A Organização Anarquista

Por Luigi FABRI

(Trad. J.C.M)

ADVERTÊNCIA

Como conclusão ao relatório que se segue sobre a “a ação individual e coletiva no movimento anarquista”, apresentado ao 1º Congresso Anarquista Italiano , reunido em Roma de 16 à 20 de junho de 1907, foi proposta a seguinte moção:

O Congresso:

considerando que na luta contra as forças organizadas do capitalismo e dos governos é necessária a união das forças anarquistas, aspira que tal união se determine sempre mais forte e mais extensa, sobre a base da solidariedade e do concurso consciente de todas as vontades individuais; conseqüentemente retém que os anarquistas, de acordo não somente no plano das idéias, mas também sobre os seus métodos de luta, unam suas forças constituindo-se por grupos em toda a parte e associando tais grupos entre si, conservando naturalmente a autonomia individual nos grupos e a autonomia dos grupos em suas uniões; declara que, ainda que mantendo como necessária esta associação de energias para a ação coletiva, é igualmente necessário que permaneça a ação individual, nos seus desenvolvimentos mais conscientes, de cada um segundo suas forças.

O congresso, pela unanimidade menos um, aprovou esta moção de caráter teórico e tomou, para a Itália, a seguinte deliberação de ordem prática:

O congresso recomenda aos camaradas das diferentes localidades formar rapidamente grupos para poder proceder, no menor lapso de tempo possível, à formação de uma Aliança socialista anarquista italiana, sobre as bases da mais completa autonomia, encarregando os grupos já existentes do trabalho preparatório.

Apresentando o mesmo relatório teórico e tático ao Congresso Internacional Anarquista de Amsterdã, eu espero que resoluções idênticas e ainda mais precisas sejam lá tomadas e que da afirmação doutrinária se passe rapidamente ao terreno dos fatos com a constituição de uma Associação Internacional Anarquista.

Viva a Internacional Libertária!

Roma, 20 de agosto de 1907

Luigi Fabbri

CAMARADAS

Há muitos anos que o movimento anarquista, tendo começado tão esplendidamente no seio da Internacional, se debate em uma crise sem solução, sobretudo por falta de boa vontade entre nós.

Nós anarquistas, é preciso confessá-lo, se jamais fomos abatidos pelas perseguições que chovem sobre nós, sempre tivemos um medo maldito de um fantasma que nós mesmos criamos. Nós nos resignamos a ser vítimas de todos os loucos, de todos os extravagantes, de todos os exagerados que, com o pretexto da lógica, pretenderam não apenas justificar tudo aquilo que eles consideravam inconveniente e ignóbil nos burgueses, mas também impedir e demolir todo o trabalho de reconstrução que outros camaradas tentaram, lançando permanentemente o espectro da incoerência com as idéias.

A idéia anarquista tem, como base primeira, a liberdade individual, mas aqueles que pretendem que a liberdade individual na anarquia seja infinita e absoluta, seriam utopistas no sentido mais ridículo do termo, pois o infinito e o absoluto são conceitos abstratos, configurações mentais sem possibilidade de realização prática. Pois bem, é sempre em nome da liberdade individual que numerosos anarquistas, segundo lhes seja conveniente, ou proclamam o direito de fazer seja lá o que for, inclusive atingir a liberdade e o direito do outro, ou declaram incoerente toda a tentativa de realização revolucionária e de organização pela propaganda.

Esperamos nos ocupar, no presente relatório, das objeções que são lançadas contra a idéia de organização.

Ouvimos dizer que a organização é um método e não um fim; isto é um erro. O princípio da organização não se propagou somente porque organizando-nos hoje poderemos melhor preparar a revolução, mas também porque o princípio da organização em si é um dos postulados principais da doutrina anarquista.

Na sociedade burguesa, que o Estado e a Igreja se encarregam de manter unida pela hierarquia para poder explorá-la em sua vantagem, a vontade individual é absorvida e freqüentemente anulada pelo mecanismo social, que pretende prover a tudo e a regular a vida dos indivíduos desde o seu nascimento até a morte. Nesta sociedade, cuja organização é monopolizada pelo Estado e pelo capitalismo, a única organização concebível é aquela para luta contra a opressão e a exploração.

Mas a sociedade preconizada pelos anarquistas, onde não haverá nem homens nem institutos “providenciais”, que se baseará sobre o concurso de todos os indivíduos na produção e na associação, necessitará que a organização se estenda até o último indivíduo e que cada um concorra voluntariamente à harmonia geral. E como a participação de cada um deva ser espontânea, voluntária e livre, pois sem existir coerção ninguém faltará ao dever de solidariedade, é preciso que, em primeiro lugar, esteja disseminada a consciência da necessidade da organização, de maneira que esta organização signifique a satisfação de uma necessidade verdadeira , tanto material quanto moral. Eis porque, em nossa opinião, a propaganda da organização deve ser feita ininterruptamente, bem como a propaganda de todos os outros postulados do ideal anarquista.

Como criticamos as instituições atuais do Estado, da propriedade, da família, para preconizar o advento da anarquia, do comunismo e do amor livre, nós sentimos igualmente a necessidade de atacar e de criticar o sistema de organização autoritária, para propagar a idéia da organização libertária.

Quando ouvimos alguns camaradas dizer-nos para “acabar com esta questão ultrapassada da organização”, experimentamos a mesma impressão que experimentaríamos se nos dissessem para acabar com a propaganda anarquista. Infelizmente ainda estamos muito distantes de ter convencido todos os anarquistas da necessidade da organização libertária: eis porque não deixamos de discutir com eles e de fazer a propaganda no sentido que nos parece corresponder à verdade.

Visto que, como se sabe, a melhor propaganda é a que se faz pelo exemplo – a propaganda pelo fato – nós buscamos nos organizar, constituir grupos, federar-nos. Nossos adversários nos atacam precisamente neste ponto, criticando o nosso trabalho e as organizações existentes ou que já existiram. Cada um dos defeitos, dos erros e das incoerências nelas existentes tornam-se uma arma eficaz para combater a idéia. Eles não se apercebem que os erros e defeitos são inevitáveis nos detalhes, pois nada de perfeito existe no mundo, e que isto, de resto, não destrói a utilidade geral do conjunto, da mesma forma que as desventuras da vida não constituem razão suficiente para negar a vida em si.

Sem a organização a anarquia é tão inconcebível quanto o fogo sem a matéria para fazê-lo. E nós propagamos esta idéia não somente pelas razões que iremos enunciar, mas também porque estamos tão persuadidos de que as consciências modernas devam impregnar-se deste seu espírito, sobretudo as consciências dos anarquistas. A organização para metas gerais, com pessoas de outros partidos e outras idéias é útil; mas para formar a consciência anarquista, para precisá-la naqueles que já são anarquistas, temos que adotar a organização dos próprios anarquistas, que deve esforçar-se por ser a mais libertária possível. É neste esforço de tornar libertária a organização dos anarquistas, que consiste a elaboração da nova consciência antiautoritária entre nós, cujo anarquismo é amiúde limitado a uma convicção unicamente doutrinária.

Não sei se nós, que somos seus partidários, conseguiremos verdadeiramente construir esta organização que aspiramos e vencer este espírito de reticência que existe para se fazer qualquer coisa que demande um certo trabalho, longo e paciente. Mas nós queremos iniciar este trabalho paciente e longo para não negligenciar este forte meio de propaganda que é a tentativa e o exemplo. Pode ocorrer que, apesar de todas as nossas razões, muitas coisas impeçam o aparecimento de organizações anarquistas verdadeiras e duráveis, na medida em que o bloqueio dos antiorganizadores não cesse.

Pode ser que tenhamos que continuar ainda este deprimente trabalho de Sísifo, começando a coisa por um lado enquanto outros a destroem por outro, como é hábito acontecer entre nós há alguns anos. Não sei por quanto tempo poderá durar este fato de que nossas organizações apareçam aqui ou acolá para impulsionar a nossa propaganda, respondendo a uma necessidade premente, mas tendo um caráter esporádico. Tais organizações aliás caem mais freqüentemente nestes erros próprios de sua juventude, que se repetem , pois lhes falta a continuidade de existência e de ação… .

Que importa? Antes de mais nada o próprio fato de que as organizações existentes ou finadas terem existido ou terem uma tão breve existência, as desculpa dos erros co-metidos, que apenas são evitados através da experiência adquirida pela prática e não somente com as noções apreendidas em brochuras e jornais.

Nós pensamos que a mais bela e perfeita organização estará destinada a morrer se seus membros, por mais sábios que sejam em teoria, permanecerem inertes. A vantagem das organizações consiste no fato de que, em igualdade de outras condições, é preferível que pessoas decididas à ação estejam organizadas que não organizadas. É natural que um indivíduo isolado atuante valha mais que mil pessoas inaptas e não organizadas.

Quer a propaganda para fazer surgir em curto prazo a organização anarquista que cremos necessária frutifique ou não, isto, até certo ponto, não é importante. Não nos agradará não termos sucesso, pois assim não poderemos colher todos os frutos que esperamos, mas ao menos teremos feito a propaganda de um conceito que é inseparável da idéia de anarquia, teremos lançado sementes que, mais dia menos dia, germinarão. A propaganda pela organização dos anarquistas se imporá pela necessidade das coisas; e será mérito desta propaganda se a organização surgida for a nossa e não uma mercadoria avariada que nos seria legada por nossos adversários.

O ridículo com o qual tentam nos cobrir cairá conseqüentemente no vazio. Nós já sabemos que, enquanto existir a sociedade burguesa, nossas tentativas não vingarão ou continuarão imperfeitas, mas tal convicção não nos faz renunciar à “propaganda pelo fato”.

No fundo o que é a luta revolucionária senão uma série de inumeráveis tentativas, das quais apenas uma, a derradeira, tem sucesso? Quem teria vencido se não houvessem os fracassos antecedentes? Da mesma forma, no que tange à organização, tentaremos com todas as nossas forças obter sucesso; cada derrota nos aproximará da vitória, mas em cada vez faremos com que nossa tentativa seja melhor e que tenha um resultado menos imperfeito. Isto será mil vezes mais útil para formar consciências que a predicação doutrinária somente.

Por outro lado, aqueles que se declaram inimigos da organização, o são geral-mente porque sentem-se incapazes da solidariedade libertária e no fundo não sabem sair deste dilema: comandar ou serem comandados. Não possuem a consciência “libertária” e portanto não vêem teoricamente outra garantia para a liberdade individual senão o isolamento, a ausência de qualquer pacto e de qualquer vínculo livremente aceitos. Na prática são eles que querem dirigir o movimento e à primeira tentativa de alguém para subtrair-se de suas diretivas, ao primeiro sinal de independência daquele que obstina-se a pensar e a agir à sua maneira, logo se verá tais indivíduos lançarem excomunhões, gritar por incoerência e traição e afirmar que aquele que não age e não pensa como eles não é anarquista. Assim fizeram os padres de todos os tempos e de todas as religiões. Alguém de boa fé se ergueria mais contra a forma do que contra a substância.

Eles não querem a organização mas falam de acordo, de entendimento, de livre pacto e de associação! Não nos ocuparemos destas questões terminológicas e nos limitaremos a relembrar,de uma vez por todas, que organização não significa nem autoridade, nem governo, nem vexação, mas apenas : associação harmoniosa dos elementos do corpo social.

Como queremos que todos os homens, um dia, estejam associados harmonicamente, preconizamos hoje, na luta pela preparação de um tal futuro, a associação harmoniosa dos anarquistas. A organização é um meio para atingir este fim, e um meio mais condizente com as finalidades sociológicas do anarquismo.

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Não perderei muito tempo demonstrando como, em linhas gerais, a organização libertária é uma necessidade. Já mostrei, em outro lugar, que a organização, longe de limitar a liberdade individual, a estende e a torna verdadeiramente possível, pois ela oferece ao indivíduo uma soma maior de forças para vencer obstáculos e para melhorar, forças estas que faltariam a cada indivíduo tomado isoladamente.

“A maior satisfação possível de seu eu – dizia eu então – o maior bem estar material e moral , a maior liberdade são possíveis somente quando um homem estiver ligado ao outro pelo pacto de ajuda mútua. Um homem de acordo com a sociedade é sempre mais livre que um homem em luta contra a sociedade. Os anarquistas combatem a organização social atual justamente porque ela impede a existência de uma sociedade relativamente útil a todos os indivíduos e trabalham para que a sociedade inteira não seja mais regulada pela luta a mais encarniçada e feroz, sobre a exploração e sobre a violência tirânica do homem sobre o homem.

Podemos nos rebelar contra esta má organização da sociedade, mas não contra a sociedade em si, como pretendem alguns individualistas. A sociedade não é um mito, nem uma idéia, nem um órgão pré-ordenado e feito por alguém, para que seja possível não reconhecê-la e tentar destruí-la. Ela nem mesmo é – como nos acusam de pensar os stirnerianos – uma coisa superior aos indivíduos e à qual é necessário fazer o sacrifício do seu eu como diante de um fetiche. A sociedade é simplesmente um fato do qual nós somos os atores naturais e que existe na medida em que lá estamos. A sociedade é o conjunto dos indivíduos vivos e cada indivíduo é, por sua vez, tal qual as influências externas, sem excluir as sociais, o formam.

Tudo isso é um fato natural, ligado à vida universal do cosmos. Rebelar-se contra este fato é rebelar-se contra a vida : morrer. Cada indivíduo existe na medida em que ele é o fruto material, moral e intelectual da união de outros indivíduos; ele somente pode continuar vivo, somente pode ser livre, somente pode desenvolver-se fisicamente com a condição de viver em sociedade.”

Muitos nos objetam que o homem é egoísta e que sempre é o egoísmo que impele o homem a agir, mesmo quando, aparentemente, os pensamentos e ações são altruístas. Negando o altruísmo, estes opositores chegam logicamente a negar o espírito de solidariedade e de associação.

Não há nada mais perigoso, de certo modo e especialmente para cérebros pouco refletidos, do que se apossar da lógica e levá-la às últimas conseqüências à partir de um princípio dado. Isto vale especialmente quando, à partir do mesmo princípio, pode-se chegar a conclusões absolutamente opostas. Ocorre muitas vezes que, construindo teorias mais ou menos justas no seu ponto de partida, ao evoluir com a lógica cheguemos a um ponto ao qual não esperávamos ou não queríamos chegar. Isto acontece especialmente quando tratamos com doutrinas abstratas, abandonando completamente o campo experimental dos fatos.

Isto acontece de fato com muitos anarquistas individualistas de todos os matizes, desde o individualismo stirneriano anti-socialista até o individualista comunista anti-organizador.

Conduzidos pela lógica abstrata, estes camaradas chegam a perder de vista o interesse da propaganda anarquista e revolucionária. Eles isolam-se da sociedade ao ponto de não mais poder exercer sobre ela influência alguma e isso equivale a condenar nossa idéia a permanecer perpetuamente no estágio de utopia. Se, ao pretender para cada ato de propaganda ou de ação revolucionária a coerência absoluta com o princípio abstrato da anarquia ou de sua própria interpretação deste princípio, se (e esta talvez seja a razão mais verossímil) diante da inegável dificuldade de se agir libertariamente, afastarmos toda a forma de ação na qual tal dificuldade seja a mais forte, acabaríamos por fazer muito pouco ou nada – exatamente como Orígenes que, para se manter puro (ou antes porque não possuía forças para assim se manter) decepou seus órgãos sexuais.Toda a ação anarquista assim concebida acaba por se limitar à parte crítica da obra de outrem , à propaganda teórica – muitas vezes caótica e cheia de contradições – e a algum ato isolado de rebelião que, na melhor das hipóteses contém justamente o êrro de exigir um esforço muito grande para poder ocorrer e assim exercer alguma influência visível sobre os acontecimentos.

De resto, tanto a propaganda teórica quanto a propaganda pelo fato ( não ne-go a utilidade desta última) podem ser úteis, mas tal propaganda, de forma unicamente individual não basta. Para que a propaganda teórica seja mais eficaz é preciso que ela esteja coordenada; para que o fato seja mais útil, é preciso que ele seja meditado e razoável.

É verdade que um gênio ou um herói fazem mais propaganda ou desenvolvem mais energia sozinhos que muitos medíocres. Mas o mundo é feito de medíocres e não de gênios ou heróis; seria ótimo se um gênio ou um herói brotassem entre nós, mas enquanto isso não ocorre nosso dever é, se quisermos ser positivos e ter a segurança de atingir nossa meta, contar igualmente e sobretudo com a ação contínua e incansável da maioria. Mas a maioria é uma força somente quando está unida; cada indivíduo forma, completa ou afina a sua consciência na união. Não nos esqueçamos que os gênios e os heróis podem também se enganar, e quando isto ocorre fazem mais mal que os outros. Existem, além disso, formas de atividade necessárias para as quais o trabalho de um só, mesmo que seja excepcional, não basta e que necessitam da cooperação de muitos, atividades para as quais muitas vezes um gênio ou um herói não sabe se dobrar. A cooperação, a organização com base em uma idéia e um método livremente aceitos e que não excluam os melhores mas sim que os pressuponham, são métodos que muitos anarquistas de tendência individualista negam. Eles os negam somente porque, ou de acordo com os adoradores do Estado, não crêem possível organização alguma sem autoridade, ou talvez porque não tenham a coragem de afrontar a dificuldade de começar a ser anarquista organizando-se em bases anarquistas, por temer as primeiras e inevitáveis quedas.

Quando uma criança apreende a andar, ela começa por cair, mas isso não é razão suficiente para se sustentar que a marcha é nociva e que tem por conseqüência quebrar a cabeça. Os anarquistas que chegam à afirmação individualista e à negação da organização pensam, ao contrário, desta forma: que à partir do momento em que nos organizamos poderemos cair e cairemos fatalmente no erro ou na incoerência.

Negando-se a organização, nega-se no fundo a possibilidade de vida social e também da vida em anarquia. Dizer que a negamos somente hoje nada significa, pois negá-la hoje implica em suprimir o meio de prepará-la para o amanhã. De resto, neste terreno a lógica continua a pregar-nos as suas peças. Quando se nega a organização operária, alguém já começou a negar a possibilidade de uma organização comunal na sociedade futura. Simplesmente porque não se consegue perceber, dentro deste mesmo erro de óptica, que a comuna do futuro, formada pelo complexo de organizações livremente federadas, seja distinta do mir patriarcal russo, que ela poderá também possuir suas assembléias de discussão dos interesses da comunidade, mas que não herdará necessariamente todo o caráter autoritário, de violência impositiva deste último, que tal comuna não será em nada semelhante a tais comunas burocráticas de hoje, com seus impostos, seus guardas municipais, seus guardas florestais e seu prefeito nomeado pela monarquia.

A questão de que o homem é egoísta e que isto basta para negar a associação apóia-se em uma interpretação absurda de um conceito verdadeiro. Sim, todos os homens são egoístas, mas de modo diferente. O homem que tira o pão da boca para alimentar o seu semelhante é um egoísta na medida em que ele interiormente sente, sacrificando-se, uma satisfação maior do que a de comer tudo sozinho, sem nada dar ao outro. Isso acontece igualmente com relação aos outros sacrifícios, mesmo os mais sublimes que a história nos lembra. Mas a satisfação do explorador burguês, que faz com que seus operários morram de fome, ao invés de lhes sacrificar uma única noite de teatro, também é egoísmo.

Um e outro são egoísmo, mas – cáspite! – ninguém negará que são egoísmos distintos um do outro. Tal diferença encontrou sua expressão na linguagem humana, que batizou a forma mais nobre de egoísmo com o nome altruísmo.

Este altruísmo é uma manifestação da solidariedade humana, que responde à necessidade de ajuda mútua – existente entre os homens, assim como em várias outras sociedades animais.

Existem individualistas que não negam a solidariedade, mas negam a organização, que é um meio de manifestar e de exercer a solidariedade. A solidariedade é um sentimento e a organização o fato que corresponde a este sentimento; o fato pelo qual a solidariedade torna-se o elemento ativo da revolução nas consciências e nos eventos.

A solidariedade é um licor cheio de força e aroma que tem a necessidade de um vaso para contê-lo para que não se perca, espalhando-se inutilmente e evaporando.

Este vaso, esta forma, esta explicação da solidariedade, é a organização libertária, aonde as consciências não apenas não se deterioram, mas sim se completam quando não são bem formadas, ou quando o são nela se refinam. A organização não significa – repito – uma diminuição do eu, mas sim a possibilidade para este de atingir, com a ajuda dos outros, o máximo de suas satisfações. Ela não significa a compressão ou a violação do egoísmo natural dos indivíduos, mas sim o seu contentamento, o seu enobrecimento, de modo a provocar no indivíduo um gozo que tenha a necessidade do bem do outro e não do mal.

Como se denomina tal forma de egoísmo na linguagem natural de altruísmo , para distingui-la da outra espécie brutal , hoje presente em nossa sociedade de patrão e de escravos, de governo e súditos, e que consiste na satisfação de si mesmo em detrimento de todos os outros sem critério algum de proporção e de relatividade, e sem fazer uso de tantos sofismas ou de finezas filosóficas, concluo que o altruísmo é alguma coisa de positivo e de concreto que é formado e que existe no homem.

Esta divagação doutrinária foi necessária para que eu pudesse demonstrar como esta questão da organização, não apenas pelo lado do método mas também por sua finalidade, enlaça-se e conforma-se com a idéia mãe do anarquismo; para que se compreenda que a divisão que existe neste ponto entre os anarquistas é muito mais profunda do que o que normalmente se acredita, e que supõe igualmente uma inconciliável discordância teórica.

Digo isto para responder aos meus bons amigos , favoráveis a um acordo a qualquer preço, que afirmam: “Não criemos problemas de método! A idéia é uma só e a meta é a mesma; permaneçamos pois unidos sem nos rasgarmos por um pequeno desacordo sobre a tática”. Eu, ao contrário, dei-me conta há muito tempo atrás, que nos dilaceramos justamente porque estamos muito próximos, por que estamos artificialmente próximos. Sob o verniz aparente da comunidade de três ou quatro idéias – abolição do Estado, abolição da propriedade privada, revolução, antiparlamentarismo – existe uma diferença enorme na concepção de cada uma destas afirmações teóricas. A diferença é de tal monta que nos impede de tomarmos o mesmo caminho sem querelarmonos e sem neutralizar reciprocamente o nosso trabalho ou, se assim quisermos, permanecer em paz sem renunciarmos àquilo que acreditamos ser verdadeiro. Repito: não existe apenas uma diferença de método, mas sim uma grande diferença de idéias.

Muitos objetam serem apenas adversários da organização na sociedade atual, pois consideram tal organização impossível, no sentido verdadeiramente libertário, antes da revolução. Mas esquecem que a revolução não virá por si mesma como um maná do céu, em virtude apenas das trombetas de Jericó da propaganda teórica tão somente e nem ao menos virá como decorrência do estampido de uma bomba isolada. Eles esquecem que, depois da revolução, a anarquia não brotará por si mesma como um cogumelo após a chuva, se não encontrar organismos adaptados para responder à necessidade da vida social e que substituam os velhos organismos abatidos. É até mesmo possível que, dada a ausência de organismos libertários, a necessidade de viver sugira aos homens a necessidade de restabelecer organizações autoritárias.

Mas os inimigos da organização negligenciam sobretudo – como negligenciam muitas vezes os seus amigos – de considerar a questão do ponto de vista da preparação revolucionária.

Certamente, aqueles que meteram na cabeça a idéia de que as revoluções não são feitas pelos homens, mas sim que ocorrem naturalmente,como os cataclismos e os terremotos , podem ser contrários a toda organização e contentar-se com a propaganda verbal e escrita ou com algum belo gesto isolado a cada dois ou três anos. Ora, reconhece-se atualmente que as idéias avançam com os homens e que as revoluções são geradas pelo seu pensamento e realizadas por seus braços, mas que também são elas provocadas por fatores sociais e econômicos tornados inevitáveis pelo encadeamento de efeitos cujas causas remontam às épocas bem anteriores à nossa.

Uma revolução artificial, feita em proveito de um partido ou de uma única classe seria inevitavelmente votada ao fiasco, se não se voltasse para interesses mais gerais ou se não supusesse condições favoráveis à uma reviravolta cuja necessidade fosse sentida mais universalmente.

Sabe-se que a questão social assume atualmente o aspecto quase exclusivo do problema operário e a ele é preciso consagrar todas as forças para realmente sublevar o mundo, buscando sempre não desviar pelas sendas da política, do intelectualismo ou do esporte revolucionário e libertário. Isto não nega o fato de que, para que se resolva a questão operária, para que também se resolva, conjunta e integralmente, a questão do pão e da liberdade – sem que caiamos miseravelmente no egoísmo de classe que é o produtor do reformismo – não se deva considerar esta questão sobre o prisma o mais amplo possível.

É preciso demonstrar que a emancipação do proletariado do monopólio capitalista, depende também da resolução da liberdade individual do homem e de todos os problemas que oprimem a consciência contemporânea.

É preciso também que os interessados nesta sublevação, os proletários, tornem-se conscientes de seus direitos, das necessidades e da força que têm em suas mãos, desde que assim o queiram. Para que se crie uma atmosfera revolucionária, é preciso que os trabalhadores se ressintam da privação enorme na qual vivem, que não permaneçam numa atitude de descaso e numa resignação muçulmana. É preciso igualmente que eles tenham uma visão relativamente clara do remédio necessário ao mal que padecem e sobretudo é preciso uma concepção nítida e precisa sobre o modo de destruir e abater a atual ordem das coisas. Devemos nos ocupar , antes de mais nada, em formar esta consciência no proletariado e o meio mais eficaz para tanto continua sendo a propaganda, isto é, o exercício contínuo da luta contra o capital e o Estado.

Mas é preciso também preparar os meios para derrubar o capital e o Estado e eis o ponto aonde se apresenta a necessidade da organização revolucionária.O primeiro meio, o mais importante, é a união – não caótica, irregular, local e fragmentada – mas sim constante e contínua no tempo e no espaço.

Aqueles que não toleram este vínculo moral que resulta do compromisso assumido de auxiliarmo-nos reciprocamente para um dado fim, dirão que isto diminui a sua autonomia individual, e isto pode ocorrer. Mas a liberdade e a autonomia absolutas são conceitos abstratos; deveremos retornar aos fatos, àquilo que queremos realmente e o que podemos ob-ter desta autonomia e liberdade.

A autoridade contra a qual combatemos – a do padre, a do patrão, a do policia l- bem merece, para que dela nos desembaraçemos, que façamos um mínimo de sacrifício voluntário de nosso orgulho individual, para que possamos trabalhar com os outros e nos livrarmos da dominação burguesa e estatal, mesmo com aqueles que não tenham a nossa força e consciência, tão duramente formada.

Não sei se a humanidade conseguirá ser um dia um conjunto de indivíduos tão livres um do outro que não dependam reciprocamente por qualquer tipo de interesses materiais ou morais. É certo entretanto que a meta da revolução social e libertária que se anuncia, e cujo advento desejamos, não será outra, pelo momento, senão a emancipação do proletariado do privilégio do monopólio capitalista e do jugo de todos os indivíduos que detêm a autoridade coercitiva e violenta do homem sobre o homem.

Para realizar tal tarefa, temos que lutar contra forças formidáveis: a coalizão dos patrões apoiada pelos padres, a burocracia, o exército, a magistratura e a polícia. Para combater tais forças, para destruir todas estas pavorosas engrenagens maculadas de sangue da máquina capitalista autoritária, é bom unir os oprimidos em um pacto mútuo e solidário, voluntariamente aceito ( para aqueles que não toleram vínculos), por uma disciplina moral.

Não basta que os homens estejam conscientes de seus direitos e necessidades e que saibam qual é o meio para reinvindicá-los; é preciso que todos estejam em condições de adotar estes meios de reivindicação.

A vontade dos revolucionários toma neste ponto toda a sua importância. Uma revolução de inconscientes seria quase inútil; mas a consciência das necessidades e dos direitos por sua vez também permanece quase tão inútil, tanto na coletividade quanto nos indivíduos, se não existir a força e a vontade de agir, de colocar em prática aquilo que se apreendeu em te-oria. Eis porque é preciso unir-se e organizar-se: primeiro para discutir, depois para reunir os meios para a revolução, e finalmente para formar um todo orgânico que, armado com seus meios e fortalecido por sua união possa, quando soar o momento histórico, varrer do mundo todas as aberrações e todas as tiranias da religião, do capital e do Estado.

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“A organização que os socialistas anarquistas defendem não é naturalmente a organização autoritária que vai da Igreja católica à Igreja marxista, mas sim a organização libertária, voluntária, de numerosas unidades individuais, associadas com vistas a uma meta comum e que empregam um ou vários métodos considerados bons e livremente aceitos por cada um dos membros. Uma tal organização é impossível , se os indivíduos que a compõem não estão habituados à liberdade e não estejam desembaraçados de preconceitos autoritários. Ë necessário, por outro lado, estar organizados , para se tentar viver livremente associados…” , isso para se habituar ao uso da liberdade.

Assim , a necessidade de organização permanece. Por organização, entendemos a união dos anarquistas em grupos e a união federal dos grupos entre si, sobre a base de idéias comuns e de um trabalho prático comum à realizar. Tal organização, deixará naturalmente a autonomia dos indivíduos nos grupos e dos grupos na federação, com plena liberdade dos grupos e federações para se formarem segundo as oportunidades e circunstâncias, por ofício, por bairro, por província ou por região, por nacionalidade ou por língua, etc.

A organização federal assim concebida, sem órgãos centrais e sem autoridade é útil e necessária. Útil simplesmente porque a união faz a força; necessária porque…Nos esforçaremos por dar outras razões, além das já enunciadas, sem entretanto ter a pretensão de ter enunciado a todas.

Existem tantas pessoas que se dizem anarquistas no mundo, batiza-se de anarquia tantas idéias nos dias de hoje, tantas opiniões e táticas diferentes, que impõe-se a quem luta alguma escolha para saber quem são aqueles que possuem aspirações comuns às suas, pois alguns, embora dizendo-se anarquistas, têm idéias totalmente opostas . Se alguns seguem uma via totalmente contrária à nossa e utilizam meios de luta que são contraditórios, neutralizantes e destrutores dos efeitos que obtivemos, tais diversidades e contradições dependem dos significados e de interpretações diferentes, muitas vezes completamente opostas, que são dadas ao termo anarquia .

Ora, se tivéssemos tratando de pura academia cientifica e filosófica, não haveria necessidade de tanto se diferenciar nas formas e de tanto separar grupos. Nem ao menos existiria a necessidade de agruparmo-nos. Mas o anarquismo, em minha opinião e , segundo creio, na opinião de muitos outros, se ele é na teoria uma tendência cientifica e filosófica, uma doutrina especulativa, ele se quer igualmente na prática um movimento humano de luta e de revolução. Um movimento que possui meios definidos de ação e que fixou como ponto de partida algumas verdades dadas em torno das quais concordam todos aqueles que atuam neste sentido. Pois bem, como será possível anunciar um movimento enérgico e resoluto se nós que acreditamos estar mais que os outros na posse da verdade e que nos parece ser nosso dever propor bons métodos revolucionários para se avançar para a integral liberdade da anarquia, como faríamos nós se não nos reuníssemos, não nos organizássemos de maneira alguma de modo que a obra de alguns não fosse contraditada e neutralizada pela de outros? Como pode-ríamos mesmo saber quem, muito embora dizendo-se anarquista está conosco e quem está contra nós?

Se quisermos nos mexer, se quisermos fazer alguma coisa a mais do que aquilo que o isolamento permite a cada um de nos deveremos saber com quais dos ditos camaradas, podemos estar de acordo e com quais estamos em desacordo. Isto é especialmente necessário quando falamos de ação, de movimento, de métodos com os quais é preciso trabalhar com muitas mãos para conseguirmos obter alguns resultados que caminhem em nossa direção.

Visto que existem iniciativas, movimentos e ações que não são possíveis sem o concurso de inúmeros indivíduos, de legiões ou de nações inteiras, eis que aparece a necessidade da organização não apenas entre indivíduos ou grupos de uma mesma cidade mas também entre grupos de uma cidade e de outra e – porque não? – entre grupos de diferentes nações.

A necessidade de se diferenciar, organizando-se entre anarquistas que têm formas e métodos de luta coletiva e de propaganda em comum, impõe-se também pela clareza das idéias diante dos adversários. Enquanto permitirmos que nos tomem todos em bloco sob a denominação comum de anarquistas, será sempre permissível que nos inquiram qual é a nossa anarquia. Existem aqueles que dizem ser ela uma escola do socialismo e outros que, ao contrário, a batizam como sua negação; há os que nela buscam o triunfo do indivíduo contra a humanidade e que a interpretam como uma luta contínua dentibus et rostius entre os homens e há quem a interprete como a solidariedade humana por excelência.

As piores extravagâncias desenvolveram-se como a quintessência da filosofia anarquista; alguém mesmo afirmou, recentemente, a função social útil do delito em anarquia …

Não temos pretensões à infalibilidade; poderemos até mesmo estar errados, mas cremos entretanto estar com a razão e, enquanto pensarmos estar com a razão, buscaremos fazer com que nossa idéia não seja tomada pelo contrário do que ela é. Temos muita dificuldade em reunir nossos parcos recursos para fazer a propaganda na qual acreditamos e recusamo-nos a apoiar aquela que consideramos nociva.

Nem mesmo remotamente queremos nos solidarizar com idéias e métodos que não são os nossos e, conseqüentemente, desejamos evitar a confusão que nos une indiscriminadamente e que torna a nossa propaganda caótica, contraditória e sem resultado.

Parece que as diferentes interpretações da anarquia reconhecem-se nos métodos e nas vias de fato, elas também são bastante distintas e contraditórias e algumas de tal forma anti-sociais e antilibertárias, que fazem mais obstáculo à nossa propaganda que a mais feroz das reações.

Vós, que sois partidários da organização sindical, por exemplo, fareis uma conferência para aconselhar aos operários que se organizem! Pois bem, no mesmo local em que falastes a favor da organização, da greve geral, da agitação revolucionária pelas oito horas em nome da anarquia, ouvireis amanhã alguém que virá dizer que a organização operária é um emplastro inútil, que a greve geral é uma utopia ou um conto da carochinha, que a conquista das oito horas é uma reforminha indigna de ser defendida por autênticos revolucionários; tu-do aquilo enfim, que muitas vezes li em jornais anarquistas de tendência anti-organizativa.

Tentai escrever para exprimir a vossa opinião ao jornal e no próximo número, vereis um outro que a contradirá completamente e, se não tiveres a sorte de ser o manipulador supremo do jornal, não tereis por vezes nem mesmo a liberdade necessária para discutir.

Mas depois, mesmo que possais discutir livremente, conseguireis apenas um bom debate acadêmico, pois não podereis agir e nem reunir em vosso entorno para a ação aqueles que aprovam a vossa idéia, talvez nem consigais ver aprovada a vossa idéia pelo número indispensável de pessoas. É preciso que vos diferencieis, que vos associeis com aqueles com os quais estejais de acordo, dizendo: “Pronto! Somos anarquistas que querem fazer isso e aquilo, e que sobre tal ponto pensamos assim ou assado. Ponhamo-nos à obra, pois”.

É preciso não esquecer que a organização é um meio de se diferenciar, de se precisar um programa de idéias e de métodos estabelecidos, um tipo de bandeira de reunião para se partir ao combate sabendo-se com quem se pode contar e tendo-se consciência da força que se pode dispor.

As formas desta organização importam menos; o nome é por vezes a única diferença que distingue a organização inconfessa daqueles que dizem não estar organizados. Assumimos o nome porque ele precisa a nossa idéia e as nossas proposições, porque ele possui o valor de um programa. Dizemos , por exemplo, partido anarquista, entendendo simplesmente por isso o conjunto de todos aqueles que combatem pela anarquia. Quando dizemos federação socialista-anarquista, pensamos na união preestabelecida dos indivíduos e grupos aderentes que, em determinada localidade, puserem-se de acordo em torno de um programa de idéias e métodos.

É curioso que seja justamente este termo federação, mais do que o termo genérico partido, que provoque disputas; nós o escolhemos justamente porque ele implica (como era também a intenção de Bakunin) o conceito de organização descentralizada, de baixo para cima, ou melhor ( posto que não deve haver nem baixo e nem alto) do simples ao composto. Nós dizemos precisamente nos federar por que este termo já vem adquirindo um significado oposto e negativo com relação à centralização. Em um sentido muito mais relativo, por exemplo, existem republicanos federalistas em oposição aos republicanos unitários.

Nós anarquistas que, em alguns locais como em Roma, temos nos organizado, formulamos um programa. Todos aqueles que o aceitam formam a organização cujo programa foi assim auto-estabelecido, sejam eles grupos ou indivíduos; cada grupo e cada federação decide, através de sua correspondência, dos jornais, dos congressos, etc. a maneira pela qual concordam para desenvolver a ação comum, as formas de organização federal e os grupos e modalidades internas. Um grupo ou uma federação poderão exagerar em certos formalismos e, mesmo que alguns erros sejam cometidos, serão tais que, mesmos aqueles contrários à organização e que se unem somente uma vez com vistas à uma ação , podem também cometê-los.

Achamos necessário que nos ponhamos francamente em marcha por um caminho bem definido, com nossos meios e assumindo a responsabilidade de nossas ações, de modo que aquilo que façamos não seja destruído pelos outros. São muitos aqueles que, tanto na propaganda teórica quanto na ação dizem e fazem muitas idéias e coisas que não nos parecem anarquistas, ou que ao menos , em nossa opinião, não são úteis ao movimento, antes pelo contrário.

Aqueles que não se decidem a ficar conosco por medo de uma palavra, embora agindo de acordo com nossa prática, e assim procedendo apenas para não desagradar aqueles que,no fundo, são nossos adversários, dão prova de fraqueza e perpetuam o equívoco. Eles cobrem com sua bandeira e com sua boa intenção muita mercadoria avariada. É então preferível que eles separem-se de nós.

Entretanto, organizar-se e diferenciar-se daqueles que, em algum ponto essencial, não estão de acordo conosco na interpretação do termo e dos métodos da anarquia, não significa que pretendamos o monopólio do termo e do movimento anarquista ou que queiramos excluir quem quer que seja da grande família libertária. Mas sermos todos da mesma família, não significa que tenhamos todos as mesmas idéias e o mesmo temperamento, nem que queiramos fazer a mesma coisa e que estejamos de acordo sobre tudo. Na maioria das famílias é antes o contrário o que ocorre.

Pode ocorrer que não apenas as idéias nos dividam na prática, mas também que o temperamento atue um pouco e que ele determine a união ou a desunião de alguns. Sinto-me pessoalmente bastante senhor de mim mesmo, quer dizer indivíduo o bastante e me sinto mais forte quando tenho atrás, diante e ao meu lado a solidariedade de outros. Não parece-me que me diminua quando me enlace, em torno de um pacto mútuo, com meus companheiros de jornada. Esta questão do temperamento reforça, em lugar de enfraquecer, a minha tese. Se existem correntes incapazes de permanecer unidas por causa do temperamento, é melhor que cada um tome o seu caminho e que elas se diferenciem.

Insisto em sustentar a necessidade da organização, mesmo diante daqueles que, embora admitindo-a de fato e na prática, a repelem na teoria e no nome. Estou convicto – e creio não me enganar – que muitos daqueles que se dizem em desacordo conosco, o estão mais nos termos do que nas idéias, mais na aparência do que nos fatos. Eles são , em parte vítimas de uma ilusão; seu medo do termo nada mais é que um indício de uma certa contrariedade in-consciente e inconfessa com a substância.

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Mas muitos camaradas, que tem mais medo do termo do que da substância, sacrificam uma à antipatia da outra. Eles dizem que não é necessário fazer a organização, pois ela existe já por si mesma.

É verdade, o homem que pensa e que luta é um ser sensível, organizável e organizado por excelência. Assim , mesmo aqueles companheiros que se dizem opostos à organização são , no fundo, organizados.

A diferença é que tal organização, não tendo nome nem formas exteriores, parece não existir e serve para que possamos dizer: Vejam! Sem organização andamos muito bem! Isto serve também para mascarar e para dissimular aquilo que pode existir de pouco coerente com o conceito de autonomia integral no funcionamento interno de uma tal organização. Tais incoerências são inevitáveis na sociedade atual e eu não me sirvo delas para combater o método anti-federalista, mas apresso-me em observar que lá onde faltam as formas exteriores da organização, falta também um meio importante de controle, para verificar até que ponto tal organização continua libertária. Quando, ao contrário, a organização é visível, sua substância é denunciada pela forma e ela se presta melhor à crítica: pode-se conseqüentemente melhor combater e eliminar, na medida do possível,de seu seio as manifestações anti-libertárias.

A organização consciente é útil porque ela é o melhor meio – quando real e substancial e não apenas formal – para impedir um indivíduo ou um grupo de concentrar em si todo o trabalho de propaganda e de agitação, tornando-se assim um árbitro do movimento.

Os não organizados, ou melhor, aqueles que estão organizados sem o saber e que por isso se crêem mais autônomos que os outros, têm maior probabilidade que os organizados, de serem presas do conferencista que passa,do camarada mais ativo,do grupo mais empreendedor e do jornal mais bem feito. Eles são inconscientemente organizados pelo conferencista,pelo agitador e pelo jornal. Enquanto estes últimos fazem o seu trabalho , tudo corre bem, mas se eles tomam uma direção falsa…boa noite! E antes que se perceba passará um bom tempo. Os anarquistas que estão organizados, ao contrário, sabendo já o que fazem pois as próprias formas exteriores lhes relembram constantemente que estão associados , que discutem do seu ponto de vista toda a proposição, venha de onde venha, estão menos expostos à surpresas. Justamente porque a união faz a força, eles podem opor uma maior força de resistência às sugestões dos camaradas mais inteligentes, mais simpáticos ou mais ativos. Eles sabem organizar-se e é reconhecidamente mais difícil manipular uma massa de pessoas conscientes de sua situação, do que uma numerosa quantidade de inconscientes.

Mas os organizados são homens também e nem todas as virtudes da organização podem impedi-los de cair no erro. Na sociedade atual, a perfeita coerência libertária de uma organização é impossível ( aliás, mesmo em anarquia seria ela possível?) . Eles também , em menor medida, oferecerão flancos à crítica dos puros em teoria. Poderá ocorrer que sua organização assuma , vez por outra, aspectos incoerentes, ou que produza algumas manifestações de centralismo ou de autoritarismo.

Mas estes seus erros, ao contrário dos erros dos anti-organizadores consistem em que o cisco que têm nos olhos esteja sempre imediatamente visível, porque existe uma organização pública, enquanto que a trava que existe nos olhos dos outros não se vê imediata-mente – o que não impede que isso provoque grandes danos ao princípio da anarquia.

Nunca será demais insistir sobre esta verdade: a ausência de organização visível normal e aceite por cada um de seus membros torna possível o estabelecimento de organizações arbitrárias , menos libertárias ainda, que crêem ter vencido todo o perigo do autoritarismo apenas negando a sua essência. Tais organizações inconscientes constituem um perigo maior porque colocam o movimento anarquista à mercê e a serviço dos mais hábeis e dos mais intrigantes.

Hoje , o conjunto dos anarquistas está desorganizado; esta desorganização formal faz com que a massa dos camaradas submeta-se à dominação intelectual incontrolada de um diretor de jornal ou de um conferencista… Mesmo assim , isto é uma forma de organização, só que menos anarquista porque mais centralizada e mais pessoal.

Queremos de fato uma organização consciente que dependa de nossa vontade,para não estarmos obrigados a nos submeter à uma organização inconsciente e involuntária. Tentando fazer triunfar algo de determinado e preciso, existe a necessidade de organizar-se de fato e não apenas nominalmente, porque há necessidade de quantidade e não somente de consciência. Sermos numerosos em nada nos atrapalha… Não se pense porém que queiramos colocar em antítese os termos consciência e quantidade. Poderemos ser numerosos, mantendo nossa consciência,de resto, mesmo se os conscientes forem pouco numerosos, ter o auxílio dos menos conscientes não os tornará decerto inconscientes. Isto sem contar com o fato de que os menos conscientes,em contacto com os mais conscientes na organização, adquirem a consciência que lhes falta, mais ou menos segundo a sua inteligência e boa vontade.Mesmo quando não se está organizado, não ocorre igualmente que muitos inconscientes sejam atraídos para a órbita da ação por al-gum grupo ou indivíduo mais simpático, inteligente ou ativo? A diferença , neste caso é somente a de que muitos daqueles que poderiam ser atraídos para o terreno da luta, para auxiliá-la e em seguida tornar-se conscientes da ausência de organização, são deixados na obscuridade e na inércia…

Mas entendamo-nos bem sobre esta bendita consciência!

“Se nos dizem: ou vossa organização reúne conscientes, sendo então inútil ( existe um erro, mas deixemos de lado) ou ela reúne inconscientes e então é perigosa porque desvia-se e torna-se centralizada e autoritária”, etc.

Lembremo-nos primeiramente que se aqueles que se dizem anti-organizadores, na prática são obrigados a organizar-se, se não querem isolar-se da vida e da luta; a objeção vale também para aqueles que usam a organização. Mas o dilema acima é uma falsa objeção. Não existem conscientes ou inconscientes de maneira absoluta; a consciência é uma coisa relativa e multiforme. Existem os mais conscientes e os menos conscientes; e entre o absoluto (inexistente, ali-ás) da consciência/virtude e da inconsciência/vício, existe uma escala de gradações tão longa quanto a escada de Jacó. Alguém pode ser desta forma um revolucionário consciente e um anarquista pouco coerente ao mesmo tempo; ao passo que um anarquista coerente até o escrúpulo carola pode tornar-se diretamente a própria negação de um revolucionário. Não obstante, tanto um quanto o outro são úteis para a anarquia.

De resto, se alguns destes ditos inconscientes aceitam permanecer em uma organização anarquista e nos auxiliam na luta, isto será sempre melhor e sempre nos trará mais ganho do que a hipótese contrária; de qualquer forma, estes serão mais conscientes do que aqueles que permanecem no obscurantismo e jazem na inação, o que, pior ainda, militam contra nós como força bruta nas mãos do padre ou do delegado de polícia. Se a organização servisse apenas para criar número (e ela, ao contrário, serve para fazer muitas outra coisas) – mesmo sem ter em conta a cultura que difunde, o conhecimento de idéias que o contato contínuo com os organizados permite aumentar – mesmo que se tratassem só de números, dizíamos, ela ainda seria útil como fator de consciência individual e coletiva.

Mas, a propaganda determinada pelos anarquistas organizadores é também uma forma de manifestação para preparar a sociedade futura: trata-se de uma colaboração com a finalidade de constituir um jeito de influenciar o meio ambiente e de modificar as suas condições. Outros também trabalham de acordo com a mesma obra. Nós queremos trabalhar da maneira que acreditamos seja a mais eficaz, escolhemos assim certas formas de luta que estão mais conforme à nossa maneira de ver e até mesmo ao nosso temperamento, se assim se quiser. De qualquer forma este seria apenas um modo, como outro qualquer, da divisão de trabalho.

Justamente, por contribuir mais poderosamente para a formação de um meio livre, por influenciar o proletariado e por lançá-lo na luta contra o capital da maneira, a mais proveitosa e orgânica, nós, que temos uma concepção especial da luta e do movimento, pretendemos doravante colocarmo-nos em acordo sobre o modo que, sem desperdiçar nossas forças, possamos dar uma tal contribuição e exercer tal influência.

Se isso atrair o proletariado para as nossas fileiras, para nosso partido, melhor; isto significa que soubemos fazer bem a propaganda e que soubemos nos aproximar da revolução e do triunfo da anarquia.

A organização anarquista deve ser a continuação de nossos esforços e da nossa propaganda; ela deve ser a conselheira libertária que nos guia em nossa ação de combate cotidiano. Podemos nos basear em seu programa para difundir a nossa ação em outros campos, em todas as organizações especiais de luta particulares nas quais possamos penetrar e levar nossa atividade e ação: por exemplo nos sindicatos, nas sociedades anti-militaristas, nos agrupamentos anti-religiosos e anti-clericais, etc. Nossa organização especial pode servir igualmente como um terreno para a concentração anarquista (não de centralização!), como um campo de acordo, de entendimento e de solidariedade a mais completa possível entre nós. Quanto mais estivermos unidos menor será o perigo de que sejamos arrastados nas incoerências ou, que desviemos nosso ímpeto de luta para batalhas e escaramuças aonde, outros que não estão de forma alguma de acordo conosco, poderiam cortar-nos as mãos.

E se nossa organização chegar a ser assim, não somente de nome mas também de fato, se ela conseguir estabelecer vínculos sólidos e seguros de amizade e de camaradagem entre todos os anarquistas e se obtiver o seu acordo ativo sobre os principais postulados de nosso programa, então tal organização será um órgão poderoso e útil para a ação, depois de ter sido um instrumento de preparação. Uma organização adaptada a tal finalidade não se improvisa. Não podemos esperar vê-la surgir dos eventos ao invés de prevê-los, agindo assim corremos dois riscos: ou nos vemos na obrigação de subitamente nos colocarmos de acordo sobre bases pouco seguras e pouco libertárias, ou nos deixaremos surpreender (o que infelizmente é o caso mais provável) como tolos pelos próprios eventos.

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Uma das objeções mais freqüentes ao conceito de organização não apenas local mas também regional e nacional, realizada através do método federalista é a de que ela pode nos fazer cair na incoerência com o conceito anti-autoritário da anarquia.

Para mais uma vez falar desta coerência bendita é necessário que tornemos preciso o seu conteúdo! Muitos são aqueles que possuem a “coerência”, que se torna tão elástica ao ponto de ampliar-se ou restringir-se segundo aquele que a adapta.

Podemos aplicar muitas vezes aos anarquistas das diferentes frações, parafraseando-a, a conhecida divisa que Ferrero atribui aos selvagens: “aquilo que faço, eu e meus amigos, é coerente; aquilo que fazem os que pensam diferentemente de mim é incoerente. E dessa maneira podemos nos excomungar mutuamente até o infinito, pois cada um saberá encontrar uma maneira de demonstrar que seu adversário é incoerente com as idéias e que portanto não é um bom anarquista”. Isso é tanto mais verdade quanto os princípios de anarquia que são tomados por base variam de interpretação de indivíduo para indivíduo e de um grupo para outro.

O que significa esta coerência que se arbora a todo momento, especialmente por aqueles que nada fazem, contra aqueles que gostam de mexer-se e de agir?

Isto significa nada fazer na prática, que esteja em contradição com a teoria. Uma proibição que, como se vê, os individualistas são os primeiros a não reconhecer, eles que se dizem escrupulosamente ou melhor literalmente partidários do “faz o que queres” de Rabelais, mal digerido.

Para que exista coerência entre teoria e prática, é preciso antes de mais nada que seja definido o programa teórico, nos limites do qual a prática se apóie para não contradizê-lo. E o nosso programa já foi muitas vezes dito e redito para que nós aqui não nos estendamos muito para falar dele.

A anarquia significa ausência de governo, ausência de qualquer organização autoritária e violenta através da qual, com violência ou ameaça de violência, obrigue-se o homem a fazer aquilo que não quer e a não fazer aquilo que quer. Ausência portanto não apenas de organismo governamental, cujas leis proíbem e/ou impõem fazer aquilo que os legisladores estabeleceram, mas também ausência do patrão que impõe a sua vontade dando ao seu bel prazer mais ou menos pão aos estômagos dos proletários; ausência também do padre que impele a todos a inclinar-se diante dele, impelindo especialmente o povo a obedecer o governo e o patrão, com a violência moral da religião (ameaça de uma violência terrível: o inferno após a morte).

Ora, para ser incoerente com os princípios da anarquia em uma organização de anarquistas, seria preciso que esta organização se opusesse a um tal programa, criando em seu seio uma autoridade que tivesse a autorização e a possibilidade de impor ao seus associados, com a violência de sua vontade ou com a vontade da maioria. Qualquer um vê que em nossas organizações tal coisa é praticamente impossível, para não dizer absolutamente impossível. Como querer que uma coletividade de anarquistas autorize uma ou várias pessoas a impor a sua vontade? Na hipótese absurda de que eles assim o quisessem (e então ela não seria mais uma associação de anarquistas pelo próprio fato de que estes últimos quiseram tal coisa), onde conseguiriam um meio de constituir tal autoridade que pudesse constranger com violência seus subordinados a fazer aquilo que não querem?

O movimento revolucionário anarquista é uma luta contra a manifestação violenta e coercitiva da autoridade. E os partidos nos quais tal coerção não se exerça – e para que não se falsifiquem minhas palavras, entendo por violência a violência material direta ou a ame-aça de tal, contra quem o constrangimento se exerce – , tais partidos não são autoritários na prática. Para sê-lo, mesmo não possuindo organismos violentos, é preciso que optem pela violência deliberadamente, por programa e por princípio.

Por exemplo, o partido republicano, o partido socialista e numerosas organizações operárias são autoritárias não porque verdadeiramente exerçam uma autoridade violenta, não porque estejam organizados, mas simplesmente porque sua finalidade é autoritária, suas idéias e seus programas admitem ou até mesmo exigem como necessária a autoridade, seus métodos de luta política apóiam-se, através do legalismo e do parlamentarismo, na autoridade, na ação dos governos e da sociedade burguesa.

Para os anarquistas tal coisa é impossível, do momento em que uma insuperável barreira os separa duplamente dos meios governamentais e burgueses: a idéia anti-autoritária e a prática intransigente, extra legal, anti-parlamentar e revolucionária.

Ocorre com as organizações aquilo que acontece com muitas coisas. Já vimos degenerar os partidos políticos existentes até hoje e alguns atribuem a razão disto ao fato de eles serem organizados. Mais aí inverte-se a causa e o efeito. A organização republicana, socialista e operária degenerou-se, em um sentido autoritário e legalista pela simples razão de conter em si o gérmen de tantos males. A própria idéia de que sem autoridade nada pode subsistir, este gérmen, foi cultivada intensamente com a prática legalista da participação nas funções autoritárias dos organismos estatais e burgueses.

A organização anarquista possui um forte antídoto contra este gérmen do autoritarismo: a tática anti-parlamentar e anti-legislativa, intransigente para com todos os organismos governamentais. É por isso que sou anti-parlamentarista intransigente, é por isso que tantos anarquistas não cedem uma linha sequer – sem pretexto algum de oportunismo ou utilidade momentânea – eles poderão enfraquecer um pouco, por outras razões, seu espírito revolucionário, mas permanecerão sempre anarquistas na alma e na palavra; e então o espírito revolucionário ressurgirá pelo próprio impulso da idéia. Se a sua organização tem como fundamento um programa que precise a ação, não é possível que a idéia se torne autoritária, porque ela não tem necessidade, nem possibilidade, nem mesmo a oportunidade de tal transformação, sem ter que renegar completamente a idéia, de toda a prática, toda a história e mesmo o próprio termo anarquia.

Para assim fazê-lo, seria preciso deliberadamente e aprioristicamente mudar totalmente o caminho, dar as costas a teoria e o movimento e dizer: não somos mais anarquistas.

A organização não é um órgão consciente em si, que guie os seus membros; são estes membros que a fazem segundo seus próprios critérios teóricos e práticos. A organização não pode transformar anarquistas em não anarquistas, mas sim os anarquistas que mudando-se a si mesmos podem transformar uma organização anarquista em autoritária. Pois bem, enquanto os anarquistas estando organizados, permaneçam anarquistas, conservando o ideal e continuando a fazer a sua propaganda, e a perseguir a tática sustentada até agora, o medo de desvios e incoerência gerado apenas pelo fato da organização, permanece irrealista e até mesmo pueril.

Já disse que é preciso conceber a coerência com as idéias de maneira relativa, que é preciso conceber todas as coisas e idéias de maneira relativa, porque não quero excluir, mesmo que isso me pareça impossível, a possibilidade do erro.

Falando da abolição da autoridade e da liberdade, existem alguns anarquistas que entendem por isso também a eliminação da autoridade não coercitiva, da disciplina moral que surge da necessidade de união de várias pessoas, no terreno de um pacto recíproco de convivência e ajuda mútua.

Eles não pensam que a liberdade absoluta do homem não existe, não conside-ram que ela seja uma coisa totalmente relativa determinada por causas exteriores e submetidas a estas.

A liberdade é em suma a possibilidade de poder satisfazer todas as nossas necessidades físicas e psíquicas e de não suportar predominância alguma por parte dos outros. Tal liberdade é impossível sem organização.

E prestem atenção, não estou me referindo apenas aos tempos felizes quando viveremos em anarquia! Quero dizer que, organizando-nos, podemos mesmo hoje gozar de maior liberdade do que a que teríamos se estivéssemos isolados. Unidos podemos melhor resistir à dominação do patrão e do governo, unidos podemos melhor satisfazer nossa necessidade de ação propagandística e revolucionária, temos assim diante de nós um campo mais vasto de lutas e maiores meios à nossa disposição; e isso não impede a cada um de nós de explicar a mesma coisa e de exercer melhor as formas de atividade essencialmente individuais.

Quando afirmamos querer nos organizar, fixamos também o porquê da nossa organização; esta deve servir para agir lá aonde, isolados ou em pequeno número, a coisa fosse impossível ou difícil. Naturalmente, quando a força de um só basta, este, mesmo estando organizado, atua por si sem recorrer aos outros, porque suas forças lhe bastam. Da mesma forma o grupo não recorre aos outros grupos federados para coisas que pode realizar sozinho.

Toda organização libertária aparece na medida em que há necessidade da união em grupo para realizar uma dada meta; assim como, para realizar outras, é necessário federar grupos, e assim por diante.

Muitos nos objetam que toda coletividade é suscetível de dividir-se em maioria e minoria, e que, em muitos casos a organização fará com que a minoria deva submeter-se a maioria. Nós, ao contrário, não admitimos dominações deste tipo, e por isso não damos nem à maioria nem à minoria o direito e os meios de poder se impor.

Certamente, uma divisão de pontos de vista e de opiniões podem surgir. Se a discórdia brota das idéias e da tática fundamental, é preciso que as duas partes se separem, pois elas constituem, a partir de então, dois partidos distintos. Foi desta forma que nós, anarquistas, quando a diferença apareceu como irremediável e muito grande, separamo-nos dos socialistas autoritários no seio da Internacional.

Ao contrário, se existem divisões sobre questões de importância menor, que não dizem respeito ao movimento e às idéias gerais, cada um pensa e atua, fora da organização, à sua maneira, sem erguer obstáculos ao trabalho comum da organização.

Mas, se for no próprio seio da organização que o desacordo surgir, que a divisão entre maioria e minoria aparecer por questões secundárias, sobre modalidades práticas ou sobre casos especiais, então não se pode acusar de incoerência nenhuma parte nem outra; então poderá ocorrer com maior ou menor facilidade que a minoria se incline a fazer conforme a maioria. Mas, como esta condescendência somente pode ser voluntária, todo o caráter de autoridade e coerção está ausente. Se o partido quer fazer um congresso e todos são unânimes na vontade de se reunir com anarquistas do mundo inteiro, se existe apenas uma diferença sobre o local da reunião, uns propondo Roma e outros Paris por exemplo, é preciso que uns ou outros cedam. E naturalmente cederão, se neles for forte a necessidade e o desejo de reunir-se; como é natural que sejam os menos numerosos que cedam pois mesmo estes serão da opinião de que é preferível, para a economia geral das forças, que seja uma minoria e não uma maioria quem suporte um dado inconveniente.

É conhecido o fato de que os adversários da organização federal, por oposição a nós, declarem-se autonomistas, e denominem autônomos seus grupos; é bom lembrar, de uma vez por todas, que todos somos autonomistas, quer dizer partidários da autonomia individual nos grupos, da autonomia dos grupos na federação e no partido. Isto para evitar, mesmo sob forma lingüística, as derradeiras aparências de formalismo que nos são reprovadas.

Este termo formalismo é erroneamente empregado a nosso respeito: ou ele quer dizer dar forma as idéias e a luta, e isto então é tão natural que todos são obrigados a utilizá-lo, ou então significa a adoração das formas com a negligência da substância, e então nós, anarquistas, não merecemos tal pecha, que não se justifica por nenhum fato positivo.

São justamente estas vagas acusação de “formalismo”, “autoritarismo”, “artificialismo”, que formam o patrimônio polêmico dos adversários da organização. Estas palavras abstratas possuem um significado tão amplo e uma interpretação tão vasta, que podem ser lançadas contra qualquer adversário contra o qual não se tenha outros argumentos válidos. Certamente elas causam efeito, e sempre é embaraçoso defender-se delas; elas são muito úteis àquele que possui a habilidade de delas servir-se primeiro. Mais são palavras ocas de sentido, a partir do momento em que ninguém torna preciso qual formalismo ou qual autoritarismo é verdadeiramente nocivo e conflitante com as doutrinas anarquistas e possíveis em uma organização anarquista. Não se trata portanto do vago espantalho do formalismo, mas sim de certas formas autoritárias e determinadas de organização, que bem conhecemos, que é necessário combater dentro de nós, assim como as criticamos em outros partidos. Tais formas são tão visíveis, que não devemos temer que seduzam o mais inconsciente dos anarquistas, muito menos ainda uma coletividade anarquista inteira.

Outra grave acusação que se faz à organização federal dos anarquistas é de ser esta “artificial”. Mas todas as coisas que se fazem, que são feitas pelo homem, salvo os movimentos totalmente involuntários, são artificiais; isto porque as coisas naturais não bastam, e são muitas vezes perigosas. O raio é natural, mas contra ele preferimos adotar o artificial pára-raios, e muito embora sejam o câncer e a tuberculose igualmente naturais, milhares de médicos esgotam-se a buscar um meio artificial para curá-los, e fazem muito bem. A propaganda é também uma coisa artificial; que quanto mais for feita com arte, mais proveitosa será. Por que não poderia existir uma organização, com fins de propaganda, a partir do momento que esta se tornasse importante?

Todo o medo dos anti-organizadores vem da forma, do artifício, do método; eles observam que uma forma de organização, um nome, um método foram adotados por nossos inimigos e daí concluem pela condenação em bloco destes. Não conseguem realizar o raciocínio muito simples de que muitas destas formas, destes termos e destes métodos são inofensivos em si, e que não tem outro valor senão o do seu conteúdo. Se lhes for dado um conteúdo anarquista, estarão com perfeita coerência com a anarquia. Existem também, natural-mente, formas que são unas com a substância, e estas podem ser ou não anarquistas; mas este não é o caso da organização, ela sozinha não basta para fazer surgir uma autoridade ao contrário, composta por anarquistas, ela se torna um obstáculo à autoridade.

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Encontra-se outro motivo de incoerência na pretensa facilidade com a qual, nas organizações, os indivíduos mais inteligentes, mais simpáticos, mais ativos ou mesmo mais falsos possam se tornar verdadeiras autoridades sobre a massa, apresentando o perigo de fazê-la desviar-se. Demonstrei acima que este perigo é maior entre os não organizados, e que, ao contrário, a organização serve para combater e não para facilitar tal perigo.

De qualquer maneira, o perigo permanece, mesmo que reduzido e mesmo que o elemento determinante não seja a organização. Mas haveria uma verdadeira incoerência disto com a idéia anarquista? Não o creio, porque se assim o fosse, a anarquia seria impossível. Os homens nunca serão psíquica e fisicamente iguais e mesmo que as disparidades enormes tendam a desaparecer, sempre haverá homens de talento e homens medíocres, ativos e inativos, simpáticos e antipáticos e uns terão sempre sobre os outros uma indiscutível superioridade moral e talvez isto fique muito mais claro quando não houver mais tiranias materiais.

A anarquia, como aspiração positiva de batalha, é a destruição das tiranias materiais, ela nada mais tem a opor às autoridades morais se não a ciência. A própria ciência representa uma fonte de autoridades morais. Quem não reconheceria em anarquia a autoridade do médico em questões de higiene ou do arquiteto em construção? Da mesma forma existiria a autoridade moral do gênio, do homem simpático, do ativo, etc.; a anarquia não deixaria de existir por isso, a partir do momento em que nem o médico, nem o arquiteto, nem o homem genial ou ativo e nem o falso puderem fazer valer a sua autoridade sem que os outros queiram a ela se submeter. A organização social anarquista não colocará à disposição nenhum meio de constranger a vontade do outro. Tal fenômeno trará com certeza inconvenientes mas jamais pensamos que na anarquia inconvenientes como esse desaparecessem e que nós, de alguma forma, nela retornássemos ao paraíso terrestre.

Nem mesmo ousamos afirmar que, nas organizações anarquistas que existem no seio da sociedade atual, não possam ocorrer muitos inconvenientes. Ao contrário, eles não são fruto da organização, pois existiriam mesmo sem ela, talvez até mais intensos; não representam em si mesmos uma incoerência com a idéia anarquista.

“Mas e os cargos? – poderá alguém objetar – não se assiste nas organizações anarquistas à nomeação de comitês executivos, comissões de correspondências, secretariados, etc.? Não seriam estas já verdadeiras autoridades e governos em miniatura?”. Respondo que não, antes de mais nada porque estes indivíduos não dispõem de nenhum meio para impor sua vontade aos associados, sendo dado que eles devem fazer aquilo que foram autorizados a fazer. Não são autoridades porque, se o fossem, a própria existência da sociedade civil e humana não seria possível.

Em toda a convivência existe divisão de trabalho entre os associados; alguns deles devem se encarregar de funções sociais necessárias e úteis a todos. Tais funções possuem hoje em dia um caráter autoritário porque são exercidas em grande parte por organismos autoritários, mas não são em si a autoridade.

Muito recaem no equívoco seguinte: eles vêem uma função indiscutivelmente útil exercida de maneira dominadora e má pelo governo ou pelo capitalista; concluem que a origem desta coisa má e desta dominação é a função e exigem a sua supressão. Creio que nenhum anarquista sustentará que em anarquia se deva abolir o serviço postal ou o ferroviário somente pelo fato de que hoje os correios e estradas de ferro são geridos de maneira infame pelo estado capitalista. O que vale para a sociedade futura vale para as organizações anarquistas, que delegam a alguns de seus membros responsabilidade para cumprir uma função deter-minada e não para exercer um poder. Delegação de função e não delegação de poder. Não se pode fazer mais do que a delegação de função no momento em que em certo círculo não podem todos os camaradas ser ao mesmo tempo o tesoureiro ou o secretário, da mesma forma de que não podem todos porem-se a realizar uma função para qual basta o trabalho de um só.

A necessidade de tais mandatos amplia-se e torna-se mais forte quando a organização é maior e o seu campo de atividade mais amplo. Mais basta, para suprimir todo o perigo de autoritarismo delimitar e definir muito bem as funções que devem ser cumpridas; que os delegados não possam agir em nome da associação a não ser quando seus membros lhes tenham explicitamente autorizado; eles devem executar somente aquilo que os associados decidiram e não ditar aos associados o rumo a seguir. Agindo assim, mesmo a mais longínqua suspeita de incoerência fica afastada.

Se algum gérmen de autoridade pode se personificar nestes representantes da associação este seria uma autoridade moral , sem perigo de que possa se transformar em autoridade coercitiva de fato. E um tal tipo de autoridade assim surgida nunca seria tão forte como aquela que um companheiro ativo e inteligente pode desenvolver em um meio desorganizado. Hoje, até mesmo nas associações burguesas, um tesoureiro, um secretário ou um comitê executivo, mesmo que tenham prerrogativas formais, na prática não concentram tanto poder. Por que isto seria possível em uma associação anarquista? Não se trata simplesmente de um inútil sofisma doutrinário?

É uma besteira dizer que os anarquistas querem se organizar para macaquear os partidos autoritários, porque crêem que estes devem os seus progressos ao fato de estarem organizados.

A verdade é que os partidos autoritários fizeram progressos não somente na maneira de estarem organizados, mas também na própria organização; uma não exclui a outra e a união resultante tem uma força apreciável.

A organização não possui, é verdade, uma vida mágica, mas ela pode acrescentar força e capacidade de ação aos aderentes desde que eles sejam “homens e não carneiros”. Uma organização feita por anarquistas com uma meta anarquista, seja qual for o termo pelo qual ela se define, velho ou novo, não pressupõe em si nenhum espírito autoritário inerente. Ela deverá o seu caminho apenas parcialmente à organização, pois segue uma idéia libertária; do mesmo modo que os partidos autoritários depois de terem tanto caminhado através da organização, começam agora a recuar não por causa da organização, mas simplesmente porque a sua meta residia nos meios e fins deliberadamente autoritários e anti-revolucionários.

Assim, por exemplo, a insurreição será útil para a revolução, mais podem existir igualmente insurreições reacionárias. Houveram insurreições sanfedistas ou favoráveis aos Bourbons, mas seria este o motivo para os patriotas italianos negarem a utilidade da insurreição para a libertação do jugo estrangeiro? A organização em suas formas serve aos autoritários, mas nelas não existe nada de contraditório que nos proíba de delas nos servirmos também.

Todas as dificuldades residem no fundo nas denominações; a uns não agrada o termo “partido”, a outros o de “organização”. Desta forma alguns criticaram o fato dos anarquistas terem constituírem uma federação do Lacio e quererem construir uma italiana bem como existam federações e partidos alemães, holandeses, boêmios, etc. Como se quiséssemos desta forma reconstruir o princípio das nacionalidades! Aí reside verdadeiramente o formalismo, e do pior!…

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De maneira alguma, o conceito de organização federal de indivíduos em grupos e de grupos em federações regionais, nacionais e internacionais, é contraditório com os princípios de liberdade do anarquismo.

Esta coerência com o método libertário no seio da sociedade burguesa não está reservado às organizações anarquistas. Existem e podem existir associações compostas também por não anarquistas que em seu funcionamento interno sejam libertárias, isso em nada atrapalha, mas ao contrário facilita as suas metas particulares. Elie Reclus encontrou exemplos de agrupamentos libertários em povos primitivos que não são regidos pela anarquia; Pedro Kropotkin nos fala de associações libertárias entre animais, entre selvagens, entre os artesãos e nas comunas da idade média. Para demonstrar a existência, na sociedade moderna, de uma forte tendência para o comunismo e a anarquia, Kropotkin e Eliseé Reclus nos trazem numerosos exemplos de associações comerciais, industriais, de beneficência, científicas e artísticas que, muito embora não tendo uma finalidade anarquista, são em sua organização interna bastante libertárias. Se uma tal possibilidade não se exclui para indivíduos não anarquistas, associados para metas absolutamente burguesas, por quê deveríamos excluí-la para nós? Por quê deveríamos negar a possibilidade de associar-nos em bases libertárias nós, que somos anarquistas e que nos propomos uma meta essencialmente anti burguesa e anti autoritária?

Autonomia e organização estão longe de ser termos contraditórios: ao contrário, exprimem com precisão o conceito que os anarquistas tem do indivíduo e da sociedade. “Autonomia e federação são as duas grandes fórmulas do futuro – diz nosso amigo Charles Malato – a partir de hoje, é nesta direção que se orientarão os movimentos sociais.” Esta é também nossa idéia, pois pensamos que a organização encontra na forma federativa a melhor forma de se desenvolver em um sentido verdadeiramente anarquista.

Roma, 15 de Junho de 1907

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