OEA: Necessidade de Estratégia, Tática e Programa

PARTE 14 – A Organização Específica Anarquista: Necessidade de Estratégia, Tática e Programa

Parte 14/16 de “Anarquismo Social e Organização”

É imprescindível que a organização específica anarquista trabalhe com estratégia. Podemos definir estratégia, a partir da formulação de respostas para três questões: 1.) Onde estamos? 2.) Onde queremos chegar? 3.) Como pensamos sair de onde estamos e chegar onde queremos? A estratégia é, então, a formulação teórica de um diagnóstico da presente situação, a concepção da situação em que se deseja chegar e de um conjunto de ações que terão por objetivo transformar a presente situação, fazendo-a chegar na situação desejada.

ANARQUISMO SOCIAL E ORGANIZAÇÃO

A ORGANIZAÇÃO ESPECÍFICA ANARQUISTA: NECESSIDADE DE ESTRATÉGIA, TÁTICA E PROGRAMA

É imprescindível que a organização específica anarquista trabalhe com estratégia. Podemos definir estratégia, a partir da formulação de respostas para três questões: 1.) Onde estamos? 2.) Onde queremos chegar? 3.) Como pensamos sair de onde estamos e chegar onde queremos? A estratégia é, então, a formulação teórica de um diagnóstico da presente situação, a concepção da situação em que se deseja chegar e de um conjunto de ações que terão por objetivo transformar a presente situação, fazendo-a chegar na situação desejada. Podemos, ainda, dizer que “entendemos a estratégia como um conjunto de elementos reunidos de maneira sistemática e coerente que aponta para grandes objetivos de tipo finalista. [… e] une os objetivos finalistas com a realidade histórica específica”[174].

Conceber nossa estratégia de transformação social é o que estamos tentando realizar neste texto. Primeiramente, refletindo sobre a primeira questão, e mapeando o capitalismo e o Estado, que dão corpo à sociedade de dominação e exploração, depois, refletindo sobre a segunda questão, tratando de conceber nossos objetivos finalistas de revolução social e socialismo libertário. Finalmente, refletindo sobre a terceira questão e propondo uma transformação social que se dê a partir dos movimentos sociais, constituídos em organização popular, em interação permanente com a organização específica anarquista. Tudo isso, considerando prioritariamente os interesses das classes exploradas. Assim, por trás da concepção de todo este material teórico, está um raciocínio estratégico. Neste caso, a estratégia foi usada para conceber uma proposta de transformação social da atual sociedade, buscando conduzi-la ao socialismo libertário, o que podemos chamar de estratégia permanente, uma estratégia muito ampla que dá conta de nossos objetivos de longo prazo.

A estratégia também pode ser concebida de maneiras menos amplas, e até mesmo restritas. Qualquer ação que a organização específica anarquista, ou mesmo os militantes, pretenda levar a cabo, pode ser concebida de maneira estratégica. Uma frente da organização anarquista, por exemplo, pode conceber seu trabalho “respondendo” assim às três questões colocadas anteriormente: 1.) Hoje não temos inserção no movimento comunitário de um determinado bairro que está crescendo muito e julgamos que lá pode ser desenvolvido um bom trabalho. 2.) Desejamos, em um ano, poder estar realizando um trabalho social regular com alguma inserção. 3.) Para isso, trataremos de realizar a aproximação deste movimento, conhecê-lo mais de perto, começar uma prática permanente de trabalho social, buscando inserção social.

Da mesma forma, um militante pode, por exemplo, fazer uma proposta de autoformação política, também respondendo às três questões. 1.) Tenho deficiências em uma determinada questão teórica que creio que isso está prejudicando minha militância. 2.) Gostaria, em seis meses, de resolver este problema, pois creio que isso vai me dar mais possibilidades na militância. 3.) Vou realizar isso, primeiramente, conversando com os companheiros mais experientes da minha organização e pedindo uma orientação de onde eu posso encontrar material sobre o assunto, depois vou ler todo o material e propor um debate com outros companheiros, finalmente, formalizarei minhas idéias em um texto e apresentarei à organização para os companheiros darem suas opiniões.

Em resumo, tudo na organização, do mais complexo ao mais simples, pode e deve ser realizado de maneira estratégica.

Na organização específica anarquista, a questão de elaboração de estratégia é tratada da maneira seguinte. Deve haver sempre um amplo debate sobre a estratégia, incluindo as três questões listadas acima. A organização anarquista deve buscar realizar um diagnóstico da realidade dentro da qual ela atua, fixar os objetivos finalistas de longo prazo, e o mais importante que é determinar os diversos períodos e ciclos de luta, cada um com seus respectivos objetivos. Essa linha “macro” (de diagnóstico, objetivos de médio e longo prazo) é chamada de estratégia e os grandes objetivos, os objetivos estratégicos. A estratégia, em seguida, é detalhada em uma linha mais “micro”, ou seja, tática, que determina os objetivos de curto prazo e as ações que são colocadas em prática por militantes ou grupos de militantes que visam atingir os objetivos táticos de curto prazo. Obviamente, o alcance dos objetivos táticos deve contribuir com a aproximação, ou mesmo com o alcance, dos objetivos estratégicos.

Quando esta linha estratégica-tática da organização está estabelecida, um plano de ação é determinado e cada militante tem uma função bem definida e objetivos claros a serem atingidos. É interessante que se estabeleçam prazos para as realizações das ações, com aferimentos dos resultados nos finais de cada período ou ciclo. Estes aferimentos são feitos por avaliações de como caminharam as atividades, se elas rumaram para onde estávamos imaginando, se erramos em alguma coisa. Em resumo: vemos se estamos caminhando rumo aos objetivos estabelecidos, ou se estamos nos distanciando deles. Se for o primeiro caso, corrigimos os erros, fazemos ajustes e prosseguimos no mesmo caminho. Se for o segundo, mudamos as ações táticas e eventualmente a estratégia, fazendo o mesmo processo novamente dentro de algum tempo. É este processo de caminhar, avaliar, prosseguir, reavaliar etc. que faz a organização caminhar com estratégia e prosseguir corretamente na luta. Assim,

[…] a estratégia proporciona somente lineamentos gerais para um período. É a tática que a encarna na realidade concreta, atual, o que a traduz em feitos. As opções táticas, à medida que respondem a problemas mais precisos, concretos e imediatos, podem ser mais variadas, mais flexíveis. Todavia, não podem estar em contradição com a estratégia. Uma concepção estratégica-tática adequada tem de levar em conta, como dissemos, a situação real e o período para o qual se prevê.[175] A estratégia deve ser a mesma, enquanto o diagnóstico da realidade em que se atuar e os objetivos forem os mesmos. “Se a situação geral experimentou mudanças muito importantes, isso alteraria as condições dentro das quais tem de trabalhar a organização e esta, se quer atuar com eficácia, teria que revisar sua estratégia para adaptá-la à nova situação.”[176] Da mesma forma funcionam os objetivos. Se os objetivos se modificam, por exemplo, em uma situação pós-revolucionária, a estratégia pode ser modificada. Disso decorre a importância tanto da compreensão da situação atual em que vivemos, e também do estabelecimento de objetivos precisos e claros, componentes imprescindíveis na elaboração da estratégia, já que “em política não existe nenhuma prática honesta e útil possível sem uma teoria e um objetivo claramente determinados”[177]. Estabelecidos o diagnóstico da presente sociedade que pretendemos transformar e “o fim a que se deseja chegar, por vontade ou por necessidade, o grande problema da vida consiste em encontrar o meio que, segundo as circunstâncias, conduza com maior segurança e de modo mais econômico ao fim pré-fixado”[178].
A linha estratégica é formalizada em um programa, que norteia todas as ações da organização e de seus militantes. “Nunca se deve renunciar ao programa socialista revolucionário, claramente estabelecido, tanto pela forma como pela substância.”[179] Entendemos, portanto, que

a estratégia deve ganhar vida em um programa de ação que estabeleça pautas gerais para um período ou etapa. Um programa deve ter suas raízes nas realidades dos diferentes níveis de nossa sociedade. Nossa estratégia não está em condições de avançar, de se desenvolver, se não tem um contato fluente com problemas concretos existentes nas distintas conjunturas que compõem uma etapa de ação.[180] Ou seja, para que a linha estratégica seja estabelecida e formalizada no programa, é imprescindível o contato com a prática, que possibilita uma teorização com conhecimento. Este contato permitirá também o desdobramento tático correto da estratégia. O programa […] constitui a plataforma comum a todos os militantes na organização anarquista. Sem esta plataforma, a única cooperação que poderia haver estaria baseada em desejos sentimentais, vagos e confusos, e não haveria uma real unidade de perspectivas. […] O programa não é um conjunto de aspectos secundários que agrupam (ou freqüentemente, que não dividem) as pessoas que pensam de maneira semelhante, mas sim um corpo de análises e propostas que só é adotado por aqueles que crêem nele e que decidem difundir este trabalho e transformá-lo em realidade.[181] Por meio do programa, a organização específica anarquista faz conhecer a sua proposta estratégica de transformação social. Ao mesmo tempo em que ele serve para nortear a ação dos militantes da organização, ele serve para marcar as posições da organização para outras pessoas que não fazem parte dela, tornando público este conjunto de análises e propostas.
O conjunto de estratégia, tática e programa dá à organização uma forma de atuação planejada por meio da qual é possível conseguir os melhores resultados. O planejamento é imprescindível para qualquer organização anarquista.

A concepção estratégica da organização específica anarquista possui, inevitavelmente, um componente ideológico. A ideologia

constitui um motor essencial da ação política e um componente inevitável de toda estratégia. Toda prática política supõe motivos determinados e um sentido que só se fazem claramente discerníveis na medida em que se explicitam e organizam como ideologia.[182] No entanto, não devemos confundir ideologia e estratégia. Em relação à ideologia, a estratégia é muito mais flexível, já que varia de acordo com o contexto social, a conjuntura. Portanto, a ideologia anarquista pode possuir estratégias distintas, já que cada organização atua em contextos e conjunturas completamente diferentes. Quando falamos de tática, isso é uma verdade ainda maior. Como a composição social de cada localidade é distinta, assim como as forças políticas, as posições do governo, das forças da reação etc. é natural que em cada contexto e conjuntura se apliquem táticas diferentes para a prática política do anarquismo. Por exemplo: há locais e contextos em que vale a pena considerar o sindicalismo como um espaço de trabalho social, há outros que não, e assim por diante.
Afirmamos anteriormente que a organização específica anarquista deve trabalhar com unidade estratégica e tática, que se dá pelo processo decisório já descrito, que busca o consenso e em caso de ele não ser possível opta pelo voto, vencendo a maioria. Neste caso, todos os militantes da organização são obrigados a seguir a posição vencedora. Como em qualquer outro processo de decisão, as questões são bem colocadas, debatidas, e há tentativa de conciliação dos diferentes pontos de vista. Não sendo possível esta conciliação, a organização deve sintetizar as principais propostas e votar. Assim, a organização decide, por consenso ou por voto, as respostas para as três questões da estratégia. Formula a linha estratégica-tática e todos caminham no mesmo sentido. Periodicamente avalia esta linha, podendo reformulá-la.

Ressaltemos que todas as decisões são tomadas coletivamente, sem nenhum tipo de imposição. No entanto, com prioridades e responsabilidades estabelecidas, cada militante não pode fazer aquilo que achar melhor, por conta própria. Cada um tem obrigação, perante a organização, de realizar aquilo que se comprometeu e aquilo que foi definido como prioritário. Obviamente que, como enfatizamos, devemos sempre tentar conciliar as atividades que cada um gosta de fazer, com as responsabilidades estabelecidas pela organização, mas nem sempre temos de fazer só aquilo que gostamos.

O modelo de organização específica anarquista implica que os militantes devem fazer coisas que não gostam muito ou deixar de fazer algumas coisas que gostam. Isso, para fazer com que a organização caminhe com estratégia. Caminhar com estratégia faz da organização anarquista uma organização coerente e efetiva; uma organização voltada para a militância séria, compromissada, em que os militantes fazem aquilo que estabeleceram como prioridade e trabalham nas tarefas que contribuem da maneira mais efetiva possível para a consolidação de seus objetivos estratégicos. A prática relativamente comum de muitos grupos e organizações anarquistas de ir realizando diferentes ações, à torto e à direta, entendendo que elas estão contribuindo com um todo comum, não é aceita. Ao contrário deste modelo, a prática com estratégia

se trata de não ir fazendo o que saia, nem estimar isoladamente cada coisa que aparece, nem desanimar porque o avanço não é imediatamente visível. Se trata de fixar objetivos e avançar rumo a eles. De escolher ação e estabelecer prioridades em função desses objetivos. Isso implica, claramente, que haverá atividades que não realizaremos, fatos nos quais não estaremos. Eles podem ser importantes e até espetaculares, mas não contam se não se encaixam nos propósitos para a etapa de nosso programa. Em outros casos, estaremos em minoria absoluta ou com grandes complicações, em atividades que condizem com nossos objetivos. Escolher o que mais gostamos ou o que nos traz menos complicações não é uma política correta.[183] Voltando ao caso de votação para o estabelecimento de estratégia, é importante colocar que quem está deliberando é a organização e não um indivíduo ou outro, portanto, quando uma questão estratégica é resolvida por meio de votação, independente do voto de cada um, todos os militantes da organização possuem a obrigação de seguir a posição determinada coletivamente. Esta é uma posição marcante no modelo de organização que defendemos, pois as posições tiradas coletivamente não são recomendações, mas sim parte de uma linha estratégica que deve, necessariamente, ser seguida por todos. Para nós, “organização significa coordenação de forças com um objetivo comum, e obrigação de não promover ações contrárias a este objetivo”[184]. Devemos enfatizar que a liberdade de se unir a uma organização é igual à liberdade de se desligar de uma, e, no caso de uma individualidade ou minoria se sentir frequentemente desprezada pelas decisões da maioria, possui toda a liberdade de cindir. É importante frisar que as decisões estratégicas, mesmo que tomadas por meio de votação, são decisões coletivas e não disputas individuais dentro da organização.
Em termos estratégicos, esta unidade permitirá que todos na organização remem o barco no mesmo sentido e possam multiplicar os resultados das forças militantes. Assim, todos têm uma leitura semelhante de onde estamos, de onde queremos chegar e de como caminhar de um ponto a outro.

Notas:
174. FAU. Resoluciones Sobre el Tema Estrategia.

175. Juan Mechoso. Op. Cit. p. 196.

176. Ibidem.

177. Mikhail Bakunin. “Programa Revolucionário e Programa Liberal”. In: Conceito de Liberdade, p. 188.

178. Errico Malatesta. “Los Fines y los Medios”. Excerto de L’En Dehors, 17 de agosto de 1892. In: Vernon Richards. Op. Cit. p. 69.

179. Mikhail Bakunin. “Programa Revolucionário e Programa Liberal”. In: Conceito de Liberdade, p. 188.

180. FAU. Resoluciones Sobre el Tema Estrategia.

181. George Fontenis. “Manifiesto Comunista Libertário”.

182. Juan Mechoso. Op. Cit. p. 197.

183. FAU. Resoluciones Sobre el Tema Estrategia.

184. Errico Malatesta. “A Organização II”. In: Escritos Revolucionários, pp. 59-60.

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