Necessidade da Organização – Mikhail Bakunin

Necessidade da Organização

Mikhail Bakunin

É verdade que há [no povo] uma grande força elementar, uma força sem dúvida nenhuma superior à do governo e à das classes dirigentes tomadas em conjunto; mas sem organização uma força elementar não é uma força real. É nesta incontestável vantagem da força organizada sobre a força elementar do povo que se baseia a força do Estado.

Por isso o problema não é saber se o povo pode se sublevar, mas se é capaz de construir uma organização que lhe dê os meios de se chegar a um fim vitorioso – não por uma vitória fortuita, mas por um triunfo prolongado e derradeiro. (Maximoff, 367, 70).

Diga-se o que se disser, o sistema atualmente dominante é forte, não por suas idéias e pela sua força moral intrínseca, que são nulas, mas por toda a organização mecânica, burocrática, militar e policial do Estado, pela ciência e pela riqueza das classes que têm interesse em mantê-lo. (Obras, VI. 352-353, 71).

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A sublevação do proletariado das cidades não é suficiente; com ele teríamos somente uma revolução política, que teria necessariamente contra e1a a reação natural e legítima do povo dos campos, e esta reação, ou unicamente a indiferença dos camponeses, esmagaria a revolução das cidades, como aconteceu ultimamente na França(1). Só a revolução universal é suficientemente forte para inverter e quebrar o poder organizado do Estado, sustentado pelos recursos das classes ricas. Mas a revolução universal é a revolução social, é a revolução simultânea dos povos dos campos e das cidades. É isso que é preciso organizar, – porque sem uma organização preparatória, os elementos mais fortes são impotentes e nulos. (Obras, VI, 403, 71 ).

Nos momentos de grandes crises políticas ou econômicas, em que o instinto da massa, posto em brasa, se abre em todas as inspirações felizes, em que estes rebanhos de homens escravos, vergados, esmagados, mas nunca resignados, revoltam-se enfim contra o seu jugo, mas sentem-se desorientados e impotentes porque estão completamente desorganizados; dez, vinte ou trinta homens, entendendo-se bem e estando bem organizados, e que saibam para onde vão e o que querem, arrastarão facilmente cem, duzentos ou até mais. Vimos isso recentemente na Comuna de Paris. A organização séria, apenas iniciada durante o cerco, não foi muito perfeita e nem muito forte; e contudo foi suficiente para criar uma resistência formidável.

O que acontecerá então quando a Associação Internacional estiver melhor organizada; quando ela tiver muitas seções agrícolas e, em cada seção, o dobro e o triplo do número de membros que tem presentemente? O que acontecerá sobretudo quando cada um de seus membros souber, melhor que presentemente, o objetivo final e os verdadeiros princípios da Internacional, assim como os meios para realizar o seu triunfo? A Internacional tornar-se-á uma forca irresistível .

Mas para que a Internacional possas adquirir realmente este poder, para que a décima parte do proletariado, organizado por esta associação, possa arrastar os outros nove décimos, é preciso que cada membro, em cada seção, esteja muito mais penetrado pelos princípios da Internacional do que está hoje. Só com esta condição é que nos tempos de, paz e de calma ele poderá executar eficazmente a missão de propagandista e de apóstolo, e, nos tempos de luta, a de um chefe revolucionário (Obras, VI, 90 a 92, 71 ).

Este programa [da Internacional] traz com ele uma ciência nova, uma nova filosofia social, que deve substituir todas as antigas religiões, e uma política totalmente nova… Para que todos os membros da Internacional possam executar, de uma maneira consciente, seu duplo dever de propagandistas e de chefes naturais das massas na Revolução, é preciso que cada um deles esteja também penetrado, tanto quanto possível, por esta ciência, por esta filosofia e por esta política. Não lhes basta saber e dizer que querem a emancipação econômica dos trabalhadores, o usufruto integral do seu produto por cada um, a abolição das classes e servilismo político, a realização da totalidade dos direitos humanos e a equivalência dos deveres e dos direitos para cada um, – a realização da fraternidade humana, numa palavra. Tudo isto é sem dúvida muito bom e muito justo, mas, se os operários da Internacional pararem nesta verdade, sem aprofundar as condições, as conseqüências e o espírito, e se se contentarem em repeti-las sempre nesta forma geral, correm o risco de fazer delas dentro em pouco, palavras ocas e estéreis, lugares comuns incompreendidos.

Mas, dir-se-á, todos os operários, só pelo fato de serem membros da Internacional não podem tornar-se sábios; e não bastará que no seio desta associação se encontre um grupo de homens que possuam, tão completamente quanto possível nos nossos dias, a ciência, a filosofia e a política do socialismo, para que a maioria, para que o povo da Internacional, obedecendo com fé a sua direção e ao seu comando fraternal (no estilo de Sr Gambetta, o ditador jacobino por excelência), possa estar certo de não se desviar da via que o deve conduzir à emancipação definitiva do proletariado?

Eis um raciocínio que ouvimos freqüentemente, não abertamente exprimido, – não se é tão sincero e tão corajoso para isso, mas que se desenvolve secretamente, com toda espécie de reticências mais ou menos hábeis e com elogios demagógicos dirigidos à sabedoria suprema e à onipotência do povo soberano, pelo partido autoritário, hoje triunfante na Internacional de Genebra. Nós sempre os combatemos apaixonadamente, porque estamos convencidos – e também o estão sem dúvida conosco, companheiros – que, desde o momento em que a Associação Internacional se dividir em dois grupos: um deles, compreendendo a grande maioria e sendo composto por membros cuja a única ciência seria a fé cega na sabedoria teórica e prática de seus chefes, e o outro, composto unicamente por algumas dezenas de indivíduos dirigentes, esta instituição que deve emancipar a humanidade se transformaria ela própria numa espécie de Estado oligárquico, o pior de todos os Estados; e ainda mais, esta minoria clarividente, sábia e hábil… se tornaria dentro de pouco tempo cada vez mais despótica, maléfica e reacionária. (Obras, VI, 93 a 96, 71).

… Acreditamos que o povo pode enganar-se muitas vezes, mas não há ninguém no mundo que possa corrigir seus erros e reparar o mal que sempre resulta deles, a não ser ele próprio; todos os outros reparadores e retificadores… nunca fazem nem podem senão aumentar os erros e o mal. (Lehning, I- 1, 242, 71).

Educação militante. Relação entre as organizações socialistas e os sindicatos: Necessidade e papel do partido.

Eu gosto muito desses socialistas burgueses que nos gritam sempre: “Instruamos primeiro o povo e depois o emancipemos”. Pelo contrário nós dizemos: Ele que se emancipe primeiro e se instruirá ele próprio… Deixam-no maçar-se com o seu trabalho quotidiano e com sua miséria, e dizem-lhe: “instruam-se!”.

Não, senhores, apesar do nosso respeito pela questão da instrução integral, declaramos que hoje esta já não é a maior questão para o povo. A primeira questão é a da sua emancipação econômica que engendra imediatamente e ao mesmo tempo a sua emancipação política, e muito em breve sua emancipação intelectual e moral. (Obras, V, 42, 69).

Mas como chegar, do abismo da ignorância, de miséria e de escravatura, no qual os proletários dos campos e das cidades estão mergulhados, a este paraíso, a esta realização da justiça e da humanidade na terra? – Para isso, os trabalhadores só têm um único meio: a associação. (Obras, V, 42, 69).

Pois só resta uma única via, é a da [sua] emancipação pela prática. (Obras, V, 182, 69).

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A seção central, já dissemos, foi o primeiro germe, o primeiro corpo constituinte da Associação Internacional em Genebra; ela deveria continuar a ser sua alma, a sua inspiradora e a sua propagandista permanente. É neste sentido, sem dúvida, que muitas vezes se lhe chamou a “seção da iniciativa”. Ela criou a Internacional em Genebra, devia conservar e desenvolver seu espírito. Sendo todas as outras seções corporativas(2), os operários estão aí reunidos e organizados não pela idéia, mas pelo fato e pelas próprias necessidades de seu trabalho idêntico. Este fato econômico, o de uma indústria especial e de condições particulares de exploração desta indústria pelo capital, a solidariedade íntima e particularmente os interesses, as necessidades, os sofrimentos, a situação e as aspirações que existem entre todos os operários que fazem parte da mesma seção corporativa, tudo isso forma a base real da sua associação. A idéia vem depois, como explicação ou como expressão equivalente do desenvolvimento e da consciência coletiva e refletida deste fato. (Obras, VI, 55-56, 71)

As seções centrais não representam nenhuma indústria em especial, visto que os operários mais avançados de todas as indústrias possíveis encontram-se aí reunidos. Então o que é que elas representam? A própria idéia da Internacional. Qual é a sua missão? O desenvolvimento e a propaganda desta idéia. E esta idéia o que é? É a emancipação dos trabalhadores de tal indústria e de tal país, mas também de todas as indústrias possíveis e de todos os países do mundo… Tal é a força negativa, belicosa ou revolucionária da idéia. E a força positiva? É a fundação de um novo mundo social (Obras, VI, 65, 66, 71).

As seções centrais são os Centros ativos e vivos onde se conserva, se desenvolve, e se explica a nova fé. Lá ninguém entra como operário especial desta ou daquela profissão; lá entram todos unicamente como trabalhadores em geral, com o fim da emancipação e da organização geral do trabalho e do novo mundo social baseado no trabalho, em todos os países. Os operários que fazem parte dela, deixando à entrada a sua qualidade de operários especiais ou “reais”, no sentido da especialidade, apresentam-se lá como trabalhadores “em geral”. Trabalhadores de que? Trabalhadores da idéia, da propaganda e da organização do poder tanto econômico como militante da Internacional: Trabalhadores da Revolução Social.

Vê-se que as seções centrais têm um caráter totalmente diferente das seções de profissão e até diametralmente oposto. Enquanto que as últimas, seguindo a via de desenvolvimento natural, começam pelo fato para chegar à idéia, as seções centrais, pelo contrário, seguindo a do desenvolvimento ideal ou abstrato, começam pela idéia para chegar ao fato. É evidente que em oposição ao método tão completamente realista ou positivo das seções de profissão, o método das seções centrais apresenta-se como artificial e abstrato. Esta maneira de proceder da idéia ao fato é precisamente a de que se têm servido eternamente os idealistas de todas as escolas, teólogos metafísicos e cuja importância final foi constatada pela história…

Se só tivesse havido na Associação Internacional dos Trabalhadores seções centrais, não há dúvida de que ela não teria atingido nem a centésima parte da força considerável de que agora se glorifica. As seções centrais teriam sido igualmente academias operarias onde seriam sempre debatidas todas as questões, incluindo naturalmente a da organização do trabalho, mas sem a mínima tentativa séria nem mesmo sem aláuma possibilidade de realização: e isto por uma razão muito simples: o trabalho “em geral” não é senão uma idéia abstrata que não encontra a sua “realidade” senão numa imensa diversidade de indústrias especiais, em que cada uma tem sua natureza própria, as suas próprias condições, as quais não se pode adivinhar e muito menos determinar pelo pensamento abstrato, mas que, só se manifestando pelo fato do seu desenvolvimento real, podem determinar sozinhos o seu equilíbrio particular, as suas relações e o seu lugar na organização geral do trabalho, – organização , que, como todas as coisas gerais, tem de ser a resultante sempre reproduzida de novo pela combinação viva e real de todas as indústrias particulares e não o seu princípio abstrato, imposto violenta e doutrinariamente, como o queriam os comunistas alemães, partidários do Estado popular.

Se só tivesse havido, na Internacional, seções centrais, provavelmente elas já teriam conseguido formar conspirações populares para a inversão da ordem atual das coisas, conspirações de intenção, mas muito fracas para atingir seus fins, porque elas nunca poderiam arrastar e receber no seu seio senão um pequeníssimo número de operários, os mais inteligentes, os mais enérgicos, os mais convencidos e os mais dedicados. A imensa maioria, os milhões de proletários ficaria de fora, e, para inverter e destruir a ordem política e social que hoje nos esmaga, é preciso a concorrência destes milhões.

Só os indivíduos, e somente um pequeno número de indivíduos se deixa definir pela “idéia” abstrata e pura. Os milhões, as massas , não só no proletariado, mas também nas classes esclarecidas e privilegiadas, só se deixam arrastar pela força e pela lógica dos “fatos”, só compreendendo e encarando, a maior parte do tempo, os seus interesses imediatos e as suas paixões de momento, sempre mais ou menos cegas. Portanto, para interessar e para arrastar todo o proletariado na obra da Internacional, era preciso e é preciso aproximar-se dele não com idéias gerais e abstratas, mas com a compreensão real e viva dos seus males reais; e os seus males do dia a dia, ainda que apresentem  um caráter geral para o pensador, e ainda que sejam na realidade efeitos particulares das causas gerais e permanentes, são infinitamente diversos, tomando uma multiplicidade de aspectos diferentes, produzidos por uma variedade de causas passageiras e reais. Tal é a realidade quotidiana destes males. Mas a massa do proletariado, que é forçada a viver sem pensar no dia de amanhã, agarra-se aos males de que sofre e dos quais é eternamente a vítima, precisa e exclusivamente nesta realidade, e nunca ou quase nunca na sua generalidade.

Então, para tomar o coração e conquistar a confiança,o consentimento, a adesão, a afluência do proletariado…, é preciso começar por lhe falar, não dos males gerais de todo o proletariado internacional, nem das causas gerais que lhe dão nascença, mas dos seus males particulares, quotidianos, privados. É preciso lhe falar de sua profissão e das condições do seu trabalho precisamente na localidade em que habita; da duração e da grande extensão do seu trabalho quotidiano, da insuficiência do seu salário, da maldade do seu patrão, da carestia dos víveres e da sua impossibilidade de nutrir e de instruir convenientemente a sua família. E lhe propondo meios para combater os seus males e para melhorar a sua posição, não é preciso lhe falar logo dos objetivos gerais e revolucionários que constituem neste momento o programa de ação da Associação Internacional dos Trabalhadores, tais como a abolição da propriedade individual hereditária e a instituição da propriedade coletiva; a abolição do direito jurídico e do Estado, e a sua substituição pela organização e federação livre das associações produtivas; provavelmente ele não compreenderia nada destes objetivos, e poderia mesmo acontecer que, estando influenciado pelas idéias religiosas, políticas e sociais que os governos e os padres procuraram inculcar-lhe, repelisse com desconfiança e cólera o propagandista imprudente que quisesse convertê-lo com esses argumentos. Não, primeiramente só é preciso propor-lhe objetivos que o seu bom senso natural e a sua experiência quotidiana não possam ignorar a utilidade, nem repeli-los. (Obras, 68 a 72, 71).

Logo que entre para a seção, o operário neófito vai aprender lá muitas coisas. Explica-se-lhe que a mesma solidariedade que existe entre todos os membros da mesma seção estabelece-se igualmente entre todas as diferentes seções ou entre todas as corporações de profissões da mesma localidade; que a organização desta solidariedade mais larga, abraçando indiferentemente os operários de todas as profissões, tornou-se necessária porque os patrões de todas as profissões entendem-se entre eles [etc…]

…melhor do que pelas explicações verbais que recebe de seus camaradas, depressa reconhece todas as coisas pela sua própria experiência pessoal doravante inseparável e solidária com a dos outros membros da seção. (Obras, VI, 73, 71).

Numa palavra, a única solidariedade que lhe é oferecida como um benefício e ao mesmo tempo como um dever é, em toda a acepção da palavra, a solidariedade econômica, mas uma vez que esta solidariedade é seriamente aceita e estabelecida, produz todo o resto – , os princípios mais sublimes e subversivos da Internacional… não sendo senão os desenvolvimentos naturais e necessários desta solidariedade econômica. E a grande vantagem prática das seções de profissão sobre as seções centrais consiste precisamente nisto, que estes desenvolvimentos e estes princípios demonstram-se aos operários não com argumentos teóricos, mas pela experiência viva e trágica de uma luta que se torna cada vez maior, mais profunda, mais terrível: de modo que o operário menos instruído, menos preparado , mais brando, constantemente arrastado mais para a frente pelas próprias conseqüências desta luta, acaba por se reconhecer revolucionário, anarquista e ateu, muitas vezes sem saber como o conseguiu ser.

É claro que só seções de profissão podem dar esta educação prática aos seus membros, e conseqüentemente, só elas podem arrastar para a organização da Internacional a massa do proletariado, esta massa, já dissemos, sem a forte ajuda da qual o triunfo da revolução nunca será possível.

Se só houver na Internacional seções centrais, estas não seriam senão almas sem corpos, sonhos magníficos sem realização possível.

Felizmente, as seções centrais, emanações do fogo principal que se formou em Londres, foram fundadas não por burgueses, não por sábios de profissão, nem por homens políticos, mas por operários socialistas. Os operários, é essa a sua grande vantagem sobre os burgueses, graças à sua situação econômica e também graças ao que a educação doutrinaria, clássica, idealista e metafísica, que envenena a juventude burguesa, os poupou até aqui, têm o espírito eminentemente prático e positivo. Eles não se contentam com ideais, eles precisam de fatos, e só acreditam nas idéias quando elas se apóiam em fatos. Esta inclinação feliz lhes permitiu evitar dois obstáculos contra os quais encalham todas as tentativas burguesas: a academia e a conspiração platônica. Aliás o programa da Associação Internacional dos Trabalhadores… indicou-lhes claramente a única via que eles podiam e deviam seguir.

Em primeiro lugar, eles deviam se dirigir às massas em nome da sua emancipação econômica, não da revolução política: primeiro, em nome dos seus interesses materiais, para chegar mais tarde aos seus interesses morais, sendo os segundos, enquanto interesses coletivos, unicamente a expressão e a conseqüência lógica dos primeiros. Eles não podiam esperar que as massas os viessem procurar, tinham de ir procurá-las onde elas estão, na sua realidade quotidiana, e esta realidade é o trabalho quotidiano, especializado e dividido em corporações de profissões, já mais ou menos organizado pelo trabalho coletivo em cada indústria particular, para que eles aderissem ao objetivo econômico, à ação comum da grande Associação dos Trabalhadores de todos os países, numa palavra, para os filiar à Internacional, deixando-lhes a sua autonomia e a sua organização particulares. O que quer dizer que a primeira coisa que eles deviam fazer e que efetivamente fizeram, foi organizar, em volta de cada organização central, tantas seções de profissão quantas indústrias diferentes existissem.

Foi assim que as seções centrais, que, em todos os países, representam a alma ou o espírito da Internacional, formaram uma corporação, tornando-se organizações reais e fortes. Uma vez realizada esta missão, as seções centrais deviam dissolver-se, só permitindo a existência de seções de profissão. Parece-nos que isso é um grande erro. Pois…

…A grande tarefa que se impôs a Associação Internacional dos Trabalhadores… não é unicamente uma obra econômica ou simplesmente material, é ao mesmo tempo uma obra social, filosófica e moral; também é, se se quiser, uma obra eminentemente política. (Obras, VI, 75 a 79, 71 ).

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a quem nos perguntar para que serve a existência da Aliança quando existe a Internacional, nós responderemos: a Internacional é, evidentemente, uma magnífica instituição, é incontestavelmente a mais bela, a mais útil, a mais benéfica criação deste século. Ela criou a base da solidariedade dos trabalhadores de todo o mundo. Ela deu-lhe um começo de organização através da fronteira de todos os Estados e fora do mundo dos exploradores e dos privilegiados. Ela fez mais, já contém hoje os primeiros germes da organização da unidade que há de existir e ao mesmo tempo deu ao proletariado de todo o mundo o sentimento de sua própria força. Estamos certos também do grande serviço que ela prestou à grande causa da revolução universal e social. Mas ela não é de modo nenhum uma instituição suficiente para organizar e dirigir esta revolução.

Todos os revolucionários sérios que tiveram uma parte ativa nos trabalhos da Internacional, seja em que país fosse, desde 1864, ano de sua fundação, devem estar convencidos disso. A internacional prepara os elementos da organização revolucionária, mas não a realiza. Ela os prepara organizando a luta pública e legal dos trabalhadores solidários de todos os países contra os exploradores do trabalho, capitalistas, proprietários e empreiteiros das indústrias, mas nunca vai além disso. A única coisa que ela faz fora desta obra já tão útil, é a propaganda teórica das idéias socialistas nas massas operárias, obra igualmente muito útil, muito necessária à preparação da revolução das massas.

A Internacional, numa palavra, é um meio imenso favorável e necessário a esta organização, mas ainda não é esta organização. A Internacional aceita no seu seio, abstraindo-se completamente de todas as diferenças de crenças políticas e religiosas, todos os trabalhadores honestos, com todas as suas conseqüências a solidariedade da luta dos trabalhadores contra o capital burguês explorador do trabalho. Esta é uma condição positiva, suficiente para separar o mundo dos trabalhadores do mundo dos privilegiados, mas insuficiente para dar ao primeiro uma direção revolucionária. (Nettlau, 287-288, 72).

… os fundadores da Associação Internacional agiram com grande sabedoria eliminando primeiramente do programa desta  Associação todas as questões políticas e religiosas. Sem dúvida, de modo nenhum lhes faltou opiniões políticas, nem opiniões anti-religiosa bem marcadas; mas abstiveram-se de as emitir neste programa , porque o seu principal objetivo, em primeiro lugar, era unir as massas operárias de todo o mundo civilizado numa ação comum. Necessariamente que tiveram de procurar uma base comum, uma série de princípios simples sobre os quais os operários, sejam quais forem as suas aberrações políticas e religiosas, por pouco que sejam sérios, isto é, homens duramente explorados e sofredores, estão e têm de estar de acordo.

Se tivessem içado a bandeira de um sistema político ou anti-religioso, longe de unir os operários da Europa os teriam dividido mais ainda. (Obras, V, 172-173, 69).

…acreditam que se se escrevesse esta simples palavra “ateísmo”, no estandarte da Internacional, esta associação teria podido reunir no seu seio centenas de milhares de aderentes? Todos sabem que não, não por o povo ser verdadeiramente religioso, mas por ele acreditar sê-lo; e ele acreditará sê-lo enquanto uma revolução social não lhe facultar os meios para realizar todas as suas aspirações neste mundo. É certo que se a Internacional pusesse o ateísmo, como um princípio obrigatório, no seu programa, teria excluído do seu seio a flor do proletariado, – e por esta palavra eu não quero dizer, como o fazem os marxistas, a camada superior, a mais civilizada e a mais desembaraçada do mundo operário, essa camada de operários quase burgueses de que eles querem precisamente servir-se para construir a sua quarta classe governamental, e que é verdadeiramente capaz de formar uma, se não os pusermos na ordem dos interesses da massa do proletariado, porque, com o seu bem estar relativa quase burguês, não está infelizmente senão profundamente penetrada por todos os preconceitos políticos e sociais e pelas estreitas aspirações e pretensões dos burgueses. Pode-se dizer que esta camada é a menos socialista e a mais individualista de todo o proletariado.

Pela flor do proletariado, eu entendo sobretudo esta grande massa, estes milhões de não-civilizados, de deserdados, de miseráveis e de analfabetos que o Sr Engels e o Sr Marx pretendem submeter ao regime paternal de um governo muito forte… Por flor do proletariado, eu entendo esta carne para governo, esta grande canalha popular que, estando quase virgem de toda civilização burguesa, traz no seu seio, nas suas paixões, nos seus instintos, nas suas aspirações, em todas as necessidades e misérias da sua posição coletiva, todos os germes do socialismo futuro, e que só ela é suficientemente forte para inaugurar e para fazer triunfar a Revolução Social. (Obras, IV, 413-414, 72).

A Aliança é o complemento necessário da Internacional… -Mas a Internacional e a Aliança, tendendo para o mesmo objetivo final, perseguem ao mesmo tempo objetivos diferentes. – Uma tem por missão reunir as massas operárias, os milhões de trabalhadores, através das diferenças das nações e dos países, através das fronteiras de todos os Estados, em um só corpo imenso e compacto; a outra, a Aliança, tem por missão dar às massas uma direção verdadeiramente revolucionária. Os programas de uma e de outra, sem serem opostos em nada, são diferentes pelo próprio grau do seu desenvolvimento respectivo. 0 da Internacional, se o tomarmos a sério, também é em germe, mas só em germe, todo o programa da Aliança. 0 programa da Aliança é a explicação última do da Internacional. (Nettlau, 286, 72).

Reconheço com alegria que, em todos os países, as classes privilegiadas perderam muito da sua força passada. Perderam totalmente a sua força moral; já não têm fé nos seus direitos, sabem que são iníquas e odiosas, desprezam-se a si próprias.

É bastante. Tendo perdido sua força moral, elas perdem ostensiva e necessariamente também a força inteligente. Elas são muito mais sábias que o proletariado, mas isso não as impede de se tornarem cada vez mais brutas. Elas perderam toda a coragem intelectual e moral… O proletariado, cuja vivacidade herdou da sua anterior capacidade intelectual e moral, prepara-se hoje para as forçar nos seus últimos refúgios políticos e econômicos.

Tudo isto é verdade. Mas não se pode ter ilusões. Esses refúgios são ainda muito fortes: são o Estado, a Igreja, a Bolsa, a polícia, o exército e também esta grande conspiração internacional e pública , legal, armada, a que se chama diplomacia.

Tudo isto é organizado sabiamente e é forte pela organização. E em presença desta organização formidável, o proletariado ainda que unido, agrupado e solidarizado pela Internacional, continua desorganizado. Que faz o seu número? O povo mesmo que seja um milhão, vários milhões, será posto em xeque por algumas dezenas de milhares de soldados, sustentados e disciplinados às suas custas, contra ele, pelos escudos burgueses produzidos pelo seu trabalho.

Por exemplo, a seção mais numerosa, mais avançada e melhor organizada da Internacional – o está para o combate? Sabem que não. Em mil trabalhadores, seria muito se reunissem uma ou no máximo duas centenas no dia do combate. É que para organizar uma força, não basta unir os interesses, os sentimentos, o pensamento. É preciso unir as vontades e o caráter. Os nossos inimigos organizam as suas forças com a força do dinheiro e com a autoridade do Estado. Nós só podemos organizar as nossas com a convicção, com a paixão

Nós não podemos e não queremos unir outro exército senão o povo. Mas para que esta massa se erga em conjunto simultaneamente – e só com esta condição que ela pode vencer – o que fazer? Sobretudo como fazer para que as massas mesmo eletrizadas, quando sublevadas, não se contradigam e não se paralisem pelos seus movimentos opostos?

Só há um único meio: é assegurar-se da participação de todos os chefes populares. Eu chamo chefes populares a indivíduos saídos do povo: vivendo com ele, da sua vida, e que, graças à sua superioridade intelectual e moral, exercem nele uma grande influência. Há muitos entre eles que abusam desta superioridade e a fazem servir os seus interesses pessoais. São homens muito perigosos e que é preciso evitar como a peste, que é preciso combater e aniquilar sempre que possível. É preciso procurar os bons chefes, os que só defendem os seus interesses nos interesses de todos. Mas como encontra-1os e reconhece-los, e qual é o indivíduo tão inteligente, tão perspicaz e tão forte, para não se enganar em absolutamente nada, primeiro na sua escolha e em seguida para os convencer e para os organizar sozinho.

É evidente que esse não pode ser o trabalho de um só homem, que só muitos homens associados podem empreender e conduzir a bom termo uma empresa tão difícil. Mas para isso, é necessário primeiro que se entendam entre eles e que dêem as mãos para esta obra comum. Mas tendo esta obra um objetivo prático, revolucionário, o entendimento mútuo que é a condição necessária não pode se fazer publicamente; se se fizesse em público, atrairia sobre os iniciadores as perseguições de todo o mundo oficial e oficioso, e se veriam esmagados antes mesmo de terem podido fazer a mínima coisa.

Pois este entendimento e esta associação que tem de sair dele, só podem ser feitos em segredo. Quer dizer que é preciso estabelecer uma conspiração, uma sociedade secreta a sério.

Também é assim o pensamento e o objetivo da Aliança. É uma sociedade secreta formada no seio da própria Internacional, para dar a esta última uma organização revolucionária, para a transformar, a ela e a todas as massas populares que estão fora dela, numa força suficientemente organizada para aniquilar a reação político-clérico burguesa, para destruir todas as instituições econômicas, jurídicas, religiosas e políticas dos Estados. (Nettlau. 289 a 291, 72).

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… mesmo que conseguissem, à custa de uma luta enérgica e hábil, salvaguardar a existência dos vossas seções públicas, eu acho que acabariam mais tarde ou mais cedo por compreender a necessidade de formar entre elas núcleos compostos por membros mais seguros, mais dedicados, mais inteligentes e mais enérgicos, numa palavra, pelos mais íntimos. Estes núcleos intimamente ligados entre sí e com núcleos semelhantes que se organizam ou se organizarão nas outras regiões da Itália ou do estrangeiro, terão uma dupla missão: primeiro, a formação da alma inspiradora e vivificante deste grande corpo a que chamamos Associação Internacional dos Trabalhadores tanto na Itália como em qualquer outro lado; e em seguida se ocuparão dos problemas que são impossíveis de se tratar publicamente. Eles formarão a ponte necessária entre a propaganda das teorias socialistas e a prática revolucionária.

… Naturalmente, esta aliança secreta só aceitaria no seu seio um pequeníssimo número de indivíduos…; pois neste tipo de organização, não é a quantidade, mas a qualidade que é preciso procurar… Vocês só querem uma revolução popular; por isso não vão recrutar um exército, pois o vosso exército é o povo. O que devem formar, são os estados-maiores, a rede bem organizada e bem inspirada dos chefes do movimento popular. (Cerretti, 194-195, 72).

notas:  

(1) Aqui Bakunin se refere à Comuna de Paris, ocorrida em 1871

(2) Aqui é preciso que se entenda a diferença de papéis entre as duas instâncias, a seção central tem um papel organizador e político, enquanto as seções corporativas desempenham um papel social. como um sindicato.

Socialismo e Liberdade
Mikhail Bakunin
Coletivo Luta Libertária

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