O Cretinismo Anarquista – Camillo Berneri

O Cretinismo Anarquista

Camillo Berneri

Ainda que choque associar as duas palavras, tenho que reconhecer que existe um cretinismo anarquista. São seus expoentes não só cretinos que não tem compreendido nada da anarquia e do anarquismo, mas também companheiros autênticos que tem se enredado nele não por miséria de substância parda, mas por certas extravagâncias de conformação cerebral. Estes cretinos do anarquismo têm a fobia do voto ainda que se trate de aprovar ou desaprovar uma decisão estritamente ligada com as coisas de nosso movimento, tem a fobia do presidente de assembléia ainda que tenha se feito necessário pelo mau funcionamento dos freios inibitórios dos indivíduos livres que dessa assembléia constituem a vociferante maioria, e tem outras fobias que mereceriam um longo discurso, se este tema não fosse demasiado candente de humilhação.

O problema da estruturação espiritual da questão social não tem sido colocado e estudado o suficiente. Quando em uma reunião me encontro com alguém que quer fumar ainda que o ambiente seja estreito e sem ventilação, desinteressando-se das companheiras presentes ou dos doentes de brônquios que parecem presa de uma tosse canina, e quando este indivíduo responde as observações, ainda cordiais, reivindicando a “liberdade do eu”, pois bem, eu que sou fumante e por acréscimo algo tolstoiano ao caráter, queria ter os músculos de um boxeador negro para fazer sair voando do local o único em questão, ou a paciência de Job para lhe explicar que é um cretino grosseiro. Se a liberdade anarquista é a liberdade que não viola a dos demais, falar duas horas seguidas para dizer bobagens constitui uma violação da liberdade do público de não perder tempo e se chatear mortalmente.

Em nossas reuniões, teria que se estabelecer a regra da condicional liberdade de palavra: renovável a cada dez minutos. Em dez minutos, a não ser que não queiram se explicar as relações entre as manchas solares e a necessidade dos sindicatos, ou as existentes entre a moral haeckeliana e a filosofia de Max Stirner, se pode, se não se deseja fazer gala de erudição ou de eloqüência, expor a própria opinião sobre uma questão relativa ao movimento quando esta questão não seja de… importância capital. O mal é que muitos querem buscar as muitas, numerosas, variadas, múltiplas, inumeráveis razões, como dizia um destes oradores de longa metragem, em vez de buscar e expor as poucas e compreensíveis razões que encontra e sabe comunicar qualquer um que tenha o costume de pensar antes de falar.

Desgraçadamente sucede que são necessárias reuniões de horas e horas para resolver questões que com um pouco de reflexão e simplicidade de espírito se resolveriam em meia hora. E se alguém propõem, extremo remédio da babel vociferante, um presidente, nesse regulador da reunião que todavia tem menos autoridade que um árbitro em uma partida de futebol, certos vestais da Anarquia vêem… um duce. Para quem este discurso? Os companheiros da região parisiense que tem afrontado recentemente o gasto e a fadiga de ir a uma reunião, de localidades distantes, para assistir o espetáculo de gente que gritava contemporaneamente entrecruzando diálogos que se convertiam em monólogos pela confusão imperante e delirante, regressando cabisbaixos a suas casas estavam de acordo em pensar que a jaula dos papagaios do zoológico de Paris é um espetáculo muito mais interessante.

Quando uns anarquistas não conseguem organizar um problema menos difícil que a quadratura do círculo, nem expor por turno seu pensamento, um regulador se faz indispensável. Isto é o que eu chamo autocrítica. E vai dirigida a todos aqueles que fazem que seja necessário um regulador de reuniões anarquistas. Coisa todavia mais cômica do que pensam quem se escandaliza dela. Muito cômica e muito grave. E grave porque, muitas vezes, se volta necessária e precisamente onde deveria ser supérflua.

L’Adunata dei Refrattari, Nova Iorque 12.10.1935

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