Entrevista com Rafael V.

 Entrevista com Rafael V.

Por Agência de Notícias Anarquistas(ANA)

“Nunca vi tantas bandeiras negras na minha vida!”

Nesta entrevista, Rafael V., da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ), nos conta um pouco como foi sua participação e impressão do encontro internacional i07, que aconteceu entre 28 de abril e 1 de maio, em Paris, na França, juntando delegações de várias partes do mundo: Bangladesh, Camarão, Irlanda, Espanha, Nova Zelândia, Mali, Suécia, Polônia, Colômbia, Argentina, Alemanha, Costa do Marfim, Palestina, Marrocos, Argélia, Burkina Faso, Portugal, Grécia, Benin, Reino Unido, Estados Unidos, México, Brasil…

Agência de Notícias Anarquistas > Podemos começar essa conversa com você contando sua impressão sobre o encontro internacional i07 em Paris. Sua avaliação é positiva?

Rafael Viana < O encontro foi extremamente positivo! Do ponto de vista político, forneceu uma grande oportunidade para libertários das mais diversas partes do mundo trocarem experiências e percepções acerca de suas lutas. O tempo e a quantidade de grupos envolvidos talvez não permitiu nenhum aprofundamento das discussões, mas o mais interessante neste processo foi realmente conhecer um pouco melhor as diversas realidades destes e das quais em vários momentos pouco conseguimos obter informações… O estabelecimento de vínculos de solidariedade entre as organizações e os indivíduos participantes é realmente o fator mais motivador de todo o encontro. Sem contar o fator humano, saber que há efetivamente lutas concretas se desenrolando em variados países, mesmo os que não tenham uma tradição política anarquista muito forte, é extremamente motivador do ponto de vista pessoal!

ANA > E você participou efetivamente de algum tema específico? Foste como delegado da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ)?

Rafael < Sim. Na verdade a dinâmica do evento era a de temas simultâneos, então como delegado da Federação Anarquista do Rio de Janeiro tive que escolher os temas que seriam de maior importância para acúmulo político do grupo e nos quais poderíamos somar ao debate com nossas experiências. Os temas eram debatidos horizontalmente, por meio de “mesas de trabalho”, ou seja, os participantes davam um panorama geral da situação do país, região em que encontravam-se atuantes e por meio da discussão sobre o tema chegava-se sempre a algumas linhas gerais das opiniões coletivas dos delegados participantes. Participei de algumas discussões bem interessantes. O primeiro tema foi “Precariedade”, onde a discussão central se dava no processo de desintegração dos direitos trabalhistas e a conseqüente precarização da vida cotidiana dos trabalhadores por meio da ofensiva neo-liberal.

O segundo tema foi “Chiapas”, da qual basicamente a explanação principal fora dos delegados mexicanos sobre a situação dos Zapatistas, de Oaxaca, Atenco e claro, de Chiapas.

Esta mesa foi sem dúvida a mais marcante do encontro que eu participei. Uma das companheiras que participava da discussão (não citarei o nome por motivos óbvios…) do povoado de Atenco deu um relato muito emocionante, que arrancou muitos aplausos e lágrimas dos presentes! É algo que guardarei para toda minha vida.

Também participei do debate sobre “Educação”, “América”, que foi basicamente o encontro dos grupos latino-americanos e da reunião confederal, que foi a avaliação final do encontro.

ANA > Já tive a oportunidade de ouvir uma fala desta jovem companheira de Atenco, e me impressionou a força nas suas palavras… Nessa oportunidade, em Paris, ela falou com um facão na mão, não? Vi fotos… (risos)

Rafael < Exato… Segurava um machete! Um símbolo da resistência segundo ela! Seu discurso foi muito bonito, poético e original como toda a luta dos libertários mexicanos normalmente é.

ANA > Ficou articulado alguma campanha entre os grupos latinos? Li algo sobre se criar uma Coordenação Anticapitalista Internacional…

Rafael < O tempo como disse anteriormente foi bem escasso, contudo dentro deste limite, alguns apontamentos foram tirados. Pensou-se na criação de uma revista feita por estes grupos da América Latina, como maneira de estreitar laços de solidariedade e manter as lutas em conexão. A CNT(organizadora do evento) ajudaria com recursos e apesar de não termos discutidos maiores detalhes, os contatos foram mantidos e ainda haverá alguma discussão neste sentido que será feita por uma lista de e-mails. Uma síntese foi tirada desta reunião com algumas considerações em linhas gerais sobre todos os problemas dos grupos e uma análise de conjuntura. Dentro desta, há algumas situações mais urgentes, como o assassinato e a violenta repressão aos sindicalistas colombianos, que demandaria uma campanha ou uma ação mais articulada que ainda não foi discutida mais profundamente. Para título de curiosidade, conversávamos sobre justamente à escassa comunicação/articulação dos grupos anarquistas latino-americanos, tivemos que esperar um congresso em Paris para nos encontrarmos! Que contradição! (risos)

A coordenação anti-capitalista era uma das sínteses da reunião confederal e acho que ainda haverá mais discussões antes que esta se concretize mais efetivamente, contudo algumas ações pontuais foram tiradas. O mais importante do encontro, não foi propriamente concordâncias muito específicas sobre temas variados, mas sim a possibilidade de reforçar a troca de experiências e apoio-mútuo entre todos os grupos.

ANA > Também esteve na passeata do 1° de Maio? Imagino que tenhas ficado emocionado em ver tantos libertários juntos, não? (risos)

Rafael < Muito. Na verdade por informações de outros companheiros presentes, a passeata do ano passado não fora tão cheia quanto esta. Nunca vi tantas bandeiras negras na minha vida! A quantidade de libertários era realmente impressionante, não é nenhum exagero dizer que haviam 5000 anarquistas nessa manifestação.

ANA > Alguma coisa te chamou a atenção nessa passeata? Por exemplo, a presença de negros? Gente de várias idades…

Rafael < A diversidade sem dúvida! Eram grupos da Alemanha, Mali, Suécia, Nigéria, anarquistas da Nova Zelândia, Portugal, Espanha, Argentina, Inglaterra que coloriram toda a passeata!

Isso estava refletido nas faixas, nos gritos de ordem, nas fisionomias e em tudo mais que pudesse ser percebido. Haviam pessoas praticamente de todas as idades e gerações.

Apesar de cansativa (seis horas entre concentração e caminhada) fora realmente emocionante e as palavras de ordem ainda ecoam claramente em minhas lembranças…

Muita coisa me chamou a atenção, pois a manifestação fora claramente além de um simples protesto, uma viva celebração! Muita música, cores e bandeiras. Para nós, era uma celebração pela resistência internacional que estávamos ali a representar, o clima era de alegria, mas uma alegria revolucionária, uma alegria que ao invés de desmobilizar ou despolitizar é socialista e libertária!

ANA > Apesar de tudo, da apatia geral, das coisas serem tão difíceis para nós anarquistas, e longe de querer cair num otimismo estéril, podemos dizer que o anarquismo se expande por todos os lados? Que ele continua carregado de sentidos?

Rafael < Com certeza. Parafraseando George Woodcock, o anarquismo é como um fio de água que filtra-se ao solo poroso. Pode mudar constantemente e desaparecer de vista, mas sempre surge nos momentos onde menos se espera e as rachaduras da estrutura social permitem-lhe fluir.

Enquanto existir hierarquia, seja ela econômica, política ou social, haverá anarquismo e anarquistas. As conjunturas dos grupos libertários em seus países respectivos, são bem distintas, há de se pensar estratégias diferentes e analisar a realidade não como gostaríamos que fosse, mas como ela realmente é. O sentido do anarquismo é a liberdade, e mesmo com todas as dificuldades e toda conjuntura adversa sempre haverá luta neste sentido porque sempre existirão atitudes libertárias enquanto houver um ser humano vivo no planeta.

ANA > Quer acrescentar algo para finalizar?

Rafael < Primeiro agradecer a possibilidade de compartilhar um pouco da experiência política que eu tive neste encontro como indivíduo e como delegado da Federação Anarquista do Rio de Janeiro (FARJ). Nossa conjuntura, como a de qualquer grupo latino-americano sobrevivente das ditaduras militares e da hegemonia dos socialistas autoritários no movimento social é adversa, ríspida, dura. Contudo há um esforço muito grande em retomar o lócus social do anarquismo, fazer com que este saia dos “guetos”, dos círculos fechados e floresça onde ele sempre floresceu, no movimento social, no povo, como é o caso da nossa atuação junto às ocupações urbanas. O anarquismo não pode ser apenas um estilo de vida, de comportamento, deve ser um anarquismo social, ligado à demandas concretas.

A mensagem que eu gostaria de deixar é que temos de ter paciência com o próprio tempo, o socialismo historicamente é algo recente, a história ainda será escrita, não há nada definido. Contudo precisamos nos organizar, com organização podemos ser derrotados é verdade, mas sem ela já estamos!

É nisso que acreditamos, na organização e na luta, movida com ética, responsabilidade e vontade de transformação. A tal “voluntad” da qual tanto falava o anarquista italiano Errico Malatesta. E como diria um mote da organização: “A noite escura passará, e nós trabalharemos para ver o amanhecer!

Saúde e Anarquia! Abraços libertários a todo/as!

agência de notícias anarquistas-ana
Enfiou os dedos na terra, plantou uma semente e dormiu.
Microcontos – Jane Zandonade

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