Organização Específica Anarquista, A: Propaganda Anarquista

PARTE 11 – A Organização Específica Anarquista: Propaganda Anarquista

Parte 11/16 de “Anarquismo Social e Organização”

A organização específica anarquista também se dedica à propaganda anarquista.

ANARQUISMO SOCIAL E ORGANIZAÇÃO

A ORGANIZAÇÃO ESPECÍFICA ANARQUISTA: PROPAGANDA ANARQUISTA

A organização específica anarquista também se dedica à propaganda anarquista. “A propaganda não é e não pode ser, senão a repetição contínua, incansável, dos princípios que devem servir-nos de guia na conduta que devemos seguir nas diferentes circunstâncias da vida.”[157] Assim, entendemos a propaganda como a disseminação das idéias do anarquismo, e, portanto, uma atividade fundamental da organização anarquista. Seu objetivo é fazer o anarquismo ser conhecido e atrair pessoas para nossa causa. A propaganda é uma das atividades da organização anarquista e não a única atividade. Ela deve ser realizada constantemente e de maneira organizada.

“A propaganda da organização deve ser feita ininterruptamente, bem como a propaganda de todos os outros postulados do ideal anarquista”.[158] Para ter força, a propaganda precisa ser realizada constantemente. Uma propaganda que é feita de vez em quando, não é suficiente para fazer o anarquismo conhecido e muito menos para aproximar pessoas. Portanto, a primeira afirmação que fazemos é que a propaganda deve ser contínua.

Além disso, a propaganda não deve ser feita de maneira isolada, visto que, como toda atividade não-coordenada, não possui a força desejada. Como vimos, a organização – entendida como a coordenação de forças para a realização de um objetivo – multiplica os resultados do trabalho individual, e isto também vale para a propaganda. Quando estamos organizados, o resultado de nosso trabalho de propaganda – seja esta propaganda teórica ou prática – é multiplicado, e atinge resultados bem superiores à simples soma dos esforços individuais. Portanto, a segunda afirmação que fazemos é que a propaganda deve ser feita de maneira organizada, pois isso multiplica seus resultados.

A propaganda isolada, casual, que se faz muitas vezes para acalmar a própria consciência ou como simples alívio da paixão pela discussão, serve pouco ou nada. Nas condições de inconsciência e de miséria em que se encontram as massas, com tantas forças que as opõem, tal propaganda se esquece antes que seus esforços possam se acumular e terem resultados férteis. O terreno é muito ingrato para que sementes lançadas ao acaso possam germinar e enraizar-se.[159] Defendemos que a organização específica anarquista utilize todos os meios que estiver a sua volta para a realização desta propaganda constante e organizada. Primeiramente, no que diz respeito ao âmbito teórico, educacional e/ou cultural com a realização de cursos, palestras, debates, conferências, grupos de estudo, páginas na internet, e-mail, teatro, boletins, jornais, revistas, livros, vídeos, músicas, bibliotecas, atos públicos, programas de rádio, programas de televisão, escolas libertárias etc. Damos muito valor a toda esta propaganda e pensamos que ela é fundamental para atrair pessoas e fazer com que conheçam as críticas e também as propostas construtivas do anarquismo. Assim, é possível desenvolver nas pessoas valores antiautoritários, estimular suas consciências, fazer com que enxerguem a exploração e a dominação de maneira mais crítica, que vejam alternativas de luta e de organização. Estas pessoas podem se aproximar, buscar aprofundar seu conhecimento, envolver-se nas discussões e também organizar-se para a ação.

Este tipo de propaganda, quando realizado em grande escala, é fundamental, pois funciona como um “lubrificante” social que, aos poucos, modifica a cultura em que vivemos e faz com que a introdução das idéias e práticas anarquistas na sociedade seja mais fácil. Este trabalho massivo de propaganda transforma, aos poucos, a consciência das pessoas e faz com que a ideologia do capitalismo, que já é transmitida em forma de cultura, seja mais questionada e até menos reproduzida. Como entendemos a consciência como uma capacidade que as pessoas possuem de conhecer valores e princípios éticos e de aplicá-los, acreditamos ser esta atividade de propaganda bastante relevante para o ganho permanente de consciência.

Em um primeiro momento para afastar preconceitos e a cultura capitalista; depois, para fazer com que as pessoas passem a ver o autoritarismo de maneira crítica. Finalmente, para levar parte destas pessoas para a luta contra este autoritarismo. Entendemos que qualquer processo de transformação social de objetivos finalistas como os que propomos, dependerá de uma aceitação, ou no mínimo da “não-rejeição”, de setores amplos da população. E a propaganda, neste sentido teórico, educacional e/ou cultural, contribuirá significativamente com isso. Assim, “a propaganda determinada pelos anarquistas organizadores é também uma forma de manifestação para preparar a sociedade futura: trata-se de uma colaboração com a finalidade de constituir um jeito de influenciar o meio ambiente e de modificar as suas condições”[160]. No entanto, devemos entender os limites desta propaganda.

A propaganda que diz respeito a este âmbito teórico, educacional e/ou cultural tem como principal objetivo aumentar o nível de consciência. Portanto, visa transformar as idéias das pessoas. E este é o motivo de enxergarmos neste modelo de propaganda sérios limites. Este ganho de consciência não significa, de maneira alguma, que a exploração e a dominação da sociedade capitalista tenderão a diminuir. Não significa também que, necessariamente, as pessoas irão se organizar para lutar. Hoje, os grandes meios de comunicação e mesmo o crescimento das cidades, a fragmentação comunitária, dentre outros fatores, dificultam muito a propaganda em escala massiva e devemos lembrar que, mesmo quando não havia estas dificuldades, e quando a propaganda anarquista era muito forte – com centros de cultura funcionando permanentemente, jornais com tiragens altíssimas e periodicidade diária – a transformação social não foi garantida. No limite, podemos considerar que, ainda com todas as dificuldades que existem para realizarmos uma propaganda “de massa”, o ganho de consciência não significa obrigatoriamente organização e luta e nem o fim, ou mesmo a diminuição, da exploração e da dominação. Poderíamos dizer que, em uma situação hipotética, em que todos estão conscientes, ainda assim, continuaríamos a ser explorados e dominados. Portanto,
[…] nem os escritores, nem os filósofos, nem as suas obras, nem enfim os jornais socialistas, constituem ainda o socialismo vivo e forte. Este último só encontra existência real no instinto revolucionário esclarecido, na vontade coletiva e na organização […] – e quando este instinto, esta vontade e esta organização faltam, os melhores livros do mundo não são senão teorias no vazio e sonhos impotentes.[161] Por este motivo justificamos que, além da propaganda que se dá no âmbito teórico, educacional e/ou cultural, devemos sustentar também, e principalmente, uma propaganda que se dá na luta e na organização, ou seja, uma propaganda no trabalho social, com vista à inserção social.

Ao se dar no âmbito da luta de classes e dos movimentos sociais, o trabalho de propaganda anarquista tem por objetivo mobilizar, organizar e influenciar os movimentos sociais com a prática anarquista. Recordemos, insistentemente, que a influência dos movimentos pelo anarquismo significa buscar que tenham as características que defendemos: força, classismo, combatividade, autonomia, ação direta, democracia direta e perspectiva revolucionária. Para conseguir esta influência, a organização específica anarquista realiza sua propaganda, enfaticamente, por meio das palavras, e principalmente do exemplo[162].

Entendemos todo o processo de trabalho e inserção social que tratamos anteriormente como o principal trabalho de propaganda que a organização anarquista deve desenvolver. Na luta, enquanto minoria ativa, os anarquistas criam movimentos sociais, integram movimentos já existentes e buscam influenciá-los o quanto for possível, sempre pelo exemplo, a funcionarem da forma mais libertária e igualitária possível. Este trabalho se trata, portanto, de educar para a liberdade, de elevar a consciência da sua [do trabalhador] própria força e da sua capacidade a homens habituados à obediência e à passividade. É necessário, portanto, proceder de maneira que o povo atue por si mesmo ou pelo menos que ele creia fazê-lo por instinto e inspiração própria, ainda que, na realidade, a coisa lhe tenha sido sugerida.[163] Desta forma, a propaganda anarquista serve para todo o processo de trabalho dos anarquistas enquanto minoria ativa no seio dos movimentos sociais e na própria criação da organização popular.

Quando fazemos propaganda anarquista, devemos pensar, necessariamente, no campo mais propício para isso. Entendemos que a melhor propaganda é aquela que realizamos em meio aos movimentos sociais que dão forma à luta de classes. Desta maneira, buscando as conquistas de curto prazo, trabalhando em meio ao povo organizado pela necessidade, entendemos poder plantar as sementes do nosso anarquismo por meio da propaganda, e conduzir a sociedade a um processo revolucionário que abra caminho ao socialismo libertário. Não que outras alternativas não nos sirvam, mas esta reflexão de “onde e para quem fazer propaganda” deve sempre ser feita.

Notas:

157. Errico Malatesta. “Programa Anarquista”. In: Escritos Revolucionários, p. 7.

158. Luigi Fabbri. “A Organização Anarquista”. In: Anarco-Comunismo Italiano, p. 97.

159. Errico Malatesta. “La Propaganda Anarquista”. Excerto de L’Agitazione, 22 de setembro de 1901. In: Vernon Richards. Op. Cit. p. 172.

160. Luigi Fabbri. “A Organização Anarquista”. In: Anarco-Comunismo Italiano, pp. 115-116.

161. Mikhail Bakunin. “Algumas Condições da Revolução”. In: Conceito de Liberdade, p. 130.

162. No Regulamento da Seção da Aliança da Democracia Socialista de Genebra, redigido por Bakunin, ele recomenda: “Não se pode tornar seu membro sem ter aceitado, sincera e completamente, todos os seus princípios. Os membros antigos são obrigados e os membros recentes têm de prometer fazer à sua volta, segundo suas possibilidades, a mais ativa propaganda, tanto pelo seu exemplo, como pelas suas palavras” [grifos nossos]. Ver Conceito de Liberdade, p. 201.

163. Errico Malatesta. “La Propaganda Anarquista”. Excerto de L’Adunata dei Refrattari, 26 de dezembro de 1931. In: Vernon Richards. Op. Cit. p. 170.

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