Pode parar, com essa ideia de representação: candidatos de esquerda recebendo dinheiro de banqueiros

Posted on 13/10/2020

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Recentemente um grande debate surgiu em torno de uma pequena candidatura a vereador em Duque de Caxias/RJ. A candidatura em questão proclama-se anticapitalista, assim como seu partido, porém recebeu 75 mil reais de financiamento por parte de banqueiros e especuladores do mercado financeiro, um dinheiro que está evidentemente manchado de sangue dos povos oprimidos. Como é que se diz lutar por uma saúde e uma educação digna, contra a Emenda Constitucional 95, que congela por 20 anos os investimentos em direitos sociais básicos, ou por mais investimentos no SUS, recebendo apoio daqueles que vivem da dívida pública, cujo o pagamento é o principal argumento para se seguirem com os ajustes fiscais? Como consequência disso, parte de seu partido está exigindo que ele devolva esse dinheiro, pois estaria ferindo os princípios anticapitalistas da organização. O candidato porém respondeu que aceitou esse dinheiro e não irá devolvê-lo alegando que não estará se sujeitando aos seus doadores e que isto servirá para que ele possa realizar seus projetos que irão beneficiar os mais pobres de Caxias. Recebendo inclusive apoio de “estrelas” do partido, que acusam os críticos de racismo. Nada de novo sobre o sol…

A estratégia de controle social vem se renovando com a milícia avançando como novo modelo de domínio das favelas e bairros do Rio de Janeiro. Não como poder paralelo, mas como um tentáculo do Estado, já que gestores do Estado se confundem com agentes. As possibilidades de construção de uma luta efetiva nestes territórios já se mostram quase que como clandestinas, pois há um assassinato sistemático daqueles que fujam a seus desmandos. Há importantes lições a se aprender com a morte da lutadora social Marielle Franco. No campo e nas florestas as lideranças vêm sendo assassinadas, os recurso naturais exterminados juntos com os povos que deles cuidam e sobrevivem. Este cenário não surgiu com Bolsonaro, mas vem se construindo há anos, com o incremento do aparato repressivo, seja por aspectos jurídicos, ou pelo fortalecimento da atuação dos militares em GLO’s, invasões nas favelas, ou as controlando quando ocupadas. A volta gradual dos militares na vida política do país pós-ditadura foi operada silenciosamente, tem suas origens nos primeiros mandatos petistas, com o envio de tropas ao Haiti, com a autorização de Dilma da ocupação militar da Maré e hoje se concretiza nos mais de 6 mil militares exercendo variadas funções no governo federal.

A esquerda eleitoral freou os atos “Vidas Negras Importam!” surgidos em maio com a morte de João Pedro, no calor da luta antirracista internacional, dizendo que deveríamos respeitar o isolamento social. Talvez porque não sabiam que o isolamento nunca foi a realidade para uma grande parte de nossa classe, espremida em ônibus, BRT’s, metrôs e trens, devido às mudanças no mundo do trabalho para as quais, inclusive, o PT tanto contribuiu. Ou, encastelada no usufruto de seus direitos – perdeu o contato com povo – e passa a defender esses direitos, como se eles fossem universais. A potencialidade da luta antirracista quando esta é construída de forma coletiva, com mobilizações nas ruas, com radicalidade e combatividade, sem conciliação com nossos algozes, é vista muito claramente nos EUA. O governo estadunidense sentiu medo ao ver a continuidade e o número de pessoa que o movimento negro colocou nas ruas, cuja mobilização pode ser o maior da história dos EUA[1]. Não foram com belas palavras no parlamento que a maior potência militar do globo se dobrou, mas com ações de massa nas ruas. A radicalidade não veio de pequenos grupos isolados, mas do povo preto organizado e seus aliados, enfrentando os aparatos de repressão e representação. Arminio Fraga diz se preocupar com o racismo e dá dinheiro para incentivar a representação, porém o que ele tem medo é da apresentação do nosso povo nas ruas. Não veremos o mesmo apoio caso o Brasil fosse tomado pela revolta daqueles para os quais o Estado só se apresenta pela ponta do fuzil. Não haveria dinheiro do Fraga (e não o queremos) a movimentos populares que combatem o sistema capitalista. Não há comoção com as mais de 150 mil mortes, das quais a maioria é negra, e morre por estar sendo obrigada a trabalhar e porque temos um sistema de saúde pública que vem sendo sistematicamente desmontado há anos.

O que vemos é uma política de investimento do grande capital motivada por interesses de desmobilização das massas, o empoderamento é colocado apenas no plano individual, em representantes e celebridades, desviando assim a capacidade coletiva de romper com as correntes impostas pelo capitalismo. Há um trabalho planejado e consciente da burguesia, em financiar por meio de think-tanks (institutos dos ricos) as candidaturas de esquerda e domesticá-las ainda mais. Sabemos como isso começa e como isso termina. Falam em “mandatos coletivos”, representatividade, mandatos controlados pela base, onde os movimentos supostamente opinam. Curiosamente o mesmo discurso do 40 congresso nacional do PT em 1986, que criticava mandatos parlamentares afastados das bases e de um partido que ficasse apenas restrito como instrumento de condução ao parlamento. Ano após ano, eleição após eleição, as concessões inevitavelmente foram realizadas e cada vez mais os discurso anticapitalista, a democracia de base, foi se esfumaçando. Sabemos como essa história “terminou”.

Nós, anarquistas, “concebemos o poder como uma relação social estabelecida a partir do enfrentamento entre diversas forças sociais, quando uma ou mais forças se impõem às outras”[2]. Sãos forças da classe dominante que vêm impondo suas vantagens e definindo nosso destino, cumprindo o Estado papel essencial para a dominação. São essas forças que, com poder material, decidem as eleições, não a livre vontade dos sujeitos em seu voto pessoal. Não acreditamos que é por meio de uma estrutura que tem servido historicamente para oprimir, manter a exploração, reprimir e assassinar os nossos, que virá a mudança que necessitamos nessa correlação de forças. Não acreditamos que é se aliando com um comandante da Policia Militar que daremos fim o genocídio de nosso povo, assassinado dentro de suas casas, arrastado pelos camburões, e que as vezes não tem nem a possibilidade de enterrar seus mortos. Que tipo de políticas e projetos um vereador é capaz de implementar frente a uma maioria de direita e miliciana? As mudanças que necessitamos não virão deste lugar. O candidato usa belas palavras, mas como todos, projeta apenas seu ego pessoal na busca de um palanque performático, como é de praxe de seu partido.

A disputa eleitoral é a disputa pela gestão do Estado, ou seja, da manutenção da ordem capitalista e do sistema de dominação. Mesmo que ganhando, não é possível efetivar políticas de fato anticapitalistas. Portanto, realizar está disputa nos marcos do ‘socialismo’ é hipocrisia, oportunismo ou ingenuidade. Ao mesmo tempo que assistimos às palhaçadas e esquemas de corrupção históricos de mais um governador incriminado, prefeitos responsáveis pela destruição da vida de centenas de milhares de pessoas se candidatando com mais mentiras e falsas promessas, estes partidos buscam ganhar espaço nos espaços de governo para ‘defender os pobres’ a partir de programas mais ou menos ousados de reformas. Daí, das duas uma: ou o partido consegue um grande apoio e conseguirá governar com sucesso, permitindo que a polícia siga matando o povo preto e favelado e que os patrões sigam ganhando a vida sobre o esforço de quem trabalha, e deixará tal partido de incentivar a organização dos de baixo, roteiro que já vimos antes; ou então nunca conseguirá governar e estará condenado a permanecer para sempre na oposição. A democracia seria muito linda, não fosse ela um show de horrores.

Não tem nada de muito novo na política brasileira, mas como diz a continuação da parte da letra do samba que dá nome ao título deste texto, “os bastidores se fecharam para a desilusão”.

Nós estamos convencidos de que a liberdade política é uma mentira no que concerne à classe trabalhadora. Os pobres não recebem nenhum benefício com o fato de poder designar o homem que vai dominá-los, e é por isso que lutamos pela emancipação econômica do proletariado, e nosso objetivo é que a terra e a maquinaria de produção fiquem em poder de todos e cada um dos habitantes do México, sem distinção de sexo– Junta Organizadora do Partido Liberal Mexicano

Com essas palavras os e as revolucionárias do México responderam às propostas de paz da burguesia após a derrubada do ditador Porfírio Diaz em 1911. Não havia espaço para a conciliação, a queda da ditadura se fosse seguida por um governo “democrático” não significaria o fim da opressão dos latifundiários e dos gringos. Indígenas, camponeses\as e operários\as, avançaram rumo à tomada das terras e das fábricas, sem passar pelos gabinetes, erguendo a bandeira de Terra e Liberdade, pois a emancipação da classe trabalhadora, diziam, pode ser apenas obra da própria classe trabalhadora, e suas próprias lideranças – como Ricardo Flores Magón, Praxédis Guerrero e Emiliano Zapata – eram conscientes de que um povo forte não precisa de chefes.

Se hoje os de cima detêm o monopólio da violência e escolhem quem vai viver e quem vai morrer pela cor da pele, a mudança disso só poderá vir por nossas mãos, de baixo para cima. Se queremos mudar as coisas de fato e conquistar uma vida digna, temos que mirar — a partir da construção de um programa de transformação social concreto e radical — para além dos políticos, para cima dos ricos e dos nossos patrões: os privilegiados detentores da riqueza e do poder. Fora isso, é ilusão. Como cantava Almir Guineto: É mentira! Cadê toda promessa de me dar felicidade? Bota mel em minha boca, Me ama, depois deixa a saudade, será… Será que o amor é isso? Se é feitiço, vou jogar flores no mar. Um raio de luz, Do sol voltará a brilhar, Que se apagou e deixou noite em meu olhar.

Utópico é falar em problemas estruturais em nossa sociedade enquanto busca-se a conciliação e a participação nestas estruturas de dominação, afinal como alertava Bakunin antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo. Devemos de uma vez abandonar estas ilusões. A autogestão da sociedade, a democracia sem Estado, não existe apenas em nosso programa, é uma realidade hoje em Chiapas (México) e em Rojava (Curdistão Sírio), experiências que apontam para o único caminho revolucionário possível: organizar o povo em movimento populares de massa com uma perspectiva anticapitalista, antiestatista, anti-patriarcal, anti-racista e profundamente ecológica. Todo o resto é ilusão.

FARJ-CAB, outubro de 2020

 

 

 

[1]https://quilomboinvisivel.com/2020/08/02/black-lives-matter-pode-ser-o-maior-movimento-da-historia-dos-eua/

[2]CAB – “Nossa concepção de Poder Popular” https://www.anarkismo.net/article/23022

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