica e sob condições de igualdade, é necessário que todos estejam animados por um espírito de concórdia, tolerância e compromisso. Mas tal adaptação deve ser recíproca, voluntária e derivar da consciência da necessidade de não paralisar a vida social por mera teimosia. É um ideal que, talvez, na prática diária da vida social, será difícil de realizar totalmente. Mas um grupo humano está tanto mais próximo da anarquia quanto mais livre e espontâneo é o acordo, imposto somente pela natureza das coisas, entre minoria e maioria.

Portanto, se os anarquistas negam à maioria o direito de governar na sociedade humana em geral – onde os indivíduos estão obrigados a aceitar certas restrições, porque não podem se isolar sem renunciar às condições da vida humana – e se querem que tudo seja feito pelo livre acordo entre todos, como poderiam aceitar o governo da maioria em suas associações essencialmente livres e voluntárias e declarar que se submeterão às decisões da maioria antes mesmo de saber quais serão?

Que a anarquia, organização livre e sem o domínio da maioria sobre a minoria, e vice-versa, seja qualificada, pelos que não são anarquistas, de utopia irrealizável ou realizável apenas num futuro distante, é compreensível. Mas é inconcebível que os mesmos que professam idéias anarquistas e querem realizar a anarquia, ou no mínimo antecipar sua realização – hoje, em vez de amanhã – reneguem os princípios básicos do anarquismo na organização com a qual se propõem a lutar pela sua vitória.

Uma organização anarquista deve, penso eu, ser fundada em bases muito diferentes das propostas pelos companheiros russos. Total autonomia, total independência e, portanto, total responsabilidade de indivíduos e grupos; livre acordo entre os que acreditam ser útil unirem-se para cooperar na obra comum; dever moral de manter os compromissos assumidos e de nada fazer em contradição com o programa aceito. Sobre estas bases, adotem-se as formas práticas, os instrumentos aptos para dar vida à organização: grupos, federações, encontros, congressos, comitês de correspondência etc. Mas tudo isso deve ser feito livremente, de forma que o pensamento e a iniciativa dos indivíduos não sejam obstruídos, e apenas para dar maior eficácia às tentativas que, isoladas, seriam impossíveis ou inoperantes.

Assim, os congressos, numa organização anarquista, mesmo sofrendo enquanto corpos representativos, de todas as imperfeições já mencionadas, estão isentos de todo autoritarismo, porque eles não fazem a lei; não impõem suas resoluções aos outros. Servem para manter e ampliar as relações pessoais entre os companheiros mais ativos, para resumir e incentivar o estudo de programas e meios de ação; para informar sobre a situação das várias regiões e a ação mais urgente em cada uma delas; para formular as diversas opiniões correntes entre os anarquistas e fazer uma espécie de estatística delas, e suas decisões não são regras obrigatórias mas sugestões, recomendações, propostas que serão submetidas a todos os interessados, não devem ser obrigatórias exceto para aqueles que as aceitarem e enquanto as aceitarem. Os órgãos administrativos que nomeiam – comissão de correspondência etc. – não têm poder de direção, não tomam iniciativas a não ser em nome daqueles que pedem e aprovam tais iniciativas, e não têm autoridade para impor suas próprias visões, que podem certamente manter e propagar enquanto grupos de companheiros, mas não podem apresentar como opinião oficial da organização. Publicam as resoluções dos congressos, as opiniões e propostas que os grupos e indivíduos lhes comunicaram; facilitam as relações entre os grupos e a cooperação entre aqueles que concordam com as várias iniciativas, deixando a cada um a liberdade para se corresponder com quem quiser ou usar os serviços de outros comitês nomeados pelos agrupamentos específicos. Numa organização anarquista, os membros individuais podem expressar qualquer opinião e usar qualquer tática que não esteja em contradição com os princípios aceitos e não impeça a atividade dos outros. Em todo caso, uma organização permanecerá enquanto os motivos para a união forem mais fortes do que os motivos para a separação. Senão, a organização se dissolve e é substituída por grupos mais homogêneos. Da duração, da permanência da organização depende o sucesso obtido na longa luta que devemos sustentar. Por outro lado, é toda instituição pretende durar indefinidamente. Mas a duração de uma organização libertária deve ser conseqüência da afinidade espiritual de seus membros e das possibilidades de adaptação de sua constituição às contínuas mudanças das circunstâncias. Quando deixar de ser capaz de efetuar uma tarefa útil, é melhor que ela morra.

Os companheiros russos pensam, talvez, que tal organização, como eu concebo e tem sido realizada, mais ou menos satisfatoriamente, em várias épocas, não é muito eficiente. Eu compreendo. Esses companheiros estão obcecados pelo sucesso dos bolcheviques em seu país; como os bolcheviques, gostariam de reunir os anarquistas numa espécie de exército disciplinado que, sob a direção ideológica e prática de alguns chefes, marcharia compacto para o ataque dos regimes existentes, e que, alcançada a vitória material, dirigiria a construção da nova sociedade. E, talvez, com tal sistema, admitindo-se que os anarquistas se adaptassem a ele e se os líderes fossem homens geniais, nossa força material seria maior. Mas quais seriam os resultados? O que seria do socialismo e do comunismo na Rússia, se não fosse o anarquismo? Esses companheiros estão ansiosos pelo sucesso, nós também. Mas, para viver e vencer, não precisamos abandonar as razões de nossa vida e deformar o caráter da vitória eventual. Nós queremos lutar e vencer, mas como anarquistas e para a anarquia.

E. Malatesta
Il Risveglio (Genova), outubro de 1927.


Resposta a “Um Projeto de Organização Anarquista”

Nestor Makhno (1928)

Querido companheiro Malatesta:

Li sua resposta ao projeto intitulado “Plataforma Organizacional de uma União Geral de Anarquistas“, publicado pelo grupo de anarquistas Russos no exterior. Minha impressão é que você não compreendeu o projeto pela ‘Plataforma’. Ou, então, sua recusa em reconhecer a responsabilidade coletiva na ação revolucionária e a função dirigente que os anarquistas devem assumir decorre de uma profunda convicção sobre o anarquismo que o leva a desconsiderar aquele princípio de responsabilidade.

Todavia, há um princípio fundamental que orienta nossa compreensão da idéia anarquista e nossa determinação de que ela deve penetrar nas massas, com seu espírito de sacrifício. É graças a ele que um homem pode escolher o caminho revolucionário, ignorando os outros. Sem isso, nenhum revolucionário teria a força, a vontade e a inteligência necessárias para agüentar o espetáculo da miséria social e tampouco lutaria contra isso. É com a inspiração da responsabilidade coletiva que os revolucionários de todas as épocas e tendências têm unido suas forças; é nela que eles baseiam suas esperanças de que as revoltas parciais, que abriram o caminho para os oprimidos, não foram em vão, de que os explorados entenderão suas aspirações, extrairiam delas as lições adequadas para a época e as usariam para abrir novos caminhos para sua emancipação.

Você mesmo, querido Malatesta, admite a responsabilidade individual do revolucionário anarquista. E mais, você a apoiou em toda sua vida como militante. Pelo menos, foi assim que eu entendi seus escritos sobre o anarquismo. Mas você nega a necessidade e utilidade da responsabilidade coletiva, embora reconheça as tendências e ações do movimento anarquista como um todo. A responsabilidade coletiva o assusta; então, você a rejeita.

Mesmo tendo adquirido o hábito de encarar frontalmente as realidades de nosso movimento, admito que sua rejeição da responsabilidade coletiva me desorienta, não apenas pela falta de bases mas por ser perigosa para a revolução social, cuja experiência você deveria levar em conta, quando se tornar necessária uma luta decisiva contra todos os nossos inimigos de uma só vez. Então, minha experiência das batalhas revolucionárias do passado me leva a acreditar que, não importa qual seja a sucessão dos eventos revolucionários, alguém precisa assumir a direção ideológica e dar as ordens táticas. Isto significa que apenas um espírito coletivo, sadio e devotado ao anarquismo pode atender às exigências do momento, expressando uma vontade coletivamente responsável. Nenhum de nós tem o direito de escamotear tal responsabilidade. Pelo contrário, se foi até agora ignorada, nas fileiras anarquistas, precisa se tornar já, para nós, anarquistas comunistas, um artigo de nosso programa teórico e prático.

Apenas o espírito coletivo e a responsabilidade coletiva de seus militantes permitirão ao anarquismo moderno eliminar de seus círculos a idéia, historicamente falsa, de que o anarquismo não pode ser um guia – seja ideologicamente, seja na prática – para a massa trabalhadora num período revolucionário, e portanto não poderia exigir a responsabilidade total.

Não irei, nesta carta, alongar-me sobre as outras partes de seu artigo contra o projeto de Plataforma, no qual você vê `uma igreja e uma autoridade sem polícia’. Expressarei apenas minha surpresa por vê-lo usar tal argumento no curso de sua crítica. Tenho pensado muito a respeito e não posso aceitar sua opinião. Não, você não está certo. E porque não estou de acordo com sua resposta, usando argumentos demasiado levianos, acredito que tenho o direito de lhe perguntar:

  1. O anarquismo deve assumir alguma responsabilidade na luta dos trabalhadores contra seus opressores, o capitalismo, e o Estado? Se não, você pode dizer por quê? Se sim, devem os anarquistas agir para que seu movimento exerça influência nas mesmas bases que a ordem social existente?
  2. Pode o anarquismo, no estado atual de desorganização em que se encontra, exercer qualquer influência, ideológica ou prática, em assuntos sociais e na luta da classe operária?
  3. Quais são os meios que o anarquismo deve adotar fora da revolução e quais são os meios que ele pode utilizar para provar e afirmar seus conceitos construtivos?
  4. O anarquismo precisa de organizações permanentes, intimamente ligadas entre si pela unidade de objetivos e de ação para alcançá-los?
  5. O que querem os anarquistas dizer com ´instituições para serem estabelecidas´, numa visão que garanta o livre desenvolvimento da sociedade?
  6. Pode o anarquismo, na sociedade comunista que concebe, passar sem instituições sociais? Se sim, como? Se não, quais deveriam reconhecer e usar, e com que nomes levá-las a existir? Devem os anarquistas assumir uma função de liderança e, portanto, de responsabilidade, ou devem se limitar a ser auxiliares irresponsáveis?

Sua resposta, querido Malatesta, é de grande importância para mim por dois motivos. Permitirá que eu compreenda melhor sua maneira de ver as questões pertinentes à organização das forças anarquistas e ao movimento em geral. E, sejamos francos, sua opinião é aceita imediatamente pela maioria dos anarquistas e simpatizantes, sem discussão, como a de um militante experiente que tem, ao longo de toda sua vida, permanecido firme em sua fidelidade ao ideal libertário. Portanto, dependerá em certa medida de sua atitude, seja um amplo estudo das urgentes questões que esta época propõe ao nosso movimento, seja uma desaceleração ou um novo salto adiante. Permanecendo na estagnação do passado e do presente, nosso movimento não ganhará nada. Pelo contrário, é vital que, na visão dos eventos que surgem diante de nós, ele deva ter toda chance de cumprir suas funções.

Eu dou muita importância a sua resposta.

Saudações Revolucionárias

Nestor Makhno


Resposta de Malatesta a Nestor Makhno

Errico Malatesta

Querido companheiro:

Finalmente, recebi a carta que você me enviou, há mais de um ano, sobre minha crítica ao Projeto de organizar uma União Geral de anarquistas, publicado por um grupo de anarquistas russos no exterior e conhecido em nosso movimento pelo nome de ‘Plataforma’.

Conhecendo minha situação, você certamente terá compreendido porque não respondi. Eu não posso tomar parte, como gostaria, na discussão das questões que mais nos interessam, porque a censura me impede de receber publicações que são consideradas subversivas ou cartas que abordam tópicos políticos e sociais. Apenas depois de longos intervalos e por um feliz acaso, eu ouço o agonizante eco do que os companheiros dizem e fazem. Portanto, eu sabia que a “Plataforma” e minha crítica a ela haviam sido amplamente discutidas, mas pouco ou nada sabia do que havia sido dito; sua carta é o primeiro documento sobre o assunto que eu consegui ver.

Se pudéssemos nos corresponder livremente, eu lhe pediria, antes de entrar na discussão, para esclarecer suas visões que, talvez pertencendo a uma tradução imperfeita do russo para o francês, parecem para mim estar em parte alguma coisa obscura. Mas, as coisas sendo como são, responderei o que tenho compreendido, e espero que então seja capaz de ver sua resposta. Você está surpreso porque eu não aceito o princípio da responsabilidade coletiva, que você acredita ser o princípio fundamental que guia e deve guiar os revolucionários do passado, presente e futuro. De minha parte, imagino o que a noção de responsabilidade coletiva pode significar nos lábios de um anarquista. Eu sei que os militares tem o hábito de dizimar soldados rebelados ou que reagiram mal diante do inimigo, atirando neles indiscriminadamente. Eu sei que os chefes de exército não têm escrúpulos em destruir vilarejos ou cidades e massacrar uma população inteira, incluindo crianças, porque alguém tentou resistir à invasão. Eu sei que, através dos tempos, os governos têm de várias maneiras ameaçado com e aplicado o sistema da responsabilidade coletiva para colocar um freio nos rebeldes, exigir impostos etc. E compreendo que isso poderia ser um meio efetivo de intimidação e opressão. Mas como, pessoas que lutam por liberdade e justiça, podem falar de responsabilidade coletiva quando elas podem apenas estar relacionadas com a responsabilidade moral, haja ou não punições materiais em seguida?!!!

Se, por exemplo, num conflito com uma força inimiga armada, o homem ao meu lado age como um covarde, ele talvez faça mal para mim e para todos, mas a vergonha pode ser apenas dele por faltar-lhe a coragem de manter a função que escolheu para si mesmo. Se, numa conspiração, um conspirador trai e seus companheiros são presos, os traídos são responsáveis pela traição?

A ‘Plataforma’ diz: `Toda a União é responsável pela atividade revolucionária e política de cada membro e cada membro será responsável pela atividade revolucionária e política da União.’ Pode-se conciliar isto com os princípios da autonomia e da livre iniciativa que os anarquistas professam? Eu respondo, então: `Se a união é responsável pelo que cada membro faz, como pode deixar a seus membros individuais e aos vários grupos a liberdade de aplicar o programa comum da maneira que julgarem conveniente? Como pode ser responsável por uma ação quem não possui os meios de preveni-la? Portanto, a União e através dela o comitê Executivo precisariam monitorar a ação dos membros individuais e ordenar-lhes o que fazer e o que não fazer; e uma vez que a desaprovação após o evento não isenta da responsabilidade previamente aceita, ninguém poderia fazer qualquer coisa antes de obter a permissão do comitê. E então, pode um indivíduo aceitar ser responsável pela ação de uma coletividade antes de saber o que ela fará e se ele não pode impedi-la de fazer o que ele desaprova?’

Certamente, eu aceito e apóio a visão de que qualquer um que se associa e coopera com outros por uma causa comum deve: coordenar suas ações com a de seus companheiros e não fazer nada que prejudique o ação dos outros e, portanto, a causa comum; respeitar os acordos feitos – exceto quando pretendem deixar a associação por diferenças de opinião, mudança de circunstâncias ou conflito sobre métodos escolhidos tornam a cooperação impossível ou imprópria. Assim, eu sustento que aqueles que não sentem nem praticam tais deveres têm de ser expulsos da associação.

Talvez, falando de responsabilidade coletiva, você se refira precisamente ao acordo e à solidariedade que devem existir entre os membros de uma associação. Se é assim, sua expressão significa, na minha visão, um uso incorreto de linguagem, mas isso seria apenas uma questão irrelevante de fraseologia e logo alcançaríamos a concordância.

A questão realmente importante que você levanta em sua carta diz respeito à função (´o papel´) dos anarquistas no movimento social e ao modo como querem desempenhá-la. Esta é uma questão de base, da razão de ser do anarquismo e é preciso ter bem claro o que o outro quer dizer.

Você pergunta se os anarquistas deveriam (no movimento revolucionário e na organização comunista da sociedade) assumir um papel dirigente e portanto responsável, ou se limitar a serem auxiliares irresponsáveis. Sua pergunta me deixa perplexo, porque lhe falta precisão. É possível dirigir através do conselho e exemplo, deixando as pessoas – com as oportunidades e meios de abastecer suas próprias necessidades por si mesmas – adotarem nossos métodos e soluções se estes são, ou parecem ser, melhores do que aqueles sugeridos e levados por outros. Mas também é possível dirigir assumindo o comando, ou seja, tornando-se um governo e impondo as próprias idéias e interesses através de métodos policiais.

De que maneira você quer dirigir? Nós somos anarquistas porque acreditamos que o governo (qualquer governo) é um mal, e que não é possível obter liberdade, solidariedade e justiça sem liberdade. Não podemos, pois, querer governar e devemos fazer todo o possível para impedir que outros – classes, partidos ou indivíduos – assumam o poder e tornem-se governos.

A responsabilidade dos líderes, a noção pela qual me parece que você quer garantir que a população esteja protegida de seus abusos e erros, não significa nada para mim. Quem está no poder não é verdadeiramente responsável exceto quando defrontado com a revolução. E não podemos fazer a revolução todos os dias, geralmente ela acontece depois de o governo já ter feito todo o mal que pode.

Você entenderá que eu estou longe de pensar que os anarquistas deveriam satisfazer-se em serem simples auxiliares de outros revolucionários, que, não sendo anarquistas, naturalmente aspirariam a tornar-se o governo. Pelo contrário, eu acredito que nós, anarquistas, convencidos da validade de nosso programa, devemos nos esforçar para adquirir uma enorme influência e atrair o movimento para a realização de nossos ideais. Mas tal influência deve ser obtida fazendo mais e melhor do que os outros, e será útil apenas se a obtivermos dessa forma.

Hoje, devemos aprofundar, desenvolver e propagar nossas idéias e coordenar nossas forças numa ação comum. Devemos agir com o movimento operário para preveni-lo de ser limitado e corrompido pela busca de reformas compatíveis com o sistema capitalista; e devemos contribuir para preparar uma completa transformação social. Devemos atuar com as massas desorganizadas e mesmo com os inorganizáveis, despertando o espírito de revolta e o desejo de uma vida livre e feliz. Nós devemos iniciar e apoiar todos os movimentos que tendem a enfraquecer o Estado e o capitalismo e a elevar o nível mental e as condições materiais dos trabalhadores. Devemos, em resumo, preparar e nos preparar , moral e materialmente, pelo ato revolucionário que abrirá o caminho para o futuro.

Então, na revolução, devemos ser parte enérgica (se possível antes e mais eficazmente do que os outros) na essencial luta material e dirigi-la ao limite máximo, destruindo todas as forças repressivas do Estado. Devemos encorajar os trabalhadores a apossar-se dos meios de produção (terra, minas, fábricas e oficinas, meios de transporte etc.) e estoques de bens manufaturados; organizar imediatamente, por si mesmos, uma distribuição eqüitativa dos bens de consumo, e ao mesmo tempo suprir os produtos para troca entre comunas e regiões, para a continuação e intensificação da produção e de todos os serviços úteis à população. Devemos – de todas as maneiras possíveis e de acordo com as circunstâncias e oportunidades locais – promover a associação dos trabalhadores, as cooperativas, os grupos voluntários, para evitar o aparecimento de novos poderes autoritários, novos governos, opondo-nos a eles com violência se necessário, mas acima de tudo tornando-os inúteis. E onde não houver consenso suficiente entre as pessoas e não pudermos evitar o restabelecimento do Estado, com suas instituições autoritárias e seus órgãos violentos, devemos nos recusar tomar parte ou reconhecê-lo, rebelando-nos contra suas imposições e exigindo total autonomia para nós e todas as minorias dissidentes. Em outras palavras, devemos permanecer num estado atual ou potencial de rebelião e, incapazes de vencer no presente, devemos no mínimo nos preparar para o futuro.

É isso o que você também quer dizer quanto ao papel dos anarquistas na preparação e na realização da revolução? Pelo que sei de você e de sua atuação, estou inclinado a acreditar que sim. Mas, quando vejo que na União que você apóia existe um Comitê Executivo para dar direção ideológica e organizacional para a associação, assalta-me a dúvida de que vocês também gostariam de ter, no movimento geral, um corpo central que ditaria de uma maneira autoritária o programa teórico e prático da revolução.

Se é assim, nós somos pólos separados.

Sua organização, ou seus órgãos administrativos, podem ser compostos por anarquistas mas eles apenas se tornariam nada mais do que um governo. Acreditando, em completa boa fé, que são necessários para o triunfo da revolução, eles iriam, prioritariamente, deixar claro de que estão bem colocados o suficiente e fortes o bastante para impor sua vontade. Portanto, criariam corporações armadas para a defesa material e uma burocracia para encaminhar suas decisões; e, no processo, paralisariam o movimento popular e matariam a revolução.

Foi isso, acredito, o que aconteceu com os bolcheviques.

Acredito que o mais importante não é a vitória de nossos planos, nossos projetos, nossas utopias, que em qualquer caso precisam de confirmação e podem ser modificados pela experiência, desenvolvidos e adaptados para as reais condições, morais e materiais, da época e do lugar. O mais importante é que as pessoas, homens e mulheres, percam os instintos e hábitos de rebanho, que lhes foram inculcados em milhares de anos de escravidão, e aprendam a pensar e atuar livremente. Este é o grande trabalho de libertação moral a que os anarquistas devem especialmente se dedicar.

Agradeço-lhe pela atenção que tenha dado à minha carta e, na esperança de ouvi-lo mais tarde, envio-lhe meus cordiais cumprimentos.

E. Malatesta
Risveglio (Genova), Dezembro de 1929


A Propósito da “Responsabilidade Colectiva”

Errico Malatesta

(Studi sociali, 10 de julho de 1930)

Traduzimos aqui abaixo uma carta de E. Malatesta ao grupo anarquista do 18° distrito urbano de Paris, escrita em Março ou em Abril passado e publicada em Le Libertaire de Paris, n° 252, de 19 de Abril, corrente ano. Com esta carta Malatesta reconfirma a sua opinião sobre o conceito de “responsabilidade colectiva” das organizações, sobre a qual então (anteriormente ao último congresso dos anarquistas franceses organizados) se fazia no Libertaire uma discussão acalorada (Nota da redacção de Studi sociali.)

* * *

Vejo uma declaração do grupo do XVIII°, em que se defende, de acordo com a “Plataforma” dos russos e com o companheiro Makhno, que “o princípio da responsabilidade colectiva” é a base toda e qualquer organização séria.

Eu já tinha dito, na minha crítica à “Plataforma” e na resposta à carta aberta recebida de Makhno, qual é a minha opinião sobre este pretenso princípio. Mas visto que se insiste numa ideia, ou pelo menos numa expressão, que me parece mais apropriada numa caserna do que num grupo anarquista, se me for permitido, espero dizer ainda algumas palavras sobre esta questão.

Os companheiros do XVIII° dizem que “os anarquistas comunistas devem tender a que a sua influência se exerça com a maior probabilidade de sucesso e não obterão tal resultado senão na medida em que a sua propaganda se desenvolva de modo colectivo, permanente e homogéneo”. De acordo! Mas ao que parece, tal não ocorre; pois os companheiros lamentam que “em nome da mesma organização aos quatro cantos da França se difundem as teorias mais diversas, ao fim e ao cabo, mais opostas”. Isto é muito deplorável, mas significa simplesmente que esta organização não possui um programa claro e preciso, compreendido e aceite por todos os seus membros e que no seu seio se encontram, confundidos debaixo de uma etiqueta comum, pessoas que não têm as mesmas ideias e que deveriam agrupar-se em organizações diversas ou ficarem isolados se não encontrassem quem pensasse como elas.

Se, como dizem os companheiros do XVIII°, a U.A.C.R. (3) não faz nada para estabelecer um programa aceite por todos os seus membros e para se colocar em postura de poderem agir juntos nas situações que se apresentam, se, em suma, a U.A.C.R. tem falta de preparação, de coesão, de acordo, aqui está a raiz do seu mal e é isso que é preciso remediar. E não se remediará em nada proclamando uma “responsabilidade colectiva” que, se não é submissão cega de todos à vontade de alguns, é um absurdo moral em teoria e, na prática, a irresponsabilidade geral.

Mas talvez isto tudo não seja mais do que uma questão de palavras.

Já na minha resposta a Makhno eu dizia: “Pode acontecer que, falando de responsabilidade colectiva, vós entendeis o acordo e a solidariedade que devem existir entre os membros de uma associação. E se é assim, a vossa expressão seria, a meu ver, um uso impróprio de linguagem, mas no fundo tratar-se-ia apenas de uma questão de palavras e estaríamos próximos de um entendimento”.

E agora, ao ler aquilo que dizem os companheiros do XVIII° eu vejo-me em acordo substancial com a sua maneira de conceber a organização anárquica (muito longe do espírito autoritário que a “Plataforma” parecia revelar) e estou vendo confirmada a minha esperança de que sob diferenças de linguagens se encerra verdadeiramente uma identidade de propósitos.

Mas se tal é assim, porque insistir numa expressão que é contrária ao objectivo de clarificação e que é uma das causas do mal-estar provocado pela “Plataforma”? Porque não falar como todos os outros, de modo a serem compreendidos e a não criar equívocos?

A responsabilidade moral (pois no nosso caso não pode senão tratar-se de responsabilidade moral) é individual pela sua própria natureza. Apenas o espírito de dominação, nas suas diversas manifestações políticas, militares, eclesiásticas, etc., pode ter considerado responsáveis homens por aquilo que estes não fizeram voluntariamente.

Se entre homens que se puseram de acordo para fazer alguma coisa, algum destes, faltando ao seu compromisso, faz fracassar a iniciativa, todos dirão que é ele o culpado e portanto o responsável, e não aqueles que fizeram até ao fim tudo o que deviam fazer.

De novo, falemos como todos os outros; procuremos fazer-nos entender de todos e talvez assim encontremos menos dificuldade na nossa propaganda.


NOTAS:

1) Nestor Makhno (1889-1934), revolucionário e organizador do exército guerrilheiro na Ucrânia (1918-1921), venceu o exército branco mas foi derrotado pelo exército vermelho de Trotsky. Conseguiu escapar e passou o resto de sua vida em Paris. Foi um dos autores da “Plataforma”.

2) Parece que Makhno respondeu essa carta. Um companheiro da A.C.F. (atual A.F.) britânica traduziu-a para o inglês, mas até agora ela ainda não foi publicada em lugar nenhum.

3) L’Union Anarchiste Communiste Révolutionnaire

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