[E.U.A.] Greve Nacional de Presos em 9 de setembro de 2016 (tradução)

Posted on 08/09/2016

0


tumblr_od5glrkpnw1vftr3oo1_500

GREVE CONTRA A ESCRAVIDÃO NOS PRESÍDIOS. GREVE CONTRA A SUPREMACIA BRANCA

Texto retirado e traduzido de Comitê de Organização de Trabalhadores Encarcerados[1]

Anúncio de Paralisação de Trabalho de Presos Coordenada Nacionalmente em 9 de setembro de 2016

Presos de todo os Estados Unidos acabam de lançar uma chamada de ação para uma paralisação de trabalho de presos coordenada nacionalmente contra a escravidão prisional a acontecer em 9 de setembro de 2016.

Essa é uma chamada de ação contra a escravidão nos Estados Unidos[2]

tumblr_od5mtasc8m1vftr3oo1_500Em uma só voz, erguendo-se das celas há tempos em solitária, ecoados nos dormitórios e blocos de celas de Virgínia ao Oregon, nós, presos de todo o Estados Unidos, fazemos o voto de acabar finalmente com a escravidão em 2016.

Em 9 de setembro de 1971, presos tomaram e fecharam Attica[3], prisão mais famosa do estado de Nova Iorque. Em 9 de setembro de 2016, nós começaremos uma ação para fechar prisões por todo o país. Nós não vamos apenas exigir o fim da escravidão prisional, nós vamos terminar com ela nós mesmos nos negando a sermos escravos.

Presos são forçados a trabalhar por pouco ou nenhum pagamento[4]. Isso é escravidão. A 13ª ementa da constituição dos EUA mantém uma exceção legal para a continuação da escravidão nas prisões dos EUA. Ela diz “nem escravidão nem servidão involuntária, exceto como punição por crime pelo qual a parte foi devidamente condenada, devem existir nos Estados Unidos.” Supervisores observam todos os nossos passos e se nós não fizermos nossas tarefas especificadas como quiserem, somos punidos. Eles podem ter substituídos os chicotes pelo spray de pimenta, mas muitos outros tormentos continuam: isolamento, restrição de posições, tirar nossas roupas e revista dos nossos corpos como se fôssemos animais.

A escravidão está viva e bem no sistema prisional, mas até o final desse ano, não estará mais. Essa é uma chamada para acabar com a escravidão nos Estados Unidos. Essa chamada vai diretamente para os próprios escravos. Nós não estamos fazendo exigências ou pedidos aos nossos captores, nós estamos nos chamando para a ação. A todo prisioneiro em todo estado e instituição federal por todo o país, nós os chamamos para que cesse de ser um escravo, que deixe a colheita apodrecer nos campos das plantações[5], para que adira à greve e pare de reproduzir as instituições do seu confinamento.

Essa é uma chamada para uma paralisação nacional de trabalho para acabar com a escravidão prisional, a começar em 9 de setembro de 2016. Eles não podem manter esses lugares sem nós.

Protestos não-violentos, paralisação de trabalho, greves de fome e outras recusas de participar nas rotinas e necessidades da prisão cresceram nos últimos anos. A greve prisional de Geórgia em 2010, as greves de fome massivas que aconteceram na Califórnia, a paralisação de trabalho do Movimento pela Libertação de Alabama de 2014 foram os que chamaram mais atenção, mas estão longe de serem as únicas demonstrações de poder dos presos. Ao contrário, greves de fome por vezes efetivas aconteceram na Penitenciária do Estado de Ohio, na Menard Correctional em Illinois, na Red Onion em Virgínia assim como em muitas outras prisões. O movimento de resistência em desenvolvimento é diverso e interconectado, incluindo centros de detenção de imigrantes, prisões de mulheres e instalações juvenis. Na última primavera, prisioneiras da Prisão do Município de Yuba na Califórnia entraram numa greve de fome iniciada por mulheres postas em centros de detenção para imigrantes na Califórnia, Colorado e Texas.

Presos de todo o país regularmente fazem diversas demonstrações de poder dentro das prisões. Eles têm feito quase sempre em convicta solidariedade, criando coalizões entre raças e gangues para confrontar o opressor comum.

Quarenta e cinco anos depois de Attica, as ondas da mudança estão retornando às prisões dos Estados Unidos. Neste setembro, nós esperamos coordenar e generalizar esses protestos, construí-los em uma maré de mudança que o sistema prisional norte-americano não possa ignorar ou sustentar. Nós esperamos acabar com a escravidão prisional tornando-a impossível, nos recusando a continuar sendo escravos.

Para atingirmos esse objetivo, nós precisamos do apoio de pessoas do lado de fora. Uma prisão é um ambiente fácil de sermos presos, um lugar de controle e confinamento onde a repressão é construída em cada pedra de parede e cadeia de corrente, cada gesto e rotina. Quando nós nos levantamos contra essas autoridades, eles vêm pra cima de nós e a única proteção que temos é a solidariedade do lado de fora. Encarceramento em massa, seja em instalações privadas ou estatais, é um esquema onde caçadores de escravos patrulham nossas comunidades e monitoram nossas vidas. Ele requer criminalização em massa. Nossos sofrimentos do lado de dentro são uma ferramenta usada para controlar nossas famílias e comunidades do lado de fora. Alguns norte-americanos vivem todos os dias sob não apenas a ameaça de execução extrajudicial – como protestos em torno das mortes de Mike Brown[6], Tamir Rice[7], Sandra Bland[8] e muitos outros têm chamado atenção há muito tempo sobre – mas também sob ameaça de captura, de sermos jogados nessas plantações, acorrentados e forçados a trabalhar.

Nosso protesto contra escravidão prisional é um protesto contra o funil escola-prisão[9], um protesto contra o terror policial, um protesto contra o monitoramento pós-soltura. Quando nós abolirmos a escravidão, eles irão perder muito da sua iniciativa de prender nossas crianças, vão parar de construir armadilhas para pegar aqueles que soltam. Quando removermos a motivação econômica e a ganância do nosso trabalho forçado do sistema prisional dos EUA, toda a estrutura judiciário e policial, de controle e captura de escravos devem mudar para nos acomodar enquanto humanos e não enquanto escravos.

Prisões impactam todo mundo. Quando nós nos levantarmos e nos recusarmos em 9 de setembro de 2016, nós temos que saber que nossos amigos, famílias e aliados do lado de fora nos darão apoio. Essa primavera e verão serão temporadas de organização, de espalhar a palavra, construir redes de solidariedade e mostrar que nós somos sérios e do que somos capazes.

Avante, levante-se e junte-se a nós.
Contra a escravidão prisional.
Pela libertação de todos e todas.

Para mais informações:

SupportPrisonerResistance.net

FreeAlabamaMovement.com

IWOC.noblogs.org

Tradução: FARJ

[1] Do original Incarcerated Workers Organizing Committee (IWOC). Comitê criado por membros da IWW (Industrial Workers of the Worlds) – sindicato que une trabalhadores sindicalizados de diversas categorias – para ajudar a organizar e mobilizar pessoas presas e ex-presos.

[2] Do original America. Demos preferência em utilizar Estados Unidos no lugar de América, visto que os autores querem fazer referência ao país e não ao continente americano.

[3] Referência à Rebelião do Presídio de Attica. Em setembro de 1971, presos fizeram uma rebelião no Presídio de Attica, Nova Iorque, que durou 4 dias e resultou no atendimento de 28 demandas como melhores condições no presídio, fim da brutalidade física, entre outras. Quarenta e três pessoas morreram, incluindo 33 presos.

[4] Nos Estados Unidos, presos são forçados a trabalhar para empresas que contratam mão-de-obra presidiária por preços irrisórios..

[5] Do original plantation. Referência às fazendas que tinham trabalho escravo nas suas plantações.

[6] Mike Brown foi morto por um policial branco em 2014 após roubar cigarros de uma loja de conveniência. Ele estava desarmado.

[7] Tamir Rice, de 12 anos, foi morto em 2014 por policias brancos, que confundiram sua arma de brinquedo com uma arma de verdade.

[8] Sandra Bland foi encontrada enforcada em sua cela em 2015 três dias após ser presa durante uma parada policial. Ela foi parada por não sinalizar mudança de faixa e foi presa, segundo a polícia, por agressão. Os relatórios policiais dizem que Sandra se suicidou, porém uma série de irregularidades na investigação levam familiares e amigos a acreditar que ela foi assassinada na prisão.

[9] Do original school-to-prison pipeline, termo utilizado para o fato de que as condições de estudo das escolas nos EUA, como a presença massiva da polícia dentro das escolas, levam jovens negros e de baixa renda à situações onde são encarcerados.