A Organização Política Anarquista – OSL Argentina

A Organização política anarquista e seu funcionamento

OSL Argentina

Em vários dos números anteriores de En la Calle[1], abordamos diversos aspectos da organização. De forma introdutória e dando conta superficialmente do que pensamos sobre estas questões, podemos dizer, junto com Errico Malatesta, que “a questão é tripla: a organização como princípio e condição da vida social, hoje e na sociedade futura; a organização do partido anarquista; e a organização das forças populares e, especialmente, das massas trabalhadoras para a resistência contra o governo e o capitalismo”.[2]

Portanto, se nós anarquistas queremos que nossa participação no processo revolucionário alcance a criação de uma nova sociedade, fundada no socialismo e na liberdade, é necessário que nos organizemos em torno de nosso projeto revolucionário, unindo nossa força coletiva, planejando, dividindo e organizando o trabalho militante, utilizando todos os meios a nossa disposição. Ou seja, nos reuniremos na organização política libertária enquanto “espaço de enquadramento específico dos quadros militantes anarquistas que debatem e acordam princípios, programa, estratégia e estrutura”[3], “instância própria e exclusiva dos militantes anarquistas”.[4]

Abordamos a relação entre a organização política dos anarquistas e as organizações populares entendendo que, como socialistas e libertários nos organizamos politicamente por nossos objetivos revolucionários; enquanto explorados e oprimidos nos organizamos com nossos iguais para a defesa de nossos interesses e para a luta por eles, “sejam eles econômicos (sindicatos, cooperativas, união de camponeses, desempregados, etc.), reivindicativos (agrupamentos de direitos humanos, contra a repressão, estudantis, etc.) ou comunitários e sociais (organizações de bairro, comissões de vizinhos, centros assistenciais e culturais, etc.)”[5]. Atuar no seio das organizações populares é essencial para nosso projeto, e a esse respeito Malatesta afirmava que “favorecer as organizações populares de todos os tipos é conseqüência lógica de nossas idéias fundamentais, e deveria, portanto, fazer parte de nosso programa”[6]. Nestas organizações, ao mesmo tempo em que lutamos por nossos interesses imediatos, nós anarquistas trabalhamos para desenvolver e generalizar os elementos anticapitalistas – expressos em reivindicações e métodos de luta – que nós oprimidos colocamos em prática no calor da luta de classes. Quer dizer que longe de impor alguns objetivos determinados e meios de luta “inventados” em laboratórios intelectuais, não fazemos mais do que reivindicar aquilo que os explorados e oprimidos já começaram a desenvolver no “laboratório social” do enfrentamento ao capital e ao Estado.

A partir do momento em que a existência da sociedade de classes nos leva à necessidade de pensar em um projeto revolucionário socialista e libertário, é preciso que dotemos a organização política anarquista de um programa de ação claro que reflita nossa estratégia de ruptura, que resulte de nossos princípios ideológicos, de nossos objetivos e métodos de prática política, e de uma análise correta da etapa em que a sociedade de exploração e as classes que a compõem atravessam.

Por tudo o que dissemos, entendemos que a organização política anarquista deve possuir – internamente e como modo de funcionamento para todos/as seus/as militantes – alguns princípios determinados de organização que garantam que o que foi estabelecido no programa de ação seja levado a cabo. Nos referimos a: unidade ideológica e estratégica; unidade tática e programática; ação coletiva e disciplina; formas organizativas democráticas e federadas.[7]

Falamos de unidade ideológica e estratégica, porque consideramos que a organização anarquista “não deve ser a união espontânea desarticulada e particular dos diversos indivíduos que a integram e compõem, que estão de acordo em eixos vagos e imprecisos”[8], mas que seus princípios ideológicos, os fundamentos de sua ação e de sua estratégia devem ser resultado de uma discussão profunda, que deixe de fora os acordos superficiais que buscam ser “síntese” de posições irreconciliáveis.

A unidade tática e programática dos anarquistas funda-se na necessidade de que o programa, ao ser expressão das tarefas a realizar em uma determinada etapa (tarefas que deverão dar respostas às necessidades das massas populares), precisa da unidade tática para acionar o conjunto da organização.[9] Esta unidade de ação permitirá à militância anarquista atuar como um só corpo, coordenado, fazendo uso da riqueza que a força coletiva nos oferece, evitando o desperdício de capacidades, tanto humanas como materiais.

Isto nos leva a pensar na importância da ação coletiva e da disciplina. A noção de ação coletiva nos remete ao fato de que, da mesma forma que as ações que a organização empreende são discutidas e decididas responsavelmente por seus militantes, a atuação militante de seus membros é responsabilidade da organização e deve ajustar-se ao que foi acordado coletivamente. Quando fazemos referência à disciplina, dizemos “certa disciplina, não automática, mas voluntária e refletida e que está em perfeito acordo com a liberdade dos indivíduos, é e sempre será necessária cada vez que muitos indivíduos, livremente unidos, empreendam um trabalho ou uma ação coletiva, não importa qual. Em tal caso, a disciplina não é nada mais que a concordância voluntária e refletida de todos os esforços individuais para um fim comum.”[10] Falamos do cumprimento estrito dos acordos livremente estabelecidos.

Para que os acordos sejam livremente estabelecidos, para que provenham de uma discussão profunda e sejam reflexo da vontade de toda a organização, são necessárias formas organizativas democráticas e federadas. Ao mesmo tempo em que descartamos o assembleísmo estéril e difuso como forma de atuar dos anarquistas, discutimos, decidimos e atuamos a partir da prática da democracia direta e nos damos uma estrutura federalista como forma de garantir um funcionamento que contemple as diferentes necessidades da organização política anarquista, enquanto expressão de uma única e coletiva vontade revolucionária.

* Tradução: Victor Calejon

NOTAS:

[1] Periódico da OSL Argentina (N. T.)

[2] “La Organización” em Malatesta. Pensamiento y acción revolucionarios (Seleção de Vernon Richards), Editorial Proyección, Buenos Aires 1974).

[3] “Anarquismo y Organización”, documento apresentado pela Organización Socialista Libertaria nas Jornadas Libertarias Libweek 2001, realizadas em Madri nos dias 30 de março e 1º de abril.

[4] Lo político vs. lo social, Acerca del accionar de la organización anarquista en la lucha de clases, En la Calle nº 16, maio de 1999.

[5] Idem nota 3.

[6] Idem nota 2.

[7] “Anarquismo y Organización”, documento da Organización Socialista Libertaria, e Manifiesto Comunista Libertario de George Fontanis, Ediciones Hombre y Sociedad, Chile, 1999.

[8] Idem nota 7.

[9] Idem nota 7.

[10] Bakunin. “Táctica y disciplina del partido revolucionario”, em La Libertad (Seleção de Francois Muñoz), Editorial Proyección, 1975.

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